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I am turkish

É difícil encontrar jogadores nascidos na Inglaterra que atuam em clubes além dos limites de seu país natal: dá para contar nos dedos de uma mão os que alcançaram sucesso fora da Inglaterra, a maioria deles no Real Madrid.

Mas Colin Kâzım-Richards não é um inglês típico. Na realidade, não é nem um pouco inglês. Ele se identifica como nascido em Londres, seu sotaque é uma mistura rica de vogais de East-End com entonação e rimas jamaicanas, mas sua herança é a colisão de dois mundos aproximados pela emigração e evacuação econômica, um casamento entre o leste europeu e o caribe, entre Alá e Jeová.

Colin cresceu nos entornos humildes de Walthamstow, no leste de Londres, ao final da linha de metrô Victoria. Kâzım é filho de uma turca-cipriota, muçulmana — que fugiu do Chipre em um avião das forças aéreas britânicas, na década de 70 — com um adepto do rastafari, nascido em Antígua — cujos pais imigraram para a Inglaterra em busca de condições melhores. Londres é a sua casa, mas ele não se sente inglês, pois as comunidades de imigrantes costumam se unir quando começam uma nova vida, ambiente este, então, que o jovem Colin estava inserido.

A trajetória nada ortodoxa da carreira de Kâzım chama a atenção: passou por 13 clubes em sete países, um dos maiores viajantes da bola de todos os tempos. Depois de ter sido rejeitado pelo Arsenal aos 15 anos, ele se transferiu para o Bury, no norte da Inglaterra, clube pelo qual disputou suas primeiras partidas profissionais. Depois disso, foi contratado pelo Brighton & Hove Albion — clube que voltou à primeira divisão na temporada 2017/2018, após mais de 30 anos — a partir do dinheiro que um torcedor sortudo ganhou em uma competição feita por uma marca de refrigerante e, assim, Kâzım ficou conhecido como “o garoto Coca-Cola” no início da carreira. Não demorou muito para que ele fosse jogar na sua terra natal adotada, a Turquia, onde conseguiu se destacar, atuando 37 vezes pela seleção turca, além de ser um dos poucos jogadores a ter cruzado a divisa entre Fenerbahçe e Galatasaray. Kâzım fez uma boa Euro 2008, em especial na derrota para a Alemanha na semifinal do torneio — uma campanha surpreendente da Estrela Crescente. Foi na mesma Turquia que ele se apaixonou pela cultura brasileira, ao ser comandado por Zico e jogar ao lado de brasileiros como Roberto Carlos e Alex, que continua a ser um grande amigo seu.

Kâzım jogou ainda na França, na Grécia e na Holanda, além de ter vencido a liga escocesa pelo Celtic. Há também seu lado bem-repercutido de bad boy. Suspenso do Feyenoord por ameaçar um repórter, dar perda total em carros esportivos na Turquia e discutir com torcedores à beira do campo. Colin não escapa de uma controvérsia, inclusive tendo a desonra de ser o primeiro jogador do futebol inglês a ser punido por fazer um “gesto homofóbico”. Deixamos Kâzım dar a sua versão sobre tudo isso, claro.

Em sua vida pessoal, ele casou com uma brasileira, que conheceu no aeroporto de Genebra, e juntos têm dois filhos bilíngues. Chegou ao Brasil em meados de 2016, depois de assinar com o Coritiba, partindo seis meses depois para o Corinthians, onde o entrevistamos, relaxado e feliz sob a luz do sol.

Uma versão editada desta entrevista foi publicada no jornal The Guardian, em fevereiro de 2017, e pode ser encontrada no site do jornal inglês sob o título: “Colin Kâzım Richards: a lot of my cousins and friends are in jail or dead” [Muitos dos meus primos e amigos estão presos ou mortos].

Antes de tudo, como foram seus primeiros jogos? Vocês não tiveram sorte com aquele toque de mão no fim do jogo. [Corinthians 0-2 Santo André — 11/02/2017]

É mesmo! Ninguém nem falou disso, eu achei que foi um toque de mão claro. Quer saber? Foi uma situação diferente pra mim, porque eu me machuquei, mas me dá a chance de focar na regeneração dos músculos da parte posterior da coxa. A equipe médica aqui tem sido inacreditável, sabe? Eu trabalhei bem de perto com Caio Melo e a regeneração foi incrível, então ele me deu tempo para fortalecer a região. Mesmo que eu tenha que perder jogos, do jeito que o futebol brasileiro é, a gente pode acabar tendo que disputar 80 partidas na temporada, entende o que quero dizer? Então é meio que… antes agora do que depois, a lesão veio num bom momento…nenhuma lesão vem num bom momento, mas foi no melhor possível, tá ligado? Mas tirando isso, o primeiro jogo que fiz, marquei um gol e dei um passe contra o Vasco, o que foi surpreendente para mim, não o gol ou a assistência, mas porque era um torneio amistoso e eles levavam muito a sério, para mim é uma doideira. E é isso que as pessoas não entendem, cada jogo aqui, seja amistoso ou um jogo oficial, eles encaram como vida ou morte, saca o que estou falando?

Você está falando sobre o futebol brasileiro em geral ou o Corinthians em particular?

Estou falou do Corinthians porque não tive uma pré-temporada com o Coritiba, eu cheguei na metade da temporada, então…

Chegou em junho, não foi?

[Olha para seu empresário] Julho, né? (Matheus Assaf acena) Eu cheguei em julho e acabei não jogando até o fim de julho. Mas o Corinthians, tipo, essa Copa da Flórida, normalmente quando você faz uma viagem de pré-temporada é assim, é assado, não é tão sério, mas aqui, mano, foi tipo BOOM! A gente teve uma reunião antes do jogo, todo mundo falava “tipo, escuta, isto é preparação, a gente precisa vencer”. E depois a gente jogou um clássico contra o outro time que estava lá, tá ligado? E foi um dérbi bem duro, eu fui expulso, o que, para mim, foi meio… sei lá. Eu só acho que ter um árbitro americano e ele… Estou tentando explicar para as pessoas que aqui é clássico, é mais do que um dérbi, entende?

Os torcedores gostam disso, gostam do espírito de guerreiro.

Sim! E quer saber, foi um negócio bem louco para mim, é tipo como se eu tivesse encontrado minha casa. É difícil ser um vencedor, mano. As pessoas não entendem que é fácil perder. É difícil vencer, vencer de novo e continuar assim, sabe? É uma mentalidade, é algo que você tem ou não tem.

E voltando àquele lance da bola na mão, quanto tempo depois esses momentos decisivos dos jogos ficam na sua cabeça?

Eu sou terrível, pode perguntar pra minha esposa, eu fico remoendo sem parar. Fico revendo quando eu perco a bola, quando vou bem, o que tenho que fazer, sabe, sem parar. Eu não durmo depois dos jogos. É bem difícil dormir depois de um jogo.

Sempre foi assim?

Sempre. E tem aquilo, sabe, das pessoas falarem sobre mim sem me conhecerem. O que é de boas, é meu emprego. Gera perguntas, gera conversas, saca? Mas tem um limite onde as coisas precisam parar. Quando você começa a falar da pessoa em si, não do trabalho que ela faz, é aí que se torna… (longa pausa) Já é passado, entende? É apenas ridículo.

A sua esposa foi vital para a sua vinda ao Brasil?

Não. Por ela, mano, eu poderia jogar em outro lugar que não tem futebol. Você sabe que eu não quero dizer…É isso que eu acho, que as pessoas pegam falas que eu disse, então preciso ter muito cuidado, entende? Vamos colocar assim: ‘algum lugar onde não se joga futebol’ e ela estaria comigo, sabe? Meus filhos estariam comigo. Muitas pessoas não fazem isso, saca? Eles têm a estrutura onde os filhos estudam e tudo mais, [as crianças] vivem em Londres e eles trabalham em outro lugar. Não estou desrespeitando ninguém, manja? Minha mulher, não é que ela não faria isso, mas ela acha é que benéfico [ficar mudando de país com os filhos] porque ela sabe o tipo de pessoa que sou. Não tem nada de errado com ela, só quer ficar comigo, é benéfico ficar todo mundo junto. Claro que a gente conversa, não é algo como “certo, nós vamos para tal lugar agora!”. Óbvio que pergunto o que ela acha. E ela me responde, mas no fim das contas ela é mais do tipo “escuta, onde quer que a gente precise ir, a gente vai”, sabe?

E você a conheceu num aeroporto, certo?

Sim, ela estava trabalhando em um aeroporto em Genebra.

E como as crianças estão lidam com as mudanças?

Bem, as duas começaram a escola, estão gostando muito. Fora que aqui é um país que se baseia muito em crianças. Tem muita coisa pra criança aqui. MUITA. Tem dias diferentes como Festa Junina, tanta fantasia, sabe? Dias de se vestir com fantasia. Eles amam isso, cara.

E como é o português deles, melhor do que o seu?

É fluente, eles falam inglês e português perfeitamente.

É o Caio e…

Caio Antonio e Taliyah Belle. Caio é dois anos mais velho que a Taliyah.

A Taliyah gosta de pintar as suas unhas, então eu trouxe dois esmaltes nas cores preto e branco, para ela pintar suas unhas nas cores do Corinthians.

Obrigado! (risos) Mano, uma vez eu fui num treino do Coritiba com as minhas unhas do pé pintadas, eu esqueci de verdade, sabe? As minhas unhas estavam pintadas!

Qual cor?

Bem pink com glitter por cima.

Você sabe o quão homofóbico o Brasil é, então alguém te zoou por conta disso?

Não, aqui pode ser homofóbico, mas no fim do dia as pessoas realmente colocam seus filhos em primeiro lugar. Então eles compreendem mesmo, sabe? É algo que eu tenho mesmo que elogiar, se eu tivesse me fantasiado com meus filhos, eles não iam falar nada. Colocam os filhos em primeiro lugar, são muito ligados à família. As crianças estão aqui em qualquer dia, pode ser o dia antes do jogo. “Ok, você precisa trazer seu filho? Sem problemas”. Eu elogio isso. Então quando eu entrei lá [no vestiário do Coritiba], e porque sou eu, falaram: “O monstro está com as unhas do pé pintadas”. (risos) E quando eu expliquei, eles disseram “legal” [Kâzım faz o sinal de joinha], isso é top. Escuta, mano, eu sou muito homem, mas no fim do dia eu faço o cabelo da minha filha porque eu me animo com isso, é algo que…Eu quero fazer aulas de cabeleireiro para poder ajeitar o cabelo dela de verdade, saca? Não posso mexer no cabelo do meu filho, ele é um garoto, não liga se o cabelo dele está escovado e essas coisas, sabe? Minha filha acorda e quer um tipo de trança naquele dia, ela quer tal presilha no cabelo, saca? Então, para mim, se ela quis pintar minhas unhas, sem nem pensar duas vezes eu falei “ok, vamos, filha. Que cor você quer?”.

Sobre a cultura daqui, eu sei que você é um grande fã de música, te vi cantando rap com corintianos nos EUA. Você teve alguma troca cultural? Algum dos jogadores te passou música brasileira para escutar?

Você precisa lembrar que, antes de eu conhecer minha esposa, tinha tipo 12 brasileiros no Fenerbahçe, então estava sempre acostumado a ouvir música brasileira. O jeito brasileiro, a cultura brasileira. Mas aqui a gente tem um grupo [de Whatsapp], eles me mandam músicas, algumas são boas, outras ruins, como em qualquer lugar, saca? Com meus filhos eu preciso estar atualizado, eles vão pra escola agora, se meu filho gosta de certa música ele vira e fala “papai, coloca aquela lá, sabe?”.

Ele escuta funk?

Sim, ele gosta da taakaa takaaa takkaa [Bumbum Granada]. Ele gosta muito dessa.

[Risos] E você não se importa dele ouvir essas músicas?

Não! É algo que ele gosta, tá ligado? Mas eu ainda preciso explicar para ele: “ok, estamos cantando, mas não leve tudo a sério, é só música”. É como ver desenho, mano, você entende? Se você vê Peppa Pig, Bob Esponja ou o Mickey Mouse.

Tom e Jerry é bem violento.

Tom e Jerry! Saca? E então, como pai, eu preciso explicar isso para ele e depois ficar em cima, sabe? No fim do dia tem certos filmes, certos desenhos… Eu deveria proibir ele de ver TV e coisas assim? Tipo, você precisa balancear como com qualquer coisa na vida, entende, mano? Se você bebe muito refrigerante, vai engordar, mas não vou chegar e falar pra alguém não beber só porque não bebo. É balancear.

Você postou no Twitter a pergunta dele sobre o porquê de Deus colocar pessoas pobres no planeta.

Esta foi a pergunta mais difícil que eu já tive de responder. É algo que foi muito difícil mesmo responder porque eu não sei a resposta. Então eu nem cheguei a responder, só disse “Quer saber, Caio? Papai vai ser sincero com você, não tenho idéia”.

Você tem a sua própria escolinha em Londres, já pensou em fazer algo assim aqui no Brasil?

Bem, meu empresário está aqui, já pensamos sim. É algo que é bem…Mano, eu tenho investido dinheiro em muitas coisas, sem nenhum retorno financeiro, é só que eu tenho… Como posso dizer? Prazer pessoal. E é algo que eu não falo na imprensa, porque é coisa que não precisa ser dita. Eu faço coisas que eu não entendo a necessidade de ter dez câmeras filmando. Então para mim, tipo, a maior parte do que faço não precisa ser dito. As pessoas que recebem minha ajuda sabem e o meu Deus sabe, tá ligado? Qualquer outra coisa fora disso, mano, não precisa ser feita porque daí se torna falsa. Todo mundo tem a sua opinião, mas eu acho que se torna algo para o próprio ego ou para os outros verem. E é este o motivo que eu tive problema com a imprensa, porque nunca conseguiram ligar no meu celular, mano. Eu sempre mantive a distância entre mim e a imprensa, muitos jornalistas não gostam disso. Eles gostam de poder perguntar “quem vai jogar hoje? Qual é a escalação do time? O que o técnico disse?” Nunca nenhum jornalista teve meu número.

Isto sempre foi uma tática sua?

Sim, porque sempre tem que ter esse vão. Sempre tem que ter. É obrigação sua fazer o trabalho jornalístico, apurar as coisas. Não preciso ficar te ligando pra contar o que aconteceu. Tá, a gente pode ser amigo, mano, a gente pode. Mas daí tem uma linha limite, tá ligado? É como o meu amigo Matheus. Ele é meu empresário, mas é meu amigo, um dos meus melhores amigos. Mas há um limite, não posso sair perguntando o quanto os outros ganham. Não posso, saca?

Houve situações específicas que você sentiu que passaram do limite?

Dezenas! Uma vez quando fui jogar na Holanda. Na Turquia, a imprensa não tem respeito pelos jogadores, eles acham que mandam em nós. E por isso que não há leis na imprensa…. Sabe? as histórias sobre sexo que saíram sobre mim na Turquia, as pessoas não conseguem entender que eu processo todo mundo, mano. Processei o The Mirror, The Sun, Bilder, L’Equipe e ganhei todas as vezes, mas não posso fazer isso na Turquia, porque eles escrevem matérias mas o jornalista não assina. Então o jornal não pode ser processado porque eles falam “bem, não sabemos quem escreveu isso”. Isso é uma mentira de merda porque é a porra do seu jornal, desculpa o linguajar, então se não tem lei eles podem escrever o que quiserem e não terá consequências. Pra mim, isso serviu para eu me preparar e ficar tipo “tá, beleza, querem jogar assim?”. Todos nós podemos fazer isso. Porque você precisa de mim, tá ligado? Foi o que aconteceu.

Como devo te chamar? Colin?

O que quiser, cara. Colin, Kâzım, Kaz, as pessoas me chamam de tudo. Meu nome é Kâzım, aqui eles pronunciam “Kazeem” e eu respeito isso.

Como seus amigos te chamam?

Em casa? Eles me chamam de Kaz. Meu nome deveria ter sido Colin-Kâzım, não Kâzım-Richards.

Você é o único Kâzım-Richards no mundo?

Eu sou o único. Bem, meus filhos agora são Kâzım-Richards, e meu irmão quer mudar o nome dele.

Realmente você é um cara singular. A sua carreira tem sido incrível…

Bem, eu fico feliz que você acha isso [Kâzım pára, sorrindo melancolicamente]. Muitas pessoas do Reino Unido costumam ter outra opinião, mas podemos falar disso depois.

Podemos falar disso daqui a pouco. Eu queria saber quais foram os momentos mais inacreditáveis para você. Quando você relembra do jovem garoto em Leyton, quais foram os momentos que você alcançou na sua carreira que teriam levado aquele garotinho à loucura?

Cara, eu tive tantos momentos. Bons e ruins. Minha vida tem sido louca, mano. Claro que a transferência para cá [Corinthians] foi uma loucura, cara.

Com 11 clubes em sete países, a tentação seria interpretar que ou você está procurando algo ou fugindo de algo. Qual das duas coisas?

Se for olhar pelo lado psicológico, eu poderia entender você falar isso. Mas para mim, mano, eu tenho usado o futebol como uma ferramenta para ver o mundo. E as pessoas deveriam respeitar isso. Deveriam aplaudir o que eu já fiz, tá ligado? As pessoas tentam me marcar como um viajante da bola. Que viajante ganhou o que ganhei? Jogou nos times que joguei? Qual viajante tem alguns dos melhores jogadores do mundo ligando no seu telefone para pedir coisa?

Quem te liga?

Não vou falar, é pessoal, seria ruim falar, mas vocês todos podem ver no meu Instagram, no meu Twitter, eu tenho amigos que são os melhores no que fazem. Não tem discussão. Seja na música, no basquete, no futebol, entende? Eu tenho amigos.

Tem alguma transferência de que você se arrepende? Você já comentou antes sobre a ida para o Olympiacos.

Comentei, não me arrependo. Mas o jeito que eu deveria ter partido e deixado a equipe, eu acho que é isso que a gente errou. Mas não me arrependo de nada que eu fiz, de nada mesmo. Na minha vida, no futebol, não há nada de que eu me arrependa, mas poderiam ter sido diferentes, você fica pensando que poderia ter feito melhor, não dá para ser tipo cara que fala “não, tudo que eu já fiz é perfeito”. Não é assim comigo. E eu nunca fui sempre certo nas coisas que fiz, tipo, eu estava errado, mas ainda assim não me arrependo, porque na hora eu achava que estava certo. Mas quando você olha agora e reflete, não havia necessidade de eu ter ido embora.

E tem alguma coisa que você se arrepende por não fazer? Alguma oportunidade que surgiu e você recusou?

Não. Tudo deu certo para mim, sabe? Eu estou aqui agora, mano, isso aqui é tipo…As pessoas não entendem o quanto esse clube é grande, tipo, você vive aqui, cara, você entende o que estou falando? Este é um dos maiores times do mundo, tipo, sem sombra de dúvidas, você tá ligado que joguei em grandes clubes? Cara, mas este é “gigante”, sabe? É diferente.

Quando você percebeu isso?

Quando eu cheguei aqui.

Qual é a diferença? Tem a ver com os torcedores, com a imprensa, com o clube, com o quê?

Com tudo, mano. Quando eu cheguei no Brasil, foi quando eu me toquei, porque você precisa entender que só tem uns quatro anos que estão passando campeonatos de outros países na Inglaterra. Nunca fizeram isso antes, saca? Tipo o que a BT Sports tá fazendo agora…

Você se lembra do Italia 90 quando era criança?

Sim, mano, no domingo essa era a minha onda!

Era a única liga que passava.

Sim, mas pararam de passar depois de quanto tempo? E foi porque a liga italiana na época era a melhor liga, né? Mas tirando isso, não mostravam outros campeonatos, mano. Eles [britânicos] poderiam aprender muito com outras ligas, agora eles estão começando [a transmitir], tem Brasileirão no BT Sport, a liga alemã, saca? O futebol, pra mim, é tecnicamente melhor do que temos na Inglaterra. Tá ligado? Não estou falando que a Premier League não é a melhor liga do mundo, só que tem outros campeonatos que nem são tão grandes, mas são melhores tecnicamente do que o da Inglaterra. Se a gente tirar todos os estrangeiros de lá, o quanto tecnicamente bom seria o campeonato inglês? E é isso que as pessoas não conseguem entender, elas chegam com aquela merda de Brexit. Vamos então parar de deixar todos os estrangeiros entrarem, cara. Entende o que quero dizer? E vamos ver no que dá.

Vamos falar disso em breve. A quantidade de vezes que você mudou de time precisa de muita personalidade. Da onde vem isso? Você é um dos mais falantes, um dos caras que faz mais brincadeiras.

Mano, é porque eu gosto de retribuir. Por isso eu sou muito falante… Eu gostaria de ter tido isso quando eu era jovem, não tive durante meu crescimento. No futebol, eu sou a primeira pessoa da minha família a fazer algo assim. Eu venho de duas famílias de imigrantes, tá ligado? Então meu pai foi se virando. E ele se virou de forma inacreditável, sabe? A família da minha mãe… A minha avó, ela não fala inglês.

E seu pai nasceu na Inglaterra?

Meu pai nasceu na Inglaterra, mas é claro que eles [a família do pai] vieram de fora. Ele é sortudo, mas só nasceu na Inglaterra. Estamos longe de ser uma família inglesa.

E o que você se lembra da sua infância em casa?

Pra mim, cara, eu fui um dos primeiros… nasci na década de 80, sou de 86, vou te falar que por volta de 83 é que se começou a ver bebês de raça misturada, saca? Não era a regra. Então a minha mãe e meu pai tinham que lidar com isso, meu pai em especial. Ele enfrentou skinheads como numa guerra, lá em Walthamstow, pra ver o tamanho do buraco.

Você acha que puxou esse lado guerreiro dele?

Do meu pai? Com certeza. E da minha mãe também, cara, minha mãe foide uma das primeiras famílias turcas, minha mãe é… como posso dizer isso? Deixa eu buscar a palavra certa [olha no celular as respostas escritas antes]. Nem chegaram em um avião normal, mano, vieram em um avião do exército. Tá ligado? Do tipo que você vê em filmes, segurando no assento, cinto e tudo mais, foi assim que minha mãe e a família dela vieram. Então eu acho que puxei isso deles, sabe?

Você se sente turco ou se sente um pouco inglês? Sente essa mistura?

Escuta, eu nasci na Inglaterra, mas… É uma pergunta difícil, porque as pessoas podem tirar isso do contexto, sabe? O que eu vou falar, mas que se foda… Meu sangue não é inglês, mano, tá ligado? Eu respeito a Inglaterra. Não deram nada pra minha mãe e pro meu pai, mas deram uma… plataforma. E depois era tudo na conta da minha mãe, do meu pai e de toda a nossa família conseguir tirar alguma coisa disso, o que 95% da gente falhou. Mas eu tenho sorte, meus pais tiveram mais perseverança comigo e eu pude fazer algo com a minha vida, mas muitos dos meus primos e dos meus amigos estão presos ou estão mortos, saca? Então é tipo… Eu me sinto inglês? Não. Eu não vou dizer “sim, sou inglês”, sabe? Porque na minha infância, lá em casa era [criação] caribenha e turca. Nunca comi peixe e batata, mano, minha mãe cozinhava comida turca e do oeste da Índia. Se fechar os olhos, acharia que minha mãe era negra ao cozinhar, ela sabe fazer cabra com curry, inhame, batata doce, arroz, frango, frango frito, frango cozido, bolinho chinês… Foi assim que eu cresci. E a gente ia pra casa da minha avó uma vez por mês e lá tinha muita comida louca! Pra pessoas que nunca tinham dinheiro, não sei como faziam isso.

Você tem boas lembranças daqueles dias, foram difíceis?

Eu nunca mudaria a minha criação, nunca…as pessoas não conseguem entender, mas isso me fez a pessoa que eu sou, me deu as reflexões que eu tenho sobre o mundo, me deu o caráter de poder ser quem sou. Muitas pessoas na minha situação estariam quebradas, mano. Houve muitos momentos na minha carreira em que várias pessoas tentaram me quebrar, sabe? Com esses lances de imprensa… Mas é o que é, tá ligado? As pessoas temem o que é diferente. Então eu fico contente com isso, sabe? Tipo, beleza.

Você posta no Twitter sobre a Turquia, você usa muito a bandeira da Turquia. Você se sente patriota?

Eu sou um pouco patriótico, claro que tem outros turcos que sabem bem mais do que eu. Vamos ser claros. Qual é? Eles falam turco melhor do que eu, mas o que eu fiz pelo meu país as pessoas não podem nem questionar, fomos terceiros na Euro [2008], eu tive meu rosto em selos, mano! Cada jogador que chegou em terceiro… Eu tenho uns cem selos, estampas oficiais. Sabe o que é isso, selos numa carta?

Sim, vocês estiveram bem próximo da final.

Mano! Por quanto, dois minutos? E tem muita coisa que está acontecendo no mundo por conta de outros países, que, pra mim, se eu não fosse turco, já teriam me ouvido. Sabe? É, vamos deixar isso por aqui.

Depois do gol que você marcou pelo Coritiba contra o Atlético Paranaense, você falou sobre o terrorismo.

Sim, porque você precisa entender que tem uma diferença entre a polícia e o exército na Inglaterra e na Turquia. Você não tem essa escolha na Turquia, mano, você precisa ir. Então tem uma criança, que tem 18 anos, nunca pegou numa arma. É diferente do policial que escolhe esta profissão e fica incomodando as pessoas na Inglaterra, ou nos EUA, na Holanda, na França. Estou só dando exemplos de países em que joguei e tive problemas com a polícia. Então, pra mim é, tipo, essas crianças não pediram para estar no exército, não têm escolha. Você precisa fazer isso e fazer isso por muito tempo. Meus primos serviram. É algo que as pessoas falam muito, mas, mano, sabem o que estão falando? As pessoas reagem “por que vocês falam sobre o Brexit?” Mano, o que você está usando [pra fazer essa pergunta], é algo que me afeta. E mesmo se não me afetasse, todos têm uma opinião, por que não posso falar algo? O que, por que jogo futebol? O que, por que tenho dinheiro? Mas ninguém sabe que 95% da minha família ainda mora na quebrada.

Onde eles moram?

Em East London, South London, West London, Leyton, Walthamstow, Hackney, Tottenham, qualquer lugar. Pra mim, esses caras na Turquia, eles são crianças, mano. São crianças. Então pra mim, tipo, sem querer desrespeitar e tal… O que aconteceu na França, na Bélgica…é uma loucura. Coisa que nunca mais deveria acontecer… Mas as coisas que acontecem na Nigéria, na Turquia, as pessoas não se importam, não dão a mesma atenção na mídia. Tipo o que está acontecendo na Costa do Marfim, e eu entendo a política, mas no fim do dia nós somos todos humanos, cara. Cada um deveria ter a mesma voz.

E como se sente com relação ao governo do Erdoğan? Porque…

[interrompe] É algo que eu não acho que a gente deve tocar, cara. Não é bom pra mim ou pra alguém falar sobre isso [ri de nervoso]. Porque é algo que… Se eu penso que é bom ou ruim pode ser tirado de contexto e depois criar problemas. Podemos falar sobre a política inglesa porque isso é, tipo, estável. Não pode ser preso por isso [risos].

Fernando Martinho: A gente pode colocar que não podemos tocar nesse assunto?

Sim, eu acho que não é só o meu caso…Eu posso dar a minha opinião sobre as pessoas que explodem outras na Turquia não perceberem que estão explodindo crianças, mano.

Você se preocupa com o futebol como um possível alvo do terrorismo?

Sim! Saca só o que aconteceu no estádio do Beşiktaş, eu acho que cada vez mais eles vão se aproximar e outros países estão manipulando as situações, em benefício das suas causas… Banir os muçulmanos. E então tentam dizer que não é banir os muçulmanos, qual é? Mano, eu não sou muçulmano, mas a minha família é. Tem tudo isso em jogo. A principal questão é que as crianças estão sendo explodidas. O pai do meu amigo foi explodido no ônibus. Umut Bulut, eu joguei com ele no Gala e na seleção… Explodiram o pai dele num ônibus em Ancara. Ele é um dos caras mais legais que já conheci, mano, e essa merda toda é muito dolorosa.

Você se sente confortável em falar sobre Deniz Naki?

Não, não, deixa isso pra lá. Tem gente na minha família que é curda, tá ligado?

O seu posicionamento é particularmente interessante para falar sobre o Trump e o Brexit, porque você tem várias origens, já falou sobre o banimento dos muçulmanos, sobre Brexit… O que pensa sobre a posição da Grã-Bretanha agora na Europa e como isso afeta você e sua família em particular?

Mano, eu sento e leio muito sobre essas coisas e vejo muitas paradas serem ditas sobre isso e aquilo… E, pra mim, é preciso ter noção que todos esses “grandes países” foram construídos por imigrantes, alguns foram construídos por escravos e tudo isso é uma lorota de merda, manja? Tem outras coisas que precisam ser tratadas mais do que o Brexit, e eu acho que se você não rir sobre a situação de vez em quando, você vai acabar se matando. Porque é tão ridículo, tão ridículo, tá ligado? Na verdade, se voltasse cinco anos atrás, você ia conseguir prever isso? Não ia. Agora você vai precisar de visto para entrar na Europa. Para pegar um voo de 20 minutos para a Holanda, vai precisar de visto. Pra mim é ridículo, outra coisa para se preocupar.

Eu queria falar sobre racismo. Eu li que você passou por isso no vestiário, no começo da sua carreira no Bury, com pessoas colocando bananas nas suas roupas e coisas assim.

Quer saber? É mais do que só racismo, é ignorância e racismo. Se torna racismo depois que você fala pro cara a primeira vez, tipo, “mano, eu não gosto disso, não é algo que brinco”. E daí se torna racismo, porque primeiro eu acho que é mais ignorância, mas depois vira mesmo racismo porque eles não te escutam, ainda acham que é engraçado. E então você rebate e fica marcado como um bad boy. Algumas pessoas não gostam disso, como eu não gosto quando ia jogar e ia de Londres até Manchester. Esses foram os momentos mais difíceis…tipo, eu sou de Londres, de “Laaandan” [Kâzım imita o sotaque típico londrino] e fui para o Bury, mano, foi a transferência mais dura, saca? Tipo, culturalmente falando… Como dizer isso com belas palavras? Tá, eu vou falar e você escreve do jeito que quiser. Mas em termos de cor, não tinha preto lá [em Bury], maluco. A comida era tensa pra mim e tudo isso foi acumulando. E daí você vai no treino e acham que é engraçado colocar bananas no seu armário e, tipo, cortar seus sapatos, mas não entendem que meu pai não tem dinheiro, mano. Eu ganhava £45 por semana, não dava pra comprar sapatos novos toda hora, mano. Tipo cortando seus cadarços e fazendo um buraco na virilha da sua calça e merdas assim. Eles não entendem o quanto meu pai trabalha duro. Mano, eu limpava minhas chuteiras com escova de dente. Tá me entendendo? Então foi isso que aconteceu lá.

E se você pudesse voltar e dar algum conselho para o pequeno Kâzım que foi para o Bury, qual conselho seria?

Isso é algo que eu não mudaria. Nada. Eu acho que agi 100% correto naquela situação. Porque não tem conselho que dá pra dar nisso, porque eu fui colocado em uma situação que, no fim, eu me beneficiei. Mas se eu não tivesse a minha personalidade, não teria tido perseverança, sabe? Foi difícil lá.

E qual é a maneira que você acha correta para os jogadores reagirem a esse abuso? Teve o Kevin-Prince Boateng, que saiu de campo e os seus companheiros o acompanharam, pelo Milan.

Isso é bom. É do caralho.

Acha que é a coisa certa a fazer?

Não dá para falar isso. Não dá… Já aconteceu comigo, jogaram bananas em mim, mas elas estavam tão ruins que nem deu pra comer. Então só ignorei. Depois teve vezes que eu reagi com “legal, foda-se”, tá ligado? O que é isso? Eu não consigo entender, sabe? Eu acho que é algo que vai piorar antes de melhorar, porque agora com os muçulmanos eles estão generalizando tudo, porque é mais fácil dizer muçulmanos em vez de preto, branco, amarelo, verde, roxo, tá me entendendo? Os muçulmanos podem ser tudo, qualquer cor… Então em vez de dizer “os morenos” ou “os pretos”, é mais fácil só falar “muçulmanos”.

E você concorda que um atleta deveria poder usar sua plataforma de exposição para expressar suas opiniões políticas? Colin Kaepernick, por exemplo, ajoelhando-se durante a execução do hino nacional americano.

Eu acho que eles merecem ter a mesma voz que qualquer um, serem levados a sério como qualquer um. Se você é um homem que trabalha das nove às cinco no McDonald’s ou um atleta, a diferença é só a plataforma. Muitas pessoas que gostam de política ficam falando “mas você é só um atleta”. Mas eu acho que ele foi muito respeitoso no ato, ele fez de um jeito que eu não teria feito. Como podem achar que foi um gesto desrespeitoso? Por que deixam de levar a sério isso?

Não precisamos falar sobre os incidentes, você já comentou bastante sobre eles, mas eu estava me perguntando se você sente que, talvez, a cor da sua pele facilitou as pessoas te marcarem como um bad boy ou talvez…

[interrompe] Eu acho que, se eu fosse de outra cor, sim, vou falar na lata, se eu fosse de outra cor, vindo da Inglaterra, né? Minha carreira teria sido usada como um modelo em vez de “ah, ele é um viajante da bola”, porque eu não combino com esse nome, saca? Mano, eu joguei por alguns dos maiores times do mundo, Champions League, Eurocopa, eu estou jogando agora em um dos maiores clubes do mundo. E eu acho que, se outra pessoa tivesse feito isso, com um nome diferente, uma cor de pele diferente, eles falariam: “Olha só! A Inglaterra não é o único caminho. Você pode fazer o que quiser, você pode mesmo!”. Mas porque sou eu, eu vim de onde vim e eu retorno para onde retorno e tento ajudar pessoas que vieram de onde eu vim. E, mano, não é um lance de preto/branco, tá ligado? Da onde eu venho é preto, asiático, turco, somali, de onde eu venho é assim. Eu acho que, se eu fosse de uma cor diferente, e se eu viesse de um lugar diferente, então eu teria mais atenção da mídia. Olha só o Raheem [Sterling] e o Pogba, por exemplo, quando não fazem um bom jogo todo mundo cai matando neles, é uma loucura, mano. Entende? E depois você pega outros jogadores, ninguém fala um pio… Não vou dar nomes, mas todo mundo… Ninguém fala do jeito que falam com esses dois, tipo, uma vez eu vi num jornal sobre o Raheem ter ido numa loja de 1,99 e todo mundo ficou aloprando, “nossa, ele merece só isso”. O quê? Não pode comprar numa loja assim, mano? Ou “caramba, ele está bebendo”. Você viu o artigo? Ele estava bebendo água com gás [risos], eles ficam falando do jeito que ele estava bebendo água, como se ele estivesse provocando as pessoas. E eu fiquei tipo “mas que caralho?”. Já viu algo assim antes? Você sabe o que o futebol faz, mano. Agora, isso não tem nada a ver com cor. Ele faz o oprimido poder superar isso, é um dos únicos esportes no mundo, mano, que consegue frequentemente fazer isso. As pessoas pobres ficam super ricas e quem é privilegiado não gosta disso. É isso. Raheem veio da Jamaica, e então ele venceu. Pogba, acho, veio de Guiné [os pais dele vieram de lá e ele nasceu na França], e ele conseguiu vencer. As pessoas não gostam disso. Minha família veio da Turquia, norte do Chipre e da Antígua, as pessoas não gostam disso. É essa a principal questão, mano. E eu realmente acho que se meu nome não fosse Kâzım, ou Richards… porque Colin pode ser branco ou preto [risos], sabe, e se minha pele fosse um pouco mais clara. Mano, vou te dar um exemplo, só olhar pra Inglaterra, pras seleções da base, sub-12, 13, 14, 15, todos são garotos negros. Mas quando você olha pra cima, quantos realmente conseguem chegar na principal, cara?

E por que acontece isso?

Você me fala o porquê! Você me fala o motivo, meu irmão!

O que você acha que há de errado com o sistema? Você surgiu por conta dele, começou no Arsenal e jogou em vários clubes da Inglaterra, qual seria o problema com o sistema no Reino Unido?

Certo, por exemplo, e esta é uma história real, certo? É uma história louca. Escuta só, mano, pra mim, a última coisa que eles analisam na Inglaterra é o futebol. O jeito que você fala, o que você veste, o que usa no cabelo. Eles até falam pra você usar chuteiras pretas. Isso é a última coisa que eles falam aqui [no Corinthians]. Tá, não pode usar verde, eu entendo. Mas a gente pode usar o que a gente quiser, mano. Se a Nike não faz chuteiras pretas, como você vai tê-las? Mas se eu respondesse isso para o meu treinador, eu sou a criança-problema. Entende? Quando eu tinha 15 anos, não podia comprar chuteiras. Ganhei umas da Mizuno, da Nike, e essas eram as que eu tinha que usar, porque não podia comprar, tá ligado? Mas na Inglaterra, a última coisa que analisam é a sua habilidade no futebol, e a primeira coisa é “ele chegou, olha o que tá usando hoje, olha a risca no cabelo”. Mano, isso é de onde eu vim, saca? E um dos garotos que eu estava ajudando, do meu time, fez um teste. Não vou dar o nome do time ou do garoto, porque não é justo. Tipo quando eu estava falando sobre divulgar as coisas que faço, não gosto disso, mas esse lance precisa ficar claro. Esse moleque tinha um teste num clube grande, num clube da elite. O treinador ligou para o celular dele, mano, e ele não atendeu. A mensagem de caixa postal era uma zoeira, tipo “Olá?…Olá?….” e o treinador ficou falando. No fim ele disse “quer saber? Você não tem caráter, não queremos você”. Tudo porque ele tinha uma zoeira na caixa postal, meu irmão! Terminaram o teste dele. Tá entendendo o que quero dizer? E esta é a situação, mano. No Brasil, cara, vocês têm garotos que vêm da favela, meu, que ainda moram na favela. Tem certas coisas que estão na cabeça do moleque e outras que ele ainda precisa lidar.

Falando sobre a Turquia, é claro que na Inglaterra a situação é um pouco diferente, mas na Turquia e no Brasil você vê o mesmo tipo de contraste na riqueza? Como você compara essas duas culturas e comunidades neste aspecto?

Só de olhar dá para perceber que não há comparação entre o Brasil e a Inglaterra. Eu vou falar sobre esses dois países porque a Turquia é a mesma coisa [que o Brasil], quando você sai de Istambul, mano! Parece que você está em outro mundo. É tipo aqui, mas não precisa sair de São Paulo pra perceber isso. Você passa por esses lugares, tá me entendendo? Mas na Inglaterra isso fica escondido, o que é pior ainda. Tá ligado? Fica escondido. Não dá pra ver de fora. Não me entenda errado, não quero entrar em política, mas aqui é ruim e às vezes te deixa triste, te faz sentir egoísta, “eu deveria estar curtindo realmente meu dia?”. Entende?

Aqui você abraçou o “Gringo da Favela”.

Sim, porque o que eu tentei explicar pra eles, talvez você consiga escrever melhor, é que eu não sou da favela deles, não temos favelas, mas sou de uma área que tem as mesmas injustiças e o mesmo tipo de política de onde eles não querem que as pessoas vejam. Se pegarem um cara da favela, mano, se ele souber jogar, garoto! Ele vai surgir, eles vão pegar o dinheiro e vender ele por 50 milhões.

Bem, olha só o Gabriel Jesus.

Verdade. Na Inglaterra, mano, se ficar entre um garoto que veio de Leyton e um que veio de Hertfordshire, eu te garanto que, em nove de dez vezes, o moleque do Hertfordshire vai ter chance. Quando eu dirijo por aqui, eu carrego água e comida no carro e, quando eu vejo alguém, eu dou pra eles, porque é difícil às vezes você aproveitar e sentir orgulho do que fez quando você vê coisas assim, sabe, te faz sentir egoísta, tá ligado? Tem sacolas de compras no seu carro e um cara não tem chinelos, meu irmão. Várias vezes eu estava na praia da Barra da Tijuca, no Rio, e uns quatro, cinco caras não têm Havaianas e estão andando no calor de 50 graus, não sei como raios eles conseguem fazer isso. Eu levo eles no shopping e compro Havaianas. Só dei um exemplo, não preciso dizer mais nada. Mas como eu disse, meu filho é inquisitivo, mano, ele faz muitas perguntas, ele e minha filha me fizeram mais humilde. Eu sempre fui humilde, pode não parecer, porque eu acho que dá para ser humilde e falar o que pensa também, e as pessoas não gostam disso. Elas pensam: “você precisa ser humilde, cale a boca”. Não. Eu sou muito humilde e posso dar a minha opinião, meu irmão. Tá me entendendo? Estar aqui me fez ser mais humilde, e foi isso que ganhei ao vir pra cá.

Sobre a Turquia, você jogou pelo Fener e pelo Gala. O confronto entre eles é o maior dérbi do mundo?

É o maior dérbi da Europa. Sem dúvida.

E você jogou contra o Burnley pelo Blackburn? Essa disputa é bem tensa…

É racista. Fui chamado de preto tantas vezes naquele jogo. Eu acho que o Sky Sports fez uma matéria sobre mim lá, eles estavam investigando o racismo e foram cobrir Burnley-Blackburn, e os torcedores gritavam “quebra as pernas do negro de merda, porra!”. Tipo o que eu ouvi também contra o Millwall, eu adiantei a bola, mano, levei ela pra bandeirinha e um cara gritou isso também. Falavam preto e todo o resto. Mas meu irmão, eu sofri mais racismo na Inglaterra por ser turco do que por ser preto. Esse lance de homofobia começou quando as pessoas me chamavam de um kebab turco, “volta pra Turquia seu kebab turco, porra!”. Tipo, isso aconteceu quando eu jogava no Brighton, mas ninguém quis me perguntar o que aconteceu. A gente esquece isso agora, mas eu nem fui… As pessoas citam que eu fui processado por homofobia, mas eu nunca fui, eu fui processado por perturbação de ordem pública.

Você não foi o primeiro jogador a ser julgado por isso na história?

Mas o que é um gesto homofóbico? Não faz sentido, posso falar sobre isso agora porque já passaram os três anos da “perturbação de ordem pública”. As pessoas são burras, ficam falando que fui condenado por homofobia. Não, não fui. Fui condenado por xingar em público, foi isso que eu fiz. Mano, eles até tentaram reproduzir isso no tribunal, frase por frase…posso pegar a gravação se você quiser. Um homem burro e idiota tentou falar que eu estava colado no Wayne Bridge, então a bola estava vindo, certo? [Kâzim se levanta para demonstrar a cena] Daí o jeito que eu fiz o pivô teria sido um ato de homofobia. Pela vida dos meus filhos, eu juro por Deus, por tudo que tenho, pela minha vida… Até tentei fazer com que o meu empresário, que era também o empresário do Wayne, fosse no tribunal, mas claro que ele não quis me ajudar. Ele não quis se envolver em nada daquilo. Eu teria ido no tribunal, eu nem te conheço, mas eu teria ido no tribunal para te ajudar, mano. Isso é ridículo. Pra você ver o quanto a coisa foi burra.

Você sempre foi aceito na Turquia como turco? Porque eu sei que o Mehmet Aurélio teve um problema por não ter nascido lá.

Sempre, porque eles viram que eu escolhi a Turquia em vez da Inglaterra, foi o que eu fiz.

Você chegou a sonhar em defender a Inglaterra?

Nunca.

Nunca?

Você pode chegar no Gordon Sorfleet, que era o diretor de imprensa no Bury. Pode puxar todas as entrevistas, eu nunca sonhei em jogar pela Inglaterra. Eu sempre fui aceito na Turquia, mas quando eu estava jogando contra o Beşiktaş ou Fener, eu recebia umas mensagens no Twitter… Sobre a minha mãe [risos], recebia também de torcedores do Leeds, porque eu sou turco [dois torcedores ingleses morreram esfaqueados por torcedores turcos em Istambul, quando, em 2000, o Leeds enfrentou o Gala pela semifinal da Copa da UEFA]. Recebo muitas mensagens tipo “sua mãe é uma vadia que ama pretos”, coisas assim. Recebo o tempo todo, mano. Mas eu sempre…Quando joguei pela seleção as pessoas me amavam, meu irmão, elas me amavam!. E essa é uma coisa que eu amo disso tudo, é um tipo de amor diferente. Te faz chorar, jogar por uma nação assim.

Qual é a sua melhor lembrança jogando pela Turquia?

Com certeza a Eurocopa [2008].

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