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Zingaro di merda!

Os eslavos e o racismo

Roma, 26 de maio de 2013. Um dia após a final da final da Champions League em Londres entre Bayern e Dortmund — vencida pelos bávaros —, se jogava a final da Coppa Italia. O duelo acontecia no Stadio Olimpico entre ninguém menos que Lazio e Roma. Os dois times compartilham o uso do estádio de propriedade do Comitê Olímpico Italiano (CONI). Havia muita incerteza e insegurança sobre a realização da partida que seria no mesmo dia das eleições municipais na ​Città Eterna​, mas o jogo se confirmou.

Um dia antes, em Londres ainda, a missão era dormir em Heathrow para viajar no dia seguinte. Economizar o hotel pra que sobrasse algum dinheiro pra comprar um ingresso da final. Era o Derby della Capitale numa final. Um jogo sonhado de se assistir. Conseguir entrar era improvável ou — no mínimo — caríssimo.

Na linha 2 do ​Tram​ que sai da Piazza del Poppolo — na verdade, estação Flaminio — o bonde lotou. A parada final é a Piazza Mancini. No trajeto, um rapaz com cachecol da Roma. O objetivo era um só: saber quanto ele pagou pelo ingresso. Era um americano que estava morando em Roma há meses, apaixonado por futebol. Disse que pagou € 200, na época uns R$ 700. Sem chance.

O ​Tram​ traça uma linha reta de 2,5 km na capital italiana pela via Flaminia — é só jogar no Google Maps e conferir. No sentido Mancini, na metade do caminho, era possível ver o Stadio Flaminio à direita, construído no mesmo terreno onde havia o Stadio Nazionale, sede da final da Copa do Mundo de 1934.

Descendo na Piazza Mancini já por volta das 17h15, poucas pessoas ainda ali, alguns remanescentes indo rapidamente para o estádio que estaria completamente lotado — ainda mais na Itália, onde não existe lugar marcado. Da praça pra ponte Duca D’Aosta, já se pode ver a fachada do Stadio Olimpico e o Obelisco del Foro Italiano, logo do outro lado do Rio Tibre, que dá nome à arquibancada que fica de costas pra ele.

Ao se aproximar do tal obelisco, um mar de jornais jogados no chão, impressos especialmente para aquele jogo. Um material, na verdade, promocional, criando um clima de pré-guerra. O vento arrastava aquela papelada. Um cordão de isolamento só permitia avançar quem tinha ingresso. Aquele era o acesso da torcida romanista. Algumas pessoas perguntavam por entradas e aqueles que diziam tê-las pediam muito.

Era aguardar ali até as expectativas se esgotarem, para sentir o cheirinho de um Derby Romano. As esperanças eram mínimas quando um homem chega e oferece um ingresso. Pediu € 60 e parecia um ótimo preço até mostrar que era pra Tribuna Monte Mario, oposta à Tevere [Tibre em Italiano], ou seja, do mesmo lado onde a transmissão é gerada, local da imprensa e a tribuna honorária. Na hora só poderia ser o famoso pega trouxa. Italianos são mestres em vender gato por lebre.

Mas o vendedor disse ter dois ingressos. Era entrar com ele e pagar do lado de dentro, não havia muito o que duvidar. Era difícil crer que se tratava da verdade. No caminho, um trailer com produtos oficiais da Roma. Era melhor comprar um cachecol pra ficar mais caracterizado e se misturar entre os ​Gialorrossi​.

Francesco — era o nome dele — contou que havia ganhado o ingresso em uma promoção e que um de seus amigos ofereceu € 30 pela entrada. Ele ficou bem chateado e disse que vendia pelos € 60 que valia. A insistência do amigo fez Francesco cogitar vender o ingresso por um preço muito maior na porta do estádio, mas talvez por ter chegado tarde e perder o ​timing​ de pico da especulação, resolveu vender pelo preço real.

Subindo por trás do estádio, a fala ficava ofegante; na catraca, último estágio. Questão de tempo cair a ficha de que a final da Coppa Italia estava a metros de distância e por apenas € 60. Como já era sabido, nada de lugar marcado, até no ingresso há o alerta — mera formalidade. Primeiro lugar que deu pra encostar e permanecer em pé, ali mesmo se ficou.

Restavam segundos pros times entrarem em campo, à esquerda os Laziali, na Curva Sud, e à direita, na Curva Nord, os ​Romanisti​. Uma festa linda, nada mais belo que torcidas arquirrivais, pra não dizer inimigas, dividindo o estádio.

Já não eram os tempos gloriosos do futebol italiano. As estrelas eram os já decadentes, mas ainda eficazes, Francesco Totti de um lado, e do outro Miroslav Klose — que um ano mais tarde, ainda superaria Ronaldo como maior artilheiro de Copas do Mundo com 22 gols, marca alcançada no 7 a 1. Mas o Derby della Capitale é intranscendente, não importava quais jogadores estivessem em campo. A rivalidade é tamanha que o jogo se torna totalmente secundário. O resultado é o mais importante e, por muitas vezes, os insultos ganham mais prioridade do que a bola que rola no gramado.

Jogo truncado, pau a pau. Aos 71 minutos de bola rolando, a Lazio atacava na direção de sua torcida, Candreva cruza e o goleiro da Roma, Bogdan Lobonț, tenta interceptar, mas espalma e a bola sobra para Senad Lulić. Gol da Lazio! Euforia total do lado azul. Do lado romanista se escuta todos palavrões possíveis. Um completo desespero. Mas um tipo de insulto contra os Laziali chamava a atenção: ​“Questo zingaro di merda!”

Zingaro​, em italiano, quer dizer cigano. O termo é orientado, sobretudo, a romenos e búlgaros, onde há grande concentração de população cigana, mas também é comum orientar o “insulto” aos povos do Balcãs. Lulić é bósnio, uma das repúblicas que integravam a Iugoslávia, na qual a população cigana também é numerosa.

A Lazio levantou aquele caneco. A torcida da Roma parecia não saber gritar outra coisa que não fosse “​zingaro di merda!”​. Três anos e meio mais tarde, outro Lazio e Roma teria Senad Lulić como protagonista, mas não como herói ou vítima, e sim como quem atacou. A Roma venceu a partida válida pela Serie A — temporada 2016/17 — por 2 a 0. Após o jogo, o bósnio deu uma declaração à Mediaset se referindo a Antonio Rüdiger, atleta negro alemão, com total menosprezo: “Rüdiger já falava muito antes do jogo. Há dois anos, ele vendia meias e cintos em Stuttgart. Agora, já está achando que é um fenômeno”. A atividade mencionada é típica de africanos imigrantes na Europa que atuam como vendedores ambulantes nas ruas, sobretudo na Itália.

Esse episódio remete a um caso que ocorrido em 2000, durante uma partida entre Arsenal e a mesma Lazio, pela Champions League. Patrick Vieira e Siniša Mihajlović trocaram ofensas raciais. Somente o sérvio foi suspenso. Vieira chamou Mihajlović justamente de “​zingaro di merda​”, que reagiu e chamou o francês de “negro de merda”, conforme o próprio sérvio admitiu ao jornal La Reppublica. Em sua defesa, Mihajlović disse que não se sentia insultado ao ser chamado de cigano e que não entendia porque Vieira se sentiu insultado ao ser chamado de negro.

Talvez este seja um dos poucos casos de negros que insultam brancos. Houve uma negligência por parte das autoridades, no caso da UEFA, por desconsiderar o insulto contra ciganos e intervir somente nos casos contra os negros. A entidade máxima do futebol europeu multou a Lazio em 87 milhões de liras italianas [aproximadamente € 45 mil] por vaias de sua torcida a jogadores negros no Stadio Olimpico, além de suspender Siniša Mihajlović em dois jogos.

Naquela ocasião, Roberto Mancini — mesmo sobrenome da praça próxima ao estádio — era jogador da Lazio e minimizou tais atitudes, postura recorrente no código de muitos jogadores: “O transcurso de uma partida tão competitiva pode levar a momentos de tensão e nervosismo. Acho que alguns insultos podem ter existido, mas o importante é que tudo termine ali [no campo]”, declarou Mancini dias depois do episódio, segundo conta um artigo de 2016 da Gazzetta Dello Sport. Na matéria, o jornal italiano contrasta as declarações de Roberto Mancini de dezesseis anos antes às dadas depois de um jogo entre Napoli e Internazionale, quando dirigia o time Nerazzurro. Mancini se desentendeu com Maurizio Sarri, técnico do Napoli naquela partida no sul da Itália, e, após o jogo, declarou que Sarri era racista e que um homem como ele não poderia estar no futebol. No entanto, segundo o próprio Mancini, as palavras de Sarri contra ele eram, na verdade, homofóbicas.

Mihajlović jogou na Lazio até 2004, quando foi contratado pela Internazionale, que era comandada pelo ex-companheiro — e também seu ex-técnico na equipe romana — Roberto Mancini. O sérvio jogou por mais duas temporadas na Inter e, na última como jogador profissional, a Juventus ganhou o título italiano. Porém, o escândalo que assolou o ​calcio​ logo antes da Copa do Mundo de 2006 levou a Juventus ao rebaixamento e à cassação do seu título, por envolvimento direto do clube em manipulações de resultados. Assim, os principais jogadores da ​Vecchia Signora rumaram para outros clubes, evitando disputar a segunda divisão. Patrick Vieira foi um deles. Assinou contrato justamente com a Internazionale, time de Mihajlović, que acabara de se aposentar. Teria sido um belo reencontro.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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