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Quando o Flamengo quis disputar o Paulistão

O Fla-Araçatuba e o Campeonato Carioca do W.O.

Era novembro de 1997. O Vasco chegava à final do campeonato brasileiro daquele ano superando o Flamengo na segunda fase da competição. Edmundo, o artilheiro daquele Brasileirão, fez três gols ao seu estilo, com velocidade e dribles combinados no jogo que selou a passagem para a decisão contra o Palmeiras.

O Flamengo vivia os anos de Kléber Leite, o ex-radialista que, de certa forma, revolucionou o clube — pra bem e pra mal. A cada ano o Rubro-Negro trazia jogadores de renome, mas sem uma preocupação com a montagem de um time de futebol.

Em 1995, quando trouxe Romário — em uma operação de marketing que só era possível naquela época graças à paridade cambial entre o dólar do recém implementado Plano Real —, Kléber Leite não poupou iniciativas como um “0900” para que a torcida definisse qual camisa Romário deveria usar. Por cada ligação, o torcedor pagava uma quantia que vinha debitada na conta bancária e, dessa forma, o clube criava uma receita nova.

Já naquele ano, Kléber Leite falava que o Campeonato Carioca era deficitário. Os altos investimentos em jogadores como Romário e Branco que, seis meses antes conquistaram a Copa do Mundo nos EUA, pretendiam colocar o Flamengo no patamar mais alto do futebol brasileiro e continental para, enfim, chegar novamente à disputa da Intercontinental.

Dias após ser contratado pelo Flamengo, Romário voltou à Europa para receber o prêmio de melhor jogador do mundo. Era uma realidade que já podia ser considerada fantástica nos anos 1990. O futebol europeu já concentrava os melhores jogadores do planeta, mesmo antes da Lei Bosman ser sancionada, no final daquele ano de 1995.

Voltando ao final de 1997, com o título “inesperado” do Vasco naquele campeonato brasileiro que contou com a melhor versão de Edmundo, artilheiro do com 29 gols — outro jogador que passou pelo Flamengo de Kléber Leite mas sem deixar saudade —, o presidente Rubro-Negro chacoalhou a imprensa com uma “bomba”.

Radialista por muitos anos, Kléber Leite entendia a força da mídia esportiva para conseguir mudanças impossíveis somente com articulações políticas. Ele foi repórter de campo e fazia dupla com Loureiro Neto nos tempos de Jorge Cury com o saudoso jargão “Kléber Loureiro, Loureiro Kléber”.

Naquele final de 1997, o diário esportivo Lance! acabava de ser lançado para competir com o histórico Jornal dos Sports, de papel rosa. O Lance! adotava um formato mais parecido ao do argentino Olé, com outro design, mais “atual” e promoções que marcaram uma época, como a coleção de 20 selos para se conseguir uma bola de futebol.

Kléber Leite articulou com o presidente da Federação de Futebol Paulista da época, Eduardo José Farah, a participação do Flamengo no Campeonato Paulista. As conversas envolviam o Araçatuba que tinha uma dívidas trabalhistas — e também com a própria FPF — e o clube carioca arcaria com as pendências, na casa de R$ 1,3 milhão.

Segundo o então presidente do Flamengo, o campeonato carioca tinha que sofrer mudanças para compensar o investimento. “Tenho uma folha de pagamento de R$ 650 mil mensais e não posso mais disputar um campeonato sem datas e jogos marcados”, como conta a Folha de S. Paulo em 7 de novembro de 1997.

Tanto o presidente do Araçatuba quanto o Eduardo José Farah, que presidia a FPF, confirmaram as tratativas que não tinham ainda detalhes como e onde o clube carioca treinaria ou qual uniforme seria usado. Chegou a surgir a idéia de uma camisa, com detalhes em amarelo, cores do clube paulista e o restante em vermelho e preto.

Kléber Leite, como bom comunicador que era e até marketeiro, soube usar bem a mídia para pressionar a FERJ, presidida por um desafeto: Eduardo Vianna, o famoso Caixa D’Água. As insatisfações entre o Rubro-Negro e a federação carioca ficaram ainda mais evidentes no ano seguinte.

A estratégia era desestabilizar o poder na FERJ e mostrar o interesse do Flamengo em um campeonato mais rentável. O próprio Kléber Leite confessou ao UOL em 2012 que o objetivo era esse, de chacoalhar as coisas. “Foi uma sacudida para acordarem e levarem a sério. Criamos a possibilidade de disputar o Paulista, foi uma confusão danada, surtiu efeito e chamou a atenção”, disse o ex-presidente do Flamengo.

Kléber também confirmou que todas as conversas existiram tanto com a FPF quanto com o Araçatuba, não foi simplesmente uma notícia plantada sem sustentação. Farah tinha ambições de atingir a presidência da CBF na eleição de 2000 e fez várias inovações no campeonato paulista para, no fim das contas, se auto-promover.

No final, Flamengo e FERJ chegaram a um acordo. Os rumores do Flamengo disputar o Paulistão foram descartados, mas mais uma cisão ainda estava por vir. O ano de 1998 começou e, outra vez, regado de reforços ao melhor estilo Kléber Leite.

Era a segunda volta de Romário ao Flamengo. O craque tinha deixado o clube no meio de 1996 rumo ao Valencia mas retornou ao Flamengo no final daquele mesmo ano após desentendimento com o técnico Luís Aragonés. No final de 1997, foi a vez do Baixinho tretar com Claudio Ranieri e acertar o retorno ao Flamengo.

Juntamente com Romário, foram apresentados outros jogadores de luxo: Rodrigo Fabri e Zé Roberto pertencentes ao Real Madrid além de Cleisson e Palhinha, vindos do Cruzeiro, que conquistaram a Taça Libertadores com o técnico Paulo Autuori que comandava aquele Flamengo.

Rodrigo Fabri e Zé Roberto vieram em contrapartida pela venda de Sávio, que conquistou os corações merengues após uma excursão do Flamengo à Europa no verão europeu. No troféu Palma de Mallorca, Sávio teve uma atuação sublime diante do campeão da Champions League e foi contratado.

Apesar da baixa, os reforços recolocavam o Flamengo no centro das atenções da mídia. Era o último ano de Kléber Leite na presidência e um título de expressão se fazia necessário.

Aquele 1998 até chegou a iludir os rubro-negros, mas o clube resolveu abandonar o campeonato estadual que terminaria com o Vasco campeão. Fluminense e Botafogo se juntaram ao “boicote” por divergências no calendário com a federação de futebol carioca.

Já o Vasco, que tinha boas relações históricas com a FERJ seguiu adiante e levantou a taça “dentro de campo” e nos bastidores. Os três clubes não concordavam com as partidas adiadas que beneficiavam o Cruzmaltino. À medida que avançava na Copa do Brasil e na Libertadores, o calendário espremia as datas entre um jogo e outro e a FERJ se sensibilizava diante dos pedidos de Eurico Miranda que sempre soube colocar os regulamentos debaixo do braço.

Primeiro, o Botafogo não compareceu para um duelo contra o Vasco. Depois, houve uma Fla-Flu com duplo WO. O Vasco precisou vencer o Bangu por 1 a0 pra garantir o título da Taça Rio e como havia obtido o título da Taça Guanabara, consolidou-se como campeão carioca. Era o primeiro título do ano do centenário do Vasco.

Em 1995, ano que o Flamengo comemorava cem anos, ficou conhecido como ano do “sem ter nada”, afinal o clube só ganhou uma Taça Guanabara, o que gera um imenso debate sobre sua importância e quanto a ser um título ou não. Título é, simbólico é, e só.

Aliás, existia um charme em torno desse formato no qual os campeões de cada turno, batizados de Taça Guanabara e Taça Rio, se enfrentavam no final, sempre proporcionando grandes bilheterias e, a cada ano, uma renovação das rivalidades no Rio de Janeiro. Era um formato que deixava o campeonato bem disputado, sem se arrastar por seis meses — os estaduais duravam um semestre inteiro! — para se definir o campeão.

O Vasco seria ainda campeão da Libertadores em 1998 e jogaria contra o Real Madrid de Sávio a Taça Intercontinental. Restou aos rubro-negros criarem a torcida Fla-Madrid e secar o rival. Até uma camisa meio-a-meio foi criada, metade do Flamengo, metade do Real Madrid. A torcida rubro-negra foi grande, e precisou, afinal, o time do Vasco era incrível e jogou demais naquele duelo em Tóquio, mas perdeu por 2 a 1.

O Flamengo mudaria de presidente no final de 1998. Chegaria junto com Edmundo dos Santos Silva um investimento multimilionário da tal ISL, uma empresa que tinha vínculos comerciais com a FIFA. Chegariam Petković, Alex, Gamarra, Denílson e Edílson como fruto do acordo entre clube e empresa. E isso foi o combustível que permitiu o Rubro-Negro encarar o seu arqui-rival.

O último grande momento do Campeonato Carioca talvez tenha sido no triênio 1999–01, que culminou com o tri-campeonato do Flamengo sobre o Vasco. Excetuando o último ano, o Vasco sempre entrava com um time melhor mas acabava saindo com o vice-campeonato. O acúmulo de vices acabou rendendo a alcunha de “Vice de novo”, embora o Gigante da Colina tenha se sagrado campeão brasileiro e da Copa Mercosul no ano de 2000.

As provocações faziam parte da rivalidade, eram em certa medida muito benéfica para que os encontros fossem carregados de poder midiático. Eurico Miranda historicamente trabalhava muito bem esse quesito. Em tempos de vacas gordas, com dinheiro oriundo do NationsBank, Eurico fez questão de investir em esportes olímpicos. A rivalidade se estendeu até para o Basquete, onde alguns campeonatos foram decididos entre Flamengo e Vasco com a torcida lotando os diferentes ginásios onde jogavam.

O Fla-Araçatuba, anunciado em 1997, era o prenúncio do que aconteceria no campeonato de 1998. Um campeonato esvaziado por questões políticas. No entanto, o respiro que os investimentos de ISL e NationsBank duraria somente até o início de 2002, quando todo o dinheiro sumiu. Coincidentemente, o Brasileirão passou a ser disputado em pontos corridos em 2003 e o eixo começou a inverter irreversivelmente.

No passado distante, já aconteceu de times preterirem a recém criada Taça Libertadores para priorizar os campeonatos estaduais ou até mesmo excursões à Europa. O campeonato brasileiro demorou até ter seu formato unificado e ser chamado assim, também acabava colidindo com os campeonatos estaduais em importância e por isso cada campeonato era disputado em um semestre por razões políticas, econômicas, geográficas e culturais.

Mas com o tempo, a Champions League passou a concentrar em seis ou oito times os melhores jogadores do mundo, ficou difícil sustentar economicamente um campeonato estadual pautado só no aspecto cultural e da rivalidade. A geografia esportiva obedece também à ordem econômica e embora toda a estrutura política do futebol brasileiro ainda obedeça às federações estaduais, é normal que haja muita resistência, mas o futuro dos campeonatos estaduais não é diferente do futuro do jornal impresso.

As manchetes que ilustravam as capas dos jornais e os pôsteres encartados a cada ano no dia seguinte do título estadual ficaram no passado, assim como essas histórias que são infindáveis e compõem o folclore mágico do futebol brasileiro.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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