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Marselha 1998

Uma eliminação muito dolorida

Ao contrário do que possa parecer, a Holanda não se desespera por não ter um título mundial de futebol. Quase todas as derrotas da Laranja são bem —ompreendidas pela torcida. Perder a Copa de 1978, por exemplo, foi até um alívio — a ideia geral é: “Se ganhássemos a final, sabe-se lá o que aconteceria com os jogadores, em meio à ditadura argentina.” Em 1990, favorita ao título, a seleção perdeu para a crise interna e a arrogância. Em 1994, havia inferioridade técnica em relação ao Brasil. Em 2002 e em 2018, ausências. 

Em 2006, a nova geração ainda estava imatura, num time ofensivamente tímido. Em 2010, mesmo chegando a outra final, a Oranje estava pragmática demais para o gosto dos torcedores. (e houve aquele erro de Arjen Robben frente a Iker Casillas…) 2014 mostrou uma seleção que foi muito além do que se previa, numa campanha irregular. Mas houve uma exceção, e é sobre ela que se comentará aqui. Se 1974 será para sempre “a mãe de todas as derrotas”, a impressão holandesa é de que nenhuma outra seleção do país merecia tanto uma Copa do Mundo como a de 1998. 

Nas eliminatórias, campanha tranquila 

Impossível citar o ótimo papel que a Laranja fez naquela Copa sem lembrar as turbulências da Eurocopa de 1996. Com a geração do Ajax campeão europeu e mundial de 1995 já tomando conta dos titulares, a participação no torneio continental de seleções foi perturbada por uma polêmica. Nela, o fundo étnico foi o mais falado, por causa do “Kabel” (como foi batizado o grupo de jogadores de ascendência surinamesa, Clarence Seedorf e Edgar Davids à frente) e por um conflito mais imaginado do que real entre brancos e negros, com o corte de Davids sendo o estopim das teorias. 

No entanto, mais do que o fundo étnico, também influiu decisivamente naquela crise interna uma diferença salarial existente no Ajax entre novatos e veteranos — problema do clube trazido para a seleção. 

Saída daquela traumática participação, a Holanda sabia: era preciso mudar. E talvez nenhum outro personagem daquela Euro compreendeu essa necessidade tão bem quanto o próprio técnico da seleção. Imediatamente após a competição europeia, Guus Hiddink criou um código de ética sobre relações com imprensa e torcida, para ser estritamente seguido por todos os convocados — era o chamado “Manifesto de Noordwijk”, referente à cidade onde fica o hotel Huis ter Duin, concentração habitual do esquadrão holandês. Mais do que isso: Hiddink até voltou a chamar a maioria dos presentes na Euro, mas deu um duro castigo a Edgar Davids, quem mais o desafiara. Por um ano, o volante ficou fora das convocações.

Só essas medidas já serviram para amainar o ambiente. E ajudou também o começo excepcional de campanha nas eliminatórias da Copa: três jogos em 1996, três vitórias (duas sobre o País de Gales, uma sobre a arquirrival Bélgica). Durante 1997, a campanha no grupo 7 da qualificação europeia seguiu em relativa calma. Houve susto com os tropeços contra a Turquia, que venceu um jogo e empatou outro. Mas vieram as protocolares goleadas sobre San Marino e outro triunfo no “clássico do Benelux”, contra os belgas, garantindo a primeira colocação na chave e a vaga direta na Mundial. 

Para Hiddink, além da ida à Copa, valeu a pena achar um time promissor nas eliminatórias. A base seguia a mesma de 1996, sem novidades. No gol, Edwin van der Sar já se consolidava como o goleiro que a Holanda esperava havia muito tempo, bom com as mãos e com os pés. Na defesa, uma dupla que se completava, com a classe e o poder de comando do capitão Frank de Boer perfeitamente aliados à força de Jaap Stam, que ali começou a ocupar a titularidade na Oranje. No ataque, opções não faltavam: a técnica de Dennis Bergkamp, a movimentação de Marc Overmars, a dedicação de Ronald de Boer e até a boa fase de Pierre van Hooijdonk — todos superando um Patrick Kluivert que, apesar de muito promissor, fazia passagem ruim pelo Milan. No meio-campo, a experiência de Aron Winter e Wim Jonk diminuía o impacto da ausência de Davids — junto do talento de Seedorf e da capacidade de Phillip Cocu. Sem contar os coadjuvantes: Arthur Numan, Michael Reiziger, Winston Bogarde, um jovem Giovanni van Bronckhorst, Jimmy Floyd Hasselbaink. Sem dúvida, uma seleção fadada a fazer bom papel na França. Desde que os problemas disciplinares não atrapalhassem. 

O trio de auxiliares ajuda Hiddink — e a paz com Davids 

No começo de 1998 residiram os grandes méritos de Guus Hiddink — e da federação holandesa, diga-se de passagem. Para ajudá-lo na comissão técnica, foram chamados mais três auxiliares. Número demasiado? Nem tanto, ao perceber a notoriedade dos escolhidos no futebol do país. Como auxiliar “oficial”, Hiddink teria Johan Neeskens, de importância tática fundamental na “Laranja Mecânica” de 1974, reconhecido pelo esforço que sempre teve quando vestiu a camisa laranja, como atacante. Como presenças apenas próximas, para ajudarem com o elenco, dois nomes que haviam encerrado as carreiras dentro de campo recentemente. Ronald Koeman, aposentado em 1997, auxiliaria os treinamentos na zaga, em sua primeira experiência numa comissão técnica. Inativo desde 1995, Frank Rijkaard tinha presença tão sutil quanto fundamental: descendente de surinameses, era o símbolo de que, sim, a comissão técnica se importava com os negros, eles eram bem vindos no grupo. 

O recado foi entendido. E ninguém melhor para provar isso do que o atleta que mais dores de cabeça causara a Hiddink: Edgar Davids. Por melhores que Winter e Jonk fossem no meio-campo, as ótimas atuações que o volante vinha tendo na Juventus causaram óbvio aumento dos pedidos pelo retorno dele à seleção. Davids ainda esteve ausente no périplo holandês pela América do Norte, no começo de 1998, para amistosos contra Estados Unidos e México. Todavia, já em março daquele ano, após uma conversa com o técnico, enfim a esperada paz foi selada.

Em 2010, numa rara entrevista sobre aqueles momentos turbulentos da carreira, Davids descreveu como passou aquele ano sabático da seleção. E foi franco: o que lhe interessava era a Copa. “Para ser honesto, não senti falta [dos jogos das eliminatórias]. Eu tinha mais tempo para mim mesmo. Os jogos qualificatórios podem ser horríveis: viagens para Helsinque ou Minsk ou Malta, jogar em gramados ruins contra jogadores que entram para bater, mas quando a Copa do Mundo se aproximava, eu senti aquela coisinha. E aí, Hans Jorritsma [diretor de logística da federação holandesa] foi fundamental. Ele acertou um encontro entre mim e Hiddink na Itália. E eu disse a ele: ‘Palavras bonitinhas nem sempre são verdadeiras e as palavras verdadeiras nem sempre são bonitas.’ Ele se tocou do que eu falava. E desde então, nossa relação ficou boa. Aí, em abril de 1998, houve outra reunião, em Amsterdã, na casa de Hans Jorritsma. Ele [Hiddink] me mostrou uma cartilha, com as regras que todos deveriam seguir. Se eu estivesse de acordo, voltaria a ser chamado. E eu aceitei.” 

Com a trinca de auxiliares, Hiddink ganhava o respeito que lhe faltara em 1996. E mostrou isso já a partir da fase de preparação rumo à Copa, como o próprio Davids reconheceu: “As opções de comida eram melhores, e nós podíamos usar nossos próprios fisioterapeutas — para jogadores, isso é crucial. Hiddink foi inteligente nesse aspecto. E como não queria entrar em conflito com a federação, alugou quartos para os fisioterapeutas num hotel perto do nosso [risos]. Além do mais, o fato de Neeskens ser o auxiliar era especial para mim. Quando eu era criança, era o meu herói. Poder treinar com ele foi incrível.” 

Vinte e dois jogadores holandeses convocados, e a palavra para a Holanda naquela Copa era uma só: amadurecimento. O Mundial que chegava não podia ser igual à Euro que passara. Em 2014, Edgar Davids sintetizou: “Aprendemos com aquilo [o problema da Euro]. Decidimos deixar nossos egos do lado de fora, e nos concentrarmos no coletivo. O técnico estava mais desenvolvido, os jogadores estavam mais maduros, muitos de nós já jogávamos em grandes times europeus. A mistura de experiência, otimismo juvenil, habilidade e raça estava no ponto certo. Realmente, queríamos apagar do mapa a experiência de 1996.” 

E se ainda assim houvesse alguém pensando diferente, Hiddink tratou de cortar o mal pela raiz. Em maio de 1998, o técnico publicou uma carta aberta, em jornais e revistas, endereçada aos convocados. Um trecho é definitivo: “Para a maioria dos garotos, tornar-se um jogador profissional é o primeiro sonho. Quando ele se torna acessível, você passa a querer jogar num clube grande. Por fim, um lugarzinho na seleção holandesa é o grande sonho de um jovem profissional. Para vocês, todos esses sonhos se tornaram realidade. Vocês são invejados, elogiados, às vezes até ficam com o nariz empinado. Milhares de holandeses, jovens e velhos, adorariam estar no lugar de vocês. Como eles não podem dar o que esperamos de vocês, vocês estão na convocação, não eles. Mostrem orgulho pelo direito que vocês conquistaram. Daqui a pouco, na França, vocês representarão não só os jogadores de menos talento na Holanda, mas também, cada compatriota fanático pelo esporte. Esses viajarão em grande número à França, ou darão recordes de audiência à televisão, para seguirem suas atuações.” 

Novamente, o grupo de jogadores compreendeu. No amistoso que marcou a volta de Davids — contra Camarões, no dia 27 de maio —, ainda houve um empate sem gols. Mas qualquer dúvida quanto à capacidade daquele time foi varrida nos dois amistosos de despedida: duas goleadas por 5 a 1, contra Paraguai e Nigéria. 

E lá se foi a delegação holandesa rumo ao quartel-general durante o mundial: Cap Martin, balneário no sudeste francês, próximo a Mônaco. Outra decisão festejada entre os jogadores, conforme lembrou Davids: “Tínhamos muito tempo livre, e o equilíbrio entre trabalho e lazer foi bem-feito. Era um hotel fabuloso próximo a Monte Carlo, perto do Mediterrâneo.” E corroborado por outro destaque daquela seleção: Edwin van der Sar, em sua autobiografia, de 2011: “O ambiente era excelente, a atmosfera era excelente.” 

Faltava provar que o time era excelente em campo. 

Primeira fase: algo a melhorar 

A Oranje tentou começar a fazer isso na estreia, em 13 de junho, no Stade de France — quis o sorteio que a campanha no grupo E começasse com outro “clássico do Benelux”. Com mudanças na escalação, ficaram no banco Bergkamp (recuperando-se de lesão) e Davids — por escolha de Hiddink, que preferiu Seedorf na meia-direita. E, ao contrário do que possa parecer, a escalação ia num 4-4-2 ao invés do habitual 4-3-3 — parecendo mais um 4-2-4, tanto que os meio-campistas avançavam pelos lados. No começo, deu certo: a pressão holandesa em Saint-Denis foi irrespirável. Overmars ia tão bem na ponta-esquerda que o técnico da Bélgica, Georges Leekens, tirou o lateral Bertrand Crasson aos 22 minutos, aumentando a marcação com Eric Deflandre. 

Todavia, mesmo dominante em campo, a Holanda tinha um defeito: criava muitas chances, mas ora deixava de lado as finalizações, ora falhava nelas — como aos seis minutos do primeiro tempo, no inacreditável gol perdido por Hasselbaink. Nesse sentido, a Bélgica era mais efetiva: aos poucos, Marc Wilmots e Luc Nilis compensavam a má atuação de Luis Oliveira. 

No segundo tempo, mesmo com duas bolas tiradas por Deflandre em cima da linha, a Bélgica cresceu. Para piorar, veio a expulsão inoportuna de Kluivert, aos 35 minutos, após cair na provocação de Lorenzo Staelens (sofrera falta do zagueiro belga, recusara o pedido de desculpas, ambos discutiram… e o atacante deu uma cotovelada no peito do defensor). A partida terminou 0 a 0 — com atuação até boa, mas que deixava certas dúvidas sobre a capacidade holandesa.

Tais dúvidas resistiram até o jogo seguinte, em Marselha, no dia 20 de junho — que não oferecia muito parâmetro: afinal, tratava-se da Coreia do Sul, a adversária mais fraca do grupo. Mesmo assim, os sul-coreanos até trouxeram algum perigo nos primeiros minutos, com chutes de Kim Do-keun e Lee Min-sung. A Laranja só estabeleceu a superioridade no fim dos primeiros 45 minutos, com os gols de Cocu e Overmars, encaminhando a vitória. 

Só no segundo tempo se viram os primeiros sinais da fluidez que aquela Holanda apresentaria. Enfim titular, Davids já mostrava por que seria considerado um dos melhores jogadores daquela Copa: era onipresente no meio-campo, tanto nos desarmes quanto na saída de bola. Seu colega como volante, Jonk, era mais um a trazer perigo, nos chutes de fora da área. A velocidade nas pontas seguia garantida com Overmars e Ronald de Boer. E Bergkamp conseguiu seu primeiro golaço naquela Copa — o terceiro na goleada de 5 a 0: tirou Lee Min-sung, colocou a bola entre as pernas de Kim Tae-young e finalizou de pé trocado. 

Tal brilhantismo nascente foi melhor percebido na terceira partida, em Saint-Etienne, no dia 25 de junho: na maior parte do primeiro tempo, a Laranja superou facilmente o México. Fez 2 a 0 em dezoito minutos, com Cocu e Ronald de Boer. Contou com ótima atuação de Jonk, que seguia bem nos arremates e tinha quase a mesma vitalidade de Davids. Pela esquerda, Overmars atormentava a vida dos marcadores, e no ataque, faltava espaço aos mexicanos. A ponto de Luis Hernández, o principal atacante de El Tri, precisar voltar ao meio. 

O problema só foi consertado com uma alteração do técnico, Manuel Lapuente, para o segundo tempo: no lugar de Braulio Luna, lateral-esquerdo marcador, foi colocado Jesús Arellano, dando três atacantes ao time mexicano. Por precisar da vitória (já que a Bélgica ganhava da Coreia do Sul em Paris e avançava às oitavas de final), o México ficaria com quatro atacantes durante os 45 minutos finais, com a entrada de Ricardo Peláez. E El Tri teve a ousadia duplamente premiada. Pela sorte, porque a Coreia do Sul empatou contra a Bélgica, e o 1 a 1 final já os classificava em segundo lugar no grupo. E pelo que fez em campo: contra uma Holanda recuada, Peláez diminuiu e, nos acréscimos, Hernández marcou o segundo, em falha de Stam, muito comemorado pelos mexicanos. A Holanda? Terminara na liderança do grupo, com cinco pontos. Havia coisas a elogiar — as ótimas atuações de Frank de Boer, Overmars e Davids, por exemplo. Mas o time seguia irregular: mostrava capacidade técnica exuberante, mas não conseguia mantê-la por um longo tempo dentro das partidas. 

Oitavas de final: a coragem levou à vitória 

A mesma coisa aconteceu nas oitavas de final, contra a Iugoslávia, em Toulouse, no dia 29 de junho. A princípio, o rival era respeitável — não faltavam talentos: a precisão de Siniša Mihajlović nas bolas paradas, a habilidade de Dragan Stojković na armação, a capacidade de finalização de Predrag Mijatović no ataque. Mas, enfim, a dupla Seedorf-Davids estava escalada desde o começo de um jogo. E no primeiro tempo, novamente a Oranje passou como quis por um adversário, diante de uma apática Iugoslávia. A vantagem parcial de 1 a 0 — gol de Bergkamp — ficou até barata. 

Mas esse cenário mudou no começo do segundo tempo. Já aos três minutos, Komljenovic empatou. E aos sete, Vladimir Jugović foi puxado por Stam, resultando em pênalti. Era a chance definitiva para a Laranja fraquejar. Experiência não faltava ao cobrador: Mijatović, autor do gol do título do Real Madrid na Liga dos Campeões no mês anterior. Mas ele a desperdiçou: frente a frente com Van der Sar na cobrança, “Pedja” chutou forte no travessão. Na sequência, um chutão mandou a bola para a defesa iugoslava, e Bergkamp protagonizou uma confusão: pisou no peito de Mihajlović, o que causou um princípio de briga. O atacante da Oranje sequer levou um amarelo, mesmo merecendo a expulsão (as travas da chuteira marcaram a barriga do iugoslavo). 

A partir daí, mesmo com a marcação adversária mais forte, a Holanda voltava a atacar. A pressão cresceu ainda mais nos minutos finais — com destaque para Ronald de Boer e Overmars nas pontas e Davids cada vez mais exuberante. No minuto final, finalmente, a pressão deu resultado em uma sequência de chutes. Aos 45, Overmars dominou o passe de Ronald de Boer, mas seu chute desviou em Niša Saveljić e saiu pela linha de fundo. Escanteio: de novo, a bola ficou com Overmars, que arrematou cruzado — e Ivica Kralj “salvou” a Iugoslávia por alguns segundos, espalmando pela linha de fundo. No tiro de canto que se seguiu, não houve mais defesa: Davids ajeitou a bola, após cobrança curta, arriscou novo chute cruzado, Kralj até desviou, mas, enfim, a Oranje chegou ao 2 a 1 que merecia, em sua primeira atuação respeitável na Copa. 

Com o triunfo obtido nos acréscimos, a comemoração foi gigante entre a delegação holandesa após o apito final. Contudo, um pequeno incidente ocorrido durante as celebrações, ainda em campo, deixou a sensação de que os problemas étnicos haviam voltado — ou não haviam acabado. 

Logo após o término da partida no estádio de Toulouse, todos os jogadores festejaram no meio do campo. Por trás, Bogarde, Cocu e Van Hooijdonk abraçaram Van der Sar, que se incomodou e socou várias vezes o zagueiro — que, por sua vez, olhou feio para o goleiro. Só em 2011, em sua autobiografia, Van der Sar explicou o episódio: “Na comemoração, veio um braço direto na minha goela. Eu não conseguia respirar, e soquei o braço. Parecia o braço de Bogarde, e eu realmente fui para cima dele. Mas era o braço de Van Hooijdonk, depois notei. Aí, na zona mista, os jornalistas começaram a falar sobre isso. Virou assunto. Quando um repórter começou com a história de problemas étnicos, eu fiquei furioso: ‘Que problemas de raça? Não tem nada disso atualmente!’ No dia seguinte ao jogo, eu cheguei rápido a Bogarde antes do treino: ‘Winston, há algum problema, há algo que queira falar?’. Ele: ‘Não tem nada. No que me diz respeito, está tudo bem, podemos seguir normalmente.’ E eu: ‘Boa, então tudo certo.’” 

Tão rápida quanto o incidente foi a tentativa holandesa para mostrar que fora apenas um mal-entendido. Dias depois, Van der Sar reconheceu: “Não deveria ter reagido daquele jeito. Falei com Winston [Bogarde] ainda no vestiário.” Guus Hiddink chegou a gargalhar na zona mista, ao ouvir perguntas sobre problemas étnicos — e criticou a insistência, nas coletivas: “Sabemos que há gente seguindo tudo o que acontece na equipe, e que às vezes não tem sobre o que escrever.” Nos treinos seguintes, Bergkamp abraçava Seedorf (que foi definitivamente para o banco, discreto contra os iugoslavos), Stam saudava Davids… e o incidente caiu no esquecimento. Sorte da Holanda. 

Nas quartas de final, genialidade inesquecível no momento derradeiro 

O jogo das quartas de final, novamente em Marselha, no dia 4 de julho, tinha outra das mais técnicas e badaladas seleções daquela Copa do Mundo: a Argentina, amparada pela firmeza de Diego Simeone na marcação, pela habilidade de Ariel Ortega e, acima de tudo, pelos gols de Gabriel Batistuta (àquela altura, artilheiro da competição ao lado de Christian Vieri). Guus Hiddink decidiu, então, usar um recurso praticamente esquecido: já liberado contra a Iugoslávia, enfim Kluivert voltou a ser titular, dividindo o ataque com Bergkamp. Surpreendentemente, enquanto o atacante do Arsenal ficava na área, Kluivert voltava para trocar passes. 

Assim a Holanda dominou o jogo e se impôs rapidamente — tanto com a bola na trave de Jonk, já aos quatro minutos, quanto com a bonita triangulação que rendeu o gol de Kluivert aos doze (“Eu me senti muito, muito aliviado”, comemorou o camisa 9 após marcar). Ainda mais ofensiva, a Laranja buscou aumentar a pressão, avançando até os defensores. Foi seu mal: caminho aberto atrás, qualquer espaço que a Argentina aproveitasse poderia render o gol. E aconteceu aos 17, quando Cláudio López saiu da linha de impedimento para empatar. E mesmo com a Oranje ainda forte no ataque, foi iniciado um momento de superioridade argentina nos contragolpes, graças ao ótimo dia de López e às surpresas — como a bola na trave mandada por Ortega aos 38. 

O segundo tempo inteiro seguiu sob tensão: a Holanda buscava a posse de bola, a Argentina ficava na defesa e apostava em contragolpes. Quase a Albiceleste deu o golpe final aos dezenove minutos, quando Ortega lançou Batistuta, que superou Frank de Boer e mandou a bola na trave. 

A tensão crescia em Marselha. E uma falta desnecessária dificultou as coisas para a Holanda aos 31 minutos. No meio-campo, em tentativa de contra-ataque, Verón tocou a bola para o lado. Ela ficou dividida entre Arthur Numan e Simeone — e o lateral esquerdo holandês derrubou com um carrinho o volante argentino. Simeone saiu rolando pelo chão (mais até do que a jogada sugeria), mas a falta foi realmente merecedora do segundo cartão amarelo — rendendo a expulsão a Numan. A Laranja ficava com dez homens. Suportaria ela um crescimento argentino? 

Suportaria. Porque aos quarenta minutos, uma simulação de pênalti por Ortega também fez a Argentina perder um homem por cartão vermelho. Graças a um fingimento, assumido por Van der Sar em sua autobiografia: “Eu já estava frustrado e bravo, por causa da expulsão boba de Arthur [Numan], que levou o cartão vermelho do nada por uma falta em Simeone, que rolou como se tivesse morrido — foi cena dele. Aí, Ortega finge sofrer um pênalti — ele procura o pé de apoio de Stam, e cai teatralmente. Fiquei furioso. Eles estavam com um homem a mais, e agora aquele carinha queria cavar um pênalti. Eu fui para cima dele, enquanto estava no chão, e usei o que sabia de espanhol para dizer que ele era filho daquela mulher com a profissão mais antiga do mundo. Quando ele se levantou, senti três fios de cabelo relarem no meu queixo e…sim, caí. Eu fui examinado por Rob Ouderland [médico da delegação holandesa] e o diagnóstico dele foi preciso: ‘Aqui não é necessário nenhum médico’. Não me orgulho disso. Não foi nada pensado, você não pensa em nada disso. Aconteceu de repente. Se eu me arrependo? Bem…ficou bom para nós que fossem dez contra dez.” 

Talvez não tivesse sido bom, caso os jogadores holandeses que poderiam decidir não aparecessem. Apareceram, na mais apropriada das horas. E de que maneira: com um gol lembrado como um dos mais bonitos da história dos mundiais. Aqui não cabem muitas palavras, além da descrição de Van der Sar: “Não muito tempo depois daquela expulsão, veio o passe de Frank de Boer do campo de defesa, em diagonal, alto, um ótimo passe que Bergkamp dominou. Drible, chute, gol, um golaço. Até hoje me arrepio.” 

Para definir de vez, valeria citar o que o arqueiro da Laranja sentiu após aquele momento: “Eu explodi com aquele gol, foi lindo.” E ainda há a clássica narração de Jack van Gelder, da NOS [emissora pública holandesa de televisão e rádio], que simbolizará eternamente este lance no imaginário do país.

Semifinal: um jogo inesquecível, uma derrota dolorida 

Chegava a semifinal, em 7 de julho. Novamente, o estádio Vélodrome, em Marselha. Novamente, um ambiente impressionante, como Van der Sar lembrou com saudade, numa entrevista em 2014: “A temperatura estava inacreditavelmente boa. Céu azul, arquibancadas abertas. Aí, você tinha o amarelo dos torcedores do Brasil, o laranja dos nossos torcedores e os dois times apinhados de jogadores de qualidade num jogo tenso. Foi o mais perto que cheguei de saber o que é uma final de Copa.”

Tenso é até um adjetivo ameno diante das emoções vividas ali. Desde o começo, a Holanda aproveitou as fragilidades brasileiras: a lentidão do meio-campo para marcar a saída de bola adversária e, especialmente naquele dia, as incertezas sobre a capacidade de Zé Carlos para substituir Cafu na lateral-direita. Até por isso, durante o primeiro tempo, Boudewijn “Bolo” Zenden foi opção das mais utilizadas para as jogadas de ataque — e não faltaram cruzamentos. Porém, a Laranja também repetiu sua principal fraqueza na Copa: os erros de finalização. Já no primeiro tempo, Kluivert perdeu grande chance: nos acréscimos, cabeceou sozinho por cima do gol.

Se tinha sérios defeitos defensivos, o Brasil compensava com a exuberância técnica e a eficiência da dupla Ronaldo e Rivaldo. Assim foi com o 1 a 0, com apenas quarenta segundos da etapa final: Rivaldo lançou, Ronaldo se livrou de Cocu e tocou na saída de Van der Sar. Então, mesmo com a abertura que a Seleção Brasileira deixava no meio-campo, a Laranja perdia chances e mais chances: em grande defesa de Taffarel aos oito minutos, nas oportunidades que Kluivert desperdiçava (como aos 67 e aos oitenta). E as fragilidades laranjas eram igualmente exploradas pelo Brasil — vários contra-ataques quase renderam gols no tempo normal (como com Ronaldo, aos 73, e com Rivaldo, aos 77). Mas justamente quando a Holanda parecia se render, Kluivert adiou a derrota por mais meia hora, enfim aproveitando uma chance, de cabeça, aos 41 minutos da etapa final. Pouco depois, um lance reclamado pelos holandeses até hoje sobre um suposto pênalti sofrido por Van Hooijdonk (substituto de Zenden), aparentemente agarrado por Júnior Baiano aos 47 do segundo tempo. 

Durante toda a prorrogação, seguiu-se o mesmo roteiro: Holanda e Brasil trocando chances freneticamente, ataques de parte a parte — com a Seleção até avançando mais, principalmente pela direita, onde Denílson aproveitava a má atuação de Winter (substituto improvisado do lesionado Reiziger no segundo tempo). 

Vieram os pênaltis. Aí…Taffarel aproveitou uma de suas qualidades para novamente brilhar, sendo protagonista da classificação brasileira à segunda final de Copa consecutiva. Restou a Van der Sar lamentar sua incapacidade na partida: “Não peguei nenhum pênalti.” Cocu e Ronald de Boer, que desperdiçaram suas cobranças, sequer falam sobre a situação, mesmo mais de vinte anos depois. Talvez as palavras que sintetizem o amargo fim daquela campanha holandesa venham do melhor jogador da Laranja no torneio: Davids. “Eu estava intensamente focado em vencer o Brasil. Queria ganhar deles mais do que tudo. É o país do futebol por excelência. Podíamos ter conseguido. Nunca fomos bons em pênaltis, mas acho que teríamos ganhado da França na final. O Brasil estava frágil.” 

Uma decisão que passou em branco 

O trauma da semifinal foi tamanho que a disputa do terceiro lugar, contra a Croácia, em Paris, virou uma nota de rodapé naquela campanha. Até houve esforço no primeiro tempo, com Zenden empatando, mas Davor Suker conseguiu marcar o gol que o consagrou artilheiro da Copa, e a derrota por 2 a 1 nem importou — a partida que os holandeses desejavam ganhar já havia sido perdida, como assumiu Davids: “A maioria de nós fora atingida duramente por aquela perda nas semifinais. Nossa cabeça não estava lá. Por isso perdemos.” 

Perderam apenas por pequenas falhas — como os erros de finalização — e pela incapacidade nos pênaltis, que aquela geração repetiria, de modo até mais dramático, na Eurocopa de 2000. 

Enfim, se detalhes separam vencedores de derrotados, talvez nunca esses detalhes tenham sido tão poucos quanto em 1998 para a Holanda. Porque, após os erros da Euro de 1996, o que se viu foi um time técnico, como em outras vezes na história do futebol do país — mas também, um time focado em torno de um objetivo, como só se vira na conquista europeia de 1988 (e como só se tornou mais comum na Holanda a partir da Copa de 2010). Por essa novidade — o brilho técnico aliado à união do elenco —, a derrota de 1998 dói tanto. E pelo visto, continuará doendo por muito tempo.