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Madrid quase catalão

Mas um clube não deixou acontecer

As imagens foram fortes, tanto nas ruas de Barcelona, naquele 1º de outubro de 2017, quanto dentro do estádio Camp Nou. Mais de mil de pessoas ficaram feridas pela Polícia Nacional enquanto tentavam exercer o direito do voto num controverso referendum sobre a independência da Catalunha. No âmbito esportivo, a maior bandeira representativa da região no futebol de elite tinha uma grande chance de mostrar ser, como se intitula, ‘Més que un club’. Não foi o que aconteceu.

Horas antes da partida contra o Las Palmas, em jogo válido pela sétima rodada do Campeonato Espanhol 2017/18, a dúvida pairava sobre a realização do confronto. Com a promessa de uma invasão de campo pacífica dos torcedores blaugranas, La Liga não sabia o que fazer e o FC Barcelona pedia o cancelamento do embate. Não entraria em campo, e ainda que não fosse por uma posição forte de recusa, em protesto a toda a violência acontecida nas ruas, não pisar oficialmente no gramado teria sido um recado político digno do mote culé.

No final das contas, o Barça cedeu às ameaças da liga espanhola e aceitou disputar a peleja com portões fechados. Abaixou a cabeça para o certame que, sem ele próprio, não teria o mesmo brilho. A vitória por 3 a 0, gols de Busquets e outros dois de Messi, foi na verdade uma grande derrota blaugrana. Jornais catalães não esconderam a revolta com a decisão tomada pelo Barcelona. O tradicional — e também sensacionalista — periódico Sport, por exemplo, amanheceu sob o título: Vegüenza!. O éthos barcelonista pareceu naufragar.

O jornalista, filósofo e escritor catalão, Josep Ramoneda, fez uma declaração à revista Líbero que colocou em xeque a postura do clube catalão: “O Barça demonstrou no 1º de outubro que a independência catalã não vale seis pontos na liga. A parte boa é que também não valeu nenhuma vida. Por sorte. Ficou muito claro que o limite do independentismo é o próprio Barcelona. Mas perderam a dignidade por seis pontos.”

Pule a linha do tempo para alguns meses depois. O ano de 2018 começou com a revelação de que o atual contrato de Lionel Messi com o Barça possui uma polêmica cláusula: caso a Catalunha consiga a sua independência e o Barcelona tenha como única opção de campeonato nacional disputar o certame catalão, o argentino ficaria livre para deixar o Camp Nou sem custos.

É claro que o camisa 10 tem todo o direito de querer entregar o seu futebol, no mínimo, para alguma das consideradas cinco grandes ligas da Europa [Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e França]. Mas isso não tira o fato de que uma eventual independência da Catalunha possa, ironicamente, tirar do Barcelona o maior craque de toda a sua história. Para uma instituição que sempre foi uma bandeira internacional da soberania de sua região, ter aceitado essa cláusula pode decepcionar o mais tradicional dos torcedores. A braçadeira de capitá leva as cores catalães, a língua dos pronunciamentos oficiais do clube é sempre em catalão, escrito ou falado.

O presidente da liga espanhola, Javier Tebas, já garantiu em diversas declarações que os times catalães não seguiriam no Campeonato Espanhol em caso de separação. Essa postura muito provavelmente desvalorizaria o próprio certame representado institucionalmente por Tebas, já que grande parte do apelo midiático dele está na garantia de clássicos entre Real Madrid e Barcelona. La Liga sem o Barça? Azar de La Liga.

Ciente desta questão mercadológica, o desejo do Barça seria o de continuar onde está. A tradição de décadas disputando títulos espanhóis também pode falar alto, e não é nada bizarro ver um time de um país jogar um outro campeonato nacional. O principado de Mônaco é um microestado independente da França, e mesmo assim o time disputa a Ligue 1; Na Premier League, dois times galeses já jogaram: Swansea e Cardiff City; no soccer, o campeão da MLS em 2017 foi o Toronto FC, do Canadá. E na temporada 1940-41, quando a Alemanha nazista, que ocupou a Áustria, anexando o território, o campeão alemão foi o Rapid de Viena.

Até pela proximidade territorial e histórica, entrar nos torneios da França já foi uma possibilidade ventilada. Mas a realidade mais provável aponta um Campeonato Catalão como opção… e, neste caso, a saída de Messi como possibilidade real.

O desfecho de toda essa história ninguém sabe, mas o curioso é que, em determinado momento, quem tentou entrar na disputa de um campeonato catalão foi justamente o Madrid Club de Fútbol — que naquele período teve retirado a realeza do seu nome por causa da segunda república espanhola, iniciada em 1931, e que ruiu após o triunfo do exército de Francisco Franco na Guerra Civil. Aconteceu em outubro de 1937, enquanto a Espanha sofria com a Guerra Civil. Ex-jogador do Barcelona, Paco Bru era o treinador merengue na época. Com a impossibilidade da realização de jogos de futebol na capital, em meio ao cerco das tropas franquistas e toda a violência fruto do fascismo, Paco buscou uma aproximação com a federação catalã.

O objetivo do treinador era colocar o Madrid na disputa do Campeonato Catalão. Não era uma competição tão grande quanto o incipiente campeonato espanhol, que começou a ser disputado apenas na temporada 1928/29, mas era uma das mais antigas e, portanto, tradicionais da Península Ibérica. Naquela década de 1930, foi um torneio que alternou o número de participantes, mas jamais chegou a ter dez times sequer. Em 1936, por exemplo, o Barcelona havia sido campeão na disputa contra outras cinco equipes: Badalona, Sabadell, Espanyol, Girona e Júpiter.

Segundo é relatado no livro Fear and Loathing in La Liga, escrito pelo jornalista inglês Sid Lowe, equipes menores como Badalona, Girona, Sabadell, Terrassa e Júpiter gostaram da idéia de ter o Madrid, seja pelo que os Blancos agregariam esportiva e economicamente, ou em reconhecimento à postura respeitosa do clube ao homenagear o presidente do Barça, Josep Sunyol, morto durante o confronto bélico.

“Que nunca seja dito que as portas da generosidade catalã se fecharam para os esportistas de Madri”, teria se manifestado a federação, que só fez uma ressalva: se ficasse com o título, o Madrid não poderia se intitular campeão da Catalunha. As coisas estavam próximas de um desfecho positivo, mas no último momento o Barcelona intercedeu — o único da região a ter se manifestado contrário. Durante o restante da Guerra Civil Espanhola, que terminou em 1939 — e levou junto o certame catalão —, os Merengues praticamente ficaram fechados para o futebol, que foi, é e continuará sendo plataforma para histórias tão curiosas quanto encantadoras, que trocam Barça e Real de lugar, e evidencia não existir só um vilão, e que o charme de um encoberta seu passado negro e ofusca o brilho do outro.

Jornalista formado na FACHA, acredita que o futebol, além de ser o melhor dos esportes, é palco para grandes lições sociológicas, históricas... e de vida. Árduo defensor de que 3 a 0 jamais será goleada, foi um goleiro promissor e hoje brinca de ser zagueiro esforçado.

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