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Ouro africano

As origens de um país e a trajetória de George Weah no futebol e na política

A África foi o eixo central no expansionismo colonizador europeu. Além de se instalar e ocupar diferentes terras no continente africano, fosse Portugal, França ou Inglaterra, o objetivo era um só: extrair o máximo que pudessem das relações comerciais ou territoriais, desde quando o objetivo era chegar às Índias até o sempre. O mercado de escravos, que durou séculos, acabou culminando com um processo de ilegalidade da aquisição de escravos, dos filhos de escravos que passavam a ser livres, e posteriormente com a libertação da escravidão em diferentes colônias da América do Norte e Caribe — somente mais tarde na América do Sul —, e também no Reino Unido.

Um processo natural — talvez — de recuperar as origens, resgatar o sentimento de pertencimento e compensar um dano histórico e cultural, levou à criação de Freetown — atual capital de Serra Leoa, pelo abolicionista britânico John Clarkson, pra onde iriam escravos libertos, em 1792.

Mas após diversos ataques de tribos locais à localidade, a Coroa Britânica decidiu incorporar a cidade ao seu império, em 1808. Este ato culminaria com a formação daquilo que se conhece como Serra Leoa hoje.

Em 1816, um movimento criado para “repatriar” os negros libertos foi fundado com o nome de American Colonization Society. Liderado por abolicionistas, a ACS acreditava que os negros teriam melhores condições de liberdade na África do que nos EUA. Em 1822, A American Colonization Society começa a enviar negros libertos para a região conhecida em inglês como Pepper Coast, onde fundou-se o novo país dos escravos libertos.

Localizada na África Ocidental, a Libéria, do latim “Terra dos Livres”, foi por um breve momento a esperança e o sonho para os ex-escravos americanos. Criada para os negros libertos e já nascidos livres, a capital da Libéria, Monróvia, leva esse nome desde 1824, em homenagem a James Monroe, presidente dos EUA na época, que defendia o envio de escravos libertos para o novo país.

Os negros americanos, ex-escravos se depararam com tribos locais, e além de não se identificarem com os povos nativos, nada se sabia de suas origens, culturas, religiões ou línguas ancestrais. Em 1847, proclamou-se a independência da República da Libéria, era o início de um pesadelo, marcados por guerras, conflitos étnicos e intolerância, fomentados por interesses econômicos e imperialistas ao longo do século XX, que fizeram do sonho e da ilusão uma triste realidade.

Um século depois

No ano de 1971, George Tawlon Manneh Oppong Ousman Weah, nascido na capital Monróvia, dava seus primeiros passos, não no futebol, mas na vida, tinha ele apenas 5 anos de vida. Ano de transição para a Libéria e seu povo. Com a morte de William Tubman, presidente desde 1943, que mudou a constituição — aplicando um golpe de estado — para ficar no poder por sete mandatos consecutivos.

Enquanto o jovem George Weah encontrava no futebol um refúgio e uma esperança de vida melhor em meados dos anos 1970, o país vivia uma constante instabilidade e clima de tensão, com o substituto de Tubman, o vice-presidente de William Tolbert.

Já no Inicio dos anos 80, o jovem Weah dava os primeiros passos no Young Surviors. Enquanto ele começava a trilhar seu caminho no futebol, outro golpe era instaurado no país. Liderado pelo sargento Samuel Doe pertencente a tribo étnica Krahns.

Weah, embora se saiba que suas raízes são várias, é reconhecido como parte da tribo Kru [ou Kroo] que também está muito presente na Costa do Marfim e em Serra Leoa. Na Libéria, os Krus representam 6% da população. A maior tribo é a Kpelle, representando 20,3% dos liberianos. No total, 16 etnias são reconhecidas oficialmente, além de outras minorias também presentes no país.

Após sua passagem pelo Young Surviors, George Weah perambulou por vários times do país: Bong United, Mighty Barolle, e Invincible Eleven. Com muitos gols, oportunismo e um talento muito acima dos demais, Weah conseguiu sua primeira transferência internacional: Para o Tonnerre de Yaoundé de Camarões.

O destaque foi tanto no time camaronês que logo o menino atraiu a atenção de um grande time francês, o Monaco, treinado pelo técnico Arsène Wenger. Era o ano de 1988, e enquanto o garoto talentoso partia para França, seu país vivia mergulhado em um caos político sem precedentes.

O ano de 1989 marcou outro golpe de estado no país. Mesmo ano que Weah começava sua brilhante trajetória no Monaco. Logo em sua primeira temporada no principado, marcou 14 gols em 23 partidas na Ligue 1, o que lhe ajudou a conquistar o primeiro de seus três prêmios de melhor jogador africano, ainda aos 23 anos de idade. No Monaco ele conquistou um título da Copa da França.

Ao mesmo tempo em que Weah brilhava no futebol francês, se tornando um dos principais jogadores do futebol francês, na sua terra natal iniciava uma guerra civil entre grupos étnicos que disputavam o poder. As tribos que vinham sendo discriminadas por Samuel Doe ocuparam a linha de frente da revolta. No comando, estava Charles Taylor, que havia sido ministro de Doe, afastado por corrupção. Essa guerra duraria sete anos.

Em 1992, Weah foi contratado pelo Paris Saint-Germain. No time da capital ele jogou ao lado de grande jogadores como Raí, David Ginola, Ricardo Gomes, Valdo e Bernard Lama. O time interrompeu a hegemonia do Olympique de Marselha, faturando a Ligue 1 em 1994. Além disso, Weah também conquistou duas Copas da França e uma Copa da Liga pelo clube parisiense.

Já na Libéria os banhos de sangue entre as tribos se intensificavam. A situação de violação dos direitos humanos chegou a tal ponto da banalização, que foi necessário a intervenção de tropas internacionais. Um breve momento de paz no país coincidiu com o melhor momento de Weah. Suas atuações pelo PSG aliado as belas campanhas do time tanto na Copa da UEFA, quanto na UEFA Champions League o credenciaram a melhor jogador do mundo de 1995.

Bola de ouro

A confirmação da conquista da Bola de Ouro da revista France Football — e de melhor do ano da FIFA — veio após um primeiro semestre esplendoroso em seu novo clube: o gigante italiano Milan. Com atuações épicas, o liberiano foi peça fundamental em um time recheado de estrelas do brilho de Baresi, Maldini, Savićević, Desailly, Albertini e Baggio. A conquista da Bola de Ouro aliada ao título do Scudetto, colocou Weah na galeria definitiva dos maiores da história do futebol mundial. Sua felicidade se completou com a conquista da Libéria para a disputa da Copa Africana de Nações no ano de 1996.

Mas infelizmente o brilho da Bola de Ouro de Weah não foi iluminou os problemas políticos e sociais no país. Ainda em 1996, dissidentes que estavam posicionados na Guiné invadiram o país, estourando assim outra guerra civil. Naquele mesmo ano, Weah ficaria em segundo lugar no prêmio de melhor do mundo da FIFA, vencido pelo brasileiro Ronaldo.

George Weah fez outras três grandes temporadas pelo Milan, permaneceu como um dos astros do time e um dos melhores atacantes do futebol europeu. Na temporada 1998/99 conquistou seu segundo Scudetto pelo time rossonero. Ao lado do artilheiro alemão, Bierhoff, o liberiano contribuiu com gols e grandes jogadas. No entanto, após a contratação do ucraniano, Andriy Shevchenko, jogador mais jovem e de características parecidas, o atacante liberiano perdeu espaço no ataque milanista.

Sem espaço no clube, Weah partiu para Inglaterra no inverno de 2000, para jogar por Chelsea por empréstimo. Chegando ao clube londrino em janeiro, no meio da temporada, e logo em sua estréia, marcou o gol da vitória sobre o Tottenham. Apesar da rápida adaptação ao clube, onde marcou gols na campanha do título da FA Cup, o técnico, Gianluca Vialli, decidiu não contratar o jogador em definitivo. Foi contratado grátis então, pelo recém-promovido Manchester City, após o fim de seu contrato com o Milan.

O jogador ficou insatisfeito com seu novo treinador que o deixava como suplente na maioria dos jogos. Em 11 jogos pelos Citizens, Weah marcou quatro gols. Foi quando, no final do ano de 2000, ele decidiu voltar à França para jogar pelo Olympique Marseille, seu último clube europeu; encerrou sua brilhante carreira jogando pelo Al-Jazira dos Emirados Árabes Unidos.

Já na seleção da Libéria pode se despedir em grande estilo durante a Copa Africana de Nações de 2002. A despedida dos gramados de George Weah coincidiu com o fim da Guerra Civil em seu país em 2003. Após outra intervenção militar dos americanos.

Com sua aposentadoria, Weah se enveredou para a política. Disputou as eleições presidenciais em 2005, mas não venceu. Em 2011, novamente participou das eleições para presidente, mas desta vez como candidato à vice presidente, na chapa de Winston Tubman, sobrinho de Willian Tubman, o presidente mais longevo da história do país.

No primeiro turno das eleições de 2011, Tubman e Weah conseguiram 32,7% dos votos, contra 43,9% da presidente Ellen Johnson Sirleaf. Entretanto, no segundo turno, a chapa de oposição, Tubman-Weah, foi esmagada pelos candidatos da situação por 90,7% contra apenas 9,3% dos votos válidos.

Em 2014, George Weah decidiu concorrer ao senado de seu país pelo condado de Montserrado, o mais populoso da Libéria, onde fica a capital Monróvia. Derrotou Robert Sirleaf, filho da presidente Ellen J. Sirleaf, com larga vantagem e passou a ser o primeiro ex-atleta a ocupar uma cadeira legislativa na história da nação africana.

Em 2017, porém, Weah concorre à presidência novamente e, desta vez, ganha as eleições com 61,5% dos votos e assume o posto em 22 de janeiro de 2018.

Ao lado de Alfredo Di Stéfano e George Best, o liberiano é considerado um dos três melhores jogadores a nunca ter jogado uma Copa do Mundo.

Jornalista e calouro escritor. Autor de “Da Vinci e a Santa Seleção“. Apaixonado por futebol, quadrinhos, música e literatura, não necessariamente nesta ordem. Apresentador do programa Casual Football, se arrisca também falando de rock and roll e seus gêneros no I Wanna Rock. Colecionador compulsivo de livros e discos. Acredita que o futebol no vídeo game até seja legal, mas nada se compara ao futebol de rua com golzinhos de chinelos.

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