Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Liberté, egalité et fraternité

A face colonialista e os valores da Revolução Francesa plasmados no futebol

De forma inédita, os políticos do segundo turno nas eleições presidenciais da França, em 2017, não pertenciam ao Partido Socialista ou ao Partido Republicano, e sim ao novato ​En Marche!​, do centrista Emmanuel Macron, e à ​Front National​, da candidata de ultradireita Marine Le Pen. Em meio à incerteza econômica e à fragilidade emocional oriunda dos ataques terroristas, Marine conquistou um quinto dos eleitores na primeira etapa, repetindo um feito de quinze anos antes, quando seu pai, Jean-Marie Le Pen, também alcançou o segundo turno. O progenitor Le Pen acabou expulso — pela própria filha — do partido que fundara, na tentativa de Marine se afastar das declarações extremistas e ofensivas do pai, ainda que ela propague um discurso tido como um misto de racismo, xenofobia, islamofobia e antissemitismo.

Em entrevista coletiva com o técnico do Real Madrid, durante o processo eleitoral francês, Zidane externou seus pensamentos sobre a disputa presidencial: “Estou longe de todas essas ideias, desta Frente Nacional. É preciso evitá-la ao máximo. Os extremos nunca foram bons.” Zinedine Yazid Zidane nasceu em Marselha, mas seu nome identifica imediatamente sua origem argelina. Sua posição política não poderia ser diferente. Macron derrotou Le Pen e se tornou o presidente mais novo da história francesa, aos 39 anos.

Allons enfants de la patrie

[Avante, filhos da pátria]

Porto Alegre, 30 de junho de 2014. As Raposas do Deserto — como é conhecida a seleção argelina — se classificaram para sua primeira disputa na fase de mata-mata em Copas do Mundo. O jogo foi para a prorrogação no Beira-Rio após um 0 a 0 e, logo aos dois minutos do alargue, Schürrle abriu o placar. No penúltimo minuto do tempo extra, Özil fez o segundo. Ainda havia mais por acontecer.

Do extremo direito, Feghouli cruzou e Djabou surgiu para vencer Neuer, segundos antes do apito final. No entanto, acabou assim, com a derrota dos argelinos. Caso tivessem vencido este confronto, além de se vingarem do Jogo da Vergonha da Copa de 1982, quando Alemanha e Áustria combinaram o resultado para ambas se classificarem — eliminando a Argélia —, seria também um acontecimento histórico, pois enfrentariam a França, sua antiga nação mais do que colonizadora, nas quartas-de-finais.

Em 2012, numa visita oficial à Argélia, o então presidente francês François Hollande sustentou que os 132 anos que duraram a invasão e ocupação no país foram “profundamente injustos e brutais.” Macron e Le Pen possuem visões opostas sobre esta questão. Enquanto Emmanuel corroborou com a opinião do ex-governante, Marine cr​iticou, no Twitter, a postura do seu adversário em assumir a culpa do Estado francês. Todo o território argelino era francês, não como colônia, mas como parte do próprio império francês, diferentemente de outros territórios.

Djabou — o autor do gol — nasceu na cidade de Sétif, onde, em 1945, a polícia francesa abriu fogo na direção de manifestantes que protestavam contra a minoria europeia que governava o país e discriminava os nativos. O ataque foi o ponto de virada na relação franco-argelina, culminando na Guerra de Independência entre 1954 e 1962, período em que, focada neste conflito, a França não ofereceu resistência à declaração de independência de 17 dos 20 países por ela dominados no continente.

Com estimativa de um milhão de argelinos mortos, esta guerra foi narrada com detalhes no filme ​A Batalha de Argel​, de 2005, do diretor Gillo Pontecorvo, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Direção e indicado a três categorias do Oscar. A obra retrata as atrocidades cometidas pela Frente de Libertação Nacional — radicais argelinos— e militares franceses.

O uso de tortura pelas autoridades colonizadoras foi indiscriminado, até mesmo contra civis. Paul Aussaresses, militar reformado, relata em seus livros, publicados após sua aposentadoria, as técnicas de opressão desumanas utilizadas contra os argelinos. Em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2008, Aussaresses ainda comenta que, como integrante do Serviço Secreto francês, veio ao Brasil ensinar seus conhecimentos sobre tortura ao governo local e também a diversos países da América Latina, que se encontravam sob regime de ditaduras militares.​ “​Acho que [João Baptista] Figueiredo apreciou minha conduta em relação aos brasileiros. Minha colaboração foi frutuosa para eles e para nós” .

La Marseillaise

[A Marselhesa]

Paris, 06 de outubro de 2001. Nem um mês após os ataques às Torres Gêmeas em Nova Iorque, França e Argélia entraram em campo no Stade de France​. ​O amistoso — que marcava a primeira partida entre o país colonizador e a antiga colônia — ganhou assim uma tensão ainda maior. Pouco importava a óbvia superioridade francesa depois do apito inicial. A torcida pró Argélia fez com os ​Les Bleus ​se sentissem em território estrangeiro. Zidane era alvo dos gritos emanados das arquibancadas: ​Harki​, nome dado aos argelinos considerados traidores da pátria por defenderem a França na Guerra de Independência.

O apito final veio na metade do segundo tempo — goleada de 4 a 1 para a França. Não havia condições de continuar a partida. Se antes da bola rolar um torcedor invadiu o gramado, agora centenas deles corriam sorridentes pelo campo, envoltos em bandeiras da Argélia, como se tivessem conquistado a França — quando, na realidade, a vasta maioria dos imigrantes e descendentes das antigas colônias vivem em guetos, com alta criminalidade e baixo acesso aos serviços públicos.

Lilian Thuram ficou revoltado com a invasão. Entendia a necessidade e beleza do ato, ao mesmo tempo em que sabia como ele seria deturpado. Em entrevista à BBC, o defensor foi categórico ao dizer que “Não se pode denunciar o racismo e depois dar um tiro no pé como aconteceu. Eu tentei agarrar uma daquelas crianças — todos pensaram que eu queria bater nela, mas estava tentando dialogar. Eu lhe disse: ‘Pare! Você não entende o que está fazendo! Você não entende que no fim isso será usado contra vocês!’”.

Desde a conquista da independência até 2017, oito jogadores de origem argelina vestiram a camisa dos ​Les Bleus​. Omar Sahnoun, em 1977, foi o primeiro, mas infelizmente morreu apenas três anos depois, aos 24, devido a um infarto fulminante. O último é o jovem Kylian Mbappé. Ele poderia, além da Argélia — por conta de sua mãe — e da França, também ter escolhido representar Camarões, local de nascimento de seu pai. Sem dúvida, o maior representante deste grupo é Zidane, considerado, ainda, o melhor jogador francês de todos os tempos. Caçula de cinco, ele é filho de pais argelinos que imigraram um ano antes da guerra eclodir em seu país natal.

Durante os anos de 1995 e 1996, a França sofreu vários atentados a bombas, orquestrados pelo Grupo Islâmico Armado (GIA). Dentre os terroristas responsáveis pelos ataques havia franco-argelinos, reabrindo feridas não cicatrizadas na sociedade. No Wembley, em Londres, República Tcheca e França decidiram nas penalidades a vaga na final da Euro 1996, após um empate sem gols. A culpa da derrota caiu excessivamente nos ombros de Pedros — que desperdiçou o sexto penal e se aposentou da seleção no mesmo ano — e do novato franco-argelino Zidane, por não corresponder às expectativas, na visão da imprensa.

Embalado por estes acontecimentos, Jean-Marie Le Pen veio a público criticar a seleção nacional. Para ele, a eliminação só poderia ser decorrência dos falsos franceses — os “estrangeiros” —, estando expressa a falta de nacionalismo desses jogadores ao permanecerem calados na execução do hino da França.

Após as declarações do político, Christian Karembeu decidiu parar de cantar ​La Marsellesa2. Karembeu — cujo visual chamava mais atenção do que seu futebol — nasceu em Nova Caledônia, território de dependência francesa desde 1853. Ele é de etnia Canaca, um povo melanésio que habita a ilha do Oceano Pacífico e compõe 45% da população do país.

“Alguns de nós cantam, outros não, mas não tem nada a ver com nossas origens estrangeiras. Acho que Le Pen estava usando esse fato para seu proveito político”, explicou Desailly, ganês que foi adotado por um francês, companheiro de sua mãe, tendo se mudado com a sua família para a França aos quatro anos de idade e, assim, deixado de ser Odenke Abbey para se tornar Marcel Desailly.

Outro jogador que virou centro da questão — anos depois — foi o explosivo Benzema: “Se marco gol, sou francês. Se não marco, ou as coisas vão mal, eu sou árabe.” Mais um exemplo de atleta que não só deixa de cantar o hino antes das partidas, como ainda expressa sua indignação com o teor da letra concebida no século XVIII, Karim se envolveu em outra polêmica, ao atribuir que Deschamps, seu treinador, não o convocou para a Euro 2016 por “ter cedido à pressão da parte racista da França.” No entanto, tudo leva a crer que, neste caso, a sua ausência no torneio tenha sido em decorrência do escândalo envolvendo o outro selecionável Valbuena, que, por sua vez, é descendente de espanhóis.

O icônico Cantona foi a público ratificar a opinião de Benzema, afirmando que a opção do técnico pela ausência de Ben Arfa teve cunho racista, dadas as raízes norte-africanas do meia. Com a lesão de Varane (pai caribenho), contudo, Rami (origem marroquina) foi chamado, representando, então, os “árabes”. O caminho oposto, ou seja, um francês jogando por alguma antiga colônia francesa, é a cada ano maior — fato que não recebe a mesma atenção da sociedade francesa —, tal qual os casos de Aubameyang (Gabão), Benatia (Marrocos), Koulibaly (Senegal), Bolasie (Congo) e da maioria da seleção da Argélia, até mesmo abrangendo os que chegaram a jogar pela França em competições juvenis, como Feghouli, Ghoulam e Brahimi.

A questão de jogadores que representam a França em seleções de base e depois atuam por outro país à nível principal se tornou uma polêmica em 2011. Com o vexame da Copa de 2010 — expulsão de Nicolas Anelka da equipe por atrito com o técnico Raymond Domenech, greve dos jogadores e eliminação na primeira fase —, Laurent Blanc assumiu o comando técnico da seleção. Além de exigir que todos cantassem o hino nacional em sinal de patriotismo, ele foi gravado numa conversa — em novembro de 2010 — com dirigentes da Federação Francesa de Futebol (FFF). No teor vazado à imprensa pelo site ​Mediapart​, Blanc sugeria uma espécie de cota limite para jogadores com dupla nacionalidade — posteriormente negou os fatos. Segundo ele, negros e árabes se destacavam nas equipes juvenis e recebiam o apoio da FFF, para, ao crescerem, optarem por defender outro país, o que traria prejuízo à formação de talentos franceses.

Vive la France!

[Viva a França!]

Uma vez que o futebol é um expoente e reflexo da sociedade, não é de se espantar que a imprensa tenha se interessado pela opinião do ex-jogador Zidane sobre as eleições de 2017. Antes do início da Copa de 1998, inflamado pelo resultado da Frente Nacional nas eleições regionais — acima das expectativas —, Jean-Marie Le Pen novamente se valeu do futebol como alvo de seus ideias: “Não consigo me reconhecer na seleção nacional. Talvez o treinador tenha exagerado na quantidade de jogadores de cor convocados e deveria ter sido mais cuidadoso”.

Na partida final contra o Brasil em 1998, três dos titulares eram negros — Lilian Thruram, Marcel Desailly e Christian Karembeu. Thuram respondeu à opinião do político: “Claramente ele desconhece que existem franceses que são pretos, franceses que são brancos, franceses que são morenos. Acredito que isso reflita de modo ruim em um homem que tem aspirações de ser presidente da França, mas ainda não sabe nada sobre a história da França ou sobre sua sociedade. […] Então ​Vive La France​, mas a França de verdade, não a que ele deseja.”

O defensor, nascido em Guadalupe — um departamento ultramarino francês no Caribe —, é o jogador que por mais vezes representou a seleção francesa, com quase 150 partidas. Em sua vitoriosa trajetória, ele marcou apenas dois gols pela França, justamente na vitória por 2 a 1 sobre a Croácia, na semifinal do mundial de 1998. Sentindo-se culpado por ter dado condições na jogada que resultou no gol de Suker, Thruram partiu para o ataque e, logo no minuto seguinte, roubou uma bola, recebendo de Djorkaeff4 para igualar o marcador. Mais tarde virou o jogo com um chute de perna esquerda, de fora da área, e até mesmo seu semblante expressou incredulidade com o que acabara de acontecer. “Eu joguei com Thruram no Mônaco e ele chegava na cara do gol e não chutava porque tinha medo de errar. Naquele dia, quando ele chutou duas vezes e marcou dois gols, ele pode superar seu medo porque ele queria muito vencer.”, comentou Barthez.

Esta vitória inaugurou a França no rol de finalistas da Copa do Mundo, após as expectativas frustradas de 1958, com o time liderado por Just Fontaine, nascido no Marrocos, e Raymond Kopa, filho de poloneses — cujo sobrenome, na verdade, é Kopaszewski.

Em 1982, a França também se frustrou, quando desfilaram Platini — descendente de italianos —, Jean Tigana — nascido no Sudão Francês, que se tornou Mali após a independência — e Alain Giresse (treinador de Mali desde 2015). Em 1986, nova decepção, com a adição de Luis Fernández — espanhol — ao trio, repetindo o ​Quadrado Mágico ​que havia encantado os torcedores dois anos antes, na conquista da Euro em território nacional.

A história de sucesso da França no futebol é intrinsecamente ligada à imigração, ainda que negros e árabes de antigas colônias do norte da África apenas ganhem foco em intensos debates políticos sobre a estrutura da sociedade francesa, independentemente do partido no poder.

A conquista do primeiro título mundial popularizou o canto ​‘Vive la France, Black-Blanc-Beur’ [Viva a França! Negros, Franceses e Árabes!]​ ​entre os franceses.​ ​No entanto, tudo não passa de um mito e, como tal, é capaz de iludir e de fazer os fragmentados se sentirem únicos, enquanto a seleção francesa estiver bem.

4 ​As origens de seu pai, Jean Djorkaeff são polonesas e da Calmúquia, uma região etinicamente mongol, no sul da Rússia. O sobrenome originalmente seria Djorkayev. Já Mary Ohanian, mãe de Youri Djorkaeff, é nascida na Armênia. 5 FourFourTwo.com — ​98: Allez Les Bleus: the multiracial Rainbow Warriors, 2014.

Afrique occidentale française

[África ocidental francesa]

Seoul, 31 de maio de 2002. Djorkaeff — escolhido para substituir Zidane, lesionado às vésperas da Copa sediada na Coréia do Sul e Japão — perdeu a bola no meio de campo e Diouf foi acionado na sequência. O melhor jogador africano de 2001 e 2002 mal notou a presença do zagueiro Lebouef, deixando-o no chão. Desailly tentou interceptar o passe de Diouf, feito onde a linha da pequena área encontra a linha de fundo, mas a pelota passou entre suas pernas e, também do chão, viu Petit e Barthez se afobarem num bate e rebate, até Diop escorar para a rede. Ao se erguer, Senegal estava na frente e todo o time africano partia em direção à bandeirinha para dançar.

Volante forte, rápido, de bom passe e inteligência, Papa Bouba Diop ganhou o apelido de ​O armário ​pela torcida do Fullham, clube onde teve seu maior sucesso.​ Os motivos são óbvios: ele era um imponente jogador de quase dois metros de altura — e largura.​ ​Do outro lado, naquela partida, vestindo azul, branco e vermelho estava outro volante com o mesmo porte físico e características ainda mais aprimoradas: Patrick Vieira.

Vieira e Diop nasceram em Dakar, capital de Senegal, que até 1960 era a capital da África Ocidental Francesa, o conjunto de países por ela dominado durante o colonialismo. Ambos rumaram à França: Patrick partiu ainda criança, Papa Bouba no final da adolescência. Pelo fato de seu avô ter servido o exército francês, Patrick tinha direito à nacionalidade europeia, optando por representá-la dentro de campo mais tarde. Já para Diop, a relação com o antigo colonizador era a oportunidade de se profissionalizar e arriscar uma carreira.

“Minha identidade africana é cada vez mais importante para mim”, comentou Vieira ao voltar pela primeira vez a Senegal, em 2003, para promover uma instituição de caridade por meio do futebol. “Quando nós deixamos o país, foi difícil nos adaptarmos em Paris, mas ao menos a língua era a mesma. Você deixa para trás família, tudo que costumava conhecer, seus amigos, seus hábitos, sua cultura africana, seu inteiro modo de vida. Você não sabe para onde está indo. Mas também aprenderá muitas coisas sobre si próprio, aprende a ficar mais forte.” Patrick não chegou a conhecer seu pai, senegalês, e, muito por isso, utiliza o sobrenome de solteira da mãe, Vieira, de origem portuguesa, pois ela nasceu em Cabo Verde.

Os portugueses, pelas expedições marítimas, foram os primeiros europeus a explorar Senegal que, antes de ser tomado como colônia francesa, também sofreu influência comercial dos holandeses. Em 2017, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa visitou pela primeira vez o país em nome do Estado Português, reconhecendo o papel protagonista que Portugal teve no tráfico de escravos, cuja parte considerável passava por Senegal. A imprensa destacou como o pedido de perdão veio tarde, uma vez que, por exemplo, o Papa João Paulo II já havia se desculpado pela conivência do Vaticano, em 1981, e o então presidente Lula, em 2005, também fez o mesmo em nome do Brasil.

Do elenco convocado para aquela Copa — a primeira e única participação dos Leões de Teranga —, 21 dos 23 jogadores atuavam na França. Dadas as condições precárias da prática esportiva em Senegal, até mesmo o treinador era francês. Bruno Metsu assumiu após a eliminação para a Nigéria, na Copa das Nações Africanas de 2000. De forma inédita, levou o time à final do torneio africano continental seguinte, perdendo apenas nos pênaltis para Camarões, meses antes da disputa do mundial de 2002. Ainda que fosse chamado de feiticeiro branco pelas inovações e resultados que trouxe para a seleção senegalesa, raros — e, por que não, loucos — apostavam que o país estreante se classificaria em um grupo com Uruguai, Dinamarca e França. Metsu não perdeu para nenhuma dessas três seleções, mas foi derrotado por um câncer que afetou seu fígado, cólon e pulmão, em 2013.

Diop foi o artilheiro da seleção senegalesa que igualou Camarões de 1990 — mais tarde, em 2010, Gana também repetiu o feito— e chegou às quartas de finais do mundial, perdendo no Golden Goal​ para a Turquia. Além da vitória ante os franceses, simbólica e histórica, Senegal se divertiu contra o Uruguai, abrindo 3 a 0, e depois permitindo o empate, ficando também na igualdade num duro jogo contra a Dinamarca: 1 a 1. A Suécia de Larsson, sobrevivente do grupo que matou a badalada Argentina — e favorita tal como a França —, ficou pelo caminho nas oitavas de final, após o gol de ouro do ponta direita Camara, o maior goleador da seleção senegalesa. Por sua vez, Vieira viu seu país natal ir às quartas-de-final e o país que adotou se despedir de forma anêmica — sem marcar nenhum gol — e humilhado, ainda na fase de grupos.

L’Empire colonial français

[O Império colonial francês]

Berlim, 9 de Julho de 2006. A França chegava a mais uma final de Copa do Mundo. Vários remanescentes da geração campeã em 1998 jogariam o último mundial de suas carreiras e Zidane era o ícone máximo, líder de seus compatriotas. Um time armado pelo contestado Raymond Domenech avançou até aquela final, eliminando o favorito Brasil nas quartas-de-final. Uma equipe disciplinada taticamente com nove jogadores na marcação para deixar Zizou e Henry soltos no ataque.

Se o time de 1998 fazia Jean-Marie Le Pen não se sentir identificado, a seleção de 2006 seria ainda menos francesa segundo seus critérios, porém ainda mais francesa ao se levar em conta a história colonial e expansionista do país. Do time que entrou em campo no Olympiastadion, apenas três brancos integraram os 11 titulares: Fabien Barthez, Willy Sagnol e Franck Ribéry, sendo que este último se casou com Wahiba Belmani, uma francesa de origem argelina. Ribéry também se converteu ao Islã e mudou seu nome para Bilal Yusuf Mohammed.

Os demais jogadores dos ​Bleus​ eram um espectro fiel do que foi o império colonial francês. Éric Abidal tem origens em Martinica, no Caribe, um departamento ultramarino insular francês, com status de Região, assim como Guadalupe — também uma ilha caribenha —, terra dos ancestrais de Willian Gallas e Lilian Thuram que entraram em campo naquele domingo em Berlim.

O implacável marcador Claude Makélélé, relacionado entre os 11 que foram a jogo naquela partida, nasceu em 1973 em Kinshasa, quando, naquela época, o país já se chamava Zaire há dois anos, após o tenente-general Mobutu Sese Seko autoproclamar-se presidente em 1965. Sua ascensão ao poder se deu durante o conflito pós independência do Congo Belga. Em 1970, Mobutu foi “eleito” sem nenhuma oposição e um ano depois batizou o país de República do Zaire. Em 1977, aos quatro anos, Makélélé se mudou para França, no mesmo ano que rebeldes lançaram a primeira invasão na província de Katanga, que havia sido rebatizada para Shaba. Assim como Makélélé, vários africanos buscaram na França um refúgios das guerras civis de ex-colônias européias. As políticas sociais francesas sempre vendiam um sonho para africanos de alcançarem a tal liberdade, igualdade e fraternidade.

Outro titular daquele time de 2006, Florent Malouda, ganhou destaque e um ano mais tarde se transferiu para o Chelsea. Malouda nasceu em Caiena, na Guiana Francesa — outro departamento ultramarino, este na América do Sul, o que faz o Brasil ter fronteira com um território francês. Entre Brasil e Guiana Francesa uma ponte que custou US$ 30 milhões foi “inaugurada” por volta de 2012, no entanto, sua liberação parcial só aconteceu em 2017. A ligação rodoviária entre América Latina e Europa foi anunciada por Jacques Chirac e Fernando Henrique Cardoso em 1997, mas vinte anos depois, a integração de um dos pontos mais isolados do Brasil e da França continuava complexa, já que, apesar da fronteira terrestre, era necessário visto consular no valor de R$ 289 para entrar Brasil vindo da França, enquanto não era preciso conseguir visto prévio para fazer o caminho oposto, concedido diretamente na aduana aeroportuária.

Aquela final contra a Itália foi dramática. O jogo terminou os 90 minutos em 1 a 1. O empate fez Domenech colocar em campo David Trezeguet, na tentativa de um gol salvador do atacante. Trezeguet nasceu em Rouen, na França, no período que seu pai, Jorge, jogava por lá. Mas ele cresceu na Argentina, iniciou sua carreira no Platense, antes de ir para o Monaco no final de 1995, onde foi treinado por Jean Tigana. Trezeguet jogou o Mundial Sub-20 em 1997 e a sua evolução o levou a ser convocado para a Copa de 1998.

L’autre argentin

[O outro argentino]

Buenos Aires, 10 de outubro de 2006. River e Boca duelavam pelo ​Superclásico​. Os Millonarios abriram o placar com um gol de calcanhar de Gonzalo Higuaín. Era o 26° jogo dele e seu décimo gol no campeonato argentino pelo clube. Rodrigo Palacio empatou o jogo. No segundo tempo, Higuaín recebeu passe de Belluschi, driblou o goleiro Aldo Bobadilla do Boca e fez seu segundo tento na partida. Seu 11° na primeira divisão, o sexto naquela torneio. Ernesto Farías fez o terceiro gol riverplatense e definiu o placar em 3 a 1. No mesmo dia, Higuaín — aos 18 anos ainda — era notícia em todo mundo. O jogador não tinha documentação argentina. Era francês, afinal nasceu em Brest, onde seu pai militava, caso muito semelhante ao de David Trezeguet.

No entanto, Higuaín recusou defender a seleção por não se sentir francês. Ao mesmo tempo, para jogar pela seleção argentina, deveria abrir mão de sua cidadania europeia, o que poderia prejudicá-lo em uma futura transferência para a Europa. O entrave burocrático se estendeu e só teve uma definição quando ele já havia se transferido para o Real Madrid e, maior de idade, poderia ter as duas nacionalidades concomitantemente.

Outre-mer

[Ultramar]

Saint-Denis, 10 de junho de 2016. Quase dez anos após a final perdida em Berlim, era a abertura da Eurocopa na França e os donos da casa empatavam com a Romênia por 1 a 1 até os 43 minutos do segundo tempo, quando um chute de canhota no ângulo de Dmitri Payet garantiu a vitória de ​Les Bleus​ na estreia. O jogo foi decidido por alguém nascido em Reunião — mais um departamento ultramarino insular francês no Oceano Índico, bem próximo à Madagascar —, um ano antes das eleições presidenciais protagonizadas por um discurso muito pouco includente, propondo uma França menos plural.

Mais uma vez, um jogador oriundo de território francês não europeu era protagonista em favor de um país que passou a encarar as imigrações como o maior dos seus problemas. O mesmo aconteceu, também em 2016, com as eleições nos EUA. A concepção da relação causa-efeito parece não existir pra muita gente. Ignoram a própria história. Julgam poder explorar como se explorou metade da África e diversos territórios ultramarinos, estabelecendo uma relação colonial — que se deu até depois da metade do século XX — como se isso não fosse afetar a formação social da metrópole.

Foi a primeira partida oficial após os atentados simultâneos em vários pontos de Paris, em 13 de novembro de 2015, quando 130 pessoas morreram — incluindo a prima de Lars Diarra; a irmã de Griezmann escapou por pouco — e duas bombas explodiram no entorno do Stade de France, na disputa amistosa entre França e Alemanha. O chefe do estado francês deixou o estádio ainda no primeiro tempo, sem que o público fosse avisado dos acontecimentos. No fim da partida, os torcedores esperaram por horas, em estado de choque, dentro do gramado.

A escritora senegalesa, Fatou Diomé, declarou em debate no programa ​“Ce soir (ou jamais!)”​ no Canal France 2 em 2015 que o processo de imigração é irreversível. Ela mencionou um fato irrefutável contra o argumento de que os estrangeiros roubam empregos e fazem mal à economia por enviarem dinheiro para fora do país: argumentou que esses cidadãos, para enviarem dinheiro para o exterior, primeiramente pagam os impostos na França, além de enriquecerem as empresas nas quais trabalham.

Fatou Diomé também tocou num ponto ainda mais sensível na discussão, alegando que as pessoas morrem tentando chegar à Europa por negligência nítida pois poderiam ser resgatadas com os recursos disponíveis da Frontex — agência responsável pelo controle de imigração da União Européia. Ela também disparou contra a União Africana, que se cala diante desta situação. Pra finalizar, afirmou que o ser humano que consegue chegar à Europa é muito forte visto que não teme a morte.

Diomé ainda falava quando seu oponente no debate, o holandês Thierry Baudet, tentou argumentar que as fronteiras deviam ser totalmente fechadas, justamente pelo que a escritora acabara de contar. Mas ela não o deixou interromper seu discurso, sintatizando que o processo não tinha como mudar seu rumo e que se ele não estava satisfeito, era melhor se mudar da Europa.

Certamente esse discurso causa ainda mais ódio nos extremistas que acreditam numa versão pura da França. No entanto, a incoerência está no simples fato dos países europeus terem buscado recursos fora de seu continente. E isso sempre aconteceu. A Europa não dispõem de todos os recursos que consome. Os europeus podem e devem buscá-los em outros continentes, mas a mesma regra tem que valer para o restante do mundo. Os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade vêm sendo esquecidos, sobretudo pelos autores intelectuais destes mesmos valores: os franceses.

Advogada, formada pela USP, mas jura que é legal sem ser hipster. Zagueira que não corre porque posicionamento e carrinhos perfeitos são a chave do sucesso.

Deixe seu comentário