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O artilheiro esquecido

Lothar Kobluhn esperou 37 anos para receber o troféu mais esperado de sua carreira. A história do único volante a sagrar-se como melhor marcador da Bundesliga terminou com final feliz depois de décadas à sombra do maior escândalo de corrupção do futebol alemão.

A congregação de talentos goleadores no futebol alemão dos anos 1970 era única. A Bundesliga contava com o gênio da grande área, o “Der Bomber”, Gerd Müller. Provavelmente, o maior predador dentro da grande área da história do futebol. O artilheiro do Bayern competia regularmente com outros grandes nomes, do veteraníssimo Uwe Seeler aos jovens Jupp Heynckes, Klaus Fischer ou Dieter Müller, o seu substituto no ataque da Mannschaft. Müller marcou mais gols que nenhum outro, mas, em 1971, não conseguiu vencer o troféu de melhor marcador do campeonato, o tradicional “Torjägerkanon”.

Nem ele e nem nenhum dos seus habituais rivais. Pela primeira — e única vez — na história da competição, o melhor marcador foi um obscuro volante. E, no entanto, o aparentemente desconhecido jogador teve de esperar quase quatro décadas para poder contemplar o troféu que conquistou em campo. No meio do caos de corrupção que se instalou no final daquela temporada, a “Chuteira de Ouro” alemã ficou por se atribuir posteriormente. Muitos dos que viveram a intensa temporada não deixam de se perguntar se realmente Lothar Kobluhn foi o maior goleador desse campeonato ou se tudo não passou de uma gigantesca farsa.

Kobluhn era meio-campo. Meio-campo defensivo. Competente sem ser espetacular, nunca passaria de uma carreira relativamente anônima se não fosse pelo que sucedeu na Primavera de 1971. Jogava no modesto Rot-Weiss Oberhausen, um dos mais claros candidatos ao rebaixamento durante toda a temporada. De forma surpreendente, Kobluhn foi se revelando como o goleador do time. Disparos de meia distância, golpes de cabeça em lances de bola parada, faltas diretas, tudo servia para anotar os gols que a dupla atacante — Gunter Karbowiak e Dieter Brozulat — parecia ser incapaz de conseguir. O Rot-Weiss nunca deixou a parte de baixo da tabela, mas, à medida que a temporada seguia, Koblhun estava sempre no topo da lista de artilheiros, lado a lado com Müller e Heynckes, cujos respectivos times — Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach — disputavam o título. A cinco jogos do fim do campeonato, e com o Rot-Weiss Oberhausen ainda na zona vermelha, Kobluhn voltou a marcar depois de quase um mês sem se encontrar com o gol adversário. Foi o primeiro de uma série de gols decisivos para o seu time — e que alteraram a ordem da tabela de artilheiros. Nos três últimos jogos da temporada, o volante marcou cinco tentos, terminando o campeonato com um inesperado total de 24 gols, dois a mais que Gerd Müller. Além disso, os seus gols serviram para salvar o seu clube do rebaixamento à segunda divisão.

Tudo parecia apontar para um Verão dos sonhos quando o polêmico presidente do Kickers Offenbach, Horst-Gregorio Canellas, anunciou publicamente, numa reunião com vários jornalistas em sua casa, que tinha provas de que o campeonato desse ano estava viciado. Perante o espanto generalizado, Canellas tinha gravações em áudio de conversas entre dirigentes e jogadores de vários clubes que compravam e vendiam jogos, dependendo de quem oferecia, nas últimas rodadas do campeonato. O Offenbach — que tinha sido rebaixado no lugar do Rot-Weiss — se queixava de que tanto o Colônia como o Eintracht Braunschweig tinham aceitado a oferta do seu clube rival para facilitar as coisas visto que nenhum deles disputava nada nas últimas jornadas.

Rapidamente, a situação escalou de forma inesperada, e todos os clubes pareciam estar envolvidos ora comprando, ora vendendo resultados, dependendo da sua situação na tabela de classificação. Como causa estava, sobretudo, o salário máximo permitido, que condicionava a vida de muitos jogadores que encontravam assim uma forma de aumentar os seus rendimentos ao longo do ano. O escândalo foi tal que ameaçou a própria existência da Bundesliga, e Canellas acabou por pagar o preço. A Federação não aceitou como válidas as acusações e o rebaixamento do Offenbach foi mantido. O seu presidente foi suspenso — com mais meia dúzia de jogadores — porque algumas das gravações tinham sido feitas por ele mesmo, tentando subornar os seus rivais, para provar que o sistema era corrupto. Nada mais foi investigado apesar das evidências de que todos os clubes e dirigentes estavam implicados de alguma forma. O Rot-Weiss se salvou graças à melhor média de gols, mas, para o volante de 28 anos, grande responsável dessa campanha épica, os acontecimentos tiveram um sabor amargo.

A premiação de melhor marcador era atribuída de forma oficial — como acontece em toda a Europa — pela revista Kicker. Em junho de 1971, e à medida que iam sendo revelados os dados da investigação dos jogos das últimas rodadas, a publicação decidiu não atribuir o prêmio a Koblhun. A justificativa dada então foi que, precisamente, os gols que decidiram o troféu foram conseguidos em jogos que tinham sido comprados pelo seu clube, segundo as denúncias de Canellas, incluindo uma vitória por 4 a 2 contra o Colônia e o empate contra o Braunschweig, por 1 a 1. Nos dois encontros, o volante havia marcado três gols, suficientes para superar Müller na tabela de artilheiros. A notícia não pegou ninguém de surpresa. Muitos dos torcedores e jogadores da liga acreditavam que o triunfo de um meio-campista defensivo do qual não se conheciam os seus dotes goleadores não era natural. Nos anos seguintes, muitos dos torcedores dos clubes rivais receberam o volante e alguns dos seus companheiros sob gritos de “trapaceiros”.

O próprio Gerd Müller, como confessou depois Kobluhn, se recusou a cumprimentar o seu rival por “uma questão de princípios”. O jogador rapidamente passou a se defender, declarando que nem ele tinha sido “subornado” por nenhum rival e nem acreditava que os goleiros contrários tivessem lhe facilitado a vida nesses jogos. Não lhe serviu de nada. O troféu ficou vazio nesse ano e Kobluhn entrou em conflito com a revista e com o seu próprio clube, que decidiu não apoiá-lo para não piorar o cenário de acusação de fraude sobre o seu desempenho no final de temporada. Entre os suspensos pela federação, estava o presidente do Rot-Weiss Oberhausen, Peter Maaßen, e o técnico do time, Günter Brocker. A situação era crítica para o pequeno clube, que preferiu se manter em silêncio diante dos protestos da sua estrela. Nos três anos seguintes, o volante defensivo marcou apenas sete gols e, entre lesões e um crescente desinteresse pelo jogo, Kobluhn acabou pendurando as chuteiras precocemente. A justiça poética, porém, demorou a chegar.

Em meados dos anos 2000, os torcedores do Rot-Weiss e os novos dirigentes do clube começaram uma campanha midiática para recuperar a imagem do clube e do seu goleador naquele ano louco. A pressão funcionou. Em 2007, a Kicker decidiu contatar o volante para lhe comunicar que iriam retratar a sua posição e entregar, finalmente, a homenagem, voltando a republicar a lista de artilheiros desse ano com o seu nome no topo. Com os seus 65 anos recém-completos, mais de trinta depois de ter se aposentado, Lothar voltou a sorrir quando recebeu em mãos o Torjägerkanon que lhe tinha sido retirado, segundo ele, injustamente. A história era reparada e a Bundesliga podia voltar assim a celebrar o êxito do único volante capaz de se impor aos melhores atacantes do planeta daquela época.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.