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José Carlos Araújo

Mesmo ciente das baixas audiências nas faixas AM, o verdadeiro Garotinho desmistifica a furada lenda acerca do grau de instrução dos ouvintes dessa freqüência. Com a sabedoria de quem foi criado no AM, ele esclarece as questões técnicas por trás das recentes migrações para FM e internet com mais objetividade do que aqueles que profetizam um fim quase apocalíptico para o rádio.

Ele parece ser o “último romântico”, atuando num segmento que deixou de se preocupar com a qualidade artística de seus talentos. Segundo ele próprio, essa estagnação é provocada pelas atuais lideranças de algumas emissoras — executivos e diretores que podem ser profissionais muito competentes em suas respectivas áreas, mas que não têm o tato requerido para lidar com as preferências de um público tão distinto quanto o do rádio.

Você deixou a Rádio Globo num momento em que os transmissores da freqüência AM começavam a migrar tanto para a FM quanto para a internet. O que esse movimento representa para o futuro do rádio?

Acho que vai se reinventar como a própria rádio na internet está se reinventando. É uma tendência natural. O rádio AM é muito importante nas cidades do interior, principalmente nas freqüências mais baixas — até 800Khz —, onde a penetração é melhor porque a faixa fica mais larga. Nos grandes centros como São Paulo, com a Jovem Pan; Porto Alegre, com as rádios Gaúcha e Guaíba; e Belo Horizonte, com a Itatiaia, essas emissoras estão em freqüências baixas de grande penetração, independente da presença da faixa FM. Aqui no Rio de Janeiro, as rádios de maior audiência estão nas freqüências mais altas, que são as que sofrem mais interferência. Atualmente, com a tecnologia dos celulares e torres repetidoras, o AM começou a ficar decadente no Rio, em comparação com as capitais que citei.

Você acredita que as rádios AM devem manter as características tradicionais que formaram toda a audiência que têm hoje ou devem reciclar seus profissionais e até mesmo sua própria linguagem?

Quando se fala em AM e FM, o que muda é a penetração e a qualidade da sintonia. Em termos de conteúdo, acho que o rádio vai continuar segmentado, e isso nada tem a ver com a mudança de faixa. É possível ter uma rádio AM voltada para as classes A e B numa cidade que não seja tão urbana quanto o Rio. Mas aquelas rádios de música nordestina, sertaneja, como acontece em São Paulo, vão encontrar boa aceitação tanto em AM quanto em FM, com um pouco mais de qualidade no sinal para esta última. Acho que o público é fiel independente da faixa. Não sei se há uma pesquisa que revele uma escolha do público entre AM e FM por alguma programação preferida em determinado horário. Tenho curiosidade de saber sobre esse recorte. Por exemplo, a Rádio Globo e a Rádio Tupi vão transmitir um jogo do Flamengo no FM e um jogo do Vasco no AM. Até que ponto o ouvinte torcedor do Vasco vai procurar o AM exatamente por ser transmitido por uma emissora de grande audiência naquele horário? Ele vai optar por buscar na FM uma emissora de menor porte que também transmita o jogo? Não conheço nenhuma pesquisa que mostre isso.

Você tem um público fiel há muitos anos e, num curto período de tempo, esteve na Bradesco Sports, Transamérica e Tupi. Que impacto essas mudanças exerceram no mercado?

Antes de mais nada, devo dizer que, quando eu pedi demissão da Rádio Globo, tinha 42 anos de casa. Pedi demissão porque, apesar de ser um cara com 51 anos de carreira, eu procuro me renovar e me atualizar com o que há de novo e moderno — tanto que transmito futebol com o laptop aberto e conectado nas redes sociais para ver quem manda mensagens e comentários. Quando fui para a Bradesco Sports, a direção me havia dito que a freqüência utilizada seria a mesma que era usada pela Rádio Cidade (102,9) e estava sendo alocada. Só que isso não aconteceu, tanto que fiquei três meses na Band News — porque eu estava contratado e tinham que me oferecer uma rádio no sistema e a Band News é uma rádio forte, boa e com um target maravilhoso, comercialmente falando. Quando eles adquiriram a freqüência 91,1, compraram uma rádio de uma outorga de Petrópolis-RJ, com uma penetração muito limitada na cidade do Rio de Janeiro. A torre ficava no bairro do Morin e, por ser um lugar muito alto, “varria” toda a BR-040 e chegava até mesmo a Juiz de Fora-MG. Mas, no Rio, havia “sombras” em Madureira e Copacabana, por exemplo. Recebia reclamações de um público muito fiel — o taxista. Ele é a melhor de todas as medições. Isso gerou insatisfação não apenas em mim, mas em meus clientes também. Se eu vendo um produto e sinto que meu consumidor está reclamando da não penetração dele, eu tenho que estar insatisfeito. Particularmente porque estou concorrendo com a Globo e a Tupi em condições desiguais. Por essa razão, pedi minha demissão de lá também, embora àquela altura eu estivesse na televisão também. Não se trata de uma crítica ao grupo Bandeirantes, mas eles não tiveram o foco profissional que eu esperava.

Você é otimista com relação ao futuro do rádio esportivo?

Sim. Acho que o rádio prestador de serviço — e o rádio esportivo é prestador de serviço — será sempre uma necessidade do homem. Sou contra o rádio em rede e acho que as rádios locais vão crescer cada vez mais. A experiência que a Rádio Globo fez com rádio em rede foi jogada sem nenhum tipo de pesquisa prévia. Porque você primeiro gosta da sua casa, depois da sua rua, do seu bairro, da sua cidade, para depois se interessar pelas coisas do seu país — isso é natural em qualquer ser humano. Tanto que o crescimento de jornais de bairros vem justamente do princípio de proximidade geográfica a um determinado acontecimento. Quando a TV Globo começou a dar o mesmo peso para o Corinthians e para o Flamengo, foi uma grande furada. A própria TV Globo sente, em determinados momentos, que é necessário regionalizar. Antigamente, quando eu trabalhava no Globo Esporte, era uma só edição, com um bloco dedicado ao que fosse local. Hoje, é necessário que as edições sejam separadas de acordo com a região. Exatamente por isso, acho que o rádio tende a crescer cada vez mais. Mas é preciso haver cada vez mais pessoas do rádio gerindo os veículos, exatamente por conhecerem bem suas propriedades. Se há jornalistas comandando o rádio, que eles sejam assessorados por radialistas e pessoas experientes no segmento. É um meio peculiar, diferente dos demais.

Waldir Amaral, Jorge Cury e você seguiram uma linha de altíssimo nível, mas, nas últimas décadas, nenhum novo narrador esportivo despontou no Rio de Janeiro. Você enxerga algum sucessor na geração atual?

Antes de mais nada, deixe-me dizer o porquê dessa falta de renovação. Primeiro porque uma das razões para minha saída da Rádio Globo, vou confessar, é que eu tinha um projeto que foi apresentado à diretoria em 2003. O plano era fazer uma escola de rádio dentro do próprio SRG (Sistema Globo de Rádio), justamente para renovar os valores: narração, comentários e reportagens, não apenas no futebol, mas no jornalismo da emissora. Quem é o grande comunicador do fato jornalístico hoje? Quando você tem desfiles de escolas de samba, são os comunicadores do esporte. Já era assim com o Fernando Vanutti na TV, que, para mim, foi o melhor narrador de desfiles. Não aceitaram esse laboratório que eu quis fazer. Quando pedi demissão, o diretor geral me perguntou: “Por que não fazer aqui?” Porque há dez anos eu tentei e o Fulano, o Cicrano e o Beltrano não deram a menor importância. Acontece de você ter um talento na casa, mas que está deslocado numa função que ele não gosta de fazer e acaba não sendo aproveitado. Eu já vi estagiários narradores de futebol de primeira qualidade serem cortados no fim do contrato de estágio. Por quê? Porque a pessoa responsável por avaliá-lo era um profissional do jornal e, naturalmente, via que esse narrador nato não tinha bom desempenho no jornal. No entanto, quando ele vinha para a rádio, ele tinha um aproveitamento muito melhor, mas a empresa não aproveitava. Em função disso, eu quis fazer uma escola de rádio lá. Ofereci armar a grade curricular, escolhemos os profissionais, gente que é referência no mercado para transferir experiências, desde o momento de ligar o microfone e posicioná-lo da forma correta. O que víamos eram profissionais virando estagiários e ligando o microfone de maneira errada. Mas, como possíveis sucessores, vejo o Odilon Junior da Tupi — ele deve estar com uns trinta anos de idade —, o Evaldo José e o Edson Mauro, que são dois de que já falei há muito tempo, mas já são “cascudos” no mercado de trabalho. Os radiodifusores e gestores de rádio não se preocuparam com a renovação. E o problema é o seguinte: eles são escolhidos como pessoas de confiança, não por capacidade técnica ou profissional.

A que você atribui a falta de interesse das empresas em tocar adiante esse laboratório e, conseqüentemente, a renovação de seu profissionais?

Pergunte nas outras emissoras quem é o diretor de programação e quem é o diretor artístico. Não existe. Geralmente, quem dirige essas áreas é uma pessoa apenas, que acumula também a direção artística, de jornalismo e de esportes, sem sequer ser um radialista. O grande barato do radialista é que ele tem o conteúdo do jornalismo, mas também tem um lado artístico, que deve ser trabalhado e desenvolvido. O noticiário da Rádio Tupi, por exemplo: há um padrão de locutor de jornalismo, facilmente reconhecível. O noticiário de jornalismo da Rádio Globo tem bons locutores misturados com gente que não é do microfone, ou seja, não existe um padrão. Não é uma crítica à empresa por eu ter saído — quem pediu demissão fui eu. Uma das coisas que me fizeram aceitar a proposta da Tupi foi a possibilidade de manter uma equipe e aí eu segmentei. No futebol da Transamérica, eu sou sócio com 50% e a outra metade pertence ao Dr. Aloysio Faria, o dono da rádio. Lá, eu segmentei com o seguinte: “O futebol mais jovem do Rio.” Aí o Lango-Lango, que é o narrador Bruno Cantarelli, foi meu estagiário na Rádio Globo. Quando fui para a Band, levei ele comigo. Enquanto a Bradesco Sports não estava no ar, fiz uma espécie de escolinha para selecionar dez estagiários. Mas o Grupo Bandeirantes não se sensibiliza com profissionalismo. Minha idéia era justamente profissionalizar. Para fazer o que eu faço, é preciso ter vocação. Não dá pra pegar um cara na calçada e dizer pra ele: “Você vai ser narrador.” Ele pode estudar, se especializar e tudo o mais, mas, sem vocação, ele não será um narrador. Esse é o grande barato do veículo rádio. Por isso eu digo que não vai morrer nunca. Vai crescer cada vez mais, dependendo do talento de quem dirige e daqueles que estão no microfone, que são geralmente vocacionados.

O que é um “currupio”?

É aquele movimento feito pelo cara que antigamente se chamava de “jogador enceradeira”. Na Seleção de 1994, o Zinho era muito criticado exatamente por ficar girando com a bola e não evoluir na jogada. Esse movimento é o currupio. Era o rei da enceradeira, mas também pode ser o rei do currupio.

E a “quebra de asa”?

O Rogério Hetmanek, que foi ponteiro do Botafogo, do Flamengo e da Seleção entre os anos 60 e 70, foi um dos sete famosos camisa 7 do Botafogo. Quando ele dava um drible, ele movia o braço com um movimento que, brincávamos, parecia que estava ligando um ventilador. Quanto maior a velocidade do movimento, mais brusco era o “ventilador” e isso era uma característica marcante dele. Ele vive em São Paulo e até hoje comenta isso comigo.

Jornalista por formação, músico por insistência. Jamais desperdiçou uma cobrança de pênalti e lamenta que a torcida brasileira não possua gritos de guerra intimidadores para jogos da Seleção. Otimista por excelência, ainda acredita no futebol-arte, se diverte com o Brasileirão e se emociona com jogadores emocionados.