Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Fuerza nada nueva

A posição política do presidente da Liga Espanhola e o separatismo catalão

Em 26 de abril de 2013, Javier Tebas é eleito presidente da LFP [Liga de Fútbol Profesional]. Um homem partidário de Franco que, como muitos franquistas, não se arrependem do passado. Pelo contrário, utiliza seu cargo para perdurar o controle dos ideais franquistas na instituição.

Javier Tebas foi, de 1979 até 1982, o chefe provincial da Fuerza Joven em Aragón. Trata-se da facção da Fuerza Nueva, um partido político espanhol de extrema-direita criado em 1976, inserido no contexto histórico da transição democrática na Espanha após a morte do ditador Franco, em novembro do ano anterior. O objetivo partidário era provocar ataques contra políticos de esquerda, sindicalistas, manifestações de bairro ou de estudantes e editoriais de jornais para manter vivos os princípios ideológicos da ditadura franquista.

Em 2014, foi divulgado pelo portal Lamarea.com uma carta escrita por Tebas no El Periódico de Huesca, em 1979, contra o Estatuto dos Trabalhadores. Nela ele dizia: “(…) los miembros de Fuerza Nueva actuarán con la gallardía y la energía necesarias para defender los valores de la patria”. Em outras palavras, Javier Tebas, que pretende ensinar ética e pede castigos exemplares para aqueles que se desviam da lei no mundo do futebol, afirmava no passado que a violência era um artifício válido para defender a razão nacionalista da ultradireita.

Em 2016, o jornal Sport noticiou uma matéria em que o presidente da Liga Espanhola confessou que, na maioria dos problemas, ainda pensa o mesmo que quando era da Fuerza Nueva. E logo em seguida, ele diz que a Espanha necessita de um “Le Pen”, pois no seu país não existe, segundo ele, respeito ao hino, às bandeiras, à religião, à vida e à unidade nacional. Dessa maneira, o próprio Tebas reafirma seu pensamento nacionalista de cunho fascista, embora com uma roupagem democrática, fruto da atualidade política.

O FC Barcelona se tornou, durante a ditadura franquista, um símbolo de resistência da cultura catalã, um lugar de voz e manifestação política do povo catalão. Dentro do Camp Nou, costuma-se ouvir gritos de independência aos 17 minutos e 14 segundos de cada partida. A hora se refere ao ano de 1714, quando as tropas espanholas subjugaram a região da Catalunha ao seu território. Javier Tebas, sendo madridista e franquista confesso, tem um histórico antigo de polêmicas com o Barcelona mesmo antes de se tornar presidente da LFP.

Tebas foi protagonista do movimento anti Messi, em 2005. O Barcelona queria estrear o jovem argentino nas partidas profissionais. Entretanto, naquela época, Javier Tebas denunciou, em nome do clube Alavés, que a licença juvenil de Messi foi feita pelo FC Barcelona fraudando a lei, com o único objetivo de ignorar os prazos de inscrição, sendo assim pretendia declarar a nulidade da licença de Messi para participar do Campeonato Espanhol. Não existe muita explicação para que o time Alavés tivesse um interesse especial com a finalidade de não permitir que o argentino fizesse sua estreia na Liga, exceto, provavelmente, pelo madridismo radical de seu então conselheiro jurídico.

Já como presidente da LFP, declarou em outubro de 2016 que os jogadores do Barcelona foram culpados pelo arremesso de garrafas e objetos no campo durante a partida contra o Valencia. Esse fato ensejou uma reação enérgica do presidente do clube catalão à época, Josep Maria Bartomeu, que denunciou Javier Tebas ao Tribunal Administrativo do Esporte [TAD]. Além disso, ele afirmou que presidente da LFP fomenta a violência com suas declarações irresponsáveis ​​e inadequadas para um líder esportivo. Em notícia pelo jornal AS, Tebas reafirmou suas palavras dizendo que sua liberdade de pensar e dizer não pode ser tirada por ninguém. Todavia, quando Tebas era do partido de extrema-direita, ele defendia o cerceamento de pensamento e liberdade de quem pensasse oposto aos seus ideais.

Sua trajetória histórica e política ainda permanece enraizada em suas atitudes. Seu nacionalismo extremista aflorou-se quando circulava a possibilidade de assobios durante o hino espanhol, que seria executado na final da Copa del Rey, entre Barcelona e Athletic Bilbao, em 2015. Javier Tebas afirmou que se a Copa fosse organizada pela LFP e houvesse desrespeito ao hino, ele seria capaz de cancelar a final por considerar inconcebível essa forma de ofender o Estado espanhol.

Todavia, seu posicionamento político entrou de vez nos holofotes com a questão da pretensão de independência da Catalunha. Tebas foi visto em passeatas a favor da unidade espanhola. Ao discursar sobre as possíveis conseqüências no futebol, o presidente da LFP mostra-se inflexível e se limita a dizer que a independência catalã seria catastrófica financeira e esportivamente para o Barcelona e que os outros times da região também seriam excluídos do campeonato espanhol.

Por trás de sua cegueira política, Tebas não quer enxergar, discutir e pensar soluções para o futebol espanhol, pois é tão óbvio e prejudicial para o Barcelona quanto seria para a LFP e seus times filiados. Ou Javier Tebas acredita que alguém poderia estar interessado em uma liga com Real Madrid sem seu rival mais poderoso? Ou ainda acredita que Cristiano Ronaldo continuaria no Real Madrid, sem poder rivalizar com Messi e companhia?

O conflito pessoal de Javier Tebas com o Barcelona e os catalães é de longa data. Desde o seu tempo de militância na Fuerza Nueva, violenta organização da direita mais radical franquista. Tebas talvez devesse, em vez de se distrair com questões políticas que tentam influenciar a vontade dos catalães, se preocupar com os interesses do futebol espanhol, evitando, por exemplo, que Barça e Madrid monopolizem o certame, buscando uma forma de fortalecer os demais clubes da competição. Porém, a democracia não parece ser uma idéia muito natural para ele.

Deixe seu comentário