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Marcos Uchôa

Política, guerra, jornalismo e futebol

Falar sobre Turquia não é simples. Nada é simples, mas o país que se encontra parte na Europa e parte na Ásia, é a materialização geográfica da complexidade em um país. Falar e refletir sobre jornalismo, que é grande parte da missão da Corner, também é complicado. É fácil criticar a Globo e o Galvão Bueno, mas sempre falta ponderar sobre os interesses e papel do principal narrador da maior emissora do Brasil. Claro, futebol não seria uma pauta menor e menos profunda. E conjugar essas três capacidades — de falar sobre Turquia, jornalismo e futebol — é bem difícil, e só foi possível em uma pessoa: Marcos Uchôa. Ele conseguiria ainda mais: se fosse pra falar de Samba, o repórter também daria aula.

O local da entrevista foi — talvez — aquele em que Uchôa mais passou tempo depois de sua casa: um aeroporto. Sua vida profissional começou em um hotel e logo foi para o aeroporto, que ele já estava acostumado a freqüentar desde novo, pois seu pai era exilado político durante a ditadura militar. E é exatamente essa a explicação para que Uchôa fale outras línguas.

Pois bem, o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, carrega a nostalgia de tempos quando um aeroporto era pra poucos, mas passou a ficar mais parecido com uma rodoviária, e isso é algo positivo, mostra que avião deixou de ser coisa exclusiva de rico e Uchôa concorda com isso, não é pra menos.

Foram algumas pessoas que se aproximaram e pediram pra tirar foto com o famoso repórter carequinha. Ser um rosto comum parece óbvio para quem está há tanto tempo na Globo, mas talvez a simpatia dele seja pela versatilidade em ser correspondente internacional, cobrir guerras, tsunamis, invasão do BOPE em favelas, carnaval e, é claro, futebol. Essa versatilidade, inclusive, abriu portas quando jornalistas da Globo não entravam em favelas.

A entrevista foi feita dias após o retorno de Uchôa da Síria, onde foi filmar um documentário com um antigo companheiro da TV Globo: Sérgio Gilz. Quando terminamos, já num café pós-entrevista, ele contou que filmou sobre a dificuldade de um time de futebol do norte da Síria, na fronteira com a Turquia, exatamente no meio do conflito entre Estado Islâmico, Curdistão, Síria e Turquia. Além dos jogadores de diferentes lugares, a tabela ficava totalmente comprometida, pois muitas vezes era impossível atravessar entre uma cidade e a outra. Bateu aquele arrependimento de não ter gravado ou ter retomado a entrevista a partir dali.

Quando chegou, Uchôa mandou uma mensagem dizendo que estava no terminal de desembarque, logo na entrada, no balcão de informações. No encontro, antes de chamá-lo e cumprimentá-lo, ele lia um livro e carregava um outro. Ele tinha mandado a mensagem 30 segundos antes. Mas tudo depois fez sentido.

Indo para o setor de desembarque, papo rápido sobre a revista, Uchôa sentou em uma daquelas cadeiras de espera, em um lobby que tem vista para a pista, onde se pode ver pousos e decolagens. Restava, então, só embarcar na conversa.

Vamos falar de onde estamos, num aeroporto… É um lugar que tem muito a ver com você.

Sim. A história é simples. Eu comecei a faculdade muito cedo, pulei de ano na escola. Fui fazer sociologia, estudei um ano e larguei. Aí fiz medicina um ano e pouco e larguei. Minha mãe não estava muito satisfeita comigo pulando de galho em galho. E falou que eu tinha que fazer um concurso pra fiscal, já que eu passava em tudo, mas que parasse de encher o saco dela, parasse de pedir dinheiro e fosse trabalhar. Eu não estava nem um pouco interessado em fazer o concurso pra fiscal, mas foi sensacional porque eu encontrei a minha mulher. Conheci ela lá, depois comecei a namorar com ela, casei e estou com ela até hoje. Sensacional esse concurso pra fiscal [risos]! E tentei entrar pra Comunicação como forma de tentar apaziguar a situação dentro de casa, mas a minha mãe não caiu nessa. Eu fui fazer Comunicação, mas tive que trabalhar. Meu primeiro emprego foi no Hotel Sheraton, aquele do Vidigal ali. Eu trabalhava no Room Service , eu falava idiomas, então, atendia os hóspedes. Aí, arrumei um outro emprego, na alfândega do aeroporto. Depois a Tereza, minha mulher, viu uma vaga de uma companhia aérea, que precisava de alguém que falasse inglês e francês. Era a Air France, fui fazer a prova, e passei. Então, enquanto eu estava estudando Comunicação, trabalhei na Air France, e depois que comecei na TV Manchete, continuei. Foram mais de sete anos de aeroporto, era a época do concorde, super divertido. Eu fiquei com os dois empregos, na Air France e na TV Manchete.

E você chegou a quase largar o jornalismo pra ficar só na Air France, não teve isso?

Cheguei a pensar. Quase fiz isso. Eu cobri as Olimpíadas de 1984 e a Copa de 1986 pela Manchete, e aí teve uma greve na TV Manchete que eu acabei virando um líder da greve, meio que por acaso. Mas eu era da Air France. A gente perdeu a greve na Justiça enquanto classe, mas a gente ganhou um aumento muito bom. Ao mesmo tempo, 52 pessoas foram demitidas, das quais 25 eram judias. Eu tive uma discussão muito grande na recepção da TV Manchete, ali na Glória, com o Zevi Ghivelder e o Jaquito, que eram os que tocavam realmente a televisão, e o Adolpho Bloch estava mais em cima. Acusei eles de nazistas! “Vocês estão perseguindo os judeus, porque não é possível, a metade dos funcionários aqui não são judeus”, daí eles disseram que eram traidores. Aí eu fui embora, fui pra Paris, estava de férias, e quando voltei pensei que estava demitido, obviamente. Mas aí eles me chamaram na sala do Adolpho Bloch e eles tinham um vídeo — estamos falando de 1986, o Brasil tinha acabado de sair de uma ditadura, fazer greve era uma coisa que gerava muito medo nas pessoas —, e nesse primeiro dia, veio o sindicato dos jornalistas com um alto-falante, gritando e xingando: “judeu filho da puta, etc”, daí eu subi no caminhão e falei pra pararem com isso, que ninguém ali era anti-semita, racista, todo mundo gostava de trabalhar ali, era só uma questão de dinheiro, e que, resolvendo isso, todo mundo voltaria a trabalhar. Eu não sabia, mas os patrões tinham gravado isso, daí eles mostraram e me disseram que “a greve demorou muito por sua causa, mas você teve uma atitude digna, então não vamos te demitir”. Eu agradeci, mas se uma daquelas pessoas foi demitida porque eu a convenci a participar da greve, eu já me sinto mal. E eu pedi demissão. Nessa hora, a Air France me convidou pra trabalhar numa coisa que se chamava DOV [Despachante de Vôo], que era a pessoa responsável por fazer a rota do avião, calcular combustível, peso, distribuição de carga, uma coisa muito técnica. Eu era bom em matemática, e tinha que fazer um curso de um ano e meio em Paris e retomaria a carreira dentro da Air France. Eu já estava há sete anos e meio na companhia aérea, eu adorava. Aeroporto é um ambiente muito legal, de alegria, de tristeza, você vê o ser humano bem por um lado e triste por outro, uma coisa que depois eu fui encontrar no esporte, no jornalismo, né? A coisa da emoção. E eu ia pra Ásia com a Tereza, pra que na volta eu fosse pra Paris. E nessa hora, a TV Globo me chamou pra cobrir férias da Isabela Scalabrini, e eu fiquei pra fazer um dinheirinho e depois ia embora. Mas me convidaram pra ficar. Poxa, TV Globo, trabalhar com gente muito qualificada, melhores cinegrafistas, melhores editores de imagem, aí dei mais uma chance pro jornalismo. Dei sorte.

E na Globo você desenvolveu uma parceria muito longeva com o Sérgio Gilz.

Eu entrei na Globo em 1987, fui trabalhar em Londres em 1996 e fiquei lá por 11 anos. No começo eu fui pela editoria esporte, mas depois passei a cobrir geral, em 2000, mas ainda cobrindo esportes. E muitas coberturas, né? As guerras, os tsunamis e tal, eu fiz muito isso com o Sérgio. Agora mesmo, a gente trabalhou junto, ele já tinha saído da Globo, fomos fazer um projeto pessoal, um documentário na Síria, fomos juntos. Gosto muito de trabalhar com ele.

Ah, vamos falar disso então, o que você foi buscar lá? Fale desse documentário.

Eu já tinha ido à Síria duas vezes. A primeira em 2003, numa viagem do Lula, uma das primeiras viagens dele como presidente, que começou na Síria, aliás. Eram cinco países, a Líbia foi o último. E depois fui em 2006. A gente tinha feito o final da guerra do Líbano, e na época você não conseguia ir embora do Líbano por lá, o aeroporto estava fechado, tinha que sair pela Síria, porque ali era o lugar seguro [risos]. Ficamos lá, fizemos reportagens. Depois, quando eu era correspondente em Paris, entre 2011 e 2014, eu tentei ir pra Síria duas vezes, mas a direção da Globo não quis, e a gente fez reportagens ali em Antáquia, que fica na fronteira da Turquia, e a região é cheia de campos de refugiados sírios. Depois eu fiz muita coisa com os sírios na Europa, eles fugindo pela Grécia e Macedônia. É um assunto que me interessa. Mas o viés que mais me interessa na vida, digamos assim, não só nessa reportagem, é falar das pessoas em geral, da população, das pessoas normais vivendo e sobrevivendo em situações tão anormais. Eu diria que as entrevistas com grandes líderes ou grandes políticos tendem a ser muito parecidas, porque eles falam a mensagem que querem passar e pouca verdade no que dizem. E há uma distância muito grande entre a vida da pessoa normal e essa grande política. E o que me interessa é criar empatia ao mostrar , nesse caso, o que é viver na Síria hoje. Como se convive com o medo, com o perigo, com preços altos, com desemprego, com parte da família que foi embora, com pessoas que não sabem se querem voltar, com medo de ter que servir o exército, enfim, a convivência com as pessoas feridas. Isso é uma questão muito importante, existe mais ou menos uma média de três e meio feridos pra cada morto numa guerra, mas as pessoas só falam dos mortos e não falam dos feridos. Os feridos continuam, né? Imagine que você tenha um irmão ferido que perdeu as pernas e você depois vai ter que cuidar desse irmão ferido pra sempre. Isso gera um trabalho na família, um custo e, muitas vezes, uma raiva que fica e continua. Como você convive com isso? Essas questões são muito mais interessantes. Até porque o bang-bang da Síria, ou a história dos refugiados que saíram de lá, as pessoas já ouviram, já viram, já sabem disso. Eu acho curiosas duas entrevistas que eu fiz com brasileiros, sírios, né? Vieram pra cá, trabalharam e voltaram. Eles falaram que voltando pra Síria se sentem em paz. Que têm medo do Brasil e lá eles se sentem seguros. É chocante como brasileiro ouvir isso. Mas é verdade, se você mora na Síria, em muitos dos lugares que estão longe do front de batalha, a chance de acontecer alguma coisa violenta na tua vida é menor do que pra um brasileiro, de um modo geral. O nosso índice de violência e de criminalidade é muito alto em quase todo o País.

Você também cobriu as pacificações da favelas no Rio, as UPPs. Fala desse contraste, essa outra guerra, que começou a se “despacificar”.

Eu voltei de Londres em 2007. Na época, por conta da morte do Tim Lopes, ninguém da Globo entrava em favela e comunidade por causa do temor que havia, a direção não permitia. E foi quando o Lula lançou o PAC, que faria várias obras no complexo do Alemão e se considerava que ia ter que tirar os traficantes para poder fazer essas obras, e o Fantástico me pediu pra fazer uma matéria sobre isso. Mas não podia entrar no Complexo do Alemão. Eu pensei: “como vamos fazer uma matéria sobre o lugar sem entrar nele?” Falar com as pessoas fora, no ponto de ônibus, enfim… Eu estava muito insatisfeito com isso. E alguém do Fantástico pediu pro Júnior, do Afroreggae, se eles podiam fazer umas imagens lá de dentro do Alemão pra ilustrar a matéria. Ele teve que pedir autorização aos traficantes, na época era o Tota o chefe do tráfico, e o Tota perguntou quem ia fazer a reportagem. Daí o Tota falou que, se fosse eu, que poderia entrar.

Mas por que você? Você sabe?

Olha, o que eu ouvi falar, embora eu nunca tenha falado com ele e tenham me dito que ele passou do meu lado quando a gente estava gravando, mas eu não o conhecia, foi que eu vinha de fora, e os traficantes gostam muito dessa coisa de guerra e perguntam como foi no Iraque. Eu já falei com alguns traficantes, eles têm um fascínio com isso. Ao mesmo tempo, eu tenho uma ligação muito grande com futebol, e assim que eu voltei, tive uma ligação muito grande com samba. E fiz muitas coisas de samba, eu ia nas comunidades, nas escolas de samba, falava com as pessoas, enfim. Havia um pouco de simpatia em relação a mim e ao meu trabalho. Eu não entrevistei o Tota, então eu não sei se essa é a resposta correta. Mas por tudo que aconteceu depois, isso tem a ver. A gente ficou lá, fez uma matéria enorme, gravamos e mostramos como o Estado usava a desculpa do tráfico para ignorar as necessidades da população. Onde tinha que ter setenta e tantos professores, tinha vinte. Onde tinha que ter vinte e poucas pessoas cuidando da água, tinha uma. Quer dizer, vários serviços que o Estado era obrigado a prover, ele dava a carteirada de que havia traficante lá e que então não podia ir. E quem sofria era a população, e não era verdade que os traficantes não permitiam esses serviços, era uma maneira conveniente do governo tirar o pé. Depois, eu tive que fazer uma reportagem na Vila Cruzeiro, sobre o Adriano, o Imperador, que tinha voltado da Itália, não queria mais voltar pra Itália…

Ele chegou a anunciar a aposentadoria…

É! Falou em se aposentar. Era pro Fantástico de novo. A gente foi, falei pra todo mundo abrir a janela do carro, a gente chegou ali pertinho, eu desci do carro sozinho, me reconheceram, e pedi pra alguém pedir autorização, não fui falar diretamente que a gente ia fazer uma reportagem sobre esporte, sobre a situação do Adriano. Mostrar o campinho que ele jogava, os amigos dele, a casa da avó onde ele ficava, enfim. Não tinha nada a ver com o tráfico. Eu queria falar sobre as pessoas. E depois, quando teve a invasão [do Complexo do Alemão pelo BOPE], eu sabia, pois eu já tinha entrado lá, que a maioria é gente normal como a gente e está ali prejudicada pela violência entre traficantes e polícia. No dia da invasão, que se deu pela Vila Cruzeiro, fui pro Complexo do Alemão e eu fui mostrar que, na verdade, aquilo ali estava abandonado pela polícia, largado, quase como se estivessem permitindo que as pessoas fugissem da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão. Teve até um tiroteio, estávamos ali no meio. A melhor hora pra você entrar num lugar perigoso é de manhã cedo, as pessoas ainda estão meio acordando, não receberam ordem de fazer ou não fazer, tá tudo meio lento. E eu falei, o principal nisso aqui é mostrar a estrada. Foi o mais emblemático, aquelas dezenas de traficantes fugindo pela estrada. E aí a gente subiu, encontrou o BOPE antes da estrada, e pensei, os traficantes vão ver que a gente estava com colete azul turquesa, eu sou careca, não tenho a menor cara de policial, a chance de levar um tiro é muito pequena. A gente foi fazendo a matéria até lá em cima, até a fronteira. Depois voltamos, a gente achou um corpo nessa matéria, uns porcos estavam comendo a coxa do cadáver. Mas enfim, você falava com as pessoas e via um pouco o drama de viver ali. E muita gente falava da violência da polícia, do arrego, dos pagamentos, dessa relação do tráfico, muito dinheiro corrompendo várias partes da sociedade. O projeto da UPP pode até ter sido bem intencionado, mas o volume de dinheiro que a droga gera é tão grande que não tem jeito. Vai superar sempre a boa intenção.

Em uma reportagem sua no Iraque, uma camionete da sua equipe vazou na imagem, e tinha um pintura em vermelho no capô do carro feita a mão, indicando TV, você até entregou uma camisa 9 do Brasil no final à família que você mostrou na matéria. Mas fala um pouco desse limite entre o jornalismo e a vida, ou melhor, a morte.

Assim, você estando numa área perigosa, seja subindo um morro aqui, ou na Síria ou no Iraque, enfim, você tem sempre um problema. No caso do Iraque, eu que dirigia o carro. Eu não queria morrer por um erro do motorista. De ele não entender alguma coisa que estivesse acontecendo. Mas aí, você é responsável pela tua vida, pela do cinegrafista e muitas vezes de um produtor local que está com você. A decisão de ir ou não é tua. É sempre muito difícil. Se você vai, você pensa se não está se arriscando muito. Se não vai, você se pergunta o que está fazendo ali e porque não ir. É bem delicado isso. Não nos compete como jornalistas ir pra frente de batalha. Não acho que seja a nossa responsabilidade fazer coisas perigosas. Até porque você acaba mostrando muito pouco. Você está querendo se proteger, você não quer que caia uma bomba perto de você. Tem que se abaixar, diminuir a tua área de exposição, quer dizer, você não está entendendo nada, você está só se protegendo. Isso tem um lado sensacionalista, o tiro, o perigo, mas aquilo informa muito pouco, serve como uma espuma de entretenimento pras pessoas que estão em casa. É uma cascata, você é um repórter, você está lá porque quer e vai embora quando quer. A nossa intenção deve ser falar sobre as pessoas que estão lá, que vivem lá e que não podem sair de lá. Essas são as pessoas importantes. Lá no Iraque, por exemplo, a gente ficou na casa de uma família, eu não queria ficar em hotel e mostrar o que é viver em Bagdá cinco vezes atacada com mísseis, tinha uma central telefônica do lado da casa dessas pessoas que estava completamente destruída. A gente ficava lá, dormia lá. Comemos lá. Eram 16 pessoas e deram o melhor quarto pra gente. Era do lado do aeroporto e os americanos estavam ali. Não tinha luz, então toda noite, os iraquianos iam ali atacar os americanos, era um tiroteio danado, bomba. Você ouvia choros, você via que as crianças faziam xixi na cama. Essa realidade é a que me interessa. Isso que faz você imaginar, aqui no Brasil, o horror que deve ser passar por isso. Essa cultura de celebridade que se vive empurrou o repórter pra esse lado de aparecer, que a notícia importante é ele e não a notícia. Isso é péssimo, as mídias sociais sob esse aspecto foram um veneno para o repórter. Você passou a falar de você e não dos outros. É a pior coisa que pode acontecer, você achar que você que é interessante. O jogo da mídia social, de você ficar postando, é esse. Eu estive na Síria, tenho certeza que, se eu estivesse postando no Facebook, no Instagram, estaria bombando, mas eu não acho que seja isso. Eu sei que pareço um dinossauro falando de uma coisa que não existe mais, mas ainda é como eu enxergo o jornalismo. É sobre o outros, não sobre você.

Você nunca teve Twitter?

Não, nunca. Eu até entendo quando muitas pessoas me dizem que eu deveria ter. É uma maneira de comunicar, claro. Mas, primeiro, eu não acho legal achar que tudo que você faz é interessante, que o teu dia a dia é interessante. Praticamente ninguém tem o dia a dia interessante. Nem um grande artista. Não acho. Além disso, acho que toma muito tempo. Você começa a postar e também acaba mexendo com a tua vaidade, no sentido de que você faz um ping esperando um pong. E você entra nesse universo de esperar o que as pessoas dizem de você. E tem uma terceira coisa, que eu acho péssimo, que é terem opinião sobre tudo sem nem terem lido ou assistido o que você falou. Antigamente, os veículos tinham as cartas do leitor. Mas eram pessoas que se dispunham a escrever uma carta, algo que demanda você escrever, ler, reler, repensar, amassar, escrever de novo, enfim, você escrevia pra um jornal que publicava ou não, e em geral publicavam o que era mais relevante e contribuíam para uma informação. Na Internet não tem isso. As pessoas lêem naquela hora e têm uma opinião instantânea sobre aquilo, sem refletir nada, esculhambam o que está escrito. Eu vou pra Síria e me acusam de ser pró-Bashar [Al Assad] e, no mesmo texto, me acusam de ser pró-americanos. Meus Deus, o cara nem leu, nem viu, mas ele já tem uma opinião formada, e te detona. Isso é péssimo. Essa carga de violência e de agressividade que existe na Internet. Não há um diálogo. É claro que tem pessoas que escrevem coisas muito legais, mas eu não quero ser vitrine pra essas pessoas que querem jogar pedras pelo puro prazer de ver tudo destruído, não quero. O meu trabalho é estar ali na televisão, quem vê gosta, ou não gosta… Eu nem escrevi livro ainda, muita gente me pergunta por que eu não escrevi um livro. Eu vou escrever um dia, já tenho até o título, quero falar sobre a diferença do que se diz e do que se faz. O que acontece na boca dos políticos e na boca de nós todos, e a realidade do que você faz na tua vida. Como você se comporta. Isso vale pra gente, pra grande política, pra todo mundo.

Houve uma cobertura que você fez desde o Kuwait, em 2003, e havia uma transmissão que parecia um sinal de Internet. Como era isso?

Era via uma antena, era uma tecnologia muito primitiva, a imagem ia batendo, ia pulando. O Casseta e Planeta até brincou, fizeram o Marcos à toa, meus filhos ficavam danados… Mas a tecnologia na época era essa, seria muito caro pagar um satélite pra entrar ao vivo três vezes ao dia.

Com a Internet, esse tipo de cobertura é possível. Em 2017, explodiram as lives. Você acha isso positivo?

Muito positivo. Muito. Tecnologia é sensacional. A Internet é maravilhosa, o problema é que o que é maravilhoso na Internet não é realidade da Internet. A realidade não é que as pessoas lêem, acessam informação e ficam mais cultas, mais informadas. Não. O que está acontecendo com os jornais e com as revistas é que qualquer assunto que é importante, interessante, ele necessariamente é complexo e demanda que você leia mais. Eu leio muito livro. As pessoas lêem na Internet textos curtos, já se sabe que tem que escrever muito pouco, senão as pessoas não lêem. Agora, você não pode falar sério sobre nada na Internet real, não na Internet enquanto tecnologia, afinal, é claro, você tem livros na Internet, grandes textos ótimos disponíveis. Mas as pessoas não usam Internet dessa maneira. Usam o Facebook pra postar as suas coisas. A selfie é emblemática desses tempos. Antigamente, você tirava fotos do mundo, dos outros, e as pessoas passaram a tirar fotos de si o tempo todo. O que importa são elas. Não estão interessadas nos outros nem no mundo. Esse lugar vai me valorizar e por isso tiro uma foto. Isso é muito comum, um narcisismo que não conduz a uma sociedade boa. Pois não existem valores coletivos. Viver sem violência, respeitar uma fila, uma praça que todos possam conviver, ou seja, respeitar o outro, são valores coletivos, e não pensar primeiro eu, segundo eu e terceiro eu. Nesse aspecto, a Internet real é mais negativa que positiva. Eu sei que, como jornalista, eu poderia me informar bastante no Twitter. Eu sei que no Facebook poderia encontrar pessoas. Mas o dia só tem 24 horas e, parte do dia, eu quero ficar com a minha mulher, parte do dia, eu quero ficar com os meus amigos, parte do dia, eu quero ficar comigo, lendo… E acho que tem pouco dia para o que a Internet, Twitter e Facebook exigem. Você acaba cortando coisas que, pra mim, são prioritárias.

Antes da entrevista, falamos do Alex, que pouco fala. Você esteve com ele em Istambul. O Alex usa o Twitter até menos do que a ferramenta permite, que são 140 caracteres, mesmo sendo muito popular. Já o Neymar é muito atuante nas redes sociais…

Esses jogadores, ou grandes artistas, em parte são garotos-propaganda. Eles vivem da própria imagem. Eu entendo isso totalmente. Mas falando sobre o Alex, que foi ídolo no Fenerbahçe, eu nunca vi um futebol com torcidas tão fanáticas, um clássico entre Galatasaray e Fener é a coisa mais impressionante que se pode ver em termos de fanatismo, e eu vejo isso pelo lado negativo, mas é um espetáculo. E a carreira do Alex lá é extraordinária. O Alex reproduz um pouco do que o Zico fez na carreira dele. Alguém que passou a ser amado não só pela bola que jogou, mas pela pessoa que é. O Juninho Pernambucano no Lyon conseguiu isso na França. Eu fui correspondente quatro anos em Paris e o que se cita o Juninho em contextos, às vezes, fora do futebol é impressionante. Você ter uma postura dentro de campo como pessoa que faz com que você dê um bom exemplo. O futebol está cheio de péssimos exemplos. A quantidade de desonestidade, de simulação, de mentira que se vê no futebol é extraordinariamente grande. O desrespeito ao juíz, ao companheiro, ao adversário. São péssimos exemplos de convivência num campo de futebol. Aí você vê um Alex, um Zico, um Juninho, você pensa: “poxa, esse cara é diferente”, um Iniesta, por exemplo. Algo que te ensina mais do que simplesmente o apreço pelo futebol.

Por falar em enaltecimento e paixão no Brasil, em época de Copa do Mundo existe sempre uma coisa bem desmedida em torno da Seleção. Você acha que o Galvão é responsável por isso? Sem querer cair na crítica superficial a ele, mas pela maneira como ele torce quando narra.

A atitude da mídia brasileira em relação à Seleção é pouco crítica e, no caso da TV Globo, eu posso compreender isso pelo lado financeiro. A Seleção Brasileira é um produto super importante para a Globo. Até tem um problema com a renovação do contrato dos amistosos, mas é claro que a Seleção Brasileira tem um peso enorme pro brasileiro, e você mostrar a Seleção é um prazer. É a nossa identidade. Na guerra do Iraque, eu andava com a camisa da Seleção na mão. Eu sabia que, se houvesse um momento de muita tensão, se eu levantasse aquela camisa da Seleção, as pessoas iam me reconhecer e possivelmente me “perdoar”, entendeu? Simplesmente por eu ser brasileiro. Essa coisa de vender através da narração, ou das reportagens que a TV Globo faz, eu sempre fui bastante crítico quanto a isso. Até na cobertura da Copa de 2014, eu normalmente cobria os adversários do Brasil, eu era uma voz discordante. Desde o primeiro jogo eu falei que aquela Seleção do Felipão era ruim. O jogo contra a Croácia teve aquele pênalti ridículo que o juiz japonês deu no Fred, que não foi de jeito nenhum. Depois, no 0 a 0 contra o México, houve uma falsificação da leitura do jogo, dizendo que o goleiro mexicano tinha salvado o México. Ele fez uma defesa numa cabeçada do Neymar! O resto foram bolas que bateram nele, se ele fosse um poste ia defender igual. Quase perdemos do Chile. O jogo contra a Colômbia ganhamos com um gol de falta, batida de lado de pé do meio da rua, foi uma falha do goleiro. Aí veio o 7 a 1, enfim. Eu fiz uma reportagem que seria pro Esporte Espetacular, mostrando como a Seleção tinha problemas desde o início. Você convocar um goleiro como o Júlio César, que era um grande goleiro, mas tinha acabado de jogar uma temporada no futebol canadense! Era um absurdo! Assim como convocar pra ser titular na zaga o David Luiz, que passou um ano antes com o Mourinho dizendo que ele não podia jogar na defesa. Ele estava há um ano sem jogar como zagueiro. Você colocar o Fred pra jogar de centroavante, que é um ótimo centroavante, mas que demanda jogadas de linha de fundo, quando você não tem jogadas de linha de fundo. Quer dizer, tinha vários absurdos, digamos assim, futebolísticos. Mas que se preferiu não falar em nome de Brasil, Brasil, Brasil! Eu acho que isso não é o Galvão. E mais grave, que eu acho que é um reflexo disso, foi na véspera do jogo contra a Alemanha, a gente ter no Jornal Nacional, se não me engano, acho que seis matérias que falavam do Neymar. Um cara que não ia jogar. O que isso passava para os 11 jogadores que iam jogar? Vocês não são nada. Vocês são ridículos. Sem o Neymar não temos a menor confiança em vocês. Claro que não foi isso que foi dito nas matérias, mas ao insistirem em seis matérias do Neymar na véspera do jogo, na prática, o que estávamos mostrando como meio de comunicação, e não estou falando só da TV Globo, vale pra todos, pra mídia brasileira, foi uma falta de confiança total no projeto. E aconteceu o que aconteceu. Mas enfim, voltando ao Galvão, ele faz muito bem, uma coisa que é muito importante pra um narrador. Você colocar emoção em algo que nem tem tanta emoção assim [risos]. Então, o jogo nem está tão bom, mas parece estar melhor porque o Galvão está dando aquela empolgação. A corrida de Fórmula 1 está meio chata, mas fica emocionante. Ele consegue fazer isso. Acho que é mais por aí. As pessoas procuram no esporte não só a racionalidade, procuram emoção. Se você ficar falando, como eu quisesse talvez falar, “olha, essa Seleção é ruim, ela não vai longe”, a gente talvez estivesse furando um balão de ilusão e de escapismo que as pessoas precisam. É uma coisa muito forte na vida das pessoas.

É muito difícil comunicar com um universo tão heterogêneo como o público da Globo. E isso sempre tende a sinonimizar certas coisas, como muçulmanos e terroristas, Brasil ser penta e ser os melhores. Faz parte do teu processo de redação fazer um contraponto?

Eu tento. A maneiro como eu construo as reportagens, eu tento incomodar um pouco a complacência da maneira como a pessoa pensa. Pra ela perceber que tem um outro lado, que não é bem assim. Isso é mais interessante. Fazer isso é fazer um jornalismo melhor. Com relação à Seleção, ela tem um peso na vida das pessoas muito, muito grande. Eu digo que o nosso passaporte deveria ser amarelo e devia ter a cara do Pelé, a gente não precisaria de visto pra lugar nenhum [risos]. Quando você é jornalista e vai pra fora cobrir qualquer coisa, ser brasileiro ajuda muito. Eu vi isso na Síria. Você é visto de uma forma, que tudo bem, pode ser uma caricatura, é verdade, é o carnaval, é o futebol, é a mulher bonita, é o café. Tudo bem. Como também é uma caricatura dizer que não se pode vir ao Rio porque é perigosíssimo. Não é. Você pode viver no Rio. Tentar fugir desse lado, de mostrar que muçulmano é barbudo e terrorista e do brasileiro que é bom de bola, sabe? A gente é um país que produz aviões. A gente não é um bando de vira-latas. Me incomoda muito a descrença que o brasileiro tem com relação ao Brasil. Como é comum o argumento de que isso aqui é uma merda, de que se pudesse ir embora, iria. As pessoas não se dão conta de que nós temos a coisa mais importante pra ser feliz, que é gente. Aqui conversamos com qualquer pessoa, numa fila de um banco, numa rodoviária. Qualquer pessoa puxa assunto com você. Isso não acontece lá fora. Lá não é violento, é organizado, está limpinho, mas há uma distância entre as pessoas que faz com que a vida seja muito difícil. Eu morei 15 anos fora do Brasil. Não estou falando isso levianamente. E o que você vê é muito brasileiro que mora fora, que fala “ah, o Brasil nunca mais”, mas essa pessoa fica 11 meses trabalhando, e quando ela passa um mês de férias no Brasil, ela fica louca pra encher o tanque sentimental dela. Porque ali ela está com os amigos, ela está rindo. Eu brinco que, com o estrangeiro a gente ri, e com o brasileiro a gente dá gargalhada. E é verdade. Mas como o brasileiro acha que isso aqui é igual ao resto do mundo, ele não valoriza. Eu acho que pra ser feliz, pra nossa cultura, o Brasil é melhor do que lá fora.

Você foi feliz fora?

Não, não. Profissionalmente, fui muito feliz! Mas não fui feliz sentimentalmente. Eu tinha grupinho de pelada, de futebol. Mas era uma coisa que não tinha a pegada da pelada e da cervejinha e da brincadeira que a gente tem. Claro que eu tinha três filhos, eram crianças, na época, e você acaba conhecendo mais gente, mas há uma distância. Você entra na casa da pessoa até um certo ponto, mas não tem a intimidade que a gente, muito facilmente, adquire. E fora a coisa mais física, de contato físico, de colocar a mão, lá eles não encostam. Meu melhor amigo lá tinha sido punk, não era um careta, ele não gostava de dar a mão. De cumprimentar com a mão. Chegava lá em casa, fazia assim [acena com a mão]. É muito diferente. Colocar filho no colo o tempo todo, meus filhos grandes já sentavam no colo, lá isso não existe. E eu acho que pras crianças é importante o afeto, tocar, beijar e abraçar. Na Rússia, eu lembro na época do astronauta brasileiro, a gente tinha que mandar matéria pela Internet, no lobby do hotel, e uma semana depois a recepcionista chegou e perguntou porque ríamos tanto. Eu estava com o Sérgio Gilz. Eu disse que, sei lá, que estava passando o tempo, que ele era engraçado. Ela disse que quem ria assim lá era bobo. Ela disse silly , em inglês. Eu fiquei meio sem reação, mas ela disse que não era no mal sentido, que ela, inclusive, gostaria de ser assim, mas que na Rússia não se ri em público, não se dá gargalhada em público. E eu pensei que é verdade, que o riso é um sinal de liberdade, de independência, de estar à vontade. E a Rússia sofreu tanto com os Czares, com o comunismo e com o Putin, que as pessoas têm medo. E elas não se expõem em dar uma risada em público. Agora você vê que horror. Em várias partes do mundo, são muito piores no dia a dia do que o Brasil é. A gente é feliz por causa das pessoas. O que a gente precisa pra ser feliz é gente. Não é só segurança, um lugar organizado, limpinho. Tudo isso é ótimo, e claro que não vou falar que segurança não é importante pra uma pessoa que já sofreu um trauma, não seria desrespeitoso a esse ponto. Mas ao longo da vida, a média do medo que nós sentimos em ser assaltados não é tão ruim comparado a você não ter um afeto, a nossa alegria, que não riam com você.

Em Istambul é surpreendente como os homens se encostam. Numa sociedade tão machista em termos ocidentais. Se comparados a outras partes do mundo islâmico nem tanto, mas é estranho como são afetuosos entre homens.

Pois é, homem com homem, pois em diferentes níveis, de uma maneira geral em países islâmicos, você não pode encostar na mulher.

Falando o extremismo, do fanatismo na Turquia, existe um nacionalismo muito grande. São muitos estádios e coisas com o nome Atatürk. Ali no final dos anos 90 e início dos 2000, a Turquia fazia um movimento de aproximação com a União Européia, de rever algumas coisas, como a pena de morte.

É, melhorou muito. Fui lá pela primeira vez em 1983.

E no futebol, o Galatasaray foi campeão da Copa da UEFA, que é um título europeu, e há todo um simbolismo aí. Em 2002, chegaram às semifinais de Copa do Mundo, enfim, a Turquia se mostrava pro mundo, e na geopolítica, houve todo esse movimento de se abrir pro mundo, mas parece que houve um recuo. Um distanciamento, não acha?

Esse momento, do início da década de 2000, eles até usaram o futebol pra isso. Eles promoveram artificialmente à primeira divisão o Diyarbakır , que é lá do leste da Turquia, da região do Curdistão, pra dar uma carteirada e dizer que aquela porradaria contra os curdos tinha acabado, que a repressão tinha diminuído. E eu nunca vi um lugar com tanto check-point quanto ali naquela região. A gente chegou a ser preso ali por algumas horas, por estar filmando uns ônibus de militares turcos que faziam a repressão. Enfim, a Turquia nessa época estava realmente querendo se aproximar da União Européia, mas foi travada por uma grande parte conservadora, que por um lado tinha medo de receber um contingente de 80 milhões de pessoas muito mais pobres, mas existia também um componente religioso retrógrado anti-islâmico. O que é muito fácil de entender quando lembramos da guerra da Bósnia. Quando era Croácia contra Sérvia foi tudo resolvido mais rapidamente. Mas quando chegou a Bósnia, demorou quatro anos. Enquanto estavam matando muçulmanos, ninguém estava nem aí. Teve que acontecer [o Massacre de] Srebrenica — que eu fui lá, inclusive — pra que a coisa mudasse, para que houvesse de fato um horror que chocasse. Você vai na Síria e vê pessoas brancas, caucasianas, não estamos nem falando no racismo, que é uma coisa horrorosa e que também existe, mas é um caso de islamofobia e mais, de sírios cristãos, que mesmo assim são vistos como terroristas. É uma falsificação da realidade terrível. Há um negócio de dois pesos e duas medidas e que lá as pessoas enxergam essa discrepância. Você vai lá pro Oriente médio, com exceção do Iêmen e Omã, eu conheço todos os países, já fui várias vezes e eles enxergam a maneira como eles não existem pro Ocidente. O Daniel Pearl, que morreu no Paquistão, o James Foley, que morreu na Síria, ou seja, morreu um jornalista americano é uma comoção mundial. Agora, morre uma centena de milhares de pessoas lá e ninguém está nem aí.

Precisou ter o garotinho afogado na praia…

Precisou ter o garotinho pra abrir a porta, 800 mil entraram, aí fecharam a porta, dizendo que era gente demais, e essa porta foi aberta basicamente só pela Alemanha. Os outros países fecharam as portas. Há uma mentira na discussão de migração na Europa, há uma instrumentalização política disso, contra o Islã, contra o muçulmano, contra quem vem do Oriente Médio. A Síria é vítima de aquecimento global, por exemplo. Cinco anos antes da guerra começar foi uma das piores secas dos últimos cinqüenta anos da Síria, 85% do rebanho morreu e muita gente que morava no campo foi pra periferia das cidades. Essas pessoas apoiaram uma revolta. Aí tem um lado de um neoliberalismo que o Bashar fez, estimulado por uma política de FMI, de privatizações, mas privatizações como aconteceu no Irã, na Rússia, para os amigos. O primo que ganhou o monopólio da telefonia celular, e muitas fábricas não conseguiram competir com a importação que aumentou muito o desemprego. Essas razões se esqueceram. Começaram a falar que fulano é alauita, que ciclano é sunita e beltrano é xiita. Gente, é a mesma coisa que se houver uma guerra civil no Brasil e disserem que você é evangélico e eu sou católico. Mas antes de ser isso, você é carioca ou paulista, você é Flamengo, ou você é Mangueira, você é rico ou pobre, você tem duzentas identidades e uma delas é a tua religião. As pessoas conviviam perfeitamente. Eu entrevistei um senhor de 92 anos em Homs, que tinha sido invadida pelo pessoal do Al-Nusra, que é ligado à Al-Qaeda, e ele falou que quem o protegeu foram os vizinhos sunitas e alauitas.

Mehdi Hasan, da Al-Jazeera — que até entrevistou a Dilma — explicou isso, que essa rivalidade mortal entre xiitas e sunitas é uma generalização, que o melhor amigo dele é sunita. Que o que existe é uma rivalidade entre dois países, um de maioria sunita [Arábia Saudita] e outro de maioria xiita [Irã] que querem exercer um domínio na região.

Existe a rivalidade, mas em nenhum lugar do mundo teve um convívio de religiões diversas tão longo como no Oriente Médio. Isso é uma herança do Império Otomano, quando você tinha vizires que eram judeus, ou seja, ministros, generais que eram judeus. Essas cidades, tipo Tessalônica, Sarajevo… Aleppo é a última das cidades que tinha essa marca, que tinha um convívio perfeito ou quase perfeito de diversas religiões. E isso foi destruído e grande responsabilidade dessa destruição é do Ocidente, que empurra e fomenta esse ódio. Uma das pouquíssimas coisas boas que o Trump fez foi acabar com esse programa da CIA de financiamento e treinamento de rebeldes que atravessavam a fronteira e entravam pra grupos ligados à Al-Qaeda, só porque lutariam contra o Bashar. E quem reclamou não foi o Partido Democrata, foram os próprios militares americanos que pressionaram pro governo parar com isso. Morreram três boinas verdes lá e eles estavam treinando os terroristas. Essa história é antiga, desde Bin Laden no Afeganistão. Aí você se surpreende com atentado terrorista na Europa? Não, né? Não é burrice, não existe burrice na política americana, existe um lobby armamentista que é muito forte, que tem interesses em fomentar uma insegurança, enfim, essa é uma outra conversa.

Esse trecho que você diz que o Trump fez algo bom, se isso é colocado no Facebook, por exemplo, que você elogiou o Trump, como reagiriam?

Exato! Eu acompanhei muito a eleição do Trump, e se você pega os debates, eu assisti todos, e é claro que ele dizia coisas horrorosas, e eu diria que ele é horroroso, ele é mil vezes pior que a Hillary. Mas se você olhar a parte de economia, a crítica à globalização, a crítica sobre as empresas americanas que foram pra China, e que acarretaram um desemprego do blue collar americano, cara, esquece que é o Trump, ele está retratando uma realidade que está destruindo a classe média americana, e é verdade. Se ele vai resolver ou não, é outra história. Mas você não podia negar e depois se surpreender que ele tenha vencido a eleição. Ele não venceu a eleição só com argumentos ridículos , com xenofobia. Ele também venceu a eleição com argumentos sobre a economia que eram mais sólidos que os argumentos da Hillary. A Internet empurrou o jornalismo pra uma coisa de preto ou branco, de certo ou errado. Querem algo simples. E nada é simples.

Isso explica muito o fenômeno Bolsonaro.

Sim! Sempre houve uma extrema-direita no Brasil. Também é preciso explicar que as pessoas que mais sofrem com a insegurança são as pessoas pobres, então você vai ter muita gente a favor da lei e da ordem, do “mate os bandidos” nas comunidades pobres, porque são elas que mais sofrem, embora sejam os mais pobres que morram mais [por conta do combate à violência], não tenha dúvidas. Mas o Bolsonaro está fora das possibilidades de convívio de uma sociedade civilizada. Como eu acho que o Trump também. Mas o Bolsonaro é um fenômeno, como a Le Pen na França, o Brexit na Inglaterra, enfim… Isso é muito presente em vários países e é presente também no Islã. Esse conservadorismo você também vê na sociedade islâmica. Mas sobre o conservadorismo islâmico, e eu gosto de muitas coisas na cultura islâmica, a questão da mulher é um limite onde não há discussão. Você tratar as mulheres como eles tratam é inaceitável. E olha que nós matamos muitas mulheres, violência doméstica no Brasil é um caso seríssimo.

Você fez uma reportagem sobre o vôlei feminino no Irã.

Sim, você vê, o Irã é complexo. Fala-se muito na repressão das mulheres no Irã. Sim e não! Em 2017, sessenta e tantos por cento dos universitários são mulheres no Irã. E quem deu acesso à educação pras mulheres foram os Aiatolás, porque na época do Xá, acho que só 20% das mulheres sabiam ler e escrever.

E lá, o homem pode mudar de sexo. Ele não pode ser homossexual, mas pode trocar de sexo…

Exato, e o governo paga a operação. Por exemplo, o governo iraniano é o mais elogiado pela ONU pela política de tratamento antidrogas. É uma política sensacional, mas ao mesmo tempo eles matam os traficantes e isso é ruim… Mas a compreensão e compaixão com o usuário é algo que não vemos aqui. É meio louco, essa guerra contra a droga é uma coisa louca, porque estamos nos matando e destruindo a nossa sociedade por uma coisa que nem em presídio conseguem impedir que entre. Estou lendo o livro do Dráuzio Varella [Prisioneiras], eu acho ele sensacional, ele fala “se você não consegue evitar a entrada de drogas numa prisão, pára! Não há condições que você evite a entrada de drogas na sociedade”, então teria que ser legalizado, usar o dinheiro dos impostos da mesma maneira que o álcool e o tabaco, enfim. Ninguém pode ser vítima de bala perdida e de assalto porque a droga é proibida. É uma falta de lógica, um contra-senso.

Essa discussão sobre drogas também é daquelas que te rotulam como vagabundo nas redes sociais, ou no caso da legalização, como neoliberal. E isso tem a ver com um momento que o mundo vem atravessando, e tem tudo a ver com redes sociais. Do preto e do branco, do certo e do errado.

A Internet permite que as pessoas vivam só nos seus mundinhos e não ouçam o outro lado. Antigamente, você assistia o Jornal Nacional porque era o que tinha e você queria assistir os gols. Mas enquanto você estava esperando os gols, você via as matérias da cultura, da economia, até chegar a hora de mostrarem os gols. Alguma coisa fica. Agora, você vai e dá o clique diretamente nos gols. Você não lê nada, não vê nada que você já não quisesse ou conhecesse. Você não é surpreendido pela opinião do outro. Quando vem um outro que fala algo, já tem um xingamento de alguém do grupo que você participa que já destrói os argumentos do outro. Não é assim que se aprende. Você tem que estar preparado para o diferente, e a Internet fechou. Você tem acesso ao diferente, mas você não quer ler o diferente e só fica no seu mundinho. É como aquela criança mimada que só quer comer bife com batata frita. Mas peraí, tem que experimentar lasanha, e a criança só quer bife com batata frita. Mentalmente, isso é um veneno.

Sobre o papel dos meios de comunicação, ainda mais no esporte, mais precisamente no futebol, há uma busca incessante por discussões que aumentem a audiência e não em aprofundar nas questões. Também é um reflexo desse momento de redes sociais?

Estão fazendo rádio e não TV, e no esporte, de um modo geral, existe uma questão econômica, pois é muito mais barato fazer mesa redonda do que fazer reportagem. Se faz muito pouca reportagem, estou falando mais dos canais fechados à cabo. Os canais que vivem de esporte são basicamente jogos e o blablabla sobre os jogos. Alguns mais, outros menos interessantes, mas pouca reportagem. Se dá muita opinião e tem pouca informação, porque opinião é barato. E temos um tipo de jornalismo pouco rigoroso com fatos. Você avalia que um time jogou mal, que o Flamengo perdeu, que o Fluminense perdeu, e algumas coisas são exacerbadas com o resultado. Mas peraí! O time chutou vinte vezes a gol. Chutar vinte vezes a gol é um bom número, criar dez chances de gol é um bom número, mas só que o goleiro adversário agarrou pra caramba, a bola bateu na trave. Acontece. Faz parte do futebol. Agora, você avaliar que ganhou de 1 a 0 criando duas chances, isso não quer dizer que jogou bem. Essa avaliação e diagnóstico sobre o que é jogar bem, essa conversa sobre o que é um bom time e o que não é, existe pouco. Existe muito um imediatismo sobre o resultado. É claro que o resultado é importante, mas não é só isso. A Seleção de 82, que é a grande equipe da minha geração, ela não ganhou. Não foi campeã. Você vai pelo mundo e foi uma Seleção que deixou saudades, que as pessoas ainda falam, e não falam da Seleção de 94, não falam da Seleção de 2002. Beleza, adorei ter ganho em 1994 e 2002, mas eu preferia um futebol mais parecido ao de 1982. Eu acho que o torcedor sabe disso, o que é bonito, o que diverte o brasileiro no futebol não é tanto o resultado. Acho que é jogar bem, é o lance de efeito, o passe bonito, o drible sensacional. É pra isso que a gente vai ao estádio.

A torcida do Flamengo se dividiu em 2017 entre os que amavam o Márcio Araújo e os que o odiavam. A torcida não se dividiria assim se não houvesse as redes sociais. Isso tem tudo a ver com esse empurrão que os meios de comunicação têm sofrido e dado rumo ao certo e o errado. Entre o bom e o ruim, concorda? Qualquer coisa vira um PT vs PSDB.

Eu não sou contra que se tome partido, eu tomo partido. Mas eu acho que tem que se tomar partido baseado em informações que tenham uma lógica. Que haja uma inteligência por trás. Mas você tem que ouvir e não evitar os argumentos dos outros. Uma coisa que é pouco discutida no futebol é o papel da inteligência. Fala-se de preparo físico, de treinamento, do técnico, da habilidade, mas não se fala da inteligência. E é curioso, pois eu fiz a Copa das Confederações [de 2017], e a Alemanha era um time bom? Mandaram um time que não era nem o time B. E ganharam fácil. E não foi porque tinham grandes jogadores. Eles não complicam. Se você é um jogador e você tem a opção de driblar, passar ou chutar, o alemão em geral vai tomar a melhor decisão. Ele é pouco burro na maneira de jogar. Isso ao longo de um jogo e de um campeonato tem importância, faz a diferença. Eles sabem marcar de uma maneira que sempre tenham dois contra um. E nós, desde a entrada na Nike, passamos a acreditar nos anúncios da Nike. É claro que a gente sempre disse que era o mais habilidoso do mundo e tal. Mas eu não diria que o futebol brasileiro é mais habilidoso que o argentino. Se eu fosse argentino, eu teria muitos argumentos pra dizer que eles têm um futebol tão habilidoso quanto o brasileiro, que ganhou menos, por outras razões, as maluquices passionais dos argentinos. Eles são os maiores inimigos deles mesmos. Mas em habilidade, o Messi é o jogador mais habilidoso e eficiente que eu vi jogar. Em termos quase circenses, o Ronaldinho Gaúcho teve três anos inacreditáveis. Mas ao longo de uma carreira, o Messi quase não tem um jogo ruim. A média dele é altíssima. Ele é muito inteligente jogando bola. Os passes dele, os dribles… Eu acho até meio ridícula a discussão sobre quem é melhor, ele ou o Cristiano Ronaldo. Quem acha o Cristiano melhor nunca deve ter jogado futebol, não sabe o que é jogar futebol. O que o Messi faz, o Cristiano não sabe fazer. Os passes que ele dá, entrar no meio de quatro caras driblando é muito difícil.

E isso engrandece o Cristiano Ronaldo, pois conseguir o que ele consegue em tempos de Messi é surreal, né?

Eu acho o Cristiano Ronaldo sensacional. Um artilheiro espetacular. Mas o nível de habilidade e de técnica dele está bem abaixo do Messi. O Cristiano é o melhor atacante que eu já vi em termos de eficiência! Ele tem tudo, perna direita, esquerda, cabeceio, ele é completo pra definir. Mas o Messi está em outro patamar. Os números dos dois são parecidos, mas em termos de arte, a diferença é clara!

Saímos do Márcio Araújo e paramos no Messi.

Um jogador que é pouco habilidoso pode chocar com algumas caneladas que ele pode dar. Mas se você pegar um scout de quantas burradas ele faz e quantos passes ruins ou decisões erradas ele tem, esse cara pode ser mais eficiente que um jogador considerado habilidoso, que quer driblar cinco. E temos muito isso no Brasil. Aqueles anúncios da Nike fizeram isso, que o brasileiro acreditasse que por ser habilidoso vai ganhar.

Aí, depois, veio a “ousadia”…

É, eu se fosse técnico, faria muito treino pra assistir os jogos. E editaria os teus lances, mostrar uma jogada e perguntar por que se fez aquilo. Tinha tais e tais opções. Ouvir o cara e explicar que ele errou, pra ele ver as outras opções. “Olha lá o cara, estava sozinho… tem dez caras aqui, vira o jogo”, esse entendimento da compreensão do jogo e não só da habilidade com a bola, eu acho que é uma coisa que a gente faz muito pouco. Faz pouco como jornalista e faz pouco como técnico e jogador. E ficamos batendo sempre nas mesmas teclas… “Faltou comprometimento”, eu não agüento esse tipo de coisa. Como se alguém entrasse em campo querendo perder.

Às vezes sobra comprometimento. Com Dunga e Felipão sobrava.

O que faltou foi inteligência. Foi competência. Ou o outro time era melhor. Fica um julgamento de ordem moral, todo mundo sobe no cavalo branco da moral e diz que o time não se esforçou o suficiente. Tenha paciência. Mas infelizmente, cada um na mesa redonda virou um juiz da moral. Não, né? Aí eu entendo que os jogadores fiquem irritados. Outra coisa interessante na minha época de fazer futebol de clube, você tinha acesso aos jogadores, era muito fácil. O jogador saía do treino, você entrevistava quem você queria. O que isso queria dizer para o jogador? Ele tinha que se explicar. Pra isso, ele tinha que pensar no que dizer. Mesmo que as críticas fossem injustas, e muitas vezes eram, mas, mal ou bem, ele tinha que ter argumentos. Depois, os jogadores passaram a quase não dar entrevistas. É uma coletiva, em que o cara fala um absurdo, mas a próxima pergunta é de um outro colega que não segue o que foi falado e não cobra o absurdo que foi dito. E o cara vai falar uma vez por semana, se falar! Nem isso. A necessidade de pensar a própria atuação, de pensar no que está fazendo, desaparece. Tudo fica canalizado para o técnico, pois é o único que fala sempre. A imprensa começou a atribuir toda a responsabilidade ainda mais pro técnico, quando há casos óbvios que os jogadores erraram tanto que a culpa não é do técnico. Mas os jogadores passam pela zona mista sem falar. Isso piorou para o jogador, pois ele deixou de ter uma pressão necessária para o pensamento, pra ele refletir sobre o que fez bem ou errado. Seria de interesse dos clubes de voltar a um modelo em que os jogadores falem com a imprensa. Isso é bom pra melhorarem o trabalho deles.

Isso poderia ferir interesses da assessoria de imprensa, que responde às relações públicas, ou seja, aos patrocinadores. Pois conseguem colocar, numa coletiva, o backdrop com os patrocinadores. E claro, fazem a gestão de crise, pra evitar que a coisa piore.

Eu acho que não, um dos problemas dos patrocinadores é que eles aparecem pouco. Pois as entrevistas são tão desinteressantes que cada vez os jogadores falam menos. Falam coisas que você não presta atenção, você sabe que ele vai falar o de sempre. Ele nunca te surpreende falando algo diferente. Teve a história do Roger do Botafogo, que tem a filha cega, que tiveram aquela idéia sensacional de imprimir o gol em 3D, aquilo ali marcou. Todo mundo quis ver. Você descobriu uma pessoa que vive uma dificuldade, com uma filha que é cega. Como ele teve que crescer e superar isso. Sensacional. Acredito que vários jogadores tenham histórias, obviamente diferentes, mas que podem contar coisas que te faz entender a vida deles de outra maneira. E, de repente, essa pessoa não jogou bem porque ela está com a cabeça num drama familiar, mas aí ela vem e fala só o de sempre. Se você conhece o jogador de futebol, e o Alex é um deles, que quando você conversa com ele, dá pra ver uma pessoa fascinante…

Foi legal falar com o Alex sobre um momento que ele entrou em depressão, engordou, etc, pois existe um ser humano ali, às vezes o cara não rendeu como imaginamos que ia, e tinha coisa que estava acontecendo ali. Uma frustração de ir para o Parma, mas não ir.

Meu filho mais novo, o Gustavo, jogava bola muito bem. Ele, na Inglaterra, chamava muito a atenção quando criança, era uma coisa de louco. Ele tentou mesmo ser jogador uma vez, no Fluminense. Na época, eu perguntei se ele realmente queria. Ele queria sair com os amigos, dormir tarde, ir pra balada. As pessoas não vêem como a vida séria de um jogador de futebol é horrível! Você não passa o final de semana com a família. Tudo bem, você tem dinheiro, tem glamour, mas você não está no aniversário da tua filha, sua mulher está chateada contigo e você está na concentração. Existe uma quantidade de coisas, que nós consideramos normais e básicas, que eles não têm. E não têm durante vinte anos de carreira. É muito difícil você, sendo um adolescente, se privar de sair. E num momento da tua vida, você começa a comer pra caramba, fica deprimido ou entra num mundo de videogame, que é uma coisa que te emburrece também. Tem várias coisas que são ruins pra vida psicológica de um jogador. E isso se reflete em campo, com certeza. Faz diferença na maneira como eles jogam. Isso interfere diretamente em uma tomada de decisão dentro do campo e fora também… Fiz uma matéria com o Ronaldo Fenômeno, quando ele foi homenageado no hall da fama lá na Itália, e fui contando coisas pra ele sobre Florença, sobre Milão, depois fomos pra Madri. Sobre a história dos países. Os assessores de imprensa poderiam fazer o dever de casa e falar no ônibus do aeroporto pro hotel que, por exemplo, “vocês estão chegando aqui em São Petersburgo, que é o berço da revolução russa, já ouviram falar de comunismo? Isso surgiu aqui…” Alguma coisa fica, faz o cara refletir, pensar… Falar do Museu do Louvre quando estiver passando ali, mas a gente trata os jogadores como débeis mentais, porque temos uma postura muito preconceituosa com eles.

Isso também está implícito nesses comerciais da Nike, aquele filme clássico, que se passa num aeroporto, um dos primeiros, de exportar o pé-de-obra, não interessando o intelecto do jogador. Claro que, por ser um jogador de futebol, a técnica é imprescindível.

Sim, mas é um produto de exportação. A gente poderia ter um campeonato brasileiro muito melhor se houvesse uma organização financeira melhor. E mais, eu fico danado da vida com flamenguista que odeia o Vasco, no sentido de querer que ele caia. Não existe futebol carioca sem o Vasco bem, como não existe o futebol paulista sem um São Paulo, Santos ou qualquer um estar bem. Mas tem quem torça contra o outro e não pro próprio time. Mas essa coisa agressiva e violenta transforma o prazer dele na infelicidade do outro. Isso é uma receita péssima de convivência. Você vira uma pessoa ruim ao preferir a desgraça alheia do que a tua felicidade.

Por falar em comercial da Nike em um aeroporto, estamos em um. O que esse lugar é pra você? Você passa muitas horas esperando vôos. E desde muito cedo, você tinha que viajar pra visitar seu pai, que era exilado na época da ditadura. É onde você abstrai o trabalho ou onde você também produz?

Eu produzo porque eu leio, eu ando com livro o tempo todo. As pessoas brincam comigo, porque até em jogo de futebol no Maracanã, lá atrás, eu lia durante o jogo. Falta! Até neguinho bater a falta, arrumar a barreira, enfim, você lê uma página inteira mole! Substituição, até o cara sair, você lê mais três ou quatro parágrafos fácil. Eu não me encho o saco numa fila, qualquer lugar. Eu tava lendo no táxi vindo pra cá. O aeroporto pra mim sempre foi um lugar legal, pois eu gosto muito de viajar. Meu pai foi um exilado político, ele saiu em 1964 e só voltou em 1980. Ele pensou em voltar em 1968, mas aí teve o AI-5. A primeira cidade que eu conheci foi Paris, já vinha daí a ligação com a Air France. Depois ele foi pra Varsóvia, onde ele fez doutorado, a gente passou por Berlim, e tinha o muro, a diferença entre a parte ocidental capitalista e a oriental comunista, cinza, triste. Muito cedo, a política e a história e como isso se refletia no cotidiano das pessoas foram coisas que eu vi e que me interessaram muito . Eu, mesmo criança, já lia muito. Eu lia o JB, que era um jornal sensacional. Lá em casa, nós assinávamos e eu, com 6 ou 7 anos, já lia jornal. Sempre gostei de ler. Minha mãe era psicanalista e meu pai era sociólogo. Enfim, tinha um lado humano e um lado de sociedade na minha formação e, pra entender as pessoas, as duas coisas são importantes. E essa coisa de viajar e conhecer o diferente e o novo me encanta. Qualquer viagem me interessa. Mesmo viagens que falem que é roubada. Aliás, uma vez ouvi uma história, me contaram que estavam na espera das malas, numa esteira de bagagem, e uma pessoa vira pra outra e diz que vida de repórter é uma boa, só viaja e tal, aí o outro disse que menos o Uchôa, que ele só ia em roubada [risos]. Mas mesmo os tsunamis, as guerras, eu insisti pra ir, eu quis ir. Eu ficava pedindo pros chefes pra ir. Essa ida à Síria eu fui por minha conta, eu paguei tudo. E uma das coisas mais positivas que o Brasil viveu foi isso, dos aeroportos encherem de gente que não freqüentava aeroportos. Não vamos melhorar o Brasil se não trouxermos as pessoas para um nível educacional, social e econômico que seja razoável. Senão, vamos ter sempre os caminhos do crime como os mais fáceis. Nesse livro do Dráuzio há relatos disso, de pessoas muito honestas e que, num momento de dificuldade, tiveram que recorrer ao tráfico de drogas pra sobreviver. Essa transformação do Brasil passa também por isso, por todos poderem andar de avião, as pessoas foram feitas pra voar!

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

1 Comment

  1. julianoortiz

    setembro 27, 2021

    Cara, que entrevista sensacional. O Uchôa é um jornalista fantástico e que sempre me pareceu gente boa. Essa entrevista não apenas corrobora meu “achismo”, como também revela um ser humano incrível. Que matéria gostosa de ler e absorver.

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