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Mistério Sindelar

O enigma em torno da morte do Homem de Papel

Eleito o melhor jogador do Wunderteam, apelido da seleção austríaca dos anos 1930, Matthias Sindelar morreu em 1939, junto da sua namorada, em Viena. A morte foi considerada oficialmente um acidente, mas despertou curiosidade e gerou diversas versões. A causa do óbito foi a contaminação por gás carbônico, mas o que poucos quiseram acreditar foi no fato de ter sido acidental.

A Áustria nunca mais teve um protagonismo no futebol mundial depois daquele fantástico time, semifinalista da Copa de 1934, comandado por Hugo Meisl. No entanto, nenhuma rua ou estádio leva o seu nome. Há um enigma sobre como o maior jogador do futebol austríaco não é um herói nacional digno de semelhantes homenagens. As investigações sobre a sua morte também nunca foram revistas e, de alguma forma, o país e a cidade que tanto se orgulham de Mozart e Strauss ignoram a maior estrela do futebol do país.

Nascido em 1903 na região de Vysočina, território tcheco que compunha o então Império Austro-Húngaro, o seu nome de nascimento era Matěj Šindelář. Seus pais eram católicos. Eles rumaram para Viena em 1905 e se estabeleceram no bairro de Favoriten, uma localidade com população operária, um “bastião da esquerda vienense”, como relatou Robin Stummer em um artigo sobre o craque austríaco para o The Guardian.

Robin Stummer estava em Viena na prévia da Euro 2008 e notou essa falta de reconhecimento de Sindelar como um herói nacional, dados os mitos em torno de sua morte.

Matthias Sindelar começou a jogar bola logo cedo nas ruas de Favoriten e, em 1918, aos 15 anos, começou sua carreira no Hertha Vienna, onde ficou até 1924, quando foi comprado pelo Wiener Amateur-SV, que mudaria de nome em 1926 para FK Austria Vienna. Lá, ele ajudou o clube, pelo qual jogaria até o final de sua carreira, a conquistar cinco copas e uma liga, além da internacional Taça Mitropa em duas oportunidades: 1933 e 1936, a principal competição continental antes da criação da UEFA, o verdadeiro embrião da Champions League, como relata Miguel Lourenço Pereira, no livro Noites Européias.

Entre um título da Mitropa e outro, ele integrou a seleção austríaca na Copa de 1934, disputada na Itália e vencida pelos anfitriões, que derrotaram os austríacos na semifinal. Sindelar era o melhor jogador dessa Áustria que ficou conhecida como Wunderteam devido ao estilo de jogo coletivo, revolucionário pra época que contava também com outra lenda do futebol: Josef Bican, que teria marcado mais de cinco mil gols.

Porém, em 12 de março de 1938, acontece a anexação da Áustria por parte do III Reich. O domínio, conhecido como Anschluss — palavra alemã para anexação —, acarretou na dissolução da seleção austríaca, que já havia sofrido a primeira baixa um ano antes, quando o técnico Hugo Meisl — um dos mentores desse estilo singular do Wunderteam — faleceu. Mas essa anexação ganhou proporções cruéis.

O FK Austria Vienna, onde Sindelar jogaria até se aposentar, tinha uma relação íntima com a comunidade judaica. O clube teve seu presidente preso logo após a incorporação do território ao Reich. Sindelar protagonizou uma resistência que despertou a curiosidade de muitos e que deu início a diferentes interpretações.

Sindelar se recusou a jogar pelo selecionado alemão usando lesões como desculpas e terminou se aposentando do futebol aos 35 anos para evitar ser forçado a jogar pela seleção nazista. Mas, antes de pendurar as chuteiras, semanas após o Anschluss, houve um amistoso entre Alemanha e Áustria em Viena, com caráter festivo, numa celebração da “Reunificação” dos povos germânicos. Segundo os relatos, havia uma ordem para que o jogo terminasse empatado em poucos gols, afinal era só um amistoso festivo.

Houve, entretanto, um ingrediente picante: Sindelar pediu para que os austríacos jogassem com o uniforme tradicional, e não com uma indumentária genérica naquela despedida da Áustria. Os nazis aceitaram o pedido, era tudo só uma festa mesmo.

Entretanto, o pedido era só o prenúncio do mito que seria criado a partir daí. Conta-se que o jogo de comadres durou até os 25 minutos do segundo tempo. Até ali, o Wunderteam deixou os alemães ditarem o ritmo do jogo, e Sindelar se fazia de bobo no ataque. Mas algo levou Der Papierene (Homem de Papel, apelido que ganhou por conta da sua leveza) a desfazer o acordo e, após um rebote, marcar o primeiro gol da Áustria. Karl Sesta, outro craque austríaco, marcou o segundo gol após chute do meio da rua. Dois a zero. Sindelar correu até as autoridades nazistas, dançou e riu após o apito final. Dez meses depois, foi encontrado morto em seu apartamento.

Ele já tinha se aposentado do futebol, e há quem diga que o fez para jamais vestir a camisa alemã. Essa versão também afirma que, apesar das origens católicas, Sindelar havia se convertido ao judaísmo. Apesar disso, dizem que a própria Gestapo — a polícia secreta nazista — afirmava o contrário em seus relatórios, isto é, que Sindelar não era simpatizante da causa. Outros dizem que a polícia secreta o apontou como “pró-judeus”.

As controvérsias também se dão no fato de Sindelar ter comprado uma cafeteria em Viena após se aposentar dos gramados. O local pertencia a um judeu, Leopold Drill, conhecido de longa data do jogador. Até muito tempo depois, ainda afirmavam que o café havia sido arrematado por uma pechincha, e que Sindelar se aproveitou da perseguição aos judeus para adquirir o local. Por outro lado, também dizem que o ex-jogador pagou um valor muito superior ao que se pagaria para ajudar seu amigo a escapar do país. Após a aquisição, o estabelecimento esteve sob vigilância da Gestapo, pois ainda era frequentado por judeus.

Em 23 de janeiro de 1939, Sindelar foi encontrado morto em seu apartamento junto à sua namorada italiana, Camilla Castagnola. Mais uma vez, as versões se adaptam a qualquer viés ideológico. Àqueles que acreditam na relação do jogador com o judaísmo, apetece a versão de que ele se suicidou para não ser executado ou perseguido, ou que foi morto pelos nazistas. Outras versões sugerem que o Homem de Papel estava imerso em dívidas por conta de apostas e foi vítima de um ataque de uma gangue num acerto de contas. O relatório policial concluiu que houve uma contaminação por gás carbônico devido a uma tubulação entupida na chaminé do prédio onde morava por falta de manutenção. A versão mais consistente é de que realmente tenha acontecido um acidente, na qual menos pessoas querem acreditar.

No entanto, há um relato curioso em um documentário da BBC, de 2003, onde Egon Ulbrich, um amigo de Sindelar, diz ter havido suborno para que as autoridades locais determinassem como “acidental” a razão de sua morte, pois, de acordo com as regras nazistas, quem tivesse sido vítima de assassinato ou de suicídio não poderia ter um funeral e um túmulo de honra. Egon Ulbrich afirmou que teve de fazer algo para remover qualquer indício de crime na morte de Sindelar.

Mais de vinte mil pessoas estiveram presentes no seu funeral. A presença maciça foi encarada também como uma manifestação antinazista por muita gente, mas, na verdade, tratava-se de uma despedida para um ídolo local. A ambiguidade dos relatos que explicam a maneira como tudo aconteceu se perpetuou na história — embora seja considerado o melhor jogador daquele famoso e revolucionário Wunderteam — para que não haja uma estátua, uma avenida, um memorial ou um estádio com seu nome. A morte do Homem de Papel gerou diferentes versões e configura um verdadeiro mistério, não só pela causa da morte, mas pelo que representa, de fato, na cultura local.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.