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A constante reconstrução em Anfield Road

A incessante busca do Liverpool por um modelo vencedor

Após a Copa do Mundo de 1998, a França foi eleita como a seleção que jogava o mais moderno futebol do planeta. Gerárd Houllier era assistente de Aimé Jacquet naquela Copa e foi contratado pelo Liverpool para reformular e implementar o estilo francês.

Liverpool de Gerard Houllier

O mesmo aconteceu com Rafa Benítez, que herdou o Valencia duas vezes vice-campeão europeu com Héctor Cúper. Sua versão do clube valenciano era ofensiva, com leveza nas jogadas que iniciavam em Aimar e tinha o 4-2-3-1 que engatinhava na Europa.

Liverpool de Rafa Benítez

O Liverpool surpreendeu o mundo no último dia da janela de transferências do inverno de 2011. Ídolo do clube e figura mítica na remontada em Istambul, o atacante Fernando Torres deixava o clube rumo aos novos ares — e um salário polpudo — no Chelsea. Para seu lugar, o clube deixou de lado a crise financeira e anunciou não um, mas dois centroavantes jovens, de área, conhecidos pela raça e pelos gols.

Aquele era um momento onde se discutia o fim dos centroavantes e não gastar quase 60 milhões de libras neles. Luis Suárez rapidamente provou sua qualidade, mas o fracasso de Andy Carroll, contratação mais cara do clube ao momento, se tornou emblemática. Assim como o próprio fracasso de Kenny Dalglish. Ou a reconstrução almejada por Brendan Rodgers.

Até o sucesso de Klopp guarda essa semelhança. O Liverpool foi uma espécie de termômetro, o clube que mostrava o que estava dando certo ou não no futebol. Um espelho das ideias e conceitos que estavam vencendo no futebol, sendo aplicadas ou não no clube.

Liverpool de Roy Hodgson

Ainda que tenha tido seus altos, como uma Carling Cup, Dalglish não era exatamente um treinador antenado. Ele tinha sido uma resposta de Tom Hicks e George Gillett, novos donos do clube com a venda para a FSG, para o desastre que tinha sido Roy Hodgson em 2010. Pragmatismo é necessário em momentos de crise, e King Kenny era o escudo mais seguro possível.

Acontece que a visão de futebol do ex-atacante escocês era a mesma de seus seis anos como técnico do Liverpool entre 1985 e 1991. Andy Carroll faria o mesmo papel de Ian Rush, e Luisito seria Beardsley, com Gerrard como o velho box-to-box. As contratações demoraram a vingar, mas Dalglish jamais deixou sua fórmula: duas linhas de quatro, um jogador se movimentando e criando jogadas como Gerrard e um centroavante trombador, papel que Craig Bellamy faria por vários jogos. É claro que lesões, como as de Lucas Leiva, atrapalharam o time, que ainda tinha Kuyt como o velho e bom winger. O 4-4-1-1 e a cadência faziam parte do “Liverpool way”, uma forma de jogar que tanto The Kop como qualquer torcedor em Anfield sabiam bem.

Liverpool de Kenny Dalglish

O futebol, porém, estava mudando a passos largos naquele 2011. O Manchester City de Roberto Mancini era muito mais fluido com wingers que, na verdade, eram meias e dois atacantes altos, porém, móveis. O Chelsea de Ancelotti muitas vezes fazia um losango e jogava em alta velocidade. Até Sir Alex Ferguson, símbolo do conservadorismo tático, experimentava se inspirar no Barcelona. Na campanha da final na Liga dos Campeões em 2011, Rooney fora testado como meio-campista e, junto a Carrick, buscavam emular a dupla Iniesta-Xavi.

Fergie e Guardiola decidiram a Liga dos Campeões, e o Barça continuava amassando seus adversários. O “tiki-taka” era o modelo vigente no jogo. As vitórias da Inter e do Chelsea em 2010 e 2012 e os bons jogos do Real Madrid de Mourinho eram experimentos. Casualidades dentro do futebol. Naquele momento, manter a bola sob controle e construir por baixo, com a participação do goleiro, representava seguir o que havia de mais avançado. Se havia um treinador alinhado com esse pensamento na Inglaterra, ele atendia pelo nome de Brendan Rodgers, anunciado em 1º de junho de 2012.

O galês havia montado praticamente uma filial catalã no Swansea, com posse de bola, passes curtos e posicionamento avançado para agredir o oponente já no campo de ataque. Era uma mudança brusca de pensamento de todos os treinadores do Liverpool desde Graeme Souness na década de 1990. Um choque necessário para fazer o clube entrar numa nova era de jogo e de filosofia.

“Eu gosto de controlar jogos. Gosto de ser o responsável pelo meu próprio destino. Se você é melhor do que seu oponente e têm a posse, você tem 79% de chance de vencer o jogo… para mim é bem lógico, não importa o tamanho ou a camisa, se você não tem a bola, você não consegue fazer gols”, declarou Brendan Rodgers ao Bleacher Report em 2012.

Nenhuma transição é fácil, e a temporada de 2012/13 provou que era preciso mais do que apenas ter a bola. Rodgers apostou num 4-3-3 bem definido, com Joe Allen e Gerrard pensando o jogo no tripé de meio-campo para Sterling e Shelvey ocuparem os lados. Era o mesmo esquema do Barcelona, mas faltava o brilho de Iniesta e o desequilíbrio de Messi. Faltava a dinâmica que só os catalães conseguiram imprimir e que o mundo tentava copiar. Em vão.

O futebol naquele momento já não pedia mais posse. Bayern e Real Madrid deixaram claro que a capacidade de se adaptar e pensar de forma rápida poderia vencer times que trocam passes à exaustão, desde que longe do gol. A acachapante derrota da Espanha para o Brasil na Copa das Confederações confirmou o que a Copa do Mundo só deixaria claro: o “tiki-taka” durou brevemente, e nascia um novo modelo: o modelo alemão de tratar bem a bola, mas tratá-la com velocidade.

Brendan Rodgers entendeu o momento e situou o Liverpool como a equipe mais contemporânea da Inglaterra em 2013/14. Gerrard, um box-to-box de invejável categoria, foi jogar mais longe do gol, pensando e mantendo a bola de trás, como Pirlo. Coutinho chegou como um “winger” com bom passe e virou até volante. Henderson cresceu consideravelmente, e Luis Suárez explodiu jogando pelos lados ou como centroavante.

Liverpool de Brendan Rodgers

Foi uma temporada de diversas inovações e de um Liverpool que dava espetáculo. Em dezembro de 2013, o Liverpool faria 5 a 0 no Tottenham com um losango no meio-campo, com Lucas Leiva perto dos zagueiros, Henderson e Allen à frente e Coutinho solto no meio, se juntando a Sterling e Suárez. Dois meses depois e o 5 a 1 no Arsenal, Sturridge atuou como centroavante, Gerrard como primeiro volante e Coutinho no tripé de meio-campo. Pela primeira vez em muito tempo, o Liverpool disputava o título lado a lado com o Chelsea e o Manchester City.

Mas ainda não era a hora de sorrir. Depois de perder dos dois concorrentes em dezembro, o time fez uma série de 16 jogos invictos, interrompida apenas na antepenúltima rodada, na qual um escorregão de Gerrard abriu caminho para a vitória do Chelsea, em pleno Anfield Road, que sepultou as chances de título.

Rodgers começou a temporada seguinte com crédito, mas sabendo que as expectativas estavam maiores. Seu estilo, que misturava posse inteligente com jogadas de velocidade, perdeu muito sem Sterling e Suárez, vendidos para Manchester City e Barcelona respectivamente, os substitutos, Balotelli e Ings, tiraram a fluidez do sistema de jogo. A dificuldade contra retrancas era nítida, como ficou claro nos clássicos. O time perdera intensidade e expunha a defesa a todo momento. De certo modo, Rodgers não conseguiu fazer a adaptação que fez tão bem na temporada anterior e que estava em voga em times como a mutante Juventus de Allegri, o time sensação da temporada, ou o Chile de Sampaoli. Se 2015 tinha uma cara, era a da flexibilidade tática.

A opção por Jürgen Klopp, apontado pela própria torcida como o treinador mais “liverpoolniano” possível, não tinha nada a ver com ele ser “cool”, mas porque, em outubro de 2015, Klopp oferecia um futuro como Rodgers ofereceu em 2012. Ele era o treinador que conseguiu evoluir o contra-ataque e a flexibilidade tática que bateram no Barcelona dentro de um estilo único: o “Gegenpressing” [contrapressão], ou, como ficou conhecido, o “futebol rock & roll”, isto é, intensidade, pressão, linha de defesa alta e até oito jogadores no campo adversário marcando e roubando a bola para chegar rapidamente ao gol. Um jogo agressivo, sempre num 4-2-3-1 ou num 4-3-3 de muita compactação e que atacava com passes rápidos e diretos e nos momentos após roubar a bola de seu adversário.

Foi essa cara, já num imutável 4-3-3, com a qual o Liverpool deu sinais de que estava renascendo ao chegar como favorito na final da Liga Europa em 2016. Mas nem tudo é sobre os treinadores. Eles podem evoluir seus jogadores se tiverem tempo, assim como podem corrigir falhas como a queda de intensidade no segundo tempo e as falhas de posicionamento de Emre Can e Adam Lallana que mataram o Liverpool em jogo. Assim foi na Premier League de 2016/17, quando frequentemente o Liverpool fazia grandes jogos, mas levava muitos gols porque Coutinho não retornava tanto ou porque Lovren e Klavan falhavam quando expostos no sistema de alta pressão.

É curioso que o “futebol heavy metal” de Klopp tenha se consolidado num momento em que o time não exatamente vencia. Era uma época de domínio dos jogadores, não do sistema. O Real Madrid parecia sobrenatural com Cristiano Ronaldo, e o Barcelona abdicava de seu modelo entregando a bola a Messi. Eram equipes de jogadores, não de sistemas.

Com as chegadas de Salah, Chamberlain, Mané e, principalmente, Van Dijk, aliadas à saída de Coutinho, o Liverpool finalmente traduziu o futebol vanguarda em resultados. As duas vitórias sobre o City de Guardiola na Liga dos Campeões em 2018 mostraram exatamente o que a Copa do Mundo iria confirmar: o jogo era dos times de pressão, de fechamento de espaços e de intensidade nos momentos com a bola. Era um futebol pautado num contra-ataque já no campo do adversário, como os gols de Pogba na Rússia. As arrancadas de Salah deixaram claro. O próprio City se adaptava, com o goleiro Ederson cansando de dar assistências, e Gabriel Jesus abrindo espaços para o belga De Bruyne brilhar.

Ainda que o futebol esteja em constante mudança, ele também é cíclico. Klopp sabia que era quase impossível jogar apenas no contra-ataque. Era preciso controlar o jogo. Tal como Rodgers queria. Se havia o controle defensivo, era preciso também ter o controle ofensivo, o que passa obrigatoriamente por jogar melhor com a bola.

Liverpool de Jürgen Klopp

O Liverpool campeão da Liga dos Campeões e Mundial é o time que consegue unir essa intensidade com um total domínio das ações. Shaqiri chegou com o “hype” da Copa prometendo mudar o sistema, mas foram os laterais que se destacaram pela fluidez de movimentos e posicionamentos, tornando o time mortal nas chegadas pelo lado. A remontada no Barcelona em 2019 é um exemplo desse poder, assim como a final da Liga dos Campeões contra o Tottenham é um exemplo de um jogo controlado o tempo inteiro. O futebol ficou muito mais atraente, e boa parte disso se deve a Klopp, e o Liverpool tem buscado ser um espelho das tendências nas duas décadas anteriores.

Klopp honra a tradição do Liverpool de contratar treinadores de vanguarda que dão as cartas no futebol, mas também alterna entre progresso e conservadorismo quando contratou treinadores como Roy Hodgson e Kenny Dalglish, que mostraram o caminho do que não se fazer, que acabaram conduzindo o clube a contratar o alemão que recolocou os Reds no hall dos vencedores.

Jornalista e publicitário. Estudou comunicação na Universidade Federal do ABC, escreve para o Globoesporte no Painel Tático e para a Corner. Tem uns filmes empoeirados e acha que cinema com futebol é melhor que bacon.

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