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Siga el baile

Cristina Kirchner conseguiu na Argentina o que parecia improvável em qualquer país tradicionalmente boleiro: apropriar-se do futebol local como forma de alimentar a propaganda oficial do governo em troca de transmissões “gratuitas”, pagas pelos contribuintes, claro, fossem eles torcedores ou não. No entanto, é preciso contextualizar profundamente para entender o que provocou a intervenção do Estado. Um baile sem fim.

Dinastia Verón

Buenos Aires, 13 de dezembro de 2006. O Estudiantes de La Plata, que conseguiu terminar o campeonato empatado com o Boca Juniors, disputaria a final contra os Xeneizes em campo neutro, no Estádio José Amalfitani, do Vélez Sarisfield em Liniers. O Boca precisava ter empatado apenas um de seus últimos três jogos para ficar com o título, mas o time comandado por Ricardo La Volpe — técnico que substituiu Alfio Basile, que tinha ido para a Seleção Argentina — acabou perdendo os três encontros e foi obrigado a decidir com o Estudiantes o título que parecia ganho.

Liderados por Juan Sebastián Verón, que retornou ao clube que o revelou, onde também jogou seu pai nos anos 60 e 70, o Estudiantes tinha contratado Diego Pablo Simeone para comandar o Pincha. Diziam que, por interferência de Verón — que, após acertar com o time do coração, passou a ter influência nas decisões do clube —, Simeone foi o escolhido para comandar o time naquele campeonato.

Verón, obviamente capitão do time, levantou o caneco. Título que o clube não conquistava desde 1983. Ele ainda conquistaria a Libertadores de 2009 e outro título nacional em 2010. Após se aposentar definitivamente do futebol, em 2014, La Brujita se candidatou à presidência do Estudiantes de La Plata, vencendo o pleito com 70% dos votos.

O retorno daquele que nunca foi

Buenos Aires, 11 de fevereiro de 2007. La Bombonera. Riquelme reestreava pelo Boca contra o Rosario Central. Os ingressos — sempre muito concorridos no mítico estádio de La Boca — estavam inflacionados, e os poucos que restavam já tinham se esgotado dias antes do jogo. O Boca Juniors se notabilizou na gestão de Mauricio Macri por manter seu estádio sempre lotado — diferentemente da primeira metade dos anos 90, com um estádio largado, com condições sub-humanas para os torcedores.

Mesmo com as remodelações no estádio, que se iniciaram em 1996, no início da gestão Macri, foi preciso dialogar com a idiossincrasia local. Padrão FIFA, nem pensar. Os setores populares mantinham-se destinados ao público que queria ficar de pé. Mas não era só isso. Quem mandava naquele específico espaço atrás do gol de La Bombonera, era outro Capo.

Os ingressos realmente estavam esgotados. Ao se aproximar do estádio, um torcedor que caminhava também em direção a La Bombonera resolveu tentar ajudar. Ligou para um, ligou para outro. Pediu para aguardá-lo, que ia ver o que conseguia. Ele chega com duas carteirinhas e recomenda, caso interrogassem no acesso, dizer que se tratava de “Control Suplente de Boca” — era esperar uma aglomeração maior, quando o controle ficava limitado, e entrar com a carteirinha na mão. Deu certo.

Chegando ao segundo nível, atrás do gol, naquele mesmo lado onde quem manda é outro Capo, havia uma superlotação terrível. Nitidamente, entrou muito mais gente do que poderia permitir qualquer laudo de segurança. A revenda de ingressos se tornou uma das grandes modalidades de receita das torcidas organizadas argentinas. Mas havia um clarão, um espaço livre bem no meio desse setor. Não deu nem para pensar em ir para lá. Logo avisaram: “Não, ali fica La Doce.”

Foto: Marcelo Carroll/Olé

La Doce é a barrabrava [torcida organizada] do Boca Juniors. O mandatário da torcida era Rafa Di Zeo. Preso em algumas oportunidades e, como sempre, solto após um período encarcerado. Dava para ouvir os bumbos nas galerias interiores do estádio, que contagiavam quem já estava na arquibancada. A mesma música era cantada ininterruptamente durante vinte minutos ou mais. O som dos bumbos se aproximava. De repente, abre-se caminho onde parecia não passar ninguém. Vem passando aos empurrões um cidadão, com uma singular truculência inconseqüente.

Nesse momento, após apontar para esse cidadão, aquele torcedor que conseguiu as carteirinhas diz: “Esse é o chefe.” De inconseqüente não tinha nada. Ali, quem mandava era ele.

Em campo, o dono da festa era Juan Román Riquelme. A superlotação se dava por conta do retorno do craque ao clube. Sua passagem por Barcelona e Villarreal foi marcada por problemas de relacionamento e momentos de bom futebol, sobretudo com o seu segundo clube na Espanha, quando chegou às semifinais da UEFA Champions League 2005/06.

Riquelme perdeu o pênalti que teria garantido a classificação à final daquela edição do torneio europeu. De qualquer forma, uma verdadeira façanha para um modesto clube espanhol como o Villarreal. Seu relacionamento com o técnico Manuel Pellegrini, no entanto, estava com os dias contados. Era chegada a hora de voltar para casa.

No livro A bola não entra por acaso, do ex-vice-presidente financeiro do Barcelona, Ferran Soriano, o autor conta que o apartamento de Riquelme em Barcelona tinha um colchão e um aparelho de TV no chão. Era como se Riquelme nunca tivesse deixado Buenos Aires de maneira definitiva.

Riquelme sentiu a falta de ritmo. Não jogou bem. Quem se destacou mesmo foi o jovem Di Maria, do Rosario Central, que tinha 18 anos e já era titular. O jogo terminou empatado em 1 a 1. Riquelme estava de volta ao lugar onde sua alma nunca deixou de estar.

Macri avô, pai e filho

Mauricio Macri assumiu o clube mais popular da Argentina em 1996. Durante seu mandato, o clube saiu de uma condição crítica, desordenada, obedecendo ao impulsivo Maradona, em final de carreira, que entrava no vestiário acompanhado de mais de 15 amigos, segundo contou Macri a Fernando Niembro, em 2009, no programa La Última Palabra, do canal Fox Sports. O Boca voltou a ser Boca no período Macri. O clube conquistou quatro Libertadores, dois Mundiais Interclubes e duas Copas Sul-Americanas: grande case do empresário, que também aspirava a uma carreira política fora do clube Xeneize.

Mauricio é o filho mais velho do megaempresário italiano radicado na Argentina, Francesco Macri. O italiano se mudou para a Argentina em 1949, após a crise que assolava a Itália no pós-guerra, seguindo os passos do pai, Giorgio Macri, que rumou para Buenos Aires dois anos antes. Franco conseguiu emprego logo após sua chegada, graças a seu pai, na Sadop — Sociedad Anónima de Obras Públicas —, uma empresa de construção civil localizada em Ciudad Evita, na periferia porteña.

Com o peronismo a pleno vapor, Franco Macri consegue promover-se rapidamente e, em 1950, funda sua primeira empresa, a Urbana S.A. Em 1959 — ano em que nasceu seu primeiro filho, Mauricio Macri —, sua empresa já contava com mil dependentes. Segundo um mini dossiê do site Repubblica.it, Franco Macri conseguiu uma empreitada junto à Eaca (Empresa Argentina de Cemento Armado) para a construção do complexo metalúrgico Somisa, em San Nicolás. Foi quando fundou a Vimac, com o sócio Juan Carlo Vivo. Após pequenos trabalhos, conseguiram também um contrato para a construção da pista do aeroporto de Tandil — cidade onde Mauricio Macri nasceu —, e também para as estações de San Juan e Boedo, da Linha A do metrô de Buenos Aires.

Entre os contratos de construção mais importantes da Vimac, figuraram a fábrica de cimento de Loma Negra, nos arredores de Tandil, e o gasoduto Comodoro Rivadavia-Buenos Aires, conforme mostra o dossiê do site italiano, publicado em novembro de 2015, por Paolo Gallori.

A essa altura, a Vimac deixou de ser uma empreiteira terceirizada para conseguir contratos diretos. A construção do porto de Mar del Plata projetou Franco como empreendedor, após conseguir entregar uma obra que foi sub-avaliada pelos contratantes. Foi quando ele sofreu um grande baque. O presidente na época, Arturo Frondizi, apostou numa economia desenvolvimentista, que atraiu muitos investimentos internacionais — a inflação na Argentina chegou a mais de 110% naquele ano. Franco Macri disse ter se sentido desmoralizado, conta o dossiê.

Sua credibilidade, no entanto, permaneceu intacta. Em 1970, seu grupo Socma (Sociedad Macri) se associou à Fiat. Era o início de um império que Mauricio Macri herdaria anos mais tarde. Durante a ditadura militar argentina, a Socma desenvolveu fortes laços com os militares. Ao final do peronismo, antes do golpe militar, a família Macri contava com sete empresas. Em 1983, com o final do regime ditatorial, a Socma chegou a controlar mais de quarenta.

E foi durante o período militar que surgiram as primeiras controvérsias do grupo Macri. As ligações entre o Grupo Macri e a ditadura foram bem íntimas. Um relatório elaborado por Jorge Argüello apontou que as dívidas da Fiat — empresa controlada pela Socma — chegavam a US$ 170 milhões, e foram convertidas em bônus do Estado, o que permitiu ao grupo pagar, no final das contas, menos de 10% do valor real. Outro relatório, produzido pelo economista Claudio Lozano, apontava que as dívidas no exterior das empresas associadas ou controladas pela Socma acumularam US$ 180 milhões, e foram transferidas ao Estado através de seguros de câmbio.

E não parou por aí. As relações com o Estado argentino seguiram com os diferentes presidentes também na era democrática, como relata um artigo de 2003 do diário Página 12. Vários contratos foram questionados durante a presidência de Raúl Alfonsín. Com a chegada de Menem ao poder, o grupo alçou vôo durante as privatizações do menemismo. Desde concessões de rodovias até o correio nacional, lá estava presente o Grupo Macri.

A empresa Manliba, de coleta de lixo, começou a prestar serviços na cidade de Buenos Aires em 1979. Em 1989, mesmo após denúncias de irregularidades no cumprimento dos contratos entre a empresa e a cidade, o então recém-nomeado prefeito de Buenos Aires, Carlos Grosso, ex-empregado de Macri, renovou a concessão — sustentou Argüello. O mais curioso é que o prefeito de Buenos Aires era designado pelo presidente da República em consenso com o Congresso. Carlos Menem havia indicado Grosso para o cargo administrativo da cidade. Foi assim até 1996, quando a cidade passou a ter eleições próprias para a chefia de governo.

As denúncias eram arquivadas. Em 1993, Mauricio Macri foi nomeado vice-presidente da Sevel Argentina (uma joint venture entre a Fiat e o grupo PSA — que controla a Peugeot e a Citröen no país). Dois anos mais tarde, assumiu a presidência do grupo automotivo. Foi quando Macri foi processado por contrabando. O grupo vendia autopeças para o Uruguai em caráter definitivo e recomprava carros montados com as partes exportadas, o que era expressamente vedado por lei. O caso evoluiu judicialmente e, entre apelações e julgamentos, somente em 2002 a Corte Suprema declarou que os Macri eram inocentes.

Após passagens pelas empresas do grupo, Mauricio Macri resolveu iniciar sua carreira solo. Em 1995, se lançou como candidato à presidência do Boca Juniors e foi eleito com 4.415 votos no dia 13 de dezembro daquele ano. Uma das primeiras medidas tomadas foi a incorporação do Club Social y Deportivo Parque, responsável por fornecer jogadores talentosíssimos ao Argentinos Juniors, como Sorin, Riquelme, Cambiasso etc.

O investimento nas categorias de base se deu rapidamente. Após a recomendação de Carlos Bilardo, o clube comprou Juan Román Riquelme ao Argentinos Juniors em 1996, quando completou 18 anos. O jovem jogador estreou naquele mesmo ano: Maradona pouco jogava, mais se envolvia em problemas pessoais e físicos. O grande ídolo demonstrava sinais de que a carreira já tinha acabado e, somente em 1997, após um exame antidoping que apontou positivo, Maradona decidiu se aposentar. Sua última partida foi contra o River Plate, na vitória por 2 a 1 no Monumental de Núñez. O camisa 10 foi substituído no intervalo. Em seu lugar, entrou Riquelme.

Quarta Libertadores da Era Macri

Com a consolidação de Riquelme como titular e novo dono da camisa 10, o treinador que conduziu o caótico Boca dos anos 90 à retomada de rumo foi Carlos Bianchi. Riquelme era o grande craque do time, que conquistou tudo entre 1998 e 2001, até ser transferido para o Barcelona no ano seguinte. Foram duas Libertadores e um Mundial Interclubes vestindo a camisa 10.

Durante o hiato sem Riquelme, o Boca venceu outra Libertadores, mais um Mundial Interclubes — ambos com Carlos Bianchi, em 2003 — e duas Copas Sul-Americanas em 2004 e 2005. Alfio Basile era o técnico da última conquista. O grande desempenho de Basile o levou a ser chamado para a seleção argentina em 2006, após a Copa do Mundo. Julio Grondona não desperdiçaria a altíssima reputação do treinador do clube mais popular do país, dois anos depois de ter tentado contar com Bianchi — que recusou o convite de trabalhar na seleção enquanto Grondona fosse o presidente da AFA.

Juan Román Riquelme sendo reapresentado ao Boca Juniors em 2007, pelo então presidente Mauricio Macri (Foto: EFE)

Riquelme retornou ao Boca de uma maneira que — talvez — nem ele sonharia. Com o técnico Miguel Ángel Russo, o clube disputava a Libertadores e, pela primeira vez, voltava a ter chances de conquistar o principal título continental sem Carlos Bianchi. Riquelme era o encarregado de tornar tal façanha possível. Bianchi conseguiu sem ele.

Porto Alegre, 20 de junho de 2007. Após um passeio do Boca Juniors sobre o Grêmio em La Bombonera uma semana antes, finalizado em 3 a 0, era a vez do jogo de volta na capital gaúcha. Riquelme acabou com o jogo. Fez dois gols e ainda deixou Martín Palermo cobrar um pênalti que foi desperdiçado pelo camisa 9. Riquelme fez oito gols na competição e conseguiu conquistar o título sem Bianchi.

Chefe do governo porteño

Buenos Aires, 24 de junho de 2007. Mauricio Macri vencia, no segundo turno, as eleições para governador da Capital Federal. Era a segunda tentativa de Macri na política fora do clube. Em 2003, ele perdeu as eleições da capital argentina, também no segundo turno, com 46,5% dos votos, contra 53,5% de Aníbal Ibarra.

Dessa vez, Macri se projetaria juntamente com seu partido, que ele mesmo fundou — que veio a se chamar PRO (Propuesta Republicana) —, com um viés de centro-direita, economicamente mais liberal, pelo menos na teoria. Macri levava consigo a revolução empresarial que provocou no Boca Juniors.

É vice de novo

Maracaibo, 15 de julho de 2007. O Brasil de Dunga atropelava a Argentina de Basile por 3 a 0. O resultado surpreendeu a todos. O Brasil chegou até a final aos trancos e barrancos enquanto a Argentina dava espetáculo. Riquelme era o camisa 10 daquele time. Quatro anos mais tarde, a Argentina perdia a Copa América novamente para o Brasil.

Riquelme retornava ao Villarreal contra a sua vontade. O craque ainda tinha contrato com o clube espanhol por mais dois anos e meio. A janela de transferências já havia se fechado. Riquelme declarou que, se o Boca o contratasse, e pagasse o que ele tinha acertado com o Villarreal, ele jogaria mais um ano grátis pelo Boca.

As cifras nunca foram reveladas, mas o valor do salário de Riquelme era impagável para um clube de um país como a Argentina. Além disso, o Villarreal não abria mão da rescisão do contrato — especula-se que o Boca teve que pagar € 12 milhões pela transferência, dinheiro que faria falta mais tarde. Era só uma cereja no bolo. As dívidas dos clubes argentinos ainda chegariam a níveis inéditos mais tarde.

Los Asesinos del Tablón

Buenos Aires, 7 de agosto de 2007. Gonzalo Acro, um torcedor do River Plate, era assassinado. Os suspeitos de encomendarem o crime eram os irmãos Alan e William Schlencker, chefes da torcida organizada Los Borrachos del Tablón. Gonzalo Acro estava envolvido com os dissidentes da barrabrava, liderada por um ex-amigo de Alan Schlecker: Adrián Rousseau, que formou o grupo rival.

A disputa política nas arquibancadas tinha um só motivo, que era econômico. A venda de entradas era um grande negócio. Nos superclásicos, a revenda de cada ingresso chegava a custar US$ 500 ou mais. Os ingressos eram conseguidos dentro do próprio clube. O River Plate não era o único, ao contrário: difícil seria apontar o clube que não tivesse essa prática.

Os dirigentes eram participantes do esquema. Mas eles não lucravam necessariamente com isso. Os barrabravas tinham a seu favor “los aprietes”. Era um serviço de flanelinha que beira a milícia. Eles “vendiam” segurança. Se os dirigentes fornecessem ingressos e ajudas financeiras, os barras ofereciam como contrapartida apoio “incondicional” ao time e segurança. Nada iria acontecer aos dirigentes, vindo dos barras, é claro.

De quatro em quatro anos, antes de cada Copa do Mundo, “los aprietes” eram muito comuns. A prática se estendia a jogadores também. Pouquíssimos se atreveriam a denunciar a extorsão. Jogadores e dirigentes precisavam proteger as próprias vidas e de seus familiares.

O caso de Gonzalo Acro vai a julgamento, e as investigações tomam conta dos noticiários. O grupo Clarín sempre se beneficiou das pautas que envolviam a violência no futebol para desvalorizar o produto sobre o qual detinha o monopólio. Dessa forma, a cada renovação do contrato de exclusividade que o grupo tinha, conseguia pagar menos do que os clubes e a AFA pretendiam arrecadar.

Em dezembro de 2007, Cristina Fernández de Kirchner assumia a presidência do país em lugar de seu marido Néstor. A nova presidente teria um papel de protagonista no futebol, dois anos depois.

Do céu ao inferno

Com campanha bem-sucedida para o governo da capital federal, o mandato de Mauricio Macri como presidente do Boca chegava ao fim. Em seu lugar, entrou o primeiro vice-presidente, Pedro Pompilio. O clube disputava, em dezembro de 2007, a final do Mundial Interclubes contra o Milan, mas sem poder contar com Riquelme, que foi contratado após o encerramento da janela de transferências.

Depois de um primeiro tempo empatado em 1 a 1, o Boca, sem seu grande craque, sucumbiu à superioridade do Milan, acabando o jogo com uma derrota por 4 a 2. Miguel Ángel Russo deixava o comando da equipe Xeneize e assumia o ex-auxiliar de Carlos Bianchi, Carlos Ischia.

No River Plate, assumia o time Diego Pablo Simeone, depois de uma passagem exitosa no Estudiantes de La Plata. Em seu primeiro campeonato com o River, Simeone se consagrou campeão do Clausura 2008, enquanto o Boca foi vice.

O Boca chegou às semifinais da Copa Libertadores de 2008, mas esbarrou no imparável Fluminense de Renato Gaúcho. Crise em La Bombonera. Em Núñez, as coisas pareciam ser só flores. Mas, no campeonato seguinte ao título, o River Plate de Diego Simeone terminou na última colocação do Apertura 2008. Essa pífia campanha pesaria bastante no rebaixamento do clube mais adiante. Crise no Monumental de Núñez.

É ouro de novo

Beijing, 23 de agosto de 2008. O time olímpico era comandado por Chechu Batista. Riquelme era um dos jogadores escolhidos acima dos 23 anos. Liderou o time na campanha olímpica, passando com autoridade pelo Brasil de Dunga nas semifinais. Na final, a Argentina venceu a Nigéria por 1 a 0, com gol de Di Maria — aquele, do Rosario Central. Era o segundo ouro olímpico da Argentina. Quatro anos antes, com Marcelo Bielsa, os hermanos também conquistaram a medalha dourada. Um alento.

Há quem diga que a Argentina não vencia um título desde 1993, quando conquistou a Copa América no Equador. Mas vale lembrar que, em 2000, a CBF demitiu Vanderlei Luxemburgo do cargo de treinador da Seleção Brasileira após não conquistar a inédita medalha de ouro. A Argentina conquistava sua segunda medalha.

Basile fora

Santiago, 15 de outubro de 2008. A Argentina, que fazia campanha irregular sob o comando de Alfio Basile, cai diante do Chile de Marcelo Bielsa em Santiago. A derrota por 1 a 0 para o rival transandino foi a gota d’água para que Julio Grondona demitisse Basile. Durante quase 15 dias, a AFA não se pronunciou quanto a seu novo treinador.

Os rumores sobre o futuro treinador não levavam a nenhum nome em especial. Carlos Bianchi, que recusou trabalhar com Julio Grondona quatro anos antes, e Chechu Batista — campeão olímpico naquele ano —, surgiam como favoritos pela imprensa. Até que, em 28 de outubro daquele ano, surge a notícia de que Maradona e Bilardo se reuniram com Don Julio — como era chamado o mandatário da AFA desde 1979. Parecia uma mentira. Carlos Salvador Bilardo, com 69 anos, não parecia ser um nome ideal: apesar das glórias passadas, seu último trabalho havia sido livrar o Estudiantes do rebaixamento em 2004.

Maradona, então, nunca tinha desempenhado nenhum trabalho decente como técnico após sua aposentadoria dos gramados. No Deportivo Mandiyú, em 1994, teve 25% de efetividade, e, no Racing, conseguiu 36,4%. Depois disso, mais esteve envolvido em crises de saúde, beirando a morte em duas oportunidades.

Maradona renasceu após sua segunda crise. Passou por uma cirurgia de redução do estômago e esteve em diversos momentos em Cuba, se recuperando do vício em cocaína. Mas foi na Copa de 2006 que Maradona demonstrou poder ajudar um time com o moral baixo, quando acompanhou sua seleção durante o torneio: entrava no vestiário para dar apoio aos atletas e, na arquibancada, era um show à parte: girava a camisa, cantava e pulava.

Grondona precisava de uma bucha de canhão. No ano anterior, a seleção argentina havia perdido mais uma final para o Brasil na Copa América e, mesmo com o título olímpico recente nos jogos de Beijing, parecia demasiado arriscado colocar o time principal nas mãos de Chechu Batista. Uma eliminação ou alguns tropeços gerariam uma crise institucional na AFA.

No dia 30 de outubro, Maradona era apresentado como novo técnico. Para respaldá-lo tecnicamente, Carlos Bilardo, campeão mundial em 1986 e vice em 1990, assumia como manager, ou coordenador técnico — cargo ocupado por Zagallo em 1994 e 2006, quando Carlos Alberto Parreira era o treinador.

Em novembro, veio a estréia contra a Escócia no Hampden Park, em Glasgow. O novo técnico não pôde contar nem com Messi, nem com Riquelme, suas duas maiores estrelas. Mesmo assim, conseguiu vencer fora de casa um rival de categoria mediana.

Maradona sempre gostou de manifestar suas opiniões sobre quem fosse. No início de março de 2009, ele declarou que queria ver Riquelme mais adiantado, gerando jogadas para Tévez, Agüero e Messi, e que a maneira como Riquelme estava jogando no Boca não serviria para ele.

A Argentina ocupava a terceira colocação e, após anunciar que Riquelme seria seu número 10 — camisa que Maradona vestiu em quatro Copas do Mundo —, o jogador do Boca Juniors renunciou à seleção. Segundo Riquelme, Maradona e ele não compartilhavam os mesmos valores. E, apesar da dor na alma que disse sentir, ele foi contundente e sua renúncia era irreversível.

A estréia oficial foi em 28 de março de 2009: uma goleada por 4 a 0 sobre a Venezuela deu tranqüilidade temporária. Havia muita expectativa sobre como seria essa Argentina sem Riquelme e com Maradona no comando.

Grondona conseguiu o que queria: atrair os holofotes para o técnico do time, ídolo maior do futebol argentino. Se tudo saísse bem, seria a redenção de Diego Armando Maradona. Se tudo desse errado, a responsabilidade cairia, exclusivamente, sobre os ombros do ex-craque.

O país vivia um momento econômico estranho. Inflação e preços desregulados com os índices oficiais, um dólar congelado pelo governo e uma postura agressiva entre os principais veículos de comunicação e a presidente Cristina Kirchner.

Vexame bolivariano

La Paz, 1° de abril de 2009. A Argentina visitava a Bolívia e, naquele jogo, o impensável aconteceu. Uma derrota por 6 a 1 deixou todos atônitos. Maradona tentou explicar. Altitude e tempo de treinamento, pouco tempo de trabalho e a renúncia de Riquelme. Tudo em vão. Não tinha explicação além do óbvio: um desastre.

Boca Juniors e River Plate viviam uma crise dentro e fora de campo. O River conseguiu ser campeão do Clausura 2008 e ser último colocado no torneio seguinte — o Apertura 2008 —, o mesmo que o Boca foi venceu. Mas o começo de 2009 foi horrível para ambos. Os maiores clubes da Argentina se arrastavam em dívidas e não conseguiam posições satisfatórias no Clausura 2009. O Boca foi eliminado para o Defensor Sporting nas oitavas de final da Copa Libertadores. San Lorenzo e River Plate sequer passaram da fase de grupos.

Na faculdade de Comunicação Social de La Plata, se discutia a Ley de Medios, que visava uma descentralização do poder midiático dos grandes grupos de comunicação. A pauta era relegada pelos grandes veículos, que obviamente se posicionavam contra o projeto do governo. As TVs mostravam as altas dos preços e o governo buscava um novo ministro da economia. Já era o terceiro nome no comando do ministério desde o início do mandato de Cristina, no final de 2007.

O inverno se aproximava e o frio crescia junto com o surto de gripe suína. Era junho e a Argentina receberia a Colômbia em Buenos Aires. Uma vitória magra, pelo placar mínimo, fazia Maradona respirar mais aliviado. Mas, quatro dias mais tarde, outra derrota, dessa vez para o Equador, por 2 a 0. O resultado deixava a Argentina em posição de risco. Os jogos seguintes, em setembro daquele ano, seriam contra Brasil, em casa, e Paraguai, fora. A um ano da Copa na África do Sul, Maradona era uma perfeita bucha de canhão. Mais tarde, até o governo perceberia isso, um ídolo midiático que atrai os holofotes pra si. Personagem perfeito para qualquer crise.

No campeonato local, o Clausura de 2009, despontava um time que jogava bonito. O Huracán fazia uma ótima campanha depois de muitos anos no anonimato e o Vélez Sarsfield corria por fora. Já na Libertadores, quem triunfaria era o Estudiantes de La Plata, com um técnico estreante — Alejandro Sabella — que, em 2014, seria o responsável pela melhor campanha da Argentina em Copas do Mundo desde 1990. Eram maus tempos para Boca e River.

Gripe suína é para os fracos

Buenos Aires, 5 de julho de 2009. Um domingo mais pacato que a normalidade, um início de tarde ensolarado no inverno portenho. Ruas desertas, esquinas vazias. Tudo fechado. Motivo: surto de gripe suína em toda Argentina. Um dos países com maior número de infectados. As grandes empresas tiveram que dar férias forçadas, as aulas foram suspensas e o recesso de meio de ano foi antecipado sem previsão de retorno.

Álcool em gel, evitar aglomerações, ônibus, metrôs etc. Tudo suspenso. Menos aquele último jogo decisivo do Clausura de 2009. Vélez Sarsfield e Huracán chegavam à última rodada decidindo o título em confronto direto, no José Amalfitani, casa do Vélez. No entanto, o Huracán — muito elogiado pela imprensa —, comandado por Ángel Cappa, tinha a vantagem do empate.

Falava-se durante a semana que se jogaria com portões fechados, por conta da gripe suína. Que nada. Ninguém se atreveu a limitar o número de torcedores. Foi liberada a capacidade máxima dos ingressos.

Ônibus lotados em direção ao bairro Liniers: dava até medo de segurar nas hastes dos coletivos. Muita gente usando máscaras para evitar o contágio da gripe H1N1. Temperatura baixa, ambientes fechados, tudo o que era recomendado não fazer era exatamente o contrário do que se fazia naquele ônibus que cruzava Buenos Aires, desde o bairro de Palermo até Liniers, pela Avenida Juan B. Justo.

No estádio, ingressos esgotados. Nada tinha sido colocado à venda, afinal, os sócios conseguiam sozinhos lotar as populares e platéias — las tribunas, como os argentinos chamam (arquibancada, em bom português). Não teve outro jeito que não usar do melhor jeitinho sul-americano. Entrar com um deficiente físico.

Foi fácil, ele ficava entrando por um portão e saindo pelo outro, cada hora com um “cliente” novo. Pagava-se só do lado de dentro. O céu estava já encoberto e a previsão de uma tormenta se fazia iminente. Entrando pela cabeceira da torcida local, pelo túnel de acesso que dá diretamente no alambrado, na altura do gramado atrás do gol, começa uma ode à idiossincrasia do futebol argentino. Não dava para subir, tudo repleto, restava ficar ali e ver de pé, claro, aquilo que era possível, atrás daqueles agarrados ao alambrado. Era já hora do início do jogo e a chuva estava por chegar. As nuvens ficavam cada vez mais negras.

Os times entram em campo. Uma fumaça azul e branca encobre qualquer visão do gramado. Primeiro, uma pancada na cabeça, algum objeto arremessado, certeiro por puro azar. Eram bobinas de papel, tipo aquelas de maquinetas de cartão de crédito ou débito, e não rolos de papel higiênico como se costumava usar no Maracanã lá nos anos 90.

Logo depois outro golpe, outra bobina. Era olhar para o lado e ver as pessoas naquela parte de baixo da arquibancada, protegendo a cabeça e os filhos. Cabia, ali, agüentar a dor das bobinas arremessadas e proteger os menores. Não dava para ver nada. Muito mal, se via os jogadores entrando em campo e depois nada mesmo. Uma nuvem. Um espetáculo, como o futebol argentino sabe fazer.

Rola a bola e, em meio à fumaça azul e branca que aos poucos se desintegrava, começa a chuva. Às 15h, fazia-se noite quase. A chuva apertou, era melhor ir para outro lugar. Subindo as escadarias para o canto da arquibancada popular, onde parecia haver mais espaço, começavam a surgir alguns torcedores se esquivando da chuva. Mas o túnel de acesso, lá em cima, não permitia nenhuma visão do campo.

Dali, dava para ver os refletores opostos já acesos e uma chuva diferente, mais espessa. Era granizo. O jogo teve que ser interrompido e, aí sim, todo mundo entrou pelos túneis e nada mais vinha à cabeça além do temor pela gripe suína.

Os corredores lotados, todo mundo apertado, não tinha para onde apontar o nariz para se respirar um ar um pouco menos pesado. Durou uns dez minutos a chuva de granizo. Logo deu para ver que já era possível entrar e, mesmo pegando uma chuvinha, assegurar um lugar onde desse para ver o jogo.

Afinal, estavam em campo o organizado time do Vélez, treinado por Ricardo Gareca, que anos mais tarde treinou o Palmeiras, e o time sensação daquele torneio, o Huracán de Ángel Cappa, com Mario Bolatti, Javier Pastore e Matías Defederico.

O Huracán fazia um belo campeonato, com um time leve, que tabelava em diferentes zonas do campo, e arrancava elogios da imprensa menottista — Horacio Pagani, comentarista da TyC Sports, declarava que aquele era o futebol de que o povo gostava.

Durante o jogo, típico de uma final, nada de espetáculo em campo. O gramado encharcado dificultava o time mais leve e mais técnico do Huracán, que era obrigado a dar chutões na parte defensiva e guerrear de igual para igual com o Vélez. El Fortín, apelido do time da casa, tinha uma zaga pesada, firme por baixo e pelo alto. Sebastián Domínguez, aquele mesmo que jogou no Corinthians, e Nicolás Otamendi formavam o miolo de defesa.

O Vélez desperdiçou um pênalti aos 26 minutos do primeiro tempo e parecia se distanciar do título com o tiro penal de Hernán Rodrigo López defendido por Monzón, que colocou a bola para escanteio. O uruguaio Hernán Rodrigo López, artilheiro do Fortín naquele campeonato, acertou um cabeceio na cobrança do escanteio, mas Arano tirou de cabeça sobre a linha e evitou que a bola entrasse. López teve seu nome gritado após o erro na cobrança, pois seu semblante cabisbaixo era nítido de longe.

O jogo seguiu truncado, as unhas dos torcedores do Vélez já estavam todas roídas, e nada aconteceu até que, aos 38 do segundo tempo, após lançamento de Sebastián Domínguez na direção de López, que disputou a bola com o zagueiro, e sobrou para Larrivey, que dividiu com o goleiro e foi de carrinho, cometendo falta clara em Monzón. A bola sobrou para Maxi Moralez, que colocou para dentro. Vélez, 1 a 0. Dali para a frente, se já não houve muito futebol antes, menos ainda se viu. Sumiram os gandulas, Ángel Cappa ficou descontrolado, parecia não acreditar que o título lhe escapava das mãos, e nada mais se viu além de brigas e confusões até o apito final.

Continuou a ode à idiossincrasia das torcidas argentinas. A escalada dos alambrados, os abraços com estranhos, os jogadores só de cueca e chuteiras, e o buzinaço em Liniers. O bairro foi tomado por torcedores. Era hora de voltar para casa, e fazer exatamente tudo aquilo que não era recomendado: pegar um ônibus lotado, todo fechado, ser obrigado a segurar onde todo mundo parecia ter segurado antes de você — pelo quentinho da barra —, e aguardar a travessia de um lado ao outro da capital argentina pela avenida Juan B. Justo. Afinal, gripe suína é para os fracos.

Fútbol para Todos

Buenos Aires, agosto de 2009. Román Iucht e Victor Hugo Morales comandavam diariamente o programa Competencia pela rádio Continental, começando sempre às 18h. Naquela inter temporada — entre o final do Torneio Clausura e o início do Apertura —, os dirigentes do futebol argentino ameaçavam uma greve em protesto pelas pífias condições financeiras dos clubes, que reclamavam melhores cifras sobre os direitos de transmissão pertencentes à TyC (Torneos y Competencias) — empresa que fazia parte do grupo Clarín, maior conglomerado midiático da Argentina.

Na mesma época, o preço das passagens de ônibus era tema de debates. Donos de empresas de transportes defendiam que cada passageiro deveria pagar pelo menos o triplo do que pagava — a viagem mais cara custava algo em torno de US$ 0,25 e era subsidiada pelo governo local. As empresas chegaram a conseguir aumentos substanciais nas subvenções do Estado e sua insatisfação acabou logo em seguida. O povo sairia às ruas imediatamente para protestar contra o aumento nas tarifas, mas, como ele se deu por meio de subsídios estatais, ninguém reclamou.

Quando a presidenta Cristina Kirchner assumiu o cargo no final de 2007, as relações com o grupo Clarín começaram a estremecer. Havia uma política de boa vizinha durante os quatro anos de Néstor Kirchner, seu antecessor: o Kirchnerismo não mexia com o grupo midiático, que, por sua vez, não interferia na reestruturação do país após a imensa crise econômica de 2001.

Néstor ganhou as eleições presidenciais em 2003 e herdou um país já não tão caótico como aquele deixado por Carlos Menem, mas ainda afundado numa crise financeira. Cristina recebeu de seu marido um país já estabilizado e com maior potencial de crescimento. Mas as medidas políticas e econômicas tomadas a partir do início de seu mandato colocaram em xeque o desenvolvimento econômico em troca de uma impressão desmedida de papel moeda disfarçada de inclusão social. A inflação gerada imediatamente tirava em pouco tempo a sensação de bem-estar do mais pobre.

Ao anunciar o salário básico mais alto da história em 2009, segundo a presidenta, era possível comprar mais de quinhentos quilos de pão com aquele valor em pesos argentinos. O Indec — uma espécie de IBGE argentino — foi usado para provar o verdadeiro valor do salário básico. Cristina disse que, a partir do preço oficial do pão, medido pelo Indec, o salário básico nunca foi tão alto. Soava lindo. Entretanto, algumas padarias recebiam incentivos estatais para aplicar os tais preços oficiais. Na prática, não se comprava pão por menos do triplo estipulado pelo órgão público.

Tropa de choque

O governo já travava uma batalha com o grupo Clarín, que era o maior sócio da Papel Prensa S.A. — empresa que detinha o monopólio da produção de papel de jornal no país —, e a briga estava só começando. Por meio de seus principais veículos, o grupo Clarín manifestou-se com severas críticas ao governo, que pretendia se apropriar dos insumos básicos para a existência de um jornal, limitando a atuação dos grandes veículos.

Hugo Moyano, Cristina e Néstor Kirchner em ato político. O trio formou uma aliança quase imbatível durante todo o período do Kirchnerismo (Foto: Presidencia de la Nación)

O líder sindical Hugo Moyano, secretário-geral da CGT (Confederación General del Trabajo), chegou a cercar as gráficas do Clarín e do La Nación para impedir que os jornais circulassem, também em 2009, como relatou Ariel Palacios em seu blog no Estadão, alegando que os jornais dependiam dos caminhões para circular e que os caminhoneiros precisavam de melhorias nas condições de trabalho. Moyano crescia politicamente na Argentina, primeiramente como opositor dos Kirchner e, em um segundo momento, como aliado.

Em 1992, a CGT tinha 70 mil filiados. Desde que começou a se envolver com o principal sindicato argentino, Moyano conseguiu praticamente triplicar o número de filiados até 2010. Basicamente, com absorções de sindicatos menores, bastava ter alguma relação com transporte ou caminhões. Ele conseguiu convencer o sindicato dos trabalhadores de pedágios a fazerem parte da CGT, pois, segundo Moyano, passam caminhões nas estradas com pedágio. Outro setor absorvido foi o dos lixeiros, que precisam de caminhões para fazer seus trabalhos.

Ariel Palacios entrevistou a autora da biografia El hombre del camión — Hugo Moyano. La história secreta del sidicalista más poderoso de la Argentina, na qual ela conta a capacidade maquiavélica de Moyano: “Primeiro ele bate, depois ele negocia.” Um homem de formas simples e de idiossincrasia humilde, próprias de um filho de classe trabalhadora, mas que conheceu o poder e enriqueceu.

O sistema de subsídios ao transporte colocado em prática a partir de 2003 por Néstor Kirchner foi o alicerce para a aliança Kirchner-Moyano. Moyano era capaz de mobilizar milhares de pessoas num estalar de dedos e exercia influência em diferentes áreas econômicas relacionadas ao transporte na Argentina.

A tensão entre governo e o Grupo Clarín aumentava. Ao mesmo tempo em que os clubes ameaçavam entrar em greve devido aos baixos valores dos contratos — segundo os clubes — que a AFA detinha com a TyC, Cristina endureceu o jogo e agiu com uma medida radical que Victor Hugo Morales repercutiu no programa Competencia. Sem saber se era factível, o apresentador anunciou que a presidenta da nação iria intervir na situação financeira do futebol argentino, garantindo um aumento de 100% dos valores pagos pela televisão.

Fútbol grátis

A medida marcava a ruptura do contrato entre AFA e TyC. Os direitos de transmissão ficariam a cargo do Estado, que se comprometia a transmitir todos os jogos ao vivo, “gratuitamente”. Naquele momento, uma das maiores audiências da televisão argentina se dava no programa Fútbol de Primera, exibido pelo canal América — do grupo Clarín —, sempre nas noites de domingo. Uma superprodução que mostrava com exclusividade todos os gols da rodada, que se iniciava na sexta. Nenhum outro canal poderia exibir os gols antes que eles fossem ao ar no Fútbol de Primera (FdP). Foram, praticamente, duas décadas da chamada ditadura do FdP.

Com as relações fragilizadas entre o governo e o grupo de mídia, a jogada de Cristina Kirchner tinha um propósito claro: tirar poder do grupo de comunicação opositor. A medida trouxe duas reações imediatas. Por um lado, ela permitia que um dos maiores patrimônios culturais do país fosse assistido por toda a população. Por outro, quem pagava esse preço era a própria sociedade. Assim como no caso do transporte público que era subsidiado pelo Estado.

Na época, o treinador da seleção argentina era ninguém menos que Diego Armando Maradona. Um símbolo perfeito para comunicar a entrega do futebol para o povo. Um argentino oriundo de classes mais baixas que conquistou o mundo como jogador, e que agora estava sentado ao lado de Julio Grondona — presidente da AFA desde 1979 — e da presidenta da nação perante uma multidão que compareceu ao anúncio oficial do programa do governo Fútbol para Todos, realizado na sede esportiva da AFA, em Ezeiza.

Não existiam motivos para Maradona estar ali. Mas era uma bucha de canhão perfeita. Um símbolo de quem saiu da pobreza — de Villa Fiorito na Grande Buenos Aires — e conquistou o mundo por meio do futebol.

A medida caiu no gosto popular. Os torcedores não precisariam mais esperar os domingos para assistir aos gols de seus times. Não tinham mais que procurar um bar para acompanhar os jogos ou comprar o pay-per-view. Cristina Kirchner foi clara em seu discurso naquele ato: “O negócio que envolve o futebol vai pagar o investimento que o Estado está fazendo.” O aporte inicial era de pouco menos de US$ 200 milhões, e estipulava um aumento de 100% desse valor em um ano.

O Fútbol para Todos visava também “interiorizar” a seleção, e assim levar jogos para cidades distantes de Buenos Aires. Não era coincidência. A menor taxa de votos de Cristina Kirchner era na capital argentina. Nas eleições de 2007, não chegou a 30% dos votos porteños, enquanto em outras províncias, como Formosa — uma das mais pobres do país —, chegou a ter 80% dos votos.

A AFA decidiu levar o jogo contra o Brasil para Rosario, num estádio mais acanhado e com a torcida mais próxima do campo. El Gigante de Arroyito, estádio do Rosario Central, foi o palco. Uma Argentina que muito lutava e pouco jogava sucumbiu a um rival contundente — assim era o Brasil de Dunga, sobretudo quando era atacado fora de casa —, forte nas bolas aéreas e nos contra-ataques. O Chile, em Santiago, e o Uruguai em Montevidéu, também perderam para o Brasil. De nada adiantou a pressão da torcida, naquela noite em Rosário. Maradona não conseguia armar um time, ele atuava muito mais como um cheerleader, do que como técnico de futebol.

Ley de Medios

Buenos Aires, 10 de outubro de 2009. Era promulgada no Congresso Nacional Argentino a Ley de Medios. Naquela mesma noite, no Monumental de Núñez, a Argentina jogaria pela penúltima rodada das Eliminatórias contra o Peru. O jogo estava empatado por 1 a 1, até que, debaixo de uma tormenta, Martin Palermo — histórico artilheiro do Boca Juniors — marcou o gol da vitória, nos acréscimos. O resultado deixava a Argentina dependendo somente de si mesma para se classificar para a Copa do Mundo da África do Sul no ano seguinte. O jogo seguinte era em Montevidéu contra o Uruguai, que precisava vencer para assegurar também sua vaga no Mundial.

Maradona e Bilardo estavam no centro de uma polêmica midiática. Os veículos esportivos afirmavam que os dois estavam brigados e que havia uma crise no comando da seleção argentina. O jogo em Montevidéu acabou com uma vitória albiceleste, que garantiu, assim, o quarto lugar nas eliminatórias sul-americanas para a África do Sul. Após o apito final, Carlos Bilardo e Diego Maradona se abraçavam aos prantos. Um abraço midiático. Ambos sabiam que seriam filmados ali, após o final do jogo.

Na entrevista coletiva, Maradona abriu com um desabafo: “A todos os que não acreditavam, chupem! Que continuem chupando.” Quando foi a vez da pergunta de Juan Carlos Pasman, do canal América, também conhecido como El Trece, Maradona interrompeu dizendo: “Você, Pasman, sentou bonito” [em tradução livre de “Vos la tenés adentro”]. Pasman retrucou, perguntando se não era permitido criticar, e Diego respondeu que sim, mas não com a má-fé que faziam. A pergunta, por fim, era sobre o abraço emocionado entre o técnico e o manager, e Diego Maradona, mais uma vez, não desperdiçou a oportunidade: “Que continuem chupando! Se vocês inventam que eu estava brigado com Bilardo, é problema de vocês. Eu estou todos os dias trabalhando com ele na sede em Ezeiza.”

No Apertura de 2009, Boca e River fracassaram feio. Mesmo com os aumentos substanciais das receitas dos clubes, o aporte não serviu para salvar as finanças da maioria deles. Ao contrário, se endividaram ainda mais.

Daniel Passarella ganhou as eleições no River Plate no final de 2009, para salvar o clube da catastrófica gestão de José Maria Aguilar e, apesar de um sistema de rebaixamento feito para proteger os clubes grandes, o River Plate acabou rebaixado na temporada 2011/12. Para determinar os rebaixados, o promedio — como é conhecido o sistema — considerava a média das três últimas temporadas. Dado o orçamento dos grandes clubes, dificilmente um Boca ou um River conseguiriam ir tão mal em três temporadas seguidas. Mas os Millonarios conseguiram a proeza de acumular vários maus resultados.

Com o rebaixamento do River Plate, grande parte da audiência voltava às mãos do grupo Clarín, já que o Fútbol para Todos contemplava apenas a primeira divisão. Surge então o esboço de um campeonato que integraria as duas primeiras divisões do futebol argentino. A idéia foi levada mais a sério quando outro grande clube, o Independiente, também acabou “conseguindo” rebaixado em 2013.

Parecia impossível, mas, com o passar do tempo, a idéia de aglutinar as divisões acabou se concretizando em 2014. O principal argumento favorável ao campeonato com trinta clubes é o de promover encontros entre os principais times e clubes de menor expressão, do interior do país.

Desde que o Fútbol para Todos foi colocado em prática, apenas pautas publicitárias governamentais são veiculadas nos intervalos das partidas. O governo argentino se beneficia diretamente com sua autopromoção, mas paga caro por isso. A questão mais grave no custo envolvido é o destino dos aportes públicos. Os valores são pagos à AFA, que os repassa aos clubes sob critérios nebulosos.

Ainda em 2010, o Greenpeace e outras duas ONGs denunciaram que AR$ 144,2 milhões em verbas destinadas à lei de conservação de florestas haviam sido redirecionados para o programa Fútbol para Todos.

O governo argentino quebrou um monopólio privado que parecia não ter fim. Mas o poder sobre tão valioso bem cultural parece ter apenas trocado de dono. Com sua publicidade oficial, o governo pratica o mesmo monopólio que combateu, e usa o dinheiro público para isso — tanto de contribuintes felizes com as transmissões quanto de pessoas que ignoram o futebol.

A Copa de 2010 chegou, e o final, com um fatídico 4 a 0 para Alemanha, pôs fim à passagem aventureira de Maradona no cargo de treinador da argentina. Chechu Batista — campeão olímpico em 2008 — foi nomeado em seu lugar.

‘Deskanse’ em paz

El Calafate, 27 de outubro 2010. Falece o ex-presidente argentino Néstor Kirchner. O Torneio seguinte, Clausura 2011, que se iniciava no começo do ano, foi batizado de Torneo Clausura Néstor Kirchner. Uma singela homenagem de Julio Grondona à esposa do ex-presidente, que fez multiplicar as receitas dos clubes e da AFA após a intervenção. O “batismo” da competição abriu precedente para que os próximos campeonatos fossem nomeados com homenagens a personagens e acontecimento históricos.

Cristina recebe abraço de Marcelo Tinelli durante funeral de Néstor Kirchner.
(Foto: Presidencia de la Nación)

Em 2011, estabeleceu-se uma expansão do Fútbol para Todos. Foram liberadas, por decreto, as transmissões de todas as competições esportivas de interesse massivo. Era ano de Copa América, que aconteceria no país. As obras nos estádios estavam em marcha.

Copa América 2011

As cidades-sedes foram escolhidas, como em qualquer evento esportivo com gestão do Estado, por questões políticas e não esportivas. As cidades que albergaram as partidas pouco têm de tradição no futebol. Excetuando La Plata e Buenos Aires, nenhuma das outras tinha um clube que já tivesse sido campeão argentino, ou sequer um time historicamente de primeira divisão. O Colón, de Santa Fé, era o clube mais presente na primeira divisão dentre as outras cidades e, além dele, só o Gimnasia y Esgrima de Jujuy teve o estádio reformado para a competição. Todos os demais estádios pertenciam às prefeituras ou governos provinciais — exceto o palco da final, o Monumental de Núñez, do River Plate.

A Argentina de Chechu Batista foi um fiasco. Foi eliminada nas quartas-de-final para o Uruguai, nos pênaltis, em Santa Fé. Os uruguaios terminariam campeões daquela edição. Logo após o fiasco em casa, Julio Grondona definiu Alejandro Sabella como o novo técnico da seleção. As eliminatórias para a Copa de 2014 começariam em outubro daquele ano.

A interiorização do futebol por meio da Copa América e da seleção era o primeiro passo. O governo de Cristina Kirchner teve o futebol como um verdadeiro pilar político. Na Capital Federal, Mauricio Macri era reeleito, no segundo turno, com 54,2% dos votos, enquanto seu oponente, Daniel Filmus, aliado de Cristina Kirchner, teve 35,7%. Surgia a Copa Argentina, uma iniciativa de levar os grandes clubes para as cidades que jamais receberiam um jogo daquele time. Mas com um “pequeno grande” erro.

Copa Argentina

A Argentina não tinha uma copa nacional desde 1970 — essa foi a segunda edição e ela nunca teve um campeão, pois San Lorenzo e Vélez só jogaram a partida de ida e empataram por 2 a 2 — e, enfim, retomava a competição, assim como no Brasil, onde, desde 1989, se disputa regularmente a Copa do Brasil, dando uma vaga na Libertadores. No entanto, aquela primeira edição da Copa Argentina — que começava no segundo semestre 2011 e iria até a metade 2012 — garantia vaga apenas para a Copa Sul-Americana de 2012.

Era a chance de clubes de menor expressão jogarem com os grandes da capital. Eram 186 clubes na disputa. Com fases prévias eliminatórias, chegavam os 64 melhores, incluindo os clubes de primeira divisão. A partir dessa fase, eram definidas sedes para cada encontro. Foram 15 os estádios escolhidos para hospedar os jogos a partir dos 32 avos-de-final. Somente sete dessas sedes não estavam na Grande Buenos Aires. Umas das sedes era o modesto estádio Julio Humberto Grondona, do Arsenal de Sarandí. Fica fácil entender por quê.

Os critérios para definição das sedes não obedeciam a nenhuma lógica. E não beneficiavam em nada os clubes pequenos. O River Plate se deparou com o modesto Defensores de Belgrano, do bairro vizinho a Núñez, mas o encontro foi disputado em San Juan, a mais de 1.100 quilômetros de Buenos Aires.

Para a cidade do interior que recebe um clube como o River Plate, é uma verdadeira festa. Mas, para um minúsculo clube do Ascenso, como o Defensores de Belgrano, é tirar dele as duas únicas forças que tem: seu próprio estádio e a torcida de seu bairro. A primeira edição da Copa Argentina teve o Boca Juniors como campeão.

Por falar em Boca, o clube já era presidido pelo aliado de Mauricio Macri, Daniel Angelici, que assumiu a presidência em 2011. Angelici seria reeleito presidente dos Xeneizes no final de 2015, por mais quatro anos.

Moyano, agora no futebol

Avellaneda, 6 de julho de 2014. Hugo Moyano — aquele mesmo, líder sindical — assumia a presidência do Independiente, tradicional clube de Avellaneda. O Independiente acabava de retomar seu lugar na primeira divisão argentina. O clube, que detinha sete Copas Libertadores, havia sido rebaixado em 2013, a exemplo do River Plate, mesmo com o sistema de promedios, que respalda os grandes clubes.

El Rojo, como é conhecido, também já foi presidido por Julio Grondona no final dos anos 70 — antes de assumir a AFA — e também por Héctor Grondona, irmão de Don Julio, no final da década de 90. O sobrenome Grondona é diretamente relacionado a outro clube de Avellaneda: o Arsenal de Sarandí.

O Arsenal foi fundado em 1957, por Julio Grondona, seu irmão Héctor e outros vários amigos. O estádio — popularmente conhecido como El Viaducto — se chama Julio Humberto Grondona, e fica na Rua Julio Humberto Grondona. O sobrenome segue presente na história do clube — seu filho, Julio Ricardo Grondona, exerce a presidência do Arsenal desde 2001. Desde que o clube ascendeu à primeira divisão argentina, na temporada 2002/03, nunca mais foi rebaixado. Coincidência? Talvez.

Voltando ao Independiente, a presença de Moyano na presidência de um grande clube, curiosamente, dava força a clubes menores. O sindicalista não deixaria de atuar como sempre atuou: só agregaria seu poder ao futebol e o futebol ao seu poder. Moyano é pai de sete filhos. Sua filha Paola é casada com Claudio Fabián “El Chiqui” Tapia, presidente do Barracas Central, um clube da terceira categoria do futebol argentino, patrocinado, desde 2000, pela Asociación Mutual de Camioneros.

Grondona, por fim, morre

Buenos Aires, 30 de julho de 2014. Falecia Julio Humbero Grondona, aos 82 anos, depois de 35 anos no poder da entidade máxima do futebol argentino. Grondona foi colocado no poder da AFA pelo vice-almirante Carlos Alberto Lacoste, em 1979.

Lacoste se tornou o principal responsável pela organização da Copa do Mundo de 1978, na Argentina, após assassinarem sob nebulosas versões oficiais o titular do Ente Autárquico Mundial 78, o general Omar Actis. O jornalista Eugenio Menéndez — autor do livro “Amirante Lacoste ¿Quien mató al general Actis?” — indica Lacoste como autor intelectual do crime.

Lacoste foi contestado por gastar US$ 517 milhões para a realização do Mundial 78, mais de US$ 400 milhões gastos pela Espanha em 1982. No entanto, os gastos de sua organização o aproximou de João Havelange, com quem desenvolveu amizade. Havelange o indicou para a vice-presidência da Conmebol e, na seqüência, nomeou Lacoste como vice-presidente da FIFA.

Grondona ascendeu no futebol argentino através das eras políticas. Desde a sangrenta ditadura militar, passando por Raúl Alfonsín, Carlos Menem, Eduardo Duhalde até os Kirchner. Após sua morte, Luis Segura — presidente do Argentinos Juniors até o final de 2015 e vice-presidente primeiro da AFA —, assumiu interinamente a entidade máxima do futebol argentino, ao lado Daniel Angelici — presidente do Boca e vice-presidente segundo da AFA. O estatuto da AFA previa eleições dentro de noventa dias, em caso de falecimento do mandatário em exercício. Mas a situação provisória se estendeu durante um ano e meio.

Coube a Luis Segura escolher o novo técnico da seleção argentina, depois da renúncia de Alejandro Sabella, após o vice-campeonato mundial no Brasil. O escolhido foi Tata Martino, que havia deixado o Barcelona depois de uma temporada muito abaixo das expectativas no clube catalão.

Dias antes do — tardio — falecimento de Grondona, o jornalista Alejandro Casar González publicou um artigo no La Nación mostrando que, após a implementação do programa Fútbol para Todos, os clubes aumentaram suas dívidas em 150%, e que quem mais lucrou foram as empresas de TV por assinatura, que ofereciam em sua programação 100% dos jogos em HD sem pagar nada por isso.

Bendito seja

Um dia antes da apresentação de Tata Martino, o Club Atlético San Lorenzo, de Almagro, vencia o Nacional do Paraguai no Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires. A sigla CASLA recebeu a denominação “Club Atlético Sin Libertadores de América”, já que o San Lorenzo era o único clube, dentre os grandes argentinos, a não dispor da taça mais importante do continente na sua sala de troféus. Não foi um milagre, mas pareceu uma bendição.

O Papa Francisco garantiu projeção internacional ao clube, sem dúvidas, mas quem realmente proporcionou grande influência política e econômica ao San Lorenzo foi seu vice-presidente Marcelo Tinelli. O empresário, produtor e apresentador de programas televisivos sempre exerceu influência no clube, mas em 2012, apoiou a candidatura à presidência do San Lorenzo de Matías Lammens, sendo seu vice.

Campeonato de trinta clubes

Em 2015, concretizou-se o tal campeonato com trinta clubes. Dado o número de times, foi descartada a disputa em turno e returno. Com a realização da Copa Argentina, o número de datas é ainda mais limitado. Mas um pequeno detalhe não passou batido.

As rendas com bilheterias são de exclusividade dos clubes — não há interferência de uma federação estadual, como no Brasil. Dessa forma, num campeonato de turno único, surgiu de imediato um grande problema: os clássicos.

Como solucionar a ausência de um jogo de volta entre Boca e River? Como definir quem será o mandante? Um ano inteiro e somente um superclásico? O que fazer?

A solução: trinta rodadas

Definiu-se, então, que haveria uma rodada extra. A rodada dos clássicos seria disputada no meio da competição. O que parece ser genial, politicamente falando, acaba beneficiando alguém esportivamente.

Eis uma situação hipotética, em que três times estejam disputando o título cabeça a cabeça — Boca, River e San Lorenzo, por exemplo. Boca Juniors e River Plate, os dois maiores clubes do futebol argentino, vão disputar dois jogos entre si e mais um jogo cada um contra o San Lorenzo. Enquanto isso, os Cuervos jogarão somente suas duas partidas contra os outros dois concorrentes ao título. Seu clássico direto será contra o Huracán que, embora seja o rival histórico, é um clube que oscila entre o rebaixamento e a metade da tabela nos últimos anos.

O mesmo raciocínio serve para o Huracán que, na mesma hipótese acima, pode estar em plena disputa contra o rebaixamento. O clube de Parque Patrícios enfrentaria seu rival histórico duas vezes, enquanto seus concorrentes — Crucero del Norte (recém-promovido) e Sarmiento, por exemplo, — jogariam contra o Aldosivi, de Mar del Plata, e o Olimpo, de Bahía Blanca, respectivamente.

A rodada dos clássicos podia resolver um problema político e financeiro, mas iria interferir diretamente na definição desse inesquecível campeonato de trinta clubes, que é mais um oferecimento de “la Presidencia de La Nación”, e por que o torneio leva seu nome.

Papelón

Boca e River se enfrentavam no jogo de volta pelas oitavas-de-final da Libertadores de 2015, em La Bombonera. O River Plate havia vencido o primeiro jogo no Monumental de Núñez. Na volta para o segundo tempo, os jogadores do River sofreram uma emboscada insólita. Os túneis infláveis que permitem que os jogadores rivais cheguem até o gramado são sintomáticos, demonstrando exatamente o tipo de aparato que é preciso existir para garantir a integridade física dos atletas rivais, para que não sejam atingidos por objetos atirados pela torcida.

Foto: Federico Peretti

Foto: Federico Peretti

Certa vez, em 2010, Ronaldo Angelim conseguiu se esquivar de uma bola de golfe, quando dava entrevista ao repórter na beira do campo, após o Flamengo ser eliminado pela Universidad de Chile em Santiago. Libertadores é assim. Para o bem e para o mal.

No entanto, os jogadores do River foram atacados com gás de pimenta dentro do túnel inflável, provocando náuseas em diversos riverplatenses. A loucura não tem limites. Após setenta minutos de interrupção, o árbitro do jogo decidiu suspender a partida, e o Boca foi eliminado dias depois, pela Conmebol.

O River Plate se reencontraria com sua grandeza histórica. Em agosto de 2015, los Millonarios voltaram a consagrar-se campeões da Libertadores. A retomada da sua magnitude — quase perdida anos antes — voltaria a dar-lhes o poderio político e midiático que vinham em baixa. Pouco antes de o River se coroar campeão da máxima competição continental sul-americana, quem retornava ao Boca era Carlos Tévez, logo após ser vice-campeão da Champions League com a Juventus. River Plate e Boca Juniors voltavam a ter o peso esportivo que tinham historicamente.

Macri presidente

Buenos Aires, 22 de novembro de 2015. Com um resultado surpreendente, Macri, que aparecia como terceira força como postulante à presidência, acabou revertendo as previsões, e ganhou no segundo turno do candidato oficialista Daniel Scioli, com a mínima diferença a seu favor: 51,3% dos votos.

Havia incertezas com relação ao futuro do país, que saía de um governo que durou 12 anos para um que propunha um modelo completamente oposto. A primeira medida foi acabar com o dólar oficial, que era um valor fixado pelo governo no preço de compra de dólares. Havia restrições nas quantidades que cada cidadão poderia comprar de dólares, devido a uma prática histórica no país de cadernetas de poupança em dólares, que aumentava o preço da moeda norte-americana de acordo com os interesses de grandes especuladores que retinham quantidades desproporcionais de bilhetes verdes.

O preço do dólar flutuante passou a ser 50% mais alto que o pré-estabelecido pelo governo de Cristina Kirchner. Restava saber o que seria do programa Fútbol para Todos.

Eleição empatada

Ezeiza, 3 de dezembro de 2015. A assembléia geral, realizada na sede da AFA, em Ezeiza, contava com 75 participantes. Com apoio do novo presidente argentino, Mauricio Macri, o vice-presidente do San Lorenzo e apresentador de TV, Marcelo Tinelli, enfrentava Luís Segura — presidente em exercício —, na eleição para presidência da entidade máxima do futebol argentino.

Marcelo Tinelli recebeu apoio de Mauricio Macri para a presidência da AFA e, previamente, para liderar o programa Fútbol para Todos, em 2009.
(Foto: Lucía Merle)

Com tudo feito para evitar irregularidades, a contagem indicou o resultado: 38 a 38. Empate entre 75 votantes. Inacreditável. Alguém votou duas vezes. O resultado era para ter sido 38 a 37, mas ficava impossível saber a favor de quem. Segura e Tinelli tiveram que reconhecer que não havia muito mais o que fazer, a não ser reconvocar as eleições.

O Novo-Velho Gasômetro

Durante a gestão Macri, no governo da cidade de Buenos Aires, o San Lorenzo conseguiu força política para retomar seu terreno no bairro de Boedo, que passou a pertencer ao Carrefour desde 1979. O clube havia perdido o estádio após uma grave crise financeira, que foi totalmente negligenciada pelo regime militar.

Com o apoio incondicional de seus torcedores, que começaram a se mobilizar e a promover passeatas pela recompra do terreno, o processo tramitou na legislatura da cidade, e, por fim, com o aporte dos torcedores cuervos, abriu-se um financiamento através do Banco Ciudad e as negociações com o hipermercado francês foram abertas, para a felicidade dos seus torcedores.

Por fim, dois dias antes do Natal de 2015, o Carrefour aceitou a oferta realizada pelo clube para a retomada do espaço localizado na Avenida La Plata.

Superliga e intervenção da FIFA

Macri não se manifestou contrário ao Fútbol para Todos durante sua campanha. Chegou a declarar a intenção de mantê-lo, com alguns ajustes, e deixá-lo a cargo de Marcelo Tinneli.

Após o catastrófico campeonato de trinta clubes, a AFA se converte num verdadeiro caos. Sem o respaldo político do Estado, a entidade máxima do futebol argentino entrava em colapso. O Fútbol para Todos deixou de existir nos moldes antigos. Diferentes frentes políticas tentavam liderar o futebol argentino.

O ano de 2016 se iniciou com um campeonato curto, de turno único, com os trinta clubes divididos em dois grupos de 15, se encerrando na metade do ano. Os vencedores de cada grupo se enfrentavam numa final de jogo único. O Lanús se consagrou campeão ao derrotar o San Lorenzo por 4 a 0. O sistema de promedios continuou valendo, e rebaixou o Argentinos Juniors à Primera B Nacional.

Incomodados com o inchado campeonato, os presidentes dos grandes clubes se reuniram para propor um novo campeonato, chamado de Superliga. A AFA vetou qualquer possibilidade, por meio de seu presidente em exercício e de seu novo vice-presidente primeiro — após a renúncia de Daniel Angelici —, conhecido como Chiqui Tapia, presidente do Barracas Central, clube da terceira divisão argentina (Primera B Metropolitana), patrocinado pelo sindicato de caminhões. Por que será?

Claudio Fabián “El Chiqui” Tapia é genro de Hugo Moyano. Ele assumiu o protagonismo com a falta de liderança de Luis Segura. O respaldo de Moyano fez Tapia endurecer o jogo com os grandes clubes, ameaçando Daniel Angelici a desclassificar o Boca da Copa Libertadores, se não entrassem em acordo com a AFA.

Daniel Angelici disparou: “Nunca vi um poste que mijasse num cachorro.” O mandatário do Boca ainda agregou: “A quem interessa que o Barracas Central jogue a Libertadores?”, com um recado direto a Chiqui Tapia, presidente da modestíssima agremiação.

O clima de instabilidade política e ausência de gestão na AFA repercutiu até na Copa América Centenário, disputada nos EUA. Lionel Messi atacou a entidade antes da final do torneio pelo Instagram: “Que desastre que são os caras da AFA”, após horas de espera no aeroporto.

Dois dias antes da final da Copa América Centenário, a FIFA decidiu intervir na AFA. Designou um comitê normalizador, até que se convoquem novas eleições. Claudio Tapia, Hugo Moyano, Armando Pérez, Marcelo Tinelli e Nicolás Russo eram os pré-candidatos.

Enquanto isso, a Argentina perdia mais uma final para o Chile. Outra vez a derrota se deu nos pênaltis contra os rivais transandinos, assim como aconteceu em 2015. Messi renunciava a seleção. Tata Martino — que não recebia salário há meses —, após outro vice-campeonato, decidiu renunciar o comando do time que disputaria os jogos olímpicos no Rio de Janeiro em 2016. A imprensa argentina se mobilizava para especular o novo treinador, em vez de buscar as razões por trás das derrotas e das renúncias. Cumplicidade ou negligência?

No seu lugar, Julio Olarticoechea assumiu a seleção olímpica. Ele comandava a seleção feminina e havia sido realocado para treinar a Sub-20, que estava sem treinador desde a saída de Humberto Grondona, no final de 2015. Sim, sobrenome conhecido, não? Ele era o filho mais velho de Don Julio. Após sua saída do comando da seleção Sub-20, disse que o tiraram do cargo pois os irmãos Grondona — ele e Julio Ricardo, presidente do Arsenal de Sarandí — apoiavam Marcelo Tinelli.

Cristina Kirchner respondia por enriquecimento ilícito. Seu ex-ministro de obras públicas, José López, escondia US$ 9 milhões numa igreja. E Mauricio Macri não havia declarado em seu patrimônio as empresas divulgadas no Panama Papers. E a Argentina seguia seu baile eterno.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

1 Comment

  1. julianoortiz

    agosto 08, 2021

    “Grondona, por fim, morre” foi o melhor título. Ardiloso, mas genial. Haha

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