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O último amador

Das ruas ao Highbury: a trajetória de Ian Wright

Nos habituamos a conhecer as lendas de amanhã desde que são meninos. O trabalho de prospecção de talentos é cada vez mais intenso e público, tanto que ninguém se surpreende ao ouvir falar do “novo Messi” num jovem de apenas 15 anos. Parece que, chegando aos 20 de idade, se não se está no radar da elite futebolística, as possibilidades de triunfar são nulas. Pode ser esse o presente e o futuro, mas nem sempre foi assim. Houve uma época em que ser jogador amador até a idade adulta escondia, na verdade, verdadeiras pérolas preparadas para brilhar. Essa é a história de Ian Wright, um dos maiores goleadores da história do futebol inglês.

No dia 4 de outubro de 1997, o público em Highbury se levantou e não parou de aplaudir. O solo tremia à medida que o coração gunner batia cada vez mais depressa. Minutos antes, Ian Wright tinha acabado de anotar o seu 300º gol como jogador profissional. Seria também o seu último no mítico estádio do Arsenal, hoje transformado em prédios e jardins para a classe alta inglesa.

Apenas um ano antes, o artilheiro superara o recorde histórico de Cliff Bastin, que remontava aos anos 1930, tornando-se o maior goleador da história do clube. Atualmente, a marca pertence a Thierry Henry, mas, à época, muitos pensavam que nunca seria superado. Wright tinha 35 anos e estava no fim da carreira. Muitos imaginam, hoje, o que teria acontecido se ele tivesse explodido mais cedo no futebol profissional.

Ian Wright tinha jogado em apenas dois clubes profissionais até aquele momento — Crystal Palace e Arsenal —, mas o que muitos desconheciam é que sua estreia como profissional fora uma obra do acaso. Ele não teria sido jogador se não fosse por uma tarde de sol que levou Peter Prentice, um sagaz olheiro do Palace, a passear pelo Greenwich Park. Um passeio que selou uma carreira única.

Wright pertencia à imensa minoria silenciosa de imigrantes caribenhos que haviam lotado Londres desde os anos 1960. Para a sociedade inglesa, sua existência era um mistério, e só a explosão musical do reggae e do ska, no fim da década de 1970, começou a dar-lhes notoriedade. Nos esportes, no entanto, seguiam vistos com suspeita. E a vida familiar do jovem também não o ajudava. O pai abandonou-o, a mãe sofria de alcoolismo e o padrasto aplicava-lhe duros castigos físicos durante quase toda a infância, que passou – literalmente – nas ruas.

O futebol sempre foi uma válvula de escape para ele, mas sua condição de negro e caribenho não facilitava. Tentou de tudo. Jogou em equipes de bairro, fez provas no Southend United e no Brighton, mas não conseguia convencer os treinadores a contratá-lo. O seu comportamento também era um problema. Ao contrário da maioria dos (poucos) jogadores negros no futebol inglês dos anos 1980, Wright não estava disposto a ficar calado. Sabia que o preconceito não tinha prazo para acabar, mas não iria tolerar abusos. Num futebol inglês profundamente racista, isso era um problema.

Ian Wright, apesar de tentar de todos os modos, via o destino fechar-lhe as portas da glória, forçando-o, inclusive, a passar duas semanas preso por não pagar algumas contas. Até que, naquela tarde de junho, Peter Prentice viu como o jovem se exibia com a camisa do Greenwich Borough num jogo de liga amadora no Greenwich Park. O futebol amador era tudo o que tinha sobrado a Ian, e seria também a sua salvação.

O olheiro agendou, então, um amistoso com o Crystal Palace, para avaliar o potencial real de um futebolista amador que estava a ponto de completar os 22 anos sem nunca ter assinado um contrato profissional. Wright superou todas as expectativas e o clube decidiu fechar com o artilheiro um contrato de três anos. Sua permanência em Selhurst durou seis temporadas, até que o Arsenal, o gigante do norte de Londres, decidiu contratá-lo.

Ian já tinha 28 anos e muitos ainda duvidavam de sua capacidade de brilhar no mais alto nível. Ele, mais uma vez, teve que provar que todos estavam errados. Do frio da rua, onde foi forçado a viver quando todos lhe bateram a porta na cara, Wright mostrou ao mundo do futebol que, às vezes, entre os amadores de domingo, escondem-se algumas pérolas para serem estudadas com atenção. Desde então, porém, casos como o dele têm sido cada vez mais raros, porque os clubes passaram a levar a prospecção e a formação muito mais a sério. Por isso mesmo, Ian Wright, o Rei de Highbury, é o último caso de sucesso deste tipo a triunfar no superprofissional mundo do futebol moderno.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

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