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Os dois lados do pragmatismo

Mesmo eficiente, a seleção holandesa de 2010 desagradou até torcedores. Já em 2014, soube-se dar mais brilho a essa eficiência

Ofensividade, dominar o jogo, buscar o gol. E quase sempre, terminar a história como o lado derrotado. Esta foi, e ainda é, a trajetória da seleção holandesa. Mas é justo dizer: nos últimos quinze anos, há aqui e ali laivos de pragmatismo em seu estilo de jogo, para tentar fazer dela uma equipe, enfim, vencedora. 

Dois momentos desse pragmatismo renderam sensações diferentes a quem acompanha a Laranja. Na Copa de 2010, ela voltou a roçar a perspectiva de conquista de um Mundial e trouxe alguns grandes momentos em campo, mas nada disso apagou o incômodo com que alguns viram nas atuações na África do Sul. 

Já no Mundial de 2014 foi diferente. Diante de expectativas baixas sobre o que a Holanda poderia fazer no Brasil, outra vez se apostou numa postura mais prática, menos apegada aos cânones do futebol total. Não só quase deu certo, como os momentos de brilhantismo tornaram aquela campanha um dos últimos momentos de pleno carinho da torcida neerlandesa com a equipe nacional.

Esses dois lados do pragmatismo trouxeram algumas histórias notáveis a permeá-los.

2010: construção e destruição

Após a decepção na Eurocopa de 2008, que começara tão esplendorosa na fase dos grupos para ter um fim anticlimático nas quartas de final, chegou para treinar a Oranje Lambertus “Bert” van Marwijk, sucedendo Marco van Basten. Não era um completo desconhecido (treinara o Feyenoord campeão da Copa da UEFA 2001/02), mas não era um dos nomes mais falados por torcida e imprensa.

Fosse como fosse, pelo menos Van Marwijk traria alguma paz ao ambiente dos jogadores da Laranja, sempre a um passo de explosões. Isso se exemplificava por uma volta: Mark van Bommel, que brigara com Van Basten durante a Copa de 2006 e prometera não voltar à equipe enquanto o ex-jogador a treinasse, retornou às convocações, sob Van Marwijk. Um pequeno detalhe aumentava a paz: Van Bommel era casado com Andrea van Marwijk. Sim, filha de Bert.

Era um time relativamente jovem, com destaques chegando ao auge físico e técnico: Wesley Sneijder, Robin van Persie, Arjen Robben. Houve, é verdade, um fugaz retorno de um veterano, no começo das eliminatórias da Copa de 2010: com os dois goleiros lesionados, Edwin van der Sar, que deixara a Laranja após a Euro, aceitou voltar e quebrar um galho contra Islândia e Noruega, segunda e terceira partidas na campanha de qualificação mundialista.

Nas eliminatórias, nos três jogos disputados em 2008, três vitórias. Num grupo acessível (Noruega, Escócia, Macedônia, Islândia), Van Marwijk tinha o cenário ideal não só para aprimorar o ataque promissor, mas também, para achar um jeito de proteger sua defesa. Afinal, John Heitinga e Joris Mathijsen nunca foram zagueiros que trouxessem confiança plena. O jeito apareceu ao longo de 2009: uma dupla de volantes a proteger o quarteto de zagueiros — Mark van Bommel e Nigel de Jong. Naquele ano, deu muito certo: em oito jogos nas eliminatórias, oito vitórias, 100% de aproveitamento, vaga garantida no Mundial com sobras. (A Holanda foi a primeira seleção da Europa a se classificar.) Já não era mais um 4-3-3, como Johan Cruijff sempre preconizava e a torcida se acostumara a ver: era num 4-2-3-1 que a Holanda iria à Copa de 2010. E iria confiante, consistente, com boas perspectivas. De quebra, nos finalistas da Champions League em 2009/10, os dois principais nomes eram neerlandeses: Sneijder na Internazionale campeã, Robben no Bayern de Munique vice.

No ano da Copa, nos três primeiros amistosos, três vitórias. E o último jogo de preparação tinha tudo para potencializar esse otimismo de que, naquele ano, a Holanda poderia chegar. Pelo placar, até se fez jus a isso: 6 a 1 na Hungria, nove dias antes da estreia na África do Sul. Mas um lance, no último minuto da partida em Amsterdã, transformou todo o otimismo em preocupação: ao tentar passar uma bola de calcanhar, Arjen Robben distendeu o músculo posterior da coxa. Com todas as alterações já feitas, o atleta saiu amparado de campo. Ninguém comemorou a goleada no amistoso: todos se perguntavam se o camisa 11 poderia viajar à África do Sul.

Fisioterapeuta já acostumado a trabalhar com jogadores de futebol em prazos curtos, Dick van Toorn sinalizou: sim, Robben poderia jogar a Copa. Era só a delegação viajar à África do Sul normalmente, deixando o atacante para os trabalhos frenéticos de recuperação com Van Toorn na Holanda. Assim foi feito: no dia seguinte, 6 de junho de 2010, a delegação neerlandesa viajou ao país-sede da Copa. Robben? Ficou por uma semana na casa de Van Toorn, dia e noite recuperando o músculo problemático, enquanto se exercitava simultaneamente para manter o ritmo de jogo. Acabou aprovado para embarcar no dia 12 de junho — já sabendo que só teria condições de entrar em campo para valer na terceira partida na fase de grupos do torneio, contra Camarões.

Outra vez, o grupo da Holanda era bem acessível: Dinamarca, Japão e Camarões. Mesmo sem impressionar, as vitórias vieram (2 a 0 e 1 a 0 , respectivamente) e encaminharam a classificação. Contra os camaroneses, apenas para cumprir tabela, a Holanda tomou seu primeiro gol na Copa. Estava 1 a 1. Arjen Robben já estava no banco, à disposição. Entrou aos 28 minutos do segundo tempo do jogo na Cidade do Cabo, no lugar de Rafael van der Vaart, que o substituíra nas primeiras partidas. Dez minutos depois, participou da jogada do 2 a 1 da Laranja: chutou uma bola na trave, cujo rebote foi aproveitado por Klaas-Jan Huntelaar.

Robben foi escalado como titular nas oitavas de final, contra a Eslováquia. Quando fez 1 a 0, logo aos dezoito minutos, deixou definitivamente claro o quanto valera a pena aquela semana de recuperação frenética na Holanda, antes de viajar para a Copa. Mas aquele jogo em Durban revelaria mais heróis. Como Maarten Stekelenburg: contestado pela boa fase e histórico de Edwin van der Sar, o camisa 1 fez defesas que ajudaram a manter a vantagem de momento, até que Wesley Sneijder pudesse aumentá-la para 2 a 0, já no final. A Eslováquia diminuiu: era tarde.

Mas aquela classificação também foi uma amostra de como nada impediria a Holanda de tentar seguir adiante. Aos 35 minutos da etapa final, quatro minutos antes de seu segundo gol no jogo, Van Persie foi substituído: deu lugar ao atacante Eljero Elia. O camisa 9 saiu reclamando com Van Marwijk, e algumas leituras labiais na televisão indicaram que ele dizia “era Sneijder quem deveria sair”. Um desentendimento que poderia semear cizânia naquele grupo. Mas a determinação em alcançar algo maior impediu, conforme Bert van Marwijk contou à revista “Voetbal International”, em 2020: “Em junho de 2009, antes do jogo contra a Noruega [eliminatórias da Copa], eu perguntei a eles: ‘Vocês conseguem se motivar, independente do adversário ou da importância da partida, esteja o jogo como estiver?’. Antes da partida contra a Eslováquia, eu quis tomar a palavra. Eles disseram: ‘Não, professor, já sabemos o que você quer.’ Achei ótimo essa manifestação inicial de que eles já tinham internalizado isso. Sempre estavam motivados. Sempre.”

A determinação foi bem mais importante no jogo seguinte. Port Elizabeth, 2 de julho de 2010. Era o maior teste por que a Holanda passaria naquela Copa do Mundo: enfrentar o Brasil nas quartas de final. Para piorar, no aquecimento pré-jogo no gramado, Mathijsen se lesionou: às pressas, André Ooijer foi escalado na zaga. E pelo menos no primeiro tempo, o teste deu errado: a Seleção Brasileira fez 1 a 0, dominou, criou mais chances. Uma delas foi o alerta de que a Laranja precisava. Aos 34 minutos, após tabela com Luís Fabiano, Kaká arriscou chute de fora da área. Um chute alto que talvez terminasse nas redes não fosse o voo de Stekelenburg para espalmar. Defesa tão notável que fez Kaká passar pelo goleiro neerlandês, no calor do jogo, antes do escanteio subsequente, e perguntar em pleno gramado: “Como você pegou aquela?”

No intervalo, o alerta de Bert van Marwijk foi um pouco mais brusco. Segundo seu próprio relato à revista “Voetbal International”, em 2020, o treinador bradou aos jogadores: “Bando de babacas! Tudo que a gente normalmente faz bem, não fizemos nesse primeiro tempo! Se não formos nós mesmos, a gente vai voltar para casa!” Foi o suficiente: no segundo tempo, veio uma seleção bem mais atenta. E sortuda, como indicou o gol de empate, na bola que Sneijder jogou para a área e encobriu inadvertidamente Júlio César e Felipe Melo para ir às redes. Os batavos sentiram: era possível ganhar. 

Um “doorkopcorner”, como os holandeses chamam o escanteio ensaiado (cobrança, desvio de cabeça, complemento também com a testa), rendeu a virada — com Sneijder, 1,68 metro, cabeceando livre para o 2 a 1. O Brasil estava dominado — ainda mais após a expulsão de Felipe Melo. Só ali, com aquela vitória, torcedores e imprensa começaram a acreditar: a determinação daquele time poderia levar a Holanda a ser campeã mundial. O brilho técnico estava só nos lances de Sneijder e de Robben, é verdade. Mas a dedicação e a praticidade eram vistos naquela Holanda como em poucos momentos da história da seleção dos Países Baixos. Qualidades simbolizadas na dupla de volantes: Van Bommel e De Jong. Eles “destruíam” para Sneijder e Robben construírem.

O Uruguai ainda causou tormentos na semifinal, com seu esforço. Mas Robben fez um gol. Sneijder fez outro. Um chute do capitão Giovanni van Bronckhorst, que encerraria sua carreira tão logo a Copa terminasse, abrira o placar. E com a vitória por 3 a 2, a Holanda estava de volta a uma final de Mundial após 36 anos. Um raro momento de relaxamento foi oferecido pela federação: no dia seguinte, as esposas dos jogadores vieram visitá-los no hotel Sandton Hilton, em Joanesburgo, o local da final. Televisões se refestelaram com flagras da câmera do hotel mostrando um momento de carinho entre Sneijder e Yolanthe Cabau, sua esposa à época. Mas tinha sido só aquilo. Havia uma final a ser disputada, contra a Espanha. E ela colocaria toda a imagem digna daquela seleção a perder — pelo menos, para os ciosos das tradições holandesas de futebol.

Se a torcida não se importava com essas miudezas e queria o título (eram 180 mil pessoas a verem a decisão de 11 de julho de 2010 no telão instalado na Museumplein de Amsterdã), quem tinha na cabeça os cânones ditados em 1974 se horrorizou. Van Marwijk era claro: diante de uma Espanha que tinha na posse de bola e nos passes ofensivos sua grande qualidade, apostaria na firmeza da marcação. Mais precisamente, na firmeza da marcação de Van Bommel e De Jong — que simbolizou isso cravando sua chuteira no peito de Xabi Alonso, aos 27 minutos do primeiro tempo, em lance que atraiu “ohs” de desaprovação até da torcida neerlandesa. Levou o cartão amarelo. Van Bommel já levara. Dois cartões que prejudicaram a Holanda, como Van Marwijk lamentou em 2020: “Em meia hora de jogo eles já tinham amarelo. Não puderam jogar com todo o esforço, sendo que eram muito importantes para nosso estilo. Eram dois volantes complementares.”

Também prejudicou a Holanda um erro. Aos quinze minutos do segundo tempo. Um erro, após muitas práticas nos treinamentos. Ambidestro, Sneijder era bom nos lançamentos longos. Portanto, um dos exercícios consistia na seguinte jogada: quando o camisa 10 dominasse, alguém já sairia correndo para alcançar o lançamento na hora exata do chute. Na hora para valer, Robben fez exatamente isso. Alcançou a bola. Ficou cara a cara com Casillas. Mas tocou em cima do tornozelo do goleiro espanhol, e a bola saiu. “De teen van Casillas” (“O dedinho do pé de Casillas”) entrava para os fantasmas neerlandeses do futebol.

A final foi para a prorrogação. O cansaço holandês aumentava. O nervosismo também — contagiando até os espanhóis. Assim como a violência dos jogadores de laranja —, culminando, enfim, na expulsão de Heitinga. Horrorizava tanto os acompanhantes mais próximos que a revista “Hard Gras”, publicação literária sobre futebol, traria um texto na edição de agosto de 2010 com uma frase lamuriosa: “Quase 40 anos de tradição foram destruídos em duas horas.”

Com um homem a menos, o esforço holandês capitulou no gol de Iniesta que fez da Espanha campeã mundial — não sem antes ter havido um lance que atrai queixas até hoje: um suposto desvio de Casillas, não marcado pelo juiz, que renderia escanteio, antes do tiro de meta que terminaria com o tento do primeiro título mundial da La Roja.

Restou mais um “se” na trajetória da Holanda. O time determinado, pragmático, podia não ter brilhado, mas levara a seleção de novo a uma final de Copa do Mundo. Porém, perdera de novo. E deixara uma impressão ruim na decisão, pelo menos para quem acompanhava futebol mais a fundo. Ser campeão mundial talvez abrisse a versão holandesa de uma discussão comum em outros países: perder como em 1974 ou ganhar como em 2010? De novo, incompetências nos momentos finais não permitiram isso.

2014: aliança quase perfeita

O tempo passou. Uma eliminação vexatória na fase de grupos da Eurocopa de 2012 (última colocada de seu grupo, com três derrotas) encerrara a passagem de Bert van Marwijk pela seleção da Holanda. As brigas haviam retornado no torneio europeu. A dupla de volantes Van Bommel-De Jong estivera presente, e não tivera êxito — além do mais, aos 35 anos, o primeiro já se encaminhava para o fim da carreira. Era necessária uma reformulação.

Poucos seriam melhores para fazer isso do que Louis van Gaal. Até porque, ele tinha sua dívida particular com a seleção: numa relação problemática com os jogadores convocados, numa inflexibilidade exagerada, fizera trabalho desastroso nas eliminatórias rumo à Copa de 2002, na qual a Holanda foi uma ausência até hoje estranha para muita gente. Assim, semanas após o malogrado torneio eruropeu de 2012, Van Gaal foi anunciado como novo técnico da Laranja.

Ao longo das eliminatórias da Copa, o treinador fez três coisas. Abriu espaço definitivo para uma nova geração, destacada pela chegada às semifinais da Euro sub-21 em 2013. Jasper Cillessen, Daryl Janmaat, Stefan de Vrij, Bruno Martins Indi, Daley Blind, Jordy Clasie, Leroy Fer, Jeremain Lens, Memphis Depay: todos eles ganharam a primeira chance na Laranja sob Louis. Em segundo lugar, o treinador comandou a seleção dos Países Baixos numa campanha segura nas eliminatórias da Copa de 2014: com oito vitórias e dois empates, afastou os fantasmas de 2001 — o time liderou seu grupo (contra Turquia, Romênia, Hungria, Estônia e Andorra) —, e garantiu facilmente a vaga para o mundial sediado no Brasil. Finalmente, Van Gaal podia até ser considerado mais flexível, podia até respaldar nomes já experientes como Arjen Robben ou Robin van Persie, mas seguia exigente. A ponto de ter ameaçado Wesley Sneijder: ou o meio-campista cuidava melhor de sua forma ou perigava até perder lugar entre os titulares.

O técnico precisou mudar mais coisas em 2014, o ano da Copa. Se a chave na qualificação fora facilmente superada, ainda faltavam certas coisas para a Holanda se capacitar diante de seleções mais fortes — o que ficou claro num amistoso em 5 de março daquele ano, contra a França, com um inapelável 2 a 0 dos Bleus no Stade de France. No mesmo jogo, uma lesão no joelho forçou a substituição de um dos titulares mais importantes no time de Van Gaal: o meio-campista Kevin Strootman. Quatro dias depois, Strootman jogou pela Roma, contra o Napoli, pelo Campeonato Italiano. Forçando o joelho saudável, ele teve o ligamento cruzado anterior rompido. Lesão mais grave ainda: o meio-campista estaria fora da Copa. Golpe duro nos planos de Van Gaal, que já imaginava: uma Holanda frágil contra a Espanha então campeã mundial e um Chile em plena ascensão corria sério risco de eliminação já na fase de grupos.

Simultaneamente, o Feyenoord vivia uma fase ruim no Campeonato Holandês, com a segunda posição correndo risco. O técnico Ronald Koeman decidiu, então, experimentar: escalou o time com cinco homens na defesa, contra o Groningen, na 27ª rodada. Deu certo: o time de Roterdã iniciou uma sequência de sete vitórias seguidas, que lhe garantiu o vice-campeonato. Aquela alteração tática fez mais: influenciou Van Gaal a mudar seu esquema para a Copa do Mundo. Para proteger a fragilidade da marcação após a lesão de Strootman, o treinador da Holanda decidiu: escalaria a Holanda também no 5-3-2. Até contra sua vontade, cioso que era do 4-3-3 e da tradição ofensiva. Mas Louis já era um sujeito que ganhara maleabilidade com o tempo.

Nos treinos pré-Copa, no balneário português de Lagos, Van Gaal não só colocou o time para praticar aquele novo esquema, como foi firme aos 23 convocados: as coisas teriam de ser daquele jeito. Quem não quisesse aquilo, a porta do hotel era serventia da casa. Num grupo jovem, que respeitava o técnico em sua maioria, a aceitação foi total. De quebra, os veteranos (simbolizados no quarteto Sneijder-Van Persie-Robben-Kuijt, sem contar Van der Vaart, cortado em Portugal, por lesão) compraram a ideia. Prova disso foi o comportamento de Sneijder na reta final de preparação para aquela Copa. Criticado por Van Gaal durante as eliminatórias, chegou a Portugal tendo a forma física elogiada pelo comandante. Mesmo que a relação tivesse desconfianças mútuas de ambos os lados, o respeito e o objetivo maior superavam tudo.

Para tentar manter o equilíbrio entre trabalho e lazer, o local em que a Holanda ficaria no Brasil foi escolhido a dedo: hotel Caesar Park, Copacabana, Rio de Janeiro. Tão logo desembarcou para a Copa, a delegação procurou focar os treinos (feitos no Fla-Barra, o CT do Flamengo), sem deixar de lado a diversão: famílias dos atletas presentes em hotéis das redondezas, caminhadas pela orla de Copacabana, jogos de frescobol na praia, idas a pontos turísticos, até uma visita ao morro Dona Marta. 

No entanto, a comissão técnica notara: antes da estreia contra a Espanha, repetindo o encontro da final da Copa de 2010, a ansiedade persistia entre os jogadores. Partiu de Van Gaal a ideia para minorar aquilo: promover um encontro com os familiares, na véspera da partida, já no hotel em Salvador, local do jogo em 13 de junho de 2014. Objetivo alcançado: o clima já era razoável, mas a tensão pré-partida se desanuviou por completo. Só faltava ver o que aconteceria no gramado da Fonte Nova. Começou mal, com o 1 a 0 para a Espanha — num pênalti duvidoso.

Até que, aos 44 minutos do primeiro tempo, Daley Blind lançou uma bola para a área. Adiantada demais para Van Persie tentar o domínio sem que Casillas, o mesmo goleiro da final de quatro anos antes, chegasse perto. O camisa 9 holandês arriscou: voou para cabecear. E petiscou: a bola encobriu Casillas, 1 a 1. Gol valioso, um dos símbolos daquela Copa. Van Gaal alterou o que não dava certo no time: mal no primeiro tempo, Jonathan de Guzmán deu lugar a Georginio Wijnaldum, que ali começou a virar titular na Copa. Finalmente, a velocidade de Arjen Robben, a habilidade de Wesley Sneijder, o oportunismo de Robin van Persie, tudo isso rendeu uma estreia histórica: a goleada por 5 a 1 estará para sempre no anedotário do futebol holandês como “De wraak van Salvador” (“A vingança de Salvador”).

No resto da primeira fase, mais bons augúrios dentro de campo indicaram que aquele time novato, verdadeira incógnita para muitos, salpicado de veteranos, poderia ir longe na competição. Na segunda partida, a Austrália ofereceu inesperadas dificuldades. Chegava a ganhar por 2 a 1. Para substituir Bruno Martins Indi, que sofreu uma concussão, Van Gaal colocou… Memphis Depay, de 20 anos. Coube ao atacante do PSV fazer o gol da virada: 3 a 2. 

Na lateral direita, nem o titular Janmaat nem o reserva Paul Verhaegh estavam agradando. Poderia ser perigoso diante do veloz Chile. Conhecido pela dedicação, fosse qual fosse a posição em que jogasse, Dirk Kuyt foi improvisado no setor no último jogo da fase de grupos. Deu certo: a Holanda controlou a partida. Na reta final, vieram as chances: um gol de Leroy Fer, outro de Memphis Depay, ambos vindos do banco, 2 a 0, três vitórias em três jogos. A Holanda, de novo, era consistente. De modo mais inesperado do que em 2010.

Mas as oitavas de final é que revelariam o grande símbolo daquela Copa de 2014: Arjen Robben. Se a Holanda era esforçada, se Sneijder já não rendia tanto quanto em 2010, o camisa 11 estava sem lesões daquela vez. E corria. E criava com a bola nos pés. Até debaixo do sol das 13 horas de Fortaleza. Diante de dificuldades inéditas — o México abriu o placar —, crescia o perigo de eliminação. Mas Robben personificou uma Holanda que atacou, atacou e atacou, contra um México que buscava a vantagem. Pela direita, o atacante cavou pênaltis (assumidamente ou não), carregou a bola…e viu Sneijder empatar aos 43 minutos do segundo tempo. Conseguir levar o jogo à prorrogação já seria grande coisa. Ficou melhor ainda: uma polêmica queda de Robben após chegada de Rafa Márquez rendeu um pênalti aos 47. Klaas-Jan Huntelaar (outro veterano) fez 2 a 1. A campanha seguia.

E teve nas quartas de final um dos lances que mais indicou o tamanho do domínio e do conhecimento de Van Gaal sobre aquele grupo. A história começou ainda no hotel, em Salvador, antes da ida à Fonte Nova, para enfrentar a Costa Rica em 5 de julho de 2014. Discretamente, no saguão do hotel, Van Gaal e o treinador de goleiros Frans Hoek chamaram Tim Krul, goleiro reserva de Cillessen. Em rápida conversa privada, indicaram: na hipótese do jogo ser definido nos chutes da marca do pênalti, ele seria o escolhido para defender as cobranças, por sua maior envergadura. Krul ainda pensou: “Certamente não precisaremos disso.” Pelo sim, pelo não, no ônibus que levava a delegação ao estádio, o corpanzil do goleiro de 1,93 metro ocupou sozinho duas poltronas, longe do olhar dos companheiros: sentou-se nelas para cobrir o computador em que via os cantos dos batedores costarriquenhos.

O trabalho acabou sendo necessário. A Holanda bem que tentou: teve mais chances, mas encontrou na Costa Rica um adversário ainda mais dedicado do que ela vinha sendo — principalmente na defesa. A prorrogação transcorria. Titular holandês no gol, Cillessen olhou Krul se aquecendo durante a partida. Um ano depois, confessou ter temido: “Pensei: ‘Eles não vão fazer o que eu acho que eles vão fazer…’” Iam. Se Keylor Navas era um goleiro destacado, Krul roubou a cena: no último minuto da prorrogação, foi colocado no lugar de Cillessen, que deixou o campo frustrado. Para os pênaltis, como Van Gaal e Frans Hoek tinham advertido. Nos cobradores holandeses, só os nomes mais experientes: Van Persie, Robben, Sneijder e Kuijt. Krul pegou dois chutes, de Bryan Ruiz e Michael Umaña. Estava coroada a “goudenwissel” (“mudança de ouro”) de Van Gaal: a Holanda estava nas semifinais, com 4 a 3 nas cobranças, após 0 a 0 em 120 minutos.

A capacidade de todos os personagens daquela campanha acertarem em momentos decisivos — de Van Gaal a Robben e Sneijder, passando por Krul e Van Persie —, passou por seu maior teste contra a Argentina, na semifinal de 9 de julho de 2014, em São Paulo. Num jogo tenso, em que nenhuma das duas equipes errou em 120 minutos para não dar à outra a chance de fazer um gol decisivo, a Holanda teve sua oportunidade nos acréscimos, aos 46 minutos do segundo tempo, quando Javier Mascherano e seu carrinho impediram um arremate de Robben, dentro da defesa da Argentina.

Aí, as circunstâncias levaram a Holanda às desvantagens. Primeiro, na prorrogação: Van Gaal até pensava na “alternativa Krul” para eventual decisão nas cobranças da marca do pênalti, mas teve de abandonar a opção, fazendo a última alteração e colocando Huntelaar no lugar de Van Persie. Muito se questionou o porquê de não repetir o que se vira nas quartas de final, mas o treinador falou (e poucos repercutiram) na entrevista coletiva pós-jogo: “Van Persie estava nas últimas, cansadíssimo.” Já com o 0 a 0 em 120 minutos e a necessidade das cobranças, depois se soube: alguns jogadores se negaram a bater. Por fim, Ron Vlaar e Wesley Sneijder tiveram seus arremates parados por Sergio Romero. A Argentina fez 4 a 2 nas cobranças e foi à final da Copa. Outra dramática eliminação.

Tão dramática que Van Gaal afirmou textualmente seu enfado com as decisões de terceiro lugar — destino da Holanda naquela Copa. Nem o séquito de curiosos que ficara na porta do Pacaembu, local do treino holandês no dia seguinte, empolgou a delegação. Quem começou a, pelo menos, amenizar a situação foi Patrick Kluivert, numa palestra ao grupo de jogadores, após o treino de 10 de julho. Auxiliar de Van Gaal, ele estivera na Copa de 1998, outra dolorida queda da Oranje nas semifinais. Lembrara que o abatimento fora tamanho que até a decisão de terceiro fora perdida para a Croácia. Se não era possível ser campeão, que pelo menos se tentasse a consolação.

A Holanda tentou. Nem foi tão difícil, diante de um Brasil alquebrado pela hecatombe imposta pela Alemanha havia alguns dias. Mas o 3 a 0 que rendeu a medalha de honra à representação dos Países Baixos simbolizou, também, uma impressão inversa à de 2010. Se o time determinado que fora à final da Copa anterior empolgara o país aos poucos, mas confundira pragmatismo com violência e deixara péssima impressão na final, 2014 trouxera uma equipe esforçada, com talento nos momentos certos e nas posições certas, comandada por um técnico que entendeu muito bem as forças e as fraquezas de seus 23 convocados. E que, por isso, levou a Holanda mais longe do que ela imaginava. Mais do que isso: fez Van Gaal dar uma (rara) demonstração de orgulho após a vitória sobre o Brasil. “Este é o melhor grupo com que já trabalhei, em termos de espírito e união. E não é fácil trabalhar sob Van Gaal.”

Desde então, ausente da Eurocopa de 2016 e da Copa do Mundo de 2018, eliminada precocemente na Euro de 2020 (ou de 2021), a seleção masculina holandesa parece em busca de uma situação que a deixe em posição honrosa de novo. Trocando em miúdos: em busca do que viveu na competição de 2014, quando esteve mais perto da aliança perfeita entre o pragmatismo e a diversão de que seu torcedor tanto gosta.