Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Gastarbeiter

Mesut Özil, Sami Khedira, Emre Can e İlkay Gündoğan em 2018
(Foto: Getty Images)

A mutação no DNA do futebol alemão

O campeonato alemão jogado desde o ano de 1903 era disputado em fases regionais, e os vencedores de cada região disputavam o título em uma fase final. O primeiro campeão foi o VfB Leipzig, ao derrotar o DFC Prag, um time formado por judeus alemães na capital tcheca, mas, após a fundação da Fifa e a filiação da federação alemã, foi vetado que equipes étnicas disputassem campeonatos além das próprias fronteiras. O campeonato não teve uma edição oficial em 1904, mas foi disputado regularmente de 1905 até 1914, sendo interrompido entre 1915 e 1919 por causa da Primeira Guerra Mundial.

Os grandes campeões desta época entre-guerras eram o Nuremberg (cidade berço do nazismo), com seis títulos, e o Schalke 04, também com seis conquistas e que se tornaria a maior potência futebolística durante o regime nazista; até por isso, o clube foi alegadamente o time de coração do Führer — mas essa tese não se sustenta muito.

Já o Bayern de Munique, o maior e mais bem-sucedido clube alemão, chegou a conquistar o campeonato de 1932. Entretanto, na época, o Bayern acabou ficando estigmatizado como uma agremiação judia. Isso se deu muito por conta de seu presidente da época: Kurt Landauer.

Landauer era de uma família de comerciantes judeus. Sendo assim, o gigante da Baviera sofreu por conta do afastamento de seu presidente do cargo e com as exclusões de jogadores judeus de seu elenco. Esse episódio acabou atrasando — ou potencializando — em décadas a hegemonia e o gigantismo que o clube passaria a impor a partir dos anos 1960.

Com o expansionismo do Terceiro Reich e a anexação de territórios como a Áustria (país natal de Hitler), o campeonato chegou a ter um time de outro país como campeão, no caso, o Rapid Viena, em 1941. A edição derradeira do campeonato alemão, antes da sua interrupção por causa da Segunda Grande Guerra, foi em 1944.

Ao término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a Alemanha encontrava-se totalmente despedaçada e desmoralizada internacionalmente. Com a derrota dos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), a Europa começou uma reestruturação territorial e ideológica. A Alemanha foi dividida em duas zonas de influência — uma capitalista e a outra socialista soviética — que mergulhou o país em um novo pesadelo, ao qual o regime nazista os condenou.

Com as grandes cidades industriais destruídas; os portos de Hamburgo, Bremen, Bremerhaven e Kiel impraticáveis; o vale do Ruhr e suas grandes fábricas fora de operação, a Alemanha precisou de quatro longos anos para acordar do pesadelo da derrota na Segunda Guerra.

O retorno do campeonato alemão só aconteceu no ano de 1948; o Nuremberg conquistou seu sétimo título. Naquele ano, houve a reforma monetária, considerada a etapa mais importante para a criação de um e, depois, de dois Estados alemães. Essa foi à confirmação, pelo Ocidente, da “autonomia” da nação alemã.

Com o mundo dividido ideologicamente, a Alemanha estava sob o manto de influência da URSS. A famigerada Guerra Fria estava em curso, sendo assim, só restou aos soviéticos responder com medidas que tiveram por consequência a criação do segundo estado alemão.

A partir daí foram instauradas duas Alemanhas: a Ocidental — capitalista —, conhecida como República Federal da Alemanha (RFA); e a Oriental — socialista —, conhecida como República Democrática Alemã (RDA).

A construção do Muro de Berlim em 1961, pelo lado oriental, que dividiu fisicamente a capital alemã — localizada no lado socialista — e estabeleceu a dualidade ideológica da Alemanha, foi um marco na história germânica: dois países e duas formas de administração e pensamento político-econômico.

Crianças brincam próximas ao Muro de Berlim em 1963 (Foto: Magnum Photos)

A Alemanha Ocidental, que já vinha em um crescimento econômico e financeiro, conduzida por Ludwig Erhard, ministro da economia na época, mobilizou todas as energias no trabalho, e levou o lado ocidental a um momento de prosperidade, conhecido como “Wirtschaftswunder”, ou Milagre Econômico, em português.

Apesar do crescimento em todas as partes da Alemanha Ocidental — fábricas estavam com vagas de emprego em todo país; o salário com crescimento de cerca 80% num período de oito anos, possibilitando a população desfrutar de um nível social melhor —, muitos passaram a negligenciar os empregos considerados mais braçais, resultando numa deficiência de mão de obra nesse setor.

Essa falta de mão de obra atingiu seu ápice justamente no início da década de 1960, quando os soviéticos ergueram o Muro de Berlim isolando a parte ocidental da capital e reforçaram a fronteira da RDA com a RFA, impedindo de vez o fluxo de alemães orientais para a parte ocidental.

A solução que a Alemanha Ocidental encontrou para esse problema foi “importar” mão de obra por meio de um programa feito com a Turquia, Espanha, Grécia, Portugal, Itália, Marrocos e Tunísia. Durante as décadas de 1960 e 1970, a Alemanha Ocidental abriu suas portas para imigrantes destes países a fim de suprir a sua necessidade por trabalhadores que ocupassem cargos de baixa qualificação, chamando-os de “Gastarbeiter” — trabalhador estrangeiro.

Em 1964, o português Armando Rodrigues de Sá foi o milionésimo trabalhador estrangeiro a chegar na Alemanha Ocidental. (Foto: SWR.de)

Bundesliga

Com um campeonato regular a partir de 1963, tanto os clubes quanto a própria seleção se fortaleceram no cenário internacional. Na década de 1970, houve um domínio do futebol alemão na Europa e no mundo. A seleção conquistou a Eurocopa de 1972 e a Copa do Mundo de 1974 — em casa —, fora o vice na Euro de 1976, para a Tchecoslováquia, após a cobrança de pênalti antológica de Antonín Panenka.

Os clubes, por sua vez, foram muito bem-sucedidos fora das fronteiras alemãs. Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach, que dominariam a Bundesliga nos anos 1970, também obtiveram resultados positivos tanto na Copa dos Campeões quanto na Copa da UEFA. As duas equipes eram a base da seleção alemã. Nomes como Sepp Maier, Beckenbauer, Schwarzenbeck, Paul Breitner e Gerd Müller, do Bayern; Vogts e Bonhof, do Borussia, conquistariam juntos a Euro e a Copa do Mundo, respectivamente. Havia também outros nomes de peso, jogadores do calibre de Overath, Grabowski e Hölzenbein.

A maior colônia de imigrantes da Alemanha Ocidental

Se no futebol a Alemanha vivia um “eldorado”, nas questões trabalhistas o país intensificava no exterior a busca para solucionar a escassez nos campos de trabalho. De todas as colônias de imigrantes instaladas na Alemanha Ocidental, a comunidade turca era a mais relevante e numerosa. Já nos anos 1960, a Alemanha foi pressionada pela própria Turquia para dar preferência aos imigrantes turcos que desejassem trabalhar no país. Mesmo contra a vontade, a Alemanha acabou cedendo; o contingente de turcos aumentou consideravelmente, principalmente em trabalhos braçais e subempregos.

Com baixa qualificação e um período estipulado de três anos de permanência no país, os turcos passaram rapidamente a encabeçar o volume dos “Gastarbeiter”. Muitos destes trabalhadores tinham famílias constituídas na Turquia; iam para a Alemanha com a esperança e o sonho de conquistar uma condição melhor de vida.

Entretanto, a condição econômica da Turquia não teve progressos, obrigando, assim, esses trabalhadores turcos a permanecerem na Alemanha. Com isso, a situação dessas pessoas deixou de ser uma situação temporária para ser uma situação permanente.

Muitos optaram também por trazer suas mulheres e filhos. O resultado foi um crescimento demográfico da população turca na Alemanha, o que trouxe alguns problemas. Além do choque cultural e religioso entre os dois povos, os turcos simplesmente viviam em um “isolamento” dentro da Alemanha.

O principal motivo de afastamento para a integração dos turcos era a falta de domínio do idioma alemão. Esse enclausuramento da sociedade turca trouxe consequências muitas vezes graves para a segunda geração nascida já na Alemanha.

Os filhos de turcos nascidos na Alemanha sofreram muito, justamente, pela falta de integração de seus pais na sociedade alemã. Educadas em escolas germânicas, as crianças não encontravam em casa um auxílio tanto nas tarefas escolares quanto no entendimento da cultura alemã. Essa geração, então, passou a viver com um pé em cada mundo, tendo dificuldades em se adaptar e obter sucesso nos estudos. Esse problema ficava mais acentuado ainda com o sistema de ensino alemão que seleciona e faz uma triagem escolar dos alunos de acordo com o seu rendimento.

Unificação dos alemães, não dos turcos

O ano de 1989 foi simbólico para a Alemanha. A queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro daquele ano, reintegrou novamente os alemães do lado socialista com os do lado capitalista. Das ruínas do muro, a Alemanha renascia como uma só.

Entretanto, os imigrantes turcos, diferentemente dos alemães, não se sentiam integrados à nova nação. Mesmo com gerações inteiras turco-germânicas estabelecidas no país, o sentimento de segregação permanecia aceso em toda a colônia.

O primeiro jogador de destaque de origem turca nascido na Alemanha foi Mehmet Scholl, que nasceu na cidade de Karlsruhe. Scholl nasceu no ano de 1970, foi revelado no time da sua cidade natal e fez carreira no Bayern de Munique. No gigante bávaro, jogou por 15 anos. Integrou, também, a seleção alemã na conquista da Eurocopa de 1996. Apesar das lesões, Scholl teve uma carreira muito bem-sucedida. Ele é filho de pai turco e mãe alemã, seu nome de nascimento é Mehmet Yüksel, mas seus pais se divorciaram quando Mehmet tinha cinco anos de idade e ele ficou com a mãe. Sua mãe se casaria com Hermann Scholl, de quem Mehmet adotaria o sobrenome.

O jogador mais famoso de origem turca nascido na Alemanha, porém, é Mesut Özil. Ele nasceu na cidade de Gelsenkirchen, em 15 de outubro de 1988. Um ano antes da reunificação alemã. 

Mesut Özil já recebeu críticas pela sua escolha pela seleção germânica. Hamit Altintop, ex-jogador do Schalke 04, Bayern de Munique e Real Madrid, nascido em Gelsenkirchen e amigo de infância de Özil, não poupou críticas à escolha do craque pela seleção alemã.

Hamit, que — junto de seu irmão gêmeo, Halil Altintop — optou por defender a seleção da Turquia, disse que até respeitava a escolha de Özil, entretanto, não apoiava. Até aceitava a escolha de Özil pelo lado profissional, mas que ele jamais a faria justamente por considerar suas origens turcas mais importantes do que seu país de nascimento. Ao contrário de Mesut Özil, que, mesmo com origem turca, considera-se alemão, Hamit Altintop sempre deixou claro que, apesar de ter nascido na Alemanha, considera-se turco.

A verdade é que a opinião e a escolha, tanto de Özil quanto de Hamit, refletem diretamente a questão da imigração turca e a condição deles no país. Mais de quarenta anos após a primeira onda de imigrantes, a contribuição turca para a população e para a sociedade alemã é indiscutível. Em 2016, mais de três milhões de turcos viviam legalmente na Alemanha e cerca de 500 mil vivem em Berlim. Apesar de os turcos terem se aproximado mais dos alemães, ainda existe um enorme hiato entre esses dois povos e um relativo preconceito do alemão para com o turco. O motivo para isso ainda está na idiossincrasia dos dois povos.

As manifestações, principalmente da extrema-direita alemã, contra a imigração são um agravante. Sentimentos de aversão aos imigrantes sempre foram um obstáculo não só para os turcos, mas para qualquer outra minoria étnica na Alemanha.

A seleção alemã se notabilizou por integrar os imigrantes em sua realidade. Jogadores como Sami Khedira — de origem tunisiana —, Lukas Podolski e Miroslav Klose — poloneses — ajudaram a seleção alemã dentro de campo. E mais do que isso, junto com Mesut Özil, além de conquistarem a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, prestaram um papel de integração entre os povos muito maior fora dos gramados, independente de origem étnica ou religiosa. É impossível enxergar a Alemanha sem os imigrantes.

A importância de uma sociedade multicultural para um país que já viveu duros anos de intolerância é inevitável e imprescindível.