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Fútbol nomá!

A idiossincrasia futebolística da sociedade uruguaia

O Uruguai não se entende sem futebol. Qualquer um que tente contar a história desse canto ao sul do sul, mais cedo que tarde, deverá falar de futebol. Há uma nuance, não é que o futebol sirva para explicar a história do Uruguai — isso acontece com muitos países no mundo —, mas aqui se inverte a ordem dos fatores.

O futebol deu ao Uruguai uma construção de identidade onde não havia nenhuma. O país declara sua independência em 1825, mas é em 1828, quando se realiza a convenção preliminar de paz no Rio de Janeiro, que o Império do Brasil reconhece a independência do Uruguai em relação à Argentina, com tudo mediado pelos ingleses. Embora haja quem diga que o país começa com o juramento da sua primeira constituição em 1830. Independentemente do ano escolhido, o certo é que cinqüenta anos depois já se começava a jogar o futebol. Em 1891 é fundado o primeiro time, o Albion Football Club, que não apenas é o primeiro a nascer com fins exclusivamente futebolísticos, mas também a primeira equipe 100% nacional do Uruguai, segundo o historiador Pablo Alabarces. Apesar dos sobrenomes dos primeiros jogadores serem ingleses ou escoceses, todos eram nascidos em solo uruguaio.

O começo do século XX encontra o Uruguai, primeiro, dividido entre si por uma guerra civil e, segundo, com uma associação de futebol já estabelecida. Montevideana, obviamente, mas com uma organização precoce em comparação ao continente. Logo virão os anos de Batlle y Ordóñez, das reformas sociais inéditas na época, oito horas de jornada de trabalho, voto feminino, descanso semanal obrigatório. Diz-se que no Uruguai existe um José a cada cem anos que transcende fronteiras: José Artigas, José Batlle y Ordóñez e José Mujica.

Essas reformas proporcionaram maior tempo livre para a classe trabalhadora, e à do Uruguai parece muito bom empregá-lo jogando bola. Outro historiador, Juan Carlos Luzuriaga, estabelece que o primeiro time plebeu foi o velho River Plate Football Club [1897], que não é o atual Club Atlético River Plate, mas o inspirou. Aquele velho River era um time de trabalhadores do porto de Montevidéu, e contam que era capaz de fazer frente às equipes de jogadores ingleses.

Foi, também no início do século, na primeira Copa América que o Uruguai apresenta em sua seleção um jogador negro. Isabelino Grandin, montevideano, de Palermo, bairro do Candombe e do esporte. Isabelino foi o goleador da primeira Copa América, mas eram tempos em que a xenofobia dava as caras, cada país queria ser branco e puro, sem reconhecer seus passados indígenas e africanos. O Chile denunciou o Uruguai por usar um “africano”, Isabelino respondeu com gols. Eram os mesmos anos quando um tal Arthur Friedenreich tratava de esconder suas manchas e branquear sua pele para poder jogar futebol no Brasil.

O centenário da sua constituição encontrou um Uruguai organizando o primeiro mundial de futebol. O sucesso foi tão grande que o feito eclipsou a comemoração, ninguém lembra 1930 como os cem anos de algo, mas sim como a primeira Copa do Mundo da FIFA.

Daí pra frente a história é mais conhecida: campeões novamente em 1950 de visitante e diante de um Maracanã repleto. Essa final, a última que o Uruguai jogou em um mundial, é e segue sendo a principal fonte de relato identitário. “Nós crescemos frente às adversidades”, “los de afuera son de palo” [“torcida não ganha jogo”], “a garra Charrua”. Ela se transformou tanto que parece que aqueles jogadores ganharam não por serem os melhores, mas sim por lutar mais, e nada mais que isso. Mantivemo-nos jogando de uma maneira ultrapassada, até que, em 1974, a Holanda da Laranja Mecânica bateu a seleção uruguaia de tal maneira que os dois times pareciam jogar esportes diferentes entre si. Alfredo Arias, treinador, pensa que desse jogo foram tiradas conclusões equivocadas de que a solução passava por correr e se doar mais. A seleção iniciou uma época de pouco brilho, apesar de vez ou outra ganhar algo, porque o futebol no Uruguai é a maior indústria sem chaminés. Sempre haverá jogadores.

Esses anos também foram uns dos mais escuros em matéria de liberdades, ditadura militar que chegou para combater uma guerrilha já vencida, mas não foi até 1984, quando se restabelece a democracia. Os 1980 foram os últimos anos de conquistas internacionais. Peñarol e Nacional campeões do mundo, algo que parece tão distante quanto utópico nos anos que passam. Ainda assim, com uma liga pobre, clubes deficitários, Peñarol e Nacional repartindo quase todas as glórias, ainda assim o Uruguai coloca em campo uma seleção que vale milhões: Godín, Josema, Torreira, Suárez, Cavani. Se alguém quiser comprar esses cinco vai ter que desembolsar centenas de milhões.

O futebol para o Uruguai é a maneira de se sentir competitivo em um mundo que não tem muito lugar para os países pequenos. Às vezes é, inclusive, o auto-engano de uma população que não sabe muito bem se é conservadora ou progressista, de um país com um parlamento que aprova leis avançadas [aborto, maconha, “lei trans”, anti-tabaco], enquanto a população envelhece. O problema é que ficam velhos aqueles que foram jovens nos 1960 e 1970, aqueles dos anos obscuros dentro e fora dos gramados.

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