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O herói

Herói: 1. homem notável por suas realizações ou bravura, 2. indivíduo que suporta sofrimentos ou que arrisca sua vida para benefício de outro, 3. figura central de um acontecimento ou período.

A representação da luta

Poucos personagens conseguem se enquadrar na definição de herói, ou, talvez, apenas não conhecemos o suficiente muitos dos atos heroicos já feitos na história da humanidade. Não se trata de pessoas com superpoderes, mas sim de seres humanos capazes de entrar para a história, mesmo não sendo tão conhecidos.

Entre essas pessoas, com certeza está Julius Hirsch, um habilidoso ponta alemão que fez carreira principalmente atuando com a camisa do Karlsruhe nas décadas de 1910 e 1920. Muito provavelmente você não deve ter ouvido falar nesse jogador, mas o seu legado com certeza ecoa pela eternidade.

Conhecido por seus dribles e velocidade, Hirsch chamava a atenção pela sua qualidade com a bola nos pés, fazendo sua estreia internacional com a camisa da seleção alemã com apenas 19 anos de idade. Na época, as partidas entre selecionados nacionais eram raras, e o futebol alemão não era considerado um dos mais fortes da Europa.

Mas, para entender a trajetória do herói, é preciso voltar ao início dessa história. Julius Hirsch nasceu em 7 de abril de 1892, na região de Baden-Württemberg. Filho de comerciantes judeus, ele já despontava desde criança para o futebol, integrando o Karlsruhe com apenas 10 anos de idade — o clube também possuía origens judaicas, fundado por Walther Bensemann, grande entusiasta do esporte e também fundador da revista Kicker. Por ser um clube amador — como todo o futebol alemão à época — Hirsch trabalhava integralmente como um fabricante de artigos de couro.

Nos primórdios do futebol alemão, o Karlsruhe Fussball Verein era uma grande potência. Nessas condições favoráveis e com grande destaque na base, Hirsch despontou pela equipe em 1909, com apenas 17 anos. Conhecido pela potente perna canhota, o ponta estreou e logo deixou sua marca na primeira partida da sua carreira.

O responsável pela promoção do jovem jogador ao grupo principal foi o treinador inglês William Tomley, um dos mais destacados treinadores daquela época. Ídolo do Blackburn, Tomley era famoso principalmente pela criação de estratégias e táticas evoluídas para o período.

Se destacando cada vez mais como jogador de futebol, Hirsch guiou o Karlsruher FV ao seu primeiro e único título alemão na história, em 1910, quando tinha apenas 18 anos. Fazendo dupla de ataque com o também judeu Gottfried Fuchs, o clube derrotou o Holstein Kiel na grande final.

A trajetória ascendente não parou por aí. No ano seguinte, ele conquistou outro marco: foi o segundo judeu a ser convocado pela seleção alemã, atrás apenas do amigo Fuchs. Pela Nationalelf, disputou os Jogos Olímpicos de 1912. Atuando pelo país, jogou sete partidas e marcou quatro gols, sendo todos feitos em um jogaço contra os Países Baixos, que terminou 5 a 5.

Prestes a explodir a Primeira Guerra Mundial em 1914, Hirsch se alistou ao serviço militar e foi transferido para a Baviera. Pela incompatibilidade de continuar atuando pelo Karlsruher, o ponta acabou trocando o clube pelo Greuther Fürth. No mesmo ano, voltou a vencer o Campeonato Alemão pela nova equipe, que era comandada pelo mesmo William Tomley que fez história pelo Karlsruher.

Após a conquista nacional, Hirsch teve de paralisar sua carreira esportiva para servir ao exército alemão na Primeira Guerra. Julius foi voluntário no Regimento de Infantaria da Real Bavária juntamente com o seu irmão Leopold, que acabou morrendo em combate em Flandres, na Bélgica, em 1916. Seu outro irmão, Max, também viria a servir o exército alemão posteriormente.

Ao final da guerra, Hirsch ainda foi condecorado com a Cruz de Ferro, honraria dada pelas forças armadas germânicas. Em 1919, ele retornou ao futebol com a camisa do Karlsruhe, pelo qual jogou até se aposentar em 1925. Ele ainda continuou no clube, mas como treinador das categorias de base.

Ao mesmo tempo que treinava a base do Karlsruher, Julius assumiu o negócio familiar que produzia uniformes oficiais e bandeiras de clubes. Querendo adentrar ainda mais na área esportiva, Hirsch transformou sua empresa em uma marca de artigos esportivos, fazendo muito sucesso principalmente pela produção de bolas.

Em 1929, a quebra da Bolsa de Nova York deu início a uma das maiores crises econômicas da história moderna. Na época, os EUA já eram a maior potência financeira do planeta, influenciando negativamente grande parte dos países.

A crise foi preponderante para a escalada nazista comandada por Adolf Hitler na Alemanha. Pregando a superioridade da raça ariana, o político deu início ao antissemitismo. Naquela época, muitos judeus eram donos de bancos e empresas bem-sucedidas. A justificativa nazista era tomar todos os bens deles.

No ano seguinte, o cenário começaria a mudar. A empresa de Hirsch entrou em crise e sofreu processo de falência, em uma época que ideologias antissemitas já estavam influenciando fortemente grande parte da população alemã.

Três anos depois, com a consolidação de Adolf Hitler no comando político alemão, o Karlsruher foi obrigado a expulsar os membros judeus do seu quadro social. Hirsch, sabendo um pouco antes sobre a futura medida, escreveu uma carta renunciando ao seu posto no clube. Não querendo se distanciar do futebol, Hirsch ainda conseguiu fazer parte de um clube judeu da mesma cidade, ao mesmo tempo que lutava contra o desemprego e a perseguição por integrar a comunidade judaica.

Com o passar dos anos, Hirsch entrou em depressão e chegou a tentar suicídio em 1938. Ellen, sua esposa, o apoiou durante todo o período, ajudando também na entrada em uma clínica psiquiátrica na França. Se recuperando da depressão, Julius voltou a Karlsruhe e foi obrigado a trabalhar no departamento de construção civil, em um depósito de entulho.

Em meados de 1942, Hirsch e sua esposa — que era de origem cristã — se divorciaram como tentativa de poupar seus dois filhos dos campos de concentração.

Aos 50 anos, no dia primeiro de março de 1943, ele foi levado pela Gestapo – polícia secreta nazista — para Auschwitz, acompanhado de mais de mil e quinhentas pessoas. Ele foi acompanhado à estação de Karlsruhe pela sua filha Esther, na época com 14 anos, que fez questão de ter aquele último momento com o seu pai. Esse momento contrasta com 32 anos antes do acontecimento, onde ele foi aclamado por ser um dos dois únicos representantes da cidade na seleção alemã.

Após chegar em Auschwitz, o último contato foi uma carta enviada à sua ex-esposa, contando que tinha chegado bem ao destino. Sem dar mais notícias, Hirsch foi considerado morto pelas autoridades alemãs no dia 8 de maio de 1945, data que os nazistas se renderam. No mesmo ano, seus filhos Heinold e Esther também foram levados aos campos de concentração. Felizmente, sobreviveram e foram resgatados pelo Exército Vermelho em 7 de maio de 1945. Eles estavam em Theresienstadt, na Tchecoslováquia.

Levou décadas até que sua história de luta e resistência fosse revelada e reconhecida pelas autoridades alemãs. Como homenagem, a Federação Alemã de Futebol criou em 2005 o ‘Prêmio Julius Hirsch’, dado para àqueles que incentivam a paz e a tolerância no meio futebolístico.

Em janeiro de 2020, o artista britânico Solomon Souza eternizou seu nome em um mural localizado em Stamford Bridge, estádio do Chelsea. A obra fez parte da campanha ‘Say No to Antisemitism’, idealizada pelo clube londrino.

A história de Julius Hirsch é apenas mais uma entre as dezenas de milhões existentes naquele período. Um verdadeiro herói.