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Lateral-direito de esquerda

Estádio La Rosaleda, Málaga. Escanteio para o Barcelona cobrar. Lançam na área e, depois de uma rápida confusão, a bola acaba sobrando para Oleguer. O lateral chuta um pouco desajeitado, no meio do gol. O arqueiro tinha saído mal e não conseguiu se recuperar a tempo. Gol. O primeiro dele com as cores blaugranas, do time que sempre torceu, mas ao mesmo tempo, único e o último de uma carreira que, dentro de campo não durou muito.

Xavi, Puyol, Ronaldinho e Iniesta pulam sobre o camisa 23 na comemoração. Era um time histórico, cheio de estrelas, com o autor do tento sendo, talvez, o mais discreto entre os titulares. Mas isso só dentro de campo.

Se esse gol contra os Boquerones foi um filho único, as idéias na cabeça do ex-jogador sempre encontraram muitas companhias. Estudioso e leitor assíduo de diversos temas, Oleguer não se contentou com os títulos futebolísticos, buscou também um diploma de economia e uma afiliação ao partido político independentista e de ideologia socialista Candidatura d’Unitat Popular [CUP].

A simpatia com os princípios da independência catalã e o maior apreço pela esquerda política, lado oposto ao que atuava no futebol, não foram grandes surpresas pra ninguém. Mesmo quando jogava, Oleguer Presas mostrava sua ideologia, chegando até a recusar uma convocação para a seleção espanhola por sentir-se muito catalão.

Atuação em vários campos

As entrevistas mais complexas costumavam a vir dos treinadores e de seus pensamentos modernos sobre o jogo, como eram os casos dos holandeses: Cruijff, van Gaal e, naquele momento, Rijkaard.

Mas em fevereiro de 2007, os jornalistas ainda não estavam prontos para Oleguer. Na época, o jogador escreveu um polêmico artigo para a revista Berria com o nome “Buena Fe”, analisando a condenação e o julgamento do membro da ETA [grupo separatista basco], Iñaki de Juana Chaos, fazendo assim um paralelo com a condenação e absolvição de alguns líderes de direita no país.

O jogador colocou em xeque a imparcialidade nos casos, dizendo que “O Estado de Direito possui muitos espaços obscuros” e ainda pontuou que a situação exalava um “cheiro de hipocrisia”.

Juana Chaos era acusado de assassinar mais de vinte pessoas na Espanha e, dessa forma, o artigo caiu como uma bomba na imprensa. A Kelme, empresa de material esportivo que patrocinava o jogador, tratou de retirar o apoio, enquanto o presidente do clube catalão se aborreceu e disse que seu atleta estava “equivocado”.

A escrita, no entanto, não era novidade para Oleguer. Tanto é que o ex-lateral possui mais artigos e textos publicados que grandes atuações com a bola nos pés. Um ano antes dessa polêmica, por exemplo, ele e o poeta Roc Casagrán escreveram juntos o livro Camì d’Itaca [Caminho de Ítaca], em que Presas deixa claro seu posicionamento nacionalista catalão e, ao mesmo tempo, antifascista.

Tempos depois, Oleguer ainda recebeu a convocação para a Seleção Espanhola do então treinador Luis Aragonés, mas deixou claro seu “modo de ver o mundo” dizendo que “não tinha o sentimento” para vestir a camisa de La Furia Roja.

Dessa maneira, o caminho natural foi vestir o manto que realmente amava, o da Catalunha, por algumas poucas partidas. Bastava para o lateral, que colecionou títulos no Barça e teve uma passagem discreta no Ajax, se aposentar do futebol em 2011, aos 31 anos.

No ano seguinte, mais uma grande decisão. Oleguer foi concorrer ao parlamento catalão, mas não teve sucesso. Derrota nas urnas pra quem se acostumou a ganhar nos gramados com grandes companheiros como Ronaldinho, Deco e Eto’o.

O lateral nunca se destacou tecnicamente nos tempos de atleta, mas sim pela perseverança que, no entanto, continua viva. Volta e meia, Oleguer continua tecendo suas críticas e observando se surgiria a oportunidade de um grande movimento político e ideológico que permitisse novamente uma comemoração, como aquela no estádio em Málaga.

Cresceu acompanhando de perto o glorioso Bragantino e viu que em meio às vitórias e derrotas, existem muitas boas histórias pra contar. Autor do livro: Cordel Tricolor: a história do São Paulo FC em versos.

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