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A rebelião que custou uma Copa à Holanda

Na história da Copa do Mundo, não há um país tão azarado como a Holanda. 90 anos depois da edição inaugural, é a única nação com três finais disputadas e sem levantar qualquer título, para além de mais duas semifinais de dolorosas derrotas contra os gigantes sul-americanos. Se havia uma edição em que os holandeses eram os francos favoritos, essa era a Copa de 1990. Uma rebelião entre os vários jogadores, que compunham o melhor plantel do torneio, custou um título que ainda hoje se resiste à Oranje.

A revolta dos capitães

Marco van Basten. Ruud Gullit. Frank Rijkaard. Ronald Koeman. Hans van Breukelen. Os cinco capitães se levantaram da mesa e saíram do quarto com caras de poucos amigos. Atrás, estava Rinus Michels, o pai espiritual do “Futebol Total” e diretor técnico vigente da federação holandesa, com a expressão séria no olhar e um grande problema em mãos. Uma bomba-relógio pronta para explodir no pior momento possível. Os jogadores, estrelas mundiais e campeões da Europa, todos eles — com PSV Eindhoven e Milan vencedores das três edições da Copa dos Campeões prévias àquela Copa — deixaram bem clara a sua posição.

Faltavam três meses para o Mundial da Itália começar, as ligas e os torneios europeus davam os seus últimos toques, mas todos pareciam ter a cabeça no mês de junho e não estavam dispostos a participar se não tomassem as rédeas num assunto que quase todos os futebolistas estavam fartos: o técnico da seleção. Os jogadores, que tinham seguido Michels com fervor dois anos antes, queriam agora alguém da sua confiança. Queriam um homem que respeitasse o seu estilo de jogo e de vida, longe da disciplina militar que alguns procuravam ainda associar com o futebol de alta competição. Alguém que entendesse que eles eram as estrelas indiscutíveis do projeto, e, ao treinador, cabia-lhe apenas dotar o time de organização com paciência e resignação para que pudessem expressar todo o seu talento. Não foi a primeira e nem seria a última revolta de jogadores holandeses antes de um grande torneio. Mas foi talvez a mais séria de todas.

A Holanda era, aos olhos do mundo, a clara favorita para vencer o torneio, consequência do triunfo na Eurocopa de 1988 na Alemanha Ocidental, mas, sobretudo, do talento indiscutível da esmagadora maioria dos seus jogadores, os mais cobiçados do momento. Os holandeses contavam com um currículo impressionante. Estavam os três heróis de Milão — Rijkaard, Gullit e van Basten — que iam disputar a Copa “em casa”, mas também os campeões europeus com o PSV, como os irmãos Koeman, van Breukelen e companhia, e as estrelas do Ajax, que tinham conquistado a Recopa em 1987, clube no qual pontificavam John van ‘t Schip, Wouters, Witschge, Jonk, Blind e um jovem promissor chamado Dennis Bergkamp. Não havia uma só posição para a qual não houvesse soluções e, ainda que a fase de grupos — com irlandeses, ingleses, ambos rivais no último Europeu, e egípcios — parecesse complexa, ninguém discutia o seu favoritismo. Mas foram internos os problemas que custariam ao país o seu primeiro título mundial.

Libregts, a vítima do complô Cruijff

Thijs Libregts nunca foi um treinador popular ao longo da sua carreira e, depois de ter passado pelo PSV e pelo Feyenoord, teve de emigrar para o futebol grego, onde treinou o Aris e o PAOK, os dois rivais de Salônica, e, em seguida, o Olympiacos. Depois do Europeu de 1988, herdou o time de Rinus Michels para alçar voo ao Mundial, mas, fosse pela falta de apetite dos jogadores — mais concentrados com a exigência dos seus clubes — ou pela metamorfose tática do clássico 4-3-3 para um mais conservador 4-4-2, a verdade é que a Holanda sofreu mais do que o esperado para se classificar à Copa de 1990. Dois empates com a Alemanha Federal, que foi superior nos dois jogos, e vitórias pelo placar mínimo, com gols sempre nos últimos minutos, contra rivais inferiores, como Finlândia e Gales, abriram o caminho rumo à Itália, mas o exigente público holandês não parecia convencido. Os jogadores também não.

Entendiam que o treinador os condicionava com um espartilho tático que impedia, precisamente, tirar o melhor que eles tinham para dar e que funcionara tão bem no Europeu anterior. Ameaçaram um boicote caso o treinador permanecesse no cargo. A federação se viu com um problema sério em mãos. Nomeou Rinus Michels — despedido pelo Bayer Leverkusen — como homem forte do futebol com indicações claras de resolver a situação. Michels recusou voltar ao cargo de treinador, no que seria a terceira ocasião da sua carreira, mas entendeu que, sem os jogadores motivados, o projeto não ia a nenhum lado. Tomou a única decisão viável. Em 26 de março, três meses antes do Mundial, Libregts foi oficialmente despedido pela federação por perda de confiança. Recorreu da demissão, mas acabou por ter de aceitar o fato. O poder dos jogadores parecia intocável. Parecia. O passo seguinte era procurar, in extremis, um sucessor. 

Os jogadores tinham um plano há muito delineado entre os seus líderes. Queriam Johan Cruijff, e o grande ídolo e herdeiro intelectual do Futebol Total holandês queria muito esse cargo. A esmagadora maioria dos jogadores convocados havia jogado ao seu lado ou fora treinada pelo mago holandês. Cruijff era o então treinador do Barcelona, mas o seu Dream Team ainda estava em formação, subjugado pelo apogeu da Quinta del Buitre, a grande geração do Real Madrid que venceu cinco títulos de liga consecutivos no final dos anos 1980.

Salvo pelo triunfo na Recopa, contra a Sampdoria, precisamente nesse ano de 1990, e por duas conquistas da Copa del Rey, a liga continuava a ser território Real Madrid e o seu cargo continuava ameaçado. Apesar de tudo isso, a celebridade de Cruijff na Holanda não tinha rival, e os jogadores adoravam o seu estilo relaxado e a forma como os entendia. Era um deles, alguns jogaram com ele, tanto no Ajax como no Feyenoord, e outros foram lançados pelo técnico quando da sua passagem pelo banco do clube de Amsterdã. Mas Michels e a federação não queriam Cruijff de nenhuma maneira. 

Rinus Michels havia sido o mentor de Johan na sua adolescência, o conhecia melhor que ninguém e temia que o jovem treinador ofuscasse o seu trabalho de dois anos antes com o seu caráter estelar e não estava cômodo em trabalhar com ele desde uma posição fragilizada. Para a federação, o problema era o dinheiro. Cruijff havia feito inimigos na entidade que controla o futebol holandês desde os seus dias como jogador. Foi o primeiro atleta a exigir dos dirigentes um seguro de vida para os jogos pela seleção e a sua guerra contra a Adidas, fornecedor de material esportivo da seleção holandesa, a favor da marca que lhe pagava uma pequena fortuna, a rival Puma, tinha deixado um sabor amargo na sua passagem como jogador da Oranje.

Não jogava nada a favor de Cruijff o fato dele ter evitado acudir ao Mundial de 1978 e não tivesse estado à altura na Euro de 1976, quando o país pensava que tinha tudo para conquistar os seus primeiros títulos depois da histórica exibição na Copa de 1974. Além do mais, Johan não tinha uma trajetória de humildade, e sim um catálogo de exigências difíceis de aceitar para a federação neerlandesa. Exigia que o trabalho fosse “part-time” e exclusivamente para o período entre o mês de março e o final do Mundial para não colocar em perigo o seu projeto em Barcelona. Queria que todo o seu staff no Barcelona fosse incorporado e pago pela federação, que os seus contratos publicitários prevalecessem sobre os patrocinadores da seleção — que ainda era patrocinada pela mesma Adidas que Cruijff renegou vinte anos antes — e que o seu salário fosse o mais elevado da história do futebol para um treinador de seleções. Cruijff sabia também que tinha os jogadores do seu lado e se mostrou intransigente desde o princípio, porque entendia que ninguém no seu perfeito juízo ia estar disposto a contrariar a quase totalidade dos potenciais titulares. Rinus Michels ainda tentou contornar a situação. Numa concentração com os capitães, concordou em fazer algo original. Os jogadores deviam votar no nome que queriam para treinador e a federação ia convidar o vencedor para o cargo. Mas apenas se esse chegasse a um acordo em todos os níveis. A votação aconteceu dias depois.

Aad de Mos, treinador do Mechelen da Bélgica, obteve quatro votos. Leon Beenhakker, que já tinha sido técnico anteriormente, obteve cinco. Os doze restantes votaram em Johan Cruijff, que ganhou majoritariamente. Michels prometeu ao plantel abordar Cruijff, mas, em segredo, já estava negociando com Beenhakker. A estratégia foi simples: encontrar o segundo homem mais popular da votação para garantir uma alternativa sabendo que dificilmente Cruijff e a federação iam chegar a um acordo.

O bode expiatório

Poucos dias depois, a federação deu por concluída a negociação com Cruijff, sem acordo entre ambas partes. Beenhakker foi apresentado na mesma semana, deixando claro que tudo tinha sido feito nas costas dos jogadores, e estes reagiram agressivamente à nomeação do novo selecionador. Inicialmente, ameaçaram boicotar o torneio, e só quando Michels teve uma nova reunião, onde deixou claro que só a questão financeira provocou a não nomeação de Cruijff, a situação se acalmou um pouco. Alguns dos jogadores, no entanto, começaram a mostrar o seu descontentamento publicamente. Van Basten foi forçado a se desculpar por chamar o novo técnico de “idiota”. Gullit, colunista habitual num diário holandês, escreveu ácidos artigos contra Michels e Beenhakker antes de ser proibido, pela própria federação, de publicar seus artigos em jornais até ao final do torneio.

O grupo rachou. Um pequeno grupo de jogadores aceitou a decisão e defendeu que começassem a trabalhar para ganhar o torneio. A maioria, pura e simplesmente, ignorou o treinador. A situação piorou quando o staff técnico trocou uma relaxada vila italiana para o estágio antes do torneio por um complexo quase militar na vizinha Iugoslávia, onde o plantel foi sujeito a uma preparação quase marcial depois de um ano no qual muitos deles terminaram a temporada fisicamente em migalhas, em particular van Basten e o seu tornozelo e o sofrido joelho de Gullit. Quando a Holanda chegou finalmente à Itália, não havia a menor dúvida, dentro da concentração, de que o Mundial estava destinado a ser um fracasso. Jogadores e treinadores não se falavam. Ninguém dirigia a palavra a Michels e diariamente os jogadores se comunicavam com Cruijff por telefone.

Cruijff continuava a pressagiar o pior publicamente na imprensa holandesa, utilizando a tribuna que tinha sempre à sua disposição para culpar a federação pela escolha. Num determinado momento, Beenhakker surgiu perante os jornalistas com um olho roxo, dizendo ter batido em uma parede. O rumor mais recorrente teria sido o de que van Basten o havia agredido com um cinzeiro após uma violenta discussão. Ao contrário do espírito de equipe forjado entre alemães e argentinos — os futuros finalistas —, os problemas entre os próprios jogadores acabaram por aumentar a sensação de boicote.

A fase de grupos foi penosa. Os holandeses não ganharam qualquer um dos seus jogos contra ingleses, irlandeses e egípcios. O seu futebol era previsível e nada inspirado. Marco van Basten, para quase todos o maior atacante do mundo de então, não marcou nenhum gol e, pela primeira vez na história, um sorteio ditou na sorte quem se qualificaria para a fase seguinte. Os irlandeses ficaram à frente dos holandeses e, portanto, teriam um rival mais acessível — a Romênia de Hagi —, e os holandeses tinham agora de bater a Alemanha, um dos times mais fortes do torneio e carrasco histórico.

O último golpe

Um golpe de união de última hora podia ter salvo o dia. Havia qualidade suficiente para isso entre os convocados, e Beenhakker, apesar de tudo, era um treinador competente e talentoso. Mas, durante o jogo em San Siro — ironicamente, o estádio onde jogavam as estrelas dos dois times —, repetiu-se o padrão suicida dos campeões europeus. A expulsão de Frank Rijkaard, depois de ter cuspido em Rudi Völler, foi o culminar da tragédia.

A Alemanha foi mais forte, ganhou por 2 a 1 e se lançou no sprint final rumo ao seu terceiro título mundial. Os holandeses ficaram, uma vez mais, longe do título. Beenhakker, previsivelmente, se demitiu. Muitos dos jogadores anunciaram a sua aposentadoria da seleção. Todos acabariam voltando dois anos depois para o Europeu. Os problemas entre jogadores e treinadores acabariam por ser reincidentes na década seguinte, com o aparecimento de uma nova geração lançada por van Gaal no Ajax e sempre com o fantasma do racismo a pairar sob as concentrações holandesas. Fantasma como o de Johan Cruijff que, nos anos seguintes, especialmente depois de sua saída do Barcelona em 1995, sempre almejou o cargo, mas nunca obteve o comando da seleção holandesa.

No final das contas, no Itália 90, os holandeses foram a mais decepcionante das equipes, uma das piores do torneio, sem qualquer vitória nos quatro jogos que disputaram, algo que, naquela época, parecia tão improvável como anormal. Quando, pouco depois, se soube de tudo o que se passou nos meandros da comitiva, ninguém teve dúvidas: a rebelião dos jogadores tinha acabado de custar ao futebol holandês a primeira coroa mundial.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.