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Istanbul United

Quando a arquibancada desalienou

Istambul, 1993. Um show de Michael Jackson lota o İnönü Stadyumu, casa do Beşiktaş. Dezesseis anos depois, um grupo de torcedores dos Kara Kartallar [Águias Negras] estende uma faixa dedicada ao cantor americano, com os dizeres: “Que descanse em paz o grande torcedor do Beşiktaş, aquele que passou metade da vida na cor negra e a outra metade na branca”. A comparação criativa entre a doença — ou tratamento estético — do Rei do Pop e as cores do clube foi obra da Çarşı, a organizada dos Hakim Takim [clube do povo, em tradução literal].

A Çarşı nasceu em 1982, em meio ao caos político, econômico e social que assolava o país. Dois anos antes da sua criação, a Turquia sofreu seu terceiro golpe militar, em menos de duas décadas — ainda houve uma tentativa de golpe em 2016. O general Kenan Evren, líder da junta militar, foi condenado à prisão perpétua em 2014, falecendo menos de 12 meses depois da sentença, aos 97 anos. Evren alegava que a junta militar evitou a tomada de poder pelos comunistas, um período transitório necessário para garantir a democracia, mas que na realidade não passou de uma época sofrida para o povo. A constituição foi substituída por outra mais rígida, diversos políticos de oposição foram banidos e os conhecidos partidos, extintos, para que novos fossem criados a partir da autorização dos militares, que ainda congelaram os salários, privatizaram indústrias e retiraram alguns direitos dos trabalhadores, como o de greve e o de reunião.

Cidade dividida entre os continentes europeu e asiático, em que o cheiro de cominho e curry dos kebabs exala pelas vielas de uma antiga Constantinopla e disputa a atenção com o barulho de suas mesquitas e os problemas do abismo social turco, foi em Istambul que Optik Başkan — pseudônimo de Mehmet Işıklar — cresceu, aprendeu a questionar e, principalmente, a amar o preto e branco da águia.

No início da década de 80, durante conturbado cenário turco, Optik decidiu deixar Ancara, onde lecionava história, e voltar a sua cidade natal, para ficar perto do seu time e dos movimentos políticos que emergiam em meio ao iminente golpe militar. Além da alcunha de clube do povo, o Beşiktaş também é conhecido como o terceiro clube de Istambul e então, neste ambiente de ser diminuído por seus rivais, Mehmet virou opositor, não importando muito bem contra quem e sim o espírito de ser contra qualquer tipo de soberania.

Enérgico na arquibancada, após o golpe de 1980, Optik logo conquistou amigos e uma base de fãs jovens, tornando-se o líder exemplar de um bloco de torcedores do Beşiktaş, ainda que detestasse esse rótulo por ser contra a estratificação do grupo e, assim, nasceu a Çarşı — nome dado aos mercados típicos do bairro de Beşiktaş.

Diante da conjuntura nacional na época de sua criação, a Çarşı adotou o símbolo anarquista como símbolo da sua política “anti-tudo”. Nesta organizada, seguindo a tradição de Optik — morto em 2007, após um ataque cardíaco —, não há líderes: os membros mais antigos são denominados amigos, responsáveis pela comunicação com a imprensa, por exemplo. “Nossa dinâmica interna é muito forte. Somos o time do povo; nossos esquerdistas são populistas, nossos nacionalistas são populistas, nossos islâmicos são populistas — você não vai encontrar extremistas na Çarşı. Nossos membros apoiam e protegem as pessoas e a Çarşı é como um guarda-chuva sob o qual todo mundo é incluído”, disseram os amigos em entrevista à VICE.

Na região metropolitana de Istambul, os 15 milhões de habitantes podem desfrutar de poucas áreas verdes. Ainda assim, em maio de 2013, o então primeiro-ministro Erdoğan ordenou a demolição do parque Taksim Gezi, um destes escassos redutos. A intenção era reconstruir a estrutura do quartel militar de Taksim para utilizá-lo como um shopping center. Tal quartel, originalmente construído no fim do século XIX, curiosamente abrigou o primeiro campo de futebol da Turquia, o estádio Taksim, utilizado tanto pelos clubes da cidade quanto pela seleção nacional, entre 1921 e 1939, quando foi demolido para dar espaço ao Taksim Gezi, um parque público.

Neste território simbólico, para evitar que as obras de demolição começassem, grupos de ambientalistas acamparam no lugar em protesto a retirada do parque. Em resposta à manifestação, a polícia usou de sua força repressora e queimou tendas, o estopim para boa parte da sociedade turca.

“Não somos hooligans, estamos em um nível acima disso. Somos amantes, não lutadores. Mas quando uma luta surge, brigamos melhor do que qualquer outro”, contou um membro da Çarşı ao The New Yorker em 2011, e, portanto, demorou quase nada para que os ultras anti-tudo do Beşiktaş saíssem às ruas com seus lenços estampados com rosto de Che Guevara e o habitual modo anárquico de combate. As armas da polícia e suas estratégias não eram novidades para a Çarşı, que anteriormente já participara de protesto junto ao Greenpeace e demonstrações de apoio a causas políticas, como o incidente em Ferguson, nos Estados Unidos, como contou a Al Jazeera em dezembro de 2014.

Após a Çarşı aderir à luta, os ultras do Galatasaray e Fenerbahçe apoiaram a causa e foram às ruas. Os três rivais da cidade se uniram e todos se tornaram Çarşı. A torcida já não era só preta e branca: tinha dourado, vermelho e azul e amarelo. “Ombro a ombro para enfrentar o fascismo” foi o slogan que empurrou rivais para combater um símbolo da repressão do estado, cuja história está documentada no filme Istambul United, dos diretores Farid Eslam e Olli Waldhauer, de 2014 . Os dias da união em Istambul mostraram uma ligação que inexistia até ali, em uma cidade marcada pela violência entre torcidas. Nem o gás lacrimogêneo, tampouco o carro forte com jato de água — chamado carinhosamente de veículo de intervenção para eventos sociais [TOMA, em sigla turca] — foram páreos para a Çarşı.

O ápice da revolta popular ocorreu em 2 de junho daquele ano, quando, para enfrentar o TOMA, a Çarşı roubou uma escavadeira, estacionada no canteiro de obras do parque, e perseguiu a polícia com o veículo. Este ato de contornos épicos não foi apenas contra a demolição do local, mas também em oposição ao processo de transformação dos estádios da cidade em arenas, com imposições ferrenhas aos torcedores habituais.

Diante da truculência policial, estima-se que oito pessoas morreram, 12 perderam a visão — por conta de explosões de bombas de gás lacrimogêneo — e mais de oito mil ficaram feridas. Trinta e cinco membros da Çarşı foram processados, sob a alegação de que planejavam destituir o primeiro-ministro Erdogan. “Se tivéssemos o poder de dar um golpe, faríamos era o Beşiktaş ser campeão”, disse um dos amigos, Cem Yakişkan, de acordo com o Goalden Times, em artigo publicado em 2016.

Não houve a demolição do parque, Erdogan se tornou presidente da Turquia desde 2014 e, absolvidos, os ultras da Çarşı continuam livres para protestar com inteligência, amor e humor. Existe força nas torcidas e o futebol se torna uma arma perigosa contra os poderosos quando a arquibancada desaliena-se , afinal, como foi grafitado em uma parede durante os combates: “Vocês mexeram com uma geração que cresceu dando surras na polícia no GTA [Grand Theft Auto]”.

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