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Macaquito

Grafite, Baiano e o racismo no futebol argentino

Dois jogadores de futebol, duas alcunhas: Grafite e Baiano. Duas histórias que se cruzaram pelo racismo no futebol argentino e uma dúvida: até que ponto o “vale tudo” dentro das quatro linhas é aceitável como parte do jogo?

Tudo começa no gramado do Morumbi, numa noite de Taça Libertadores da América, duelo entre São Paulo e Quilmes. Ao final da partida, foi decretada a prisão de Leandro Desábato, defensor do time argentino.

O zagueiro discutiu com Grafite e, em um lance ríspido, teria proferido ofensas de cunho racista. O árbitro expulsou o são-paulino por entender que havia agredido Desábato, após uma troca de farpas. Desábato não recebeu advertência em campo — foi punido fora dele.

Enquanto tentava compreender a dimensão do acontecimento, sozinho no vestiário — o jogador foi expulso ainda no primeiro tempo —, Grafite recebeu um telefonema. Juvenal Juvêncio, diretor de futebol à época, recomendou ao jogador recorrer à polícia. Com a segurança proporcionada pelo cartola, também chocado com os xingamentos, Grafite resolveu agir.

Logo após o encerramento do certame, um delegado presente no local deu voz de prisão ao argentino, utilizando-se das imagens de televisão e da confirmação do próprio Grafite. Desábato saiu do campo direto para a delegacia, onde passaria as próximas horas preso sob alegação de que havia praticado crime de injúria racial. Além de Grafite não só confirmar a história, também expressou a sua vontade de representá-lo criminalmente. No fim, o jogador argentino foi liberado após pagamento de fiança, fixada em R$ 10 mil, após quase dois dias preso.

O ocorrido instigou revolta por parte do Quilmes e da imprensa argentina em geral, uma vez que consideravam Desábato vítima de um exagero. ​”O futebol começa e termina no campo. Faltou inteligência para a coisa ser feita como deveria. Eu disse ao chefe de polícia que quando se faz uma detenção na frente de 60 mil pessoas, me parece algo que não deveria ser feito. Se é para acontecer algo, isso deveria acontecer no vestiário”, afirmou o treinador argentino Gustavo Alfaro.​ Se a velha máxima de que “o que acontece no campo, fica no campo” sempre foi entendida como regra universal não oficial do futebol, naquele 13 de abril de 2005 resolveu-se apelar à Justiça.

Nunca um jogador, técnico ou torcedor havia sido preso por racismo no Brasil, sempre optando-se pelo silêncio e bola pra frente. Desse modo, é natural que o episódio tenha dividido opiniões, até mesmo entre juristas.

De um lado, falava-se em “excesso de zelo das autoridades em cumprir a lei” e Desábato seria bode expiatório para uma questão de extrema complexidade, muito maior do que o episódio em si. Além disso, estaria pagando pela rivalidade quase centenária de Brasil-Argentina no futebol. A coluna da ​Folha de S. Paulo​ de Hélio Schwartsman, em 21 de abril daquele ano, intitulada “Lei e Raça”, propôs debate interessante sobre a questão, deixando a pergunta: Racismo deve ser tratado com cadeia ou educação e distribuição de renda?

Do outro, considerava-se “exemplar e pedagógica a ação dos agentes públicos”, pelas palavras do então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, lamentando-se ainda, que casos assim fossem exceção e não regra, justificado pelo perfil da vítima e pelo espetáculo circense em que se transformara o caso.

Ainda houve torcedores e parte da imprensa combatendo o preconceito com o próprio preconceito: “Tem que dar um pau nesses argentinos” ou “argentino é tudo racista”, como levantou José Geraldo Couto em outra coluna da ​Folha de S. Paulo​, expressando ainda que “​Angeli [cartunista] resumiu brilhantemente a situação: um comerciante retirava da fachada de sua loja o cartaz que dizia ‘Não atendemos negros’ e trocava-o por outro com os dizeres ‘Não atendemos argentinos’”.

A questão Grafite-Desábato definitivamente superou o terreno de jogo, arrastando-se por alguns meses, sendo apenas — formalmente — encerrada porque o brasileiro retirou a queixa. Contudo, o episódio ficaria marcado na história do futebol, afetando, ainda, em particular, a vida de Dermival Almeida Lima, o Baiano.

Na época, o brasileiro defendia o Boca Juniors da Argentina e, até então, segundo ele próprio, vivia uma fase de lua-de-mel com o clube. Havia marcado dois gols logo em seus primeiros jogos no mítico estádio de La Bombonera e inclusive ganhara de um jornalista local o apelido carinhoso de “Bombom”.
O cenário era de celebração do centenário da equipe portenha, de festa da torcida, de ídolos que faziam parte do elenco e de grande expectativa por também jogarem a Taça Libertadores daquele ano. No entanto, segundo relatos de Baiano, tudo sofreria uma drástica reviravolta após este episódio.
No trabalho de pesquisa ​“Do céu ao inferno: A história de Baiano no Boca Juniors e os racismos no futebol” é possível entender com riqueza de detalhes os episódios narrados aos olhos do próprio jogador. O título do artigo não poderia retratar melhor como foi sua visão dos acontecimentos que sucederam o episódio ocorrido no Brasil.

No dia seguinte ao jogo no Morumbi, Baiano foi convocado pela imprensa argentina para uma coletiva. Queriam saber sobre o racismo em seu país natal e o que ele pensava sobre o episódio. O brasileiro tentou desviar de polêmicas e limitou-se a responder que ele e sua família eram muito bem tratados na Argentina. Chegou inclusive a dizer que fora recebido como um rei e que não sentia preconceito morando lá.

No entanto, nos confrontos subsequentes pelo campeonato argentino, foi o alvo escolhido para pagar pelo que havia acontecido com Desábato. Era como se a comunidade “boleira” do país hermano visse nele — brasileiro e negro — um alvo fácil para provocações em reação ao que havia ocorrido com Desábato. “Todo mundo começou a me comparar com o Grafite. Me chamavam de ‘negro de merda, negro disso, negro daquilo, irmão do Grafite’ e até cuspiram na minha cara”. Ao que parece, segundo Baiano, houve uma revolta por parte da classe de jogadores argentinos, transformando o jogador em um bode expiatório.

Ainda, segundo ele, os próprios companheiros de equipe — até mesmo jogadores de renome como Schiavi e Abbondanzieri — começaram a ofendê-lo e criaram um clima hostil dentro do vestiário. De acordo com seus relatos, era chamado de ​mono​ (macaco em espanhol) e faziam brincadeiras em alusão ao acontecido no Brasil. “Em relação aos jogadores argentinos eu passei a ser tratado de forma diferente. Ouvi alguns insultos. Me chamavam de negro e perguntavam se eu teria lá em Buenos Aires a mesma coragem que o Grafite teve no Morumbi, se iria denunciá-los no país deles”, revelou. A situação começou a ficar insustentável e os primeiros meses de felicidade deram lugar a um ambiente triste e carregado.

Fato é que o caso de Baiano teve repercussão quase irrisória na imprensa local, comparado ao de Desábato. Os jogadores do Boca Juniors chegaram a reclamar por ele só ter divulgado o problema em sua volta ao Brasil — ainda assim, sem repercussão na Argentina.

É preciso salientar que são raros os casos de grande destaque e debate, no que diz respeito ao racismo, no futebol argentino. Por sua vez, não pode se dizer o mesmo em relação à xenofobia. Se considerarmos que as formas e representações de preconceitos se manifestam de acordo com as peculiaridades de cada região e cultura, na Argentina é mais comum a discriminação contra bolivianos e paraguaios, principalmente em cantos e gritos de torcida, inclusive com — não poucos — episódios em que árbitros paralisaram o jogo. A lógica é a mesma, muda-se apenas o alvo.

Em um blog de torcedores do Boca, que se dedica a contar episódios da história não-vitoriosa e curiosidades sobre o clube, foi feito um resumo sobre a passagem de Baiano: “Fraco na marcação, era muito comum vê-lo passar ao ataque e chegar próximo a área rival para tentar, ele mesmo, finalizar a jogada com um chute a gol ou uma tentativa de drible contra os defensores contrários. Causava aborrecimento na torcida e companheiros em geral, em particular em Guillermo Schelotto. El Mellizo [O gêmeo] — apelido de Schelotto — era uma máquina de reproches a cada subida do lateral que ao invés de terminar em passe terminava no alambrado.” Curiosamente, a última partida do brasileiro pelo Boca foi contra o mesmo Quilmes, com uma atuação para ser esquecida — ou não. “Faltando três minutos para o apito final, entrou. Além de não ter tocado na bola, não demonstrou vontade nenhuma. Ficou encostado na linha lateral e na única oportunidade que teve para dividir uma bola nem correu. Por que tal atitude? Já havia acertado seu retorno ao Brasil e não queria arriscar suas limitadas pernas.” Percebe-se que do ponto de vista futebolístico não deixou saudades para a torcida ​xeneize​.

Baiano voltou ao Palmeiras após deixar a Argentina. Ele e Grafite continuaram em atividade. O racismo também — dentro e fora das quatro linhas, no Brasil e na América do Sul. Tinga e Aranha que o digam. Na Argentina, em 2017, o lateral colombiano do Boca Juniors, Frank Fabra, foi vítima de ataques da torcida do Estudiantes em partida realizada em La Plata. O jogador adentrou o vestiário muito abalado e chegou às lágrimas, segundo relatos.

O árbitro decidiu não interromper o jogo, alegando que foram insultos isolados. Fernando Gago, capitão dos ​Xeneizes​ nesse duelo, questionou a atitude passiva do árbitro, ao final do encontro. No dia seguinte, o clube emitiu um comunicado oficial repugnando as manifestações e encaminhou à Asociación del Fútbol Argentino (AFA) um pedido para os árbitros terem orientações mais precisas sobre como agir em episódios semelhantes.

As manifestações de cunho racista são quase sempre direcionadas a jogadores rivais. Muitas vezes, as torcidas que proferem tais insultos não as direcionam aos jogadores negros do próprio time. Juan Ferney Otero, também colombiano e negro, jogava no Estudiantes na mesma época e nunca recebeu nenhum tipo de ofensa racista da própria torcida, como contou Juan Marino, torcedor assíduo do Estudiantes, à Corner. Ele acrescentou que Duvan Zapata, outro negro colombiano, deixou o conjunto ​Pincharrata​ rumo ao Napoli, em 2013, como um ídolo.

O termo “Macaquito” é uma espanholização. Macaco em espanhol se diz ​Mono​. O termo comumente usado contra jogadores brasileiros é uma apropriação de uma palavra da língua portuguesa. “Pelé hijo de puta, macaquito de Brasil” [Pelé filho da puta, macaquinho do Brasil] era entoado por toda La Bombonera na final entre Boca Juniors e Santos em 1963. Edson Arantes do Nascimento declarou à imprensa em 2014, logo após o episódio envolvendo Aranha que o goleiro do Santos, naquela oportunidade, se precipitou, e que isso era o tipo de coisa que sempre acontecia no futebol. Disse ainda que se fosse parar o jogo cada vez que fosse chamado de macaco ou de crioulo, que não haveria mais partida. Pelé citou o caso de Dani Alves, classificando o ato de atirarem uma banana para o então lateral do Barcelona como banal: “Fizeram tempestade em copo d’água”. Pelé sempre foi criticado por ignorar o racismo, ao preferir dar de ombros e opinar que jogar futebol era o melhor antídoto.

Nitidamente, o racismo é costumeiramente usado como provocação a adversários, mas qual o limite da provocação? Em definitiva, somente um negro pode dizer o quão doloroso é ouvir tal provocação, uma vez que durante séculos foram relegados à escravidão em diversas partes do mundo. Muitos jogadores negros entendem como parte do jogo, outros como atitude intolerável. Resta a reflexão: Comer a banana, como fez Dani Alves, ou pedir a prisão, como fez Grafite?

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