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Um rito de passagem

Moscou, 21 de maio de 2008. A noite marcava a 759ª vez que Ryan Giggs entrava em campo com a camisa do Manchester United, superando ninguém menos que Sir Bobby Charlton, que mantinha o recorde de partidas pelo clube até então. A expectativa era de que o embate contra o Chelsea na capital russa significasse o ponto final da carreira do galês, dando a entender que ele se aposentaria naquela mesma noite, depois de levar para casa a aclamada taça da Champions League em uma disputa por pênaltis.

Giggs não foi o único veterano a colocar a “orelhuda” no bolso naquela ocasião. Paul Scholes e Gary Neville também estavam presentes na triunfante campanha. Os três fizeram parte da histórica Class of ’92, ano em que subiram para a equipe profissional do United juntamente com David Beckham e Phil Neville. Estavam todos presentes no heroico título europeu da temporada 1998-99, em romântica final contra o Bayern München. Durante os 16 anos entre a promoção ao time de cima e o segundo título da Champions League, os homens de confiança de Sir Alex Ferguson continuavam os mesmos.

Mesmo com a ausência de Beckham desde 2003, aquela geração se manteve na elite do futebol europeu por alguns anos mais. Além de ter conquistado o tricampeonato da Premier League entre 2007 e 2009, chegou a duas outras finais da Champions League em 2009 e 2011, faturando outra vez a primeira divisão inglesa daquele ano. Foi então que os pilares do clube mostraram os sinais do tempo. A renovação das peças não era apenas necessária: era inadiável.

Gary Neville foi o primeiro a pedir o boné, em 2011. Paul Scholes – que já havia parado no mesmo ano – acabou mudando de ideia seis meses depois. Atendendo a um pedido de Ferguson, voltou aos gramados para amenizar a decadência que o time sofria pelo gradativo processo de desmanche de sua preciosa classe de 1992. Aposentou-se de vez em 2013, junto com Sir Alex – seu único treinador durante toda a sua carreira profissional em um clube.

Ninguém sabia muito bem o que esperar da primeira troca de comando do United em 26 anos. Mas houve um jogador que decidiu pagar para ver. Ryan Giggs se tornou o único remanescente da geração de Ferguson a estar sob as ordens do novo comandante dos Red Devils. David Moyes foi o homem escolhido para ocupar a cadeira deixada pelo Sir.

A primeira janela de transferências vivida por Moyes foi uma decepção. A única contratação foi a de Marouane Fellaini, consistente volante belga que já havia trabalhado com o próprio Moyes no Everton. Contudo, tratava-se de um jogador que chegava mais para compor o elenco do que para receber o bastão de líder do time.

Moyes não era tolo. Mesmo recém-chegado ao posto de capitão do barco, sabia que a base do United poderia reservar boas surpresas. Não era preciso trabalhar no clube para saber disso. Assim, entre tantos meninos, o treinador decidiu pinçar um jogador devidamente recomendado por Sir Alex. O escolhido foi Adnan Januzaj.

Adnan Januzaj (Foto: Getty Images)

Adnan Januzaj com a camisa do Man United (Foto: Getty Images)

À espera de um dono para a camisa 11

Januzaj tinha 16 anos quando deixou o Anderlecht da Bélgica para se juntar ao Manchester United. Destacou-se pelas equipes de base, e aos 18 anos foi escolhido por Sir Alex Ferguson para fazer parte da equipe principal. Contudo, foi David Moyes quem lhe deu sua primeira oportunidade no time de cima, durante a temporada 2013-14.

Em seu primeiro jogo como titular, nada menos que dois gols na virada de 2 a 1 sobre o Sunderland. Dois chutes de primeira. Cada um com uma perna. Foi o suficiente para que a diretoria se mobilizasse para renovar por mais cinco anos o contrato do então camisa 44.

Ao final da temporada 2013-14, David Moyes foi demitido. Ryan Giggs foi quem assumiu o comando interino. Recaiu sobre ele – o único herdeiro da “dinastia Ferguson” – a real transição. Seu interinado também representou sua aposentadoria dos gramados. Deixou disponível a camisa 11.

A aparição de Januzaj foi uma grata surpresa num momento terrível. O Manchester United viveu sua pior temporada desde 1990 e a trágica passagem de David Moyes escancarou críticas de todos os lados a quase todos os jogadores do plantel.

Alheio ao fogo cruzado, o garoto de 18 anos se firmava como o melhor winger do elenco e mostrava que, mais uma vez, o clube poderia renascer com uma joia da base. Ele fechou aquela temporada com 35 jogos e quatro gols. A recompensa: herdar a camisa 11 de ninguém menos que Ryan Giggs, que se aposentava após 24 temporadas no clube.

A revelação e utilização dos jovens foi a principal marca dos dois únicos treinadores que fizeram história pelo United: Matt Busby e Sir Alex Ferguson. As últimas safras, contudo, não foram das mais animadoras. O fim do reinado de Ferguson trouxe à luz jogadores como Jonny Evans, Tom Cleverley e Danny Welbeck, que foram utilizados e valorizados por virem da academia do clube. Mas nenhum deles convenceu a ponto de se garantir como titular incontestável. Januzaj era o único visto como um futuro craque – tanto por seu clube como por sua seleção.

Aliás, foi uma novela à parte a decisão sobre qual seleção Januzaj defenderia. O jovem poderia escolher entre Bélgica, seu país de nascimento; Albânia, por sua descendência; Kosovo, de onde veio a família de seu pai; e Turquia, para onde autoridades iugoslavas deportaram sua mãe. Como se já não fosse muito, chegou a ser sondado até mesmo pela Inglaterra. Contudo, a menos de dois meses da Copa do Mundo de 2014, o rapaz anunciou sua escolha pela Bélgica. Sem grandes cerimônias, Januzaj participou de dois amistosos e fez parte do elenco belga no Mundial do Brasil.

Copa do Mundo e o novo United

Adnan Januzaj somou minutos com a camisa da seleção belga durante a última Copa do Mundo. Mas esbarrou na vice-campeã Argentina nas quartas de final. A seleção albiceleste enfrentaria a Holanda nas semifinais num duelo épico. Um jogo de xadrez proporcionado por dois técnicos estrategistas: Alejandro Sabella e Louis van Gaal.

Mesmo com a derrota nos pênaltis contra os argentinos, o treinador holandês já tinha seu futuro assegurado. Pouco antes do Mundial no Brasil, Ryan Giggs se reuniu com van Gaal e deu à diretoria do Manchester United seu aval para a contratação do técnico.

Louis van Gaal aterrissou em Manchester, assumiu o United e trouxe com ele um pacote de estrelas. Assim, jovens como Cleverley e Welbeck ficaram sem espaço no elenco e foram negociados. O treinador holandês chegou para mudar a filosofia, a atitude e a maneira de jogar da equipe: ele propôs uma drástica alteração tática que limitou o espaço de Januzaj no time.

O 3-5-2 utilizado pelo holandês extinguiu o winger da equipe. Isso fez bem a jogadores como Ashley Young e Antonio Valencia, que vinham rendendo pouco na posição e foram recuados para jogar como alas – o que melhorou consideravelmente suas performances. Méritos para van Gaal, que recuperou esses atletas. Januzaj, por sua vez, não se adaptou a esse trabalho defensivo e se desdobrou para mostrar algum serviço nos poucos minutos que teve em campo.

Os resultados abaixo do esperado e os problemas de lesões do elenco forçaram o treinador holandês a variar. Sabendo das investidas de outros clubes por Januzaj, van Gaal decidiu dar mais oportunidades ao jovem belga-kosovar. Não se pode dizer que o jogador as tenha desperdiçado, mas, dada a instabilidade técnica do elenco, ele tampouco se destacou.

O futuro do clube veste a camisa 11. Mas uma nova temporada fora da Champions League pode acabar colocando em xeque a permanência do próprio Januzaj num time que não terá muito tempo para trabalhar suas jovens promessas.

Ilustração: Zoran Lucić/Sucker for Soccer

Ilustração: Zoran Lucić/Sucker for Soccer

Jogador europeu

O talento de Januzaj vai ser confirmado com o tempo. Seu clube pode potencializá-lo ou castrá-lo. O papel do belga-kosovar pode ser similar ao de Lionel Messi no Barça no fim da era Ronaldinho. Se no Manchester United a situação é instável, pelo menos na seleção tudo caminha para a estabilidade. No entanto, sua nacionalidade é motivo de discussão.

Apesar de já ter feito sua escolha pela seleção da Bélgica, Januzaj é – antes de belga– um jogador europeu. No entanto, há muitos outros casos que envolvem menos nacionalidades, mas, também ajudam a ilustrar o cenário.

A própria seleção da Alemanha apresenta suas flexibilidades para convocar seu time nacional: Shkodran Mustafi, Mesut Özil e Samir Khedira, por exemplo. Todos nascidos no país, mas de origens albanesa, turca e tunisiana, respectivamente. A Suíça também costuma abrir suas portas para imigrantes: Xherdan Shaqiri, Granit Xhaka e Valon Behrami, nascidos no Kosovo, além de Haris Seferovic, de origem albanesa.

Tantos exemplos apenas entre europeus. Mas também há dezenas de casos em que basta o passaporte europeu para tornar-se elegível para defender alguma seleção europeia: Mauro Camoranesi, Gabriel Palleta, David Trezeguet, todos argentinos que defenderam seleções europeias; Luis Aírton Oliveira, Marcos Senna, Eduardo da Silva, Thiago Motta e Diego Costa, para citar exemplos brasileiros.

A naturalização não é uma novidade. Mas os recentes conflitos territoriais europeus abriram precedentes para todos aqueles que acreditam que ter uma nacionalidade não depende exatamente da localização geográfica na hora do nascimento.

O que faz um jogador “ser” de um país?

Exceções sempre existiram ao longo da história do futebol. Desde o momento em que se organizaram as primeiras seleções nacionais, era possível que um filho de imigrantes enfrentasse o país de seu pai ou até mesmo seu país de origem.

Mas a partir do final da década de 90, com a consolidação do Mercado Comum Europeu e a posterior instauração do euro como moeda, o volume de imigrantes europeus e “estrangeiros” chegou a números sem precedentes na história.

Londres e Paris deixaram de ser o destino preferido para a imigração. Qualquer capital europeia albergava milhares de estrangeiros que buscavam uma vida melhor no velho continente. Em 2004 era fácil perceber a presença especialmente de romenos, albaneses, senegaleses e equatorianos em Roma, por exemplo. Se esses movimentos já aconteciam por diferentes motivos, foram facilitados e acelerados nos anos 2000, com a livre circulação de pessoas e mercadorias determinada pela União Europeia.

Surgia na Internazionale de Milão um tal Mario Balotelli. Temperamental, ofuscava seu próprio talento com atitudes excêntricas. Um ganês nascido na Itália, cujos pais deixaram Gana e embarcaram para a Europa em busca de uma vida melhor. Porém, depois de enfrentarem severas dificuldades, decidiram entregá-lo para adoção com apenas três anos de idade.

A situação de Januzaj é peculiar por colocar diferentes análises em questão. Seus pais deixaram a região do Kosovo, autoproclamado independente da Sérvia desde 2008. Assim como grande parte da população kosovar, a origem da família de Januzaj é albanesa.

Os conflitos na região dos Bálcãs provocaram a emigração de um sem-número de cidadãos da antiga Iugoslávia. A família de Januzaj foi uma delas. Escolheram a Bélgica, onde o jogador deu seus primeiros chutes e atraiu a atenção do Manchester United, que o levou para o norte inglês.

Tratando-se de um talento promissor, era inevitável a discussão em torno de seu futuro: que seleção Januzaj defenderia? Algumas declarações dos jogadores kosovares que defendem a Suíça – Shaqiri, Xhaka e Behrami – já mostraram que existe um crescente sentimento nacionalista. Eles defenderiam o Kosovo se ao menos a FIFA e a UEFA reconhecessem a federação de futebol do país.

Formada por três zonas idiomáticas (alemã, francesa e italiana), a Suíça é, por si só, um país que desperta curiosidade por sua variedade cultural. Mas, naquele seleção eliminada pela Argentina na última Copa, apenas três dos 14 jogadores que entraram em campo são suíços de nascença.

O questionamento sobre nacionalidade não é mais excepcional. Está virando regra em alguns países europeus. Além da própria Suíça, a Bélgica contou com nove atletas de diferentes origens. Entre eles, Adnan Januzaj e sua multinacionalidade, que reflete os diferentes movimentos sociais, econômicos e políticos que o continente europeu atravessou nas últimas duas décadas.

Koso je Srbjia (?)

[Kosovo é Sérvia (?)]

Por Sidarta de Lucca

Como na maioria das questões territoriais balcânicas, a discussão popular do tema é pautada, via de regra, por nacionalismos emocionais que nasceram há um quarto de século. O horror da guerra era catalisado pelas atrocidades televisionadas em horário nobre, praticadas não por pessoas em trajes pitorescos em cenários exóticos, mas por seus semelhantes e à cercania daquilo que subconscientemente lhes cabia definir como mundo civilizado.

Vale observar que a questão do Kosovo só veio aos olhos do grande público anos após os eventos supracitados, dada a variedade de crimes de guerra que os acompanharam – o mais infame foi o massacre de Srebrenica, praticado por forças militares da República Sérvia, uma banda territorial etnicamente Sérvia na Bósnia-Herzegovina. Uma vez de conhecimento geral, o conflito foi apresentado e entendido como fundamentalmente étnico. A agressão, compreendida como coletivamente sérvia.

A vilanização do sérvio como perpetrador da violência – em vez dos regimes instalados – determinou e segue determinando em grande parte as percepções gerais sobre a questão kosovar. A antipatia internacional conquistada, aliada à complexidade inerente às questões balcânicas, tende a nublar a discussão.

Ao eclodir a Guerra do Kosovo em 1998, com o precedente da violência contra civis praticada entre 1992 e 1995, as partes interessadas em promover ações militares não encontraram grandes barreiras junto à opinião pública geral. Os temores de fato vieram a ser confirmados com a constatação da ocorrência de crimes de guerra. O reconhecimento da independência do Kosovo por grande parte da comunidade internacional abre uma exceção conflituosa.

Com argumentos até mais contundentes a favor de seus separatismos, outras regiões não contam com apoio semelhante. A percepção deste precedente como positivo ou negativo está sujeita ao entendimento de cada um sobre o direito de emancipação territorial por declaração unilateral: para os entusiastas de uma abordagem mais relaxada para a autodeterminação dos povos, seria algo positivo; para aqueles dados a uma abordagem mais conservadora do tema, representa algo negativo.

Há também os que acreditam que o caso deve ser observado como sui generis, uma vez que a condição do Kosovo como um território de maioria étnica albanesa se deve em parte à Sérvia e à impossibilidade de submeter a população de origem albanesa do Kosovo a um regime que a perseguiu.

Uma tentativa – possivelmente vã – de colocar a questão de forma simples: o Kosovo é, historicamente, uma região étnica Sérvia. No século XIV, chegou a abrigar a capital do Império Sérvio, pouco antes de ser anexado ao Império Otomano. A presença albanesa, não apenas no Kosovo, mas em diversas partes daquilo que hoje é a sérvia, se deu ao longo dos quase cinco séculos de ocupação turca. Sobre a região do Kosovo em particular, a população albanesa, que representava menos de 1% do total quando da chegada dos otomanos, beirava os 50% no momento da desanexação.

Após o desmantelamento do Império Otomano, a região passou a ser disputada pelas nações recém-independentes do Reino da Sérvia e Albânia. O primeiro, valendo-se da justificativa histórica. O segundo, lançando mão de uma perspectiva otomana, que em seus últimos momentos lidava com o Kosovo como uma região albanesa. Ambos utilizando a presença de grupos étnicos que entendiam representar.

Não obstante, a população de origem albanesa no Kosovo seguiu aumentando. Em maior parte, devido à imigração de albaneses étnicos da própria Sérvia ou de Montenegro. Os movimentos migratórios de diversas partes da Iugoslávia em direção ao Kosovo se devem majoritariamente a sentimentos antialbaneses, que em muitas ocasiões culminaram em violência e expulsões das regiões onde eram minoria. A realocação para o Kosovo chegou a ser administrada pelo próprio Estado Iugoslavo em meados do século XX.

Ao longo dos anos da RSF Iugoslávia, o Kosovo fez esforços políticos para ascender à condição de república, assim como Sérvia, Croácia, Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Eslovênia e Macedônia. O artigo I da Constituição do país garantia às repúblicas o direito de emancipação. Foi apresentado como argumento contra a tentativa de Belgrado de manter o poder centralizado – o que motivou a guerra civil. Houvesse essa situação se estendido ao Kosovo, quiçá o panorama atual da região fosse diferente.

Jornalista formado pela UMESP. Escreve para VIP, Sport Witness, Corner e Old Trafford Brasil. Não sabe se quer ser Andrea Pirlo ou John Frusciante quando crescer.

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