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Um camisa 10 sem lugar

Os paradigmas em torno de Mesut Özil

Poucos jogadores chamavam mais a atenção do mundo em 2010 que Mesut Özil. Vestindo a camisa 8 da Alemanha na Copa do Mundo da África do Sul, foi um dos destaques do time de Joachim Löw, que chegou à semifinal e apresentou ao mundo uma Alemanha muito diferente, rejuvenescida, com um futebol ofensivo e envolvente. Aqueles jogadores pareciam o futuro da seleção por ao menos mais duas ou três Copas. 

Passados 10 anos, Özil parece estar em busca de um lugar em um futebol que não dá espaço para alguém como ele. O futebol mudou, o jogador, um camisa 10 que remete a um estilo clássico, quase inatingível de craque, parece sofrer para se encaixar. Ter um meia ofensivo com esse estilo, que é quase um fetiche, é possível no futebol, mas é preciso que ele ainda faça algumas tarefas, especialmente defensivas. 

Em meio a isso, é preciso escapar do rótulo de preguiçoso que por vezes cai sobre esse jogador. Özil tem perdido a batalha para encontrar o seu lugar. Aos 32 anos, cada vez mais o alemão busca uma identidade, que questiona até mesmo a sua nacionalidade. Quem é Mesut Özil, afinal?

Início de carreira

Nascido em 1988, em Gelsenkirchen, e filho de pais turcos, Özil tem um irmão e duas irmãs mais velhas. Ele é o caçula da família. Suas irmãs ajudaram no começo da carreira para que tivesse os meios para seguir buscando uma carreira no futebol. Foi criado como um muçulmano praticamente. Como filho de imigrantes, que saíram da Turquia em busca de uma vida melhor no Vale do Ruhr, sua família era pobre. 

Seu pai chegou à Alemanha em 1967, aos seis anos de idade. Özil é da geração dos imigrantes que nasceram na Alemanha, embora isso, por lá, não signifique nacionalidade alemã, ao menos não automaticamente. Özil teve direito depois, ao completar 17 anos. E foi uma decisão difícil, porque não há dupla nacionalidade alemã e turca: escolher a Alemanha significa abrir mão da cidadania turca. Isso dividiu a sua casa: a mãe queria que ele seguisse suas raízes e defendesse a Turquia; seu pai achava que por ele ter nascido na Alemanha, crescido na Alemanha e defendido clubes alemães, ele deveria jogar pela Alemanha. Foi o caminho que ele escolheu. 

Atualmente, a Alemanha flexibilizou suas regras de nacionalidade. Na época que Özil nasceu, era impossível ter a nacionalidade alemã no nascimento sendo filho de imigrantes. Desde o ano 2000, porém, o país permite que filhos de imigrantes possam ter a nacionalidade alemã, desde que um dos pais tenha visto permanente há pelo menos três anos, ou resida no país há pelo menos oito anos. Sob essas condições, Özil já seria alemão desde o nascimento, se as regras valessem desde 1988.

Nasceu durante o declínio industrial na Alemanha, que fazia com que o desemprego entre os imigrantes chegasse a 70%. Uma situação crítica para famílias como a de Mesut Özil. O seu irmão, Mutlu, o ensinava alguns fundamentos. Özil se tornou conhecido na sua escola, uma das maiores da região, com 1.400 alunos. Da janela da sua sala de aula, ele conseguia ver a Veltins-Arena, estádio do Schalke 04. Para quase qualquer criança apaixonada por futebol, ser um profissional e jogar naquele campo era um sonho. 

Sua escola era associada à Bundesliga em programas de incentivo ao esporte e, claro, de busca de talentos. Curiosamente, a mesma escola que Özil estudava tinha Manuel Neuer, alguns anos mais velho, e também Julian Draxler, alguns anos mais novo. Benedikt Höwedes e Joel Matip também vieram da mesma escola. 

“Mesut não era o tipo de estudante que enfrentava uma plateia. Ele sempre foi muito tímido. Mas se você o visse em campo, ele era uma pessoa diferente, porque ele explodia lá. Dê a ele a bola e ele era outra pessoa. Ele era pequeno, tímido, mas ele podia chutar a 30 metros do gol, correr muito rápido e competir, toda disputa pela bola”, afirmou o seu antigo treinador na escola, Ralf Maraun ao Life Blogger, que conta histórias das infâncias de jogadores. 

Estréia de Mesut Özil na Bundesliga em 2006. O jovem jogador entrou no ligar de outro
turco-germânico: Hamit Altintop (Foto: Schalke04.de)

Desde criança se interessou por futebol e jogou por diversos clubes juvenis da região. Em 2000, passou a jogar pelo Rot-Weiss Essen. Seu desempenho chamou a atenção como um criador de jogadas e também por ter capacidade de fazer gols.

Cinco anos depois, foi recrutado pelo Schalke 04, um dos principais clubes daquela região. A partir de 2005, ele defendia os azuis reais e impressionou na sua primeira temporada nas categorias de base do clube. Foram 10 gols marcados pelo time A-Junior (sub-19) e o destaque o levou ao time principal já em 2006.

Vestindo a camisa 17, o jovem Özil substituiu um jogador muito conhecido no Brasil: o meia Lincoln, que estava suspenso em jogos da então Copa da Liga da Alemanha, que não existe mais. O Schalke, vendo que tinha um talento, tentou renovar o seu contrato depois do jogador já ter ganhado algum destaque. A batalha pela renovação se tornou uma guerra entre o clube e o jogador.

Segundo Özil disse em entrevista à revista Kicker, o acordo que tinha sido acertado incluía que seu salário básico seria significativamente aumentado, mas o clube não cumpriu a promessa. O técnico do Schalke 04, Mirko Slomka, foi à imprensa para dizer que o jogador era controlado pelo pai e que só conhecia o representante do jogador pela imprensa. 

Andreas Müller, então diretor do Schalke, foi o primeiro a dizer que Özil não jogaria mais pelo clube. “Ninguém me falou sobre isso”, contou ainda o jogador à revista Kicker. Depois disso, a situação ficou insustentável. “Depois daquela entrevista, a porta está fechada. Eu não vejo como salvar nada”, disse técnico, Mirko Slomka. “Ele tem contrato até 2009, e treina conosco, continuará assim. Exceto que ele não jogará”. 

Özil e seus representantes acusaram Müller de fazer uma “campanha suja” contra ele e de não cumprir o que tinha sido acordado entre clube e jogador. Sem acordo pela renovação, o jogador foi vendido ao Werder Bremen em janeiro de 2008 por € 5 milhões. Encerrou a sua passagem pelo Schalke 04 com 39 jogos, um gol e cinco assistências. 

Werder Bremen

Foi no Werder Bremen que Özil se tornou o jogador que ganharia o mundo. No Schalke, era uma promessa. No Bremen, chegou como uma contratação que já causava expectativa. Ele a atendeu. Depois dos primeiros seis meses se adaptando, com um gol e uma assistência em 12 jogos, a sua primeira temporada completa pelo novo clube foi um sucesso.

Em 2008/09, Özil fez 47 jogos, com cinco gols marcados e 23 assistências. Seu talento para dar passes para gols se tornou ainda mais evidente. Foi naquela temporada que o meia foi chamado para a seleção principal por Joachim Löw. Na temporada seguinte, Özil foi ainda melhor: 46 jogos, 10 gols e 29 assistências. Atuando quase sempre como meia central, atrás do atacante, o jogador se tornou uma máquina de assistências. 

Titular da seleção alemã, chegou ao time que disputaria a Copa do Mundo de 2010 como potencial destaque. A Copa de 2010 foi um marco. A Alemanha mudou seu elenco, uma nova geração, e chegou à semifinal daquele mundial. A semifinal contra a Espanha foi marcante e decidida em um lance, um escanteio, um gol de cabeça de Carles Puyol. Mesmo assim, vários jogadores daquela seleção brilharam. Özil ganhou destaque e se tornou um jogador desejado por grandes clubes europeus.

Um detalhe facilitou a negociação: Özil só tinha contrato até 2011. Quando acabou a Copa, faltava apenas um ano para o fim do seu vínculo. Por isso, o Werder Bremen ficou em uma posição frágil para negociá-lo. O Real Madrid bateu à porta, ofereceu € 15 milhões pelo jogador — três vezes mais do que tinham pago dois anos e meio antes. O martelo foi batido e ele foi vendido para um dos maiores clubes do mundo. Curiosamente, Özil disse, em 2008, que desde criança gostava do Barcelona, era um time pelo qual simpatizava. Iria jogar no rival do gigante catalão, sob o comando de José Mourinho, que produziria uma série de batalhas épicas entre os dois times.

Real Madrid

Özil chegou como um reforço de peso, como um craque da Copa que o Real Madrid ama contratar. O meia correspondeu. Na sua primeira temporada, 2020/11, ainda com a camisa 23 — a 10 estava com Lass Diarra, inacreditavelmente —, ele fez 54 jogos em todas as competições, com 10 gols e 29 assistências. Um desempenho digno do criador de jogadas tão badalado que se viu na Alemanha e que se destacou na Copa.

Na temporada seguinte, 2011/12, foram 52 jogos, sete gols e 28 assistências. Mais uma vez, o jogador foi destaque, aí sim já com a camisa 10, a sua preferida. O ritmo seguiu forte na temporada seguinte, com 52 jogos, 10 gols e 24 assistências. Nos três anos, o Real Madrid foi até a semifinal da Champions League e conquistou o título de La Liga em 2011/12, além do título da Copa do Rei em 2010/11, sua primeira temporada. Ao final daquela temporada, em 2012/13, as coisas se tornaram mais agitadas e levariam a uma mudança importante na carreira de Özil. 

O pai, que foi apontado pelo Schalke como um responsável pelos problemas na renovação do contrato, seria manchete de novo em 2011. Ele se tornou oficialmente o empresário de Mesut. Ele foi o responsável pela negociação com o Real Madrid. Özil queria continuar no clube merengue, mas as negociações se tornaram complicadas. Segundo o próprio jogador, o temperamento explosivo do seu pai não ajudou e as coisas se tornaram muito mais hostis entre ele e o clube, como ele revela na sua biografia, “The Magic of The Game”.

“Meu pai, Mustafa, me representava neste momento como empresário. Ele foi convencido que naquele momento ele entendia o suficiente sobre essa profissão e não queria mais depender de outros agentes”, contou Mesut no seu livro. “Eu não queria sair do Real Madrid de modo algum. Meu pai e eu tínhamos o objetivo de renovar o contrato antecipadamente por mais um ano. Meu pai então assumiu as negociações. Ele entrou em contato com Florentino Pérez e fez o agendamento”.

“Não se tratava de ganância. Apenas de pagamento justo. E no começo, o Real Madrid não atendeu nosso pedido. Mas a situação era nova para o meu pai. Ele não sabia como lidar ao ser pressionado em uma negociação dessa forma. Ele não tinha feito dezenas de negociações com os maiores dirigentes de clubes e, portanto, ele tinha que ser honesto, ele teve que admitir que teve que lidar com uma oferta tão sedutora”, contou ainda Mesut Özil.

Para o jogador, o temperamento do seu pai pesou de forma contrária aos seus interesses. “É por isso que ele não manteve a cabeça fria, e isso provavelmente teria sido importante. Em contraste com um homem como Florentino Pérez, que espera que as pessoas dancem a sua música, ser teimoso não era o mais apropriado. E não foi muito certo do meu pai deixar o escritório e bater a porta”, disse o jogador.

A situação ficou difícil para Özil depois de como as negociações tinham transcorrido. “Eu caí em desgraça com o chefe [Florentino Pérez], ainda que eu não tivesse feito nada de errado. Fiquei ameaçado de ter que ficar sentado na arquibancada. Subitamente, eu tive que agir. Não era de qualquer forma razoável eu não jogar mais, especialmente se esta decisão não era baseada em critérios de desempenho”, afirmou ainda o jogador. “Por isso eu escolhi sair, ainda que não fosse fácil para mim no começo”.

Surgiu o Arsenal com seus £ 40 milhões (€ 47 milhões) para fazer de Özil o mais caro alemão em todos os tempos, além do mais bem pago jogador do seu país. A negociação aconteceu, ele trocou o Real Madrid pelo Arsenal, e sua carreira tomaria um novo rumo. Não só em campo, inclusive. Fora de campo, Özil percebeu que seria preciso fazer mudanças. E a mudança seria demitir o próprio pai. Algo que não aconteceria sem problemas.

Depois da transferência, Mesut demitiu o pai Mustafa como representante e contratou o seu irmão, Mutlu, como seu novo empresário. O pai processou a empresa do filho, pedindo £ 495 mil em compensação por acordos conseguidos com patrocinadores, como a Adidas. Depois da transferência para os Gunners, o jogador alemão assinou um novo contrato com a marca esportiva, em um acordo negociado pelo seu pai, segundo o próprio alegava. O processo foi duro. A empresa do filho também cobrava £ 800 mil em um empréstimo. As partes entraram em acordo, por um valor não revelado.

A relação entre o pai e o filho ficou distante. Mustafa Özil disse, em entrevista ao jornal Express, de Colônia, que o filho foi influenciado pela então namorada, Mandy Capristo, a demiti-lo. Para Mustafa, foi Mandy que destruiu o relacionamento com o seu filho. “Sua namorada naquela época se colocou entre pai e filho. Ela enlouqueceu Mesut”, alegava Mustafa na entrevista.

Rei das assistências no Arsenal

Quando foi contratado pelo Arsenal, no último dia do mercado de transferências em 2013 por € 47 milhões, Özil chegou em um time que tinha um tal Mikel Arteta no meio-campo. O espanhol, então com 31 anos e já um líder no elenco, se tornaria capitão do time a partir da temporada 2014/15 e jogaria até a temporada seguinte, 2015/16, quando se aposentou. Seria difícil imaginar, na época, que ele seria, anos depois, o técnico que afastaria Özil da maneira mais dura possível.

Özil era a estrela em 2013, era o craque contratado do Real Madrid, maior valor já gasto pelos Gunners até então para um reforço. Uma contratação estelar de um jogador que poderia levar o time a um outro patamar. Era o que se esperava dele. Até porque o momento da sua contratação foi uma quebra da política de transferência de austeridade no Arsenal. Sempre cobrado a contratar, Arsène Wenger gastou para levar o jogador, destaque da Copa de 2010, para o Emirates Stadium.

Özil entregou ao menos parte do que se esperava dele. Ele chegou com 24 anos no clube e rapidamente entregou algo em que ele era um dos melhores da liga e da Europa: assistências. Em 2013/14, ele fez 14 assistências em 42 jogos, além de sete gols, contando todas as competições. Na temporada seguinte, 2014/15, foram nove assistências e cinco gols em 32 jogos. O alemão perdeu muitos jogos por uma lesão nos ligamentos do joelho. 

Em 2015/16, Özil foi ainda melhor: 20 assistências e oito gols em 45 jogos. Só na Premier League, o meia fez 19 assistências em 35 jogos. Considerando que são 38 jogos na liga, ele não só esteve constantemente em campo, como teve alto desempenho por quase todo o tempo. Veio a temporada 2016/17, com 14 assistências e 12 gols em 44 jogos. O desempenho se manteve estável na temporada 2017/18, com 14 assistências e cinco gols em 35 jogos no total. 

As coisas começam realmente a mudar a partir da temporada 2018/19. Quando se olham os números totais, é possível perceber que algo mudou. Foram 35 jogos, seis gols e três assistências. Foi apenas a segunda vez, desde que chegou à Inglaterra, que o meia não conseguiu dígitos duplos em assistências, e, na primeira, houve uma lesão. Foi um momento de muitas mudanças. Foi a primeira temporada sem Arsène Wenger, que deixou o clube ao final de 2017/18. Unai Emery chegou e mudou muitas coisas, inclusive a forma de jogar. Sua vida não seria mais a mesma. Nem no Arsenal, nem em lugar nenhum.  

Seleção alemã, Turquia e o encontro com Erdoğan

A Copa do Mundo é o maior evento de futebol do mundo. Em 2018, os campeões do mundo, com Özil, tiveram uma campanha vergonhosa na Rússia. Não conseguiram passar nem perto de defender o título. Caíram ainda na fase de grupos, depois de perder para o México e a Coreia do Sul, com uma vitória sobre a Suécia no meio deles. A derrota para a Coreia do Sul, na terceira rodada, foi dramática e pesada. 

O desempenho dos alemães em campo foi ruim. Özil não voltaria a vestir a camisa da Alemanha. O desempenho na Rússia foi ruim e teve sua parcela de importância, mas o que levou à sua aposentaria tem muito mais a ver com um movimento feito fora de campo: o seu encontro, e uma polêmica foto, tirada com o autoritário presidente turco Recep Tayyip Erdoğan. Para isso, é preciso voltar às origens do jogador.

Mesut Özil é um muçulmano praticamente desde criança. Apesar disso, ele acha difícil manter uma prática comum da religião, o Ramadã, o jejum de um mês que acontece em períodos variados do ano (é no nono mês do calendário islâmico, que é lunar, não solar, como o calendário que estamos acostumados). Em 2020, o jejum foi de 13 de abril a 12 de maio, período de competição mais importante para um jogador do futebol europeu, justamente em fases decisivas dos campeonatos que se disputa. Por isso, para Özil, praticar o jejum é um problema. 

O jogador sempre faz as suas rezas antes de cada partida que disputa. Ele diz que avisa aos companheiros que não devem falar com ele enquanto ele faz suas preces. Ele também recita versos do Alcorão durante o hino da Alemanha, porque ele não o canta. Lembremos que ele é um alemão de origem turca, filho de imigrantes, que são altamente estereotipados no país, de uma religião que é minoritária e rotulada como o islamismo. 

Em sua biografia “The Magic of The Game”, que é de 2017, Özil diz que nunca quis ser um quebra-gelo, ou seja, alguém que levanta essas questões sobre imigrantes, e nem queria ser um “assunto de disputa entre alemães e turcos”. Ele ainda vai além disso: “Eu penso como alemão, mas me sinto turco”. Embora a biografia tenha sido lançada um ano antes da Copa do Mundo de 2018, ela trazia algo que se tornaria uma disputa posteriormente.

Em maio de 2018, Mesut Özil, junto a İlkay Gündoğan, outro alemão de origem turca, e Cenk Tosun, turco que atuava pelo Everton na época, estiveram em uma reunião com o presidente turco, Erdoğan. O seu partido, AK, tirou fotos e as divulgou na internet. Özil presenteou o político com uma camisa do Arsenal, enquanto Gündoğan o presenteou com uma camisa do Manchester City.

A reação foi imediata. “O futebol e a DFB defendem valores que não são respeitados pelo senhor Erdoğan. É por isso que não é bom que nossos jogadores se deixem serem manipulados para sua campanha eleitoral. Ao fazerem isso, nossos jogadores certamente não ajudaram o trabalho de integração da DFB”, disse o presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Reinhard Grindel. “Nenhum deles estava ciente do valor simbólico dessa foto, mas é claramente errado e nós falaremos com eles sobre isso”, afirmou Oliver Bierhoff, diretor da DFB. Uma reação pouco usual, já que a DFB em geral não se envolve em questões políticas.

O encontro dos jogadores balançou também a comunidade turca na Alemanha. Savim Dagdelen, deputada alemã de origem turca, foi dura nas críticas aos jogadores pelo encontro com Erdoğan. “É um erro grosseiro posar ao lado de um déspota como Erdoğan em um hotel de luxo em Londres e dignificá-lo com o título de ‘meu presidente’, enquanto na Turquia democratas são perseguidos e jornalistas críticos são detidos”. 

O contexto aqui é muito importante. A relação entre Alemanha e Turquia já não andava boa naquele momento. Em junho de 2016, o congresso alemão reconheceu o genocídio armênio de 1915, algo que os turcos negam vigorosamente. A insatisfação dos turcos com os alemães foi tanta que o embaixador do país na Alemanha foi chamado de volta à Turquia. 

Pouco depois, em julho de 2016, houve uma tentativa de golpe de Estado contra Erdoğan, que o presidente turco conseguiu conter. Erdoğan acusou a Alemanha de não condenar a tentativa de golpe. Os alemães, por sua vez, acusaram o governo turco de perseguição e prisão de opositores. Diplomatas, acadêmicos e membros do exército turco fugiram do país. Alguns deles pediram asilo político na Alemanha. 

A Turquia diz que o governo alemão é permissivo com membros do PKK, um partido que representa os curdos, que Erdoğan, por sua vez, rotula como terrorista por seus atos. Manifestantes curdos, que moram em Colônia, na Alemanha, se manifestaram em 2016 na cidade pedindo a libertação de Abdullah Ocalan, líder do PKK. A tensão aumentou ainda mais quando, em fevereiro de 2017, cidadãos alemães foram presos na Turquia e a Alemanha classificou as prisões de políticas. O governo turco, por sua vez, justificou afirmando que eles tinham envolvimento com organizações terroristas.

Erdoğan queria fazer campanha na Alemanha em março de 2017 e promover eventos para a comunidade turca em território alemão, algo que o governo do país não permitiu. O governo de Erdoğan acusou o alemão de usar “táticas nazistas” contra o povo turco no país. Algo, claro, que enfureceu os alemães, como era de se esperar. A Alemanha acusou o governo de Erdoğan de espionar os turcos que vivem em território alemão e até cidadãos alemães de origem turca que, supostamente, seriam apoiadores da oposição ao presidente turco. Isso incluía até escolas da Alemanha.

As tensões aumentaram em 2017. Erdoğan acusou três partidos alemães de serem “inimigos da Turquia” e pediu que os turcos não votassem neles nas eleições que aconteceriam naquele ano. Os partidos apontados por Erdoğan como inimigos foram: Democratas Cristãos (CDU), de Angela Merkel, chanceler do país; os socialdemocratas (SPD) e os Verdes. Merkel foi a público, criticou Erdoğan pelos comentários e acusou o presidente turco de tentar interferir na eleição alemã.

Com tudo isso, Angela Merkel disse, em setembro de 2017, que a Turquia não deveria ser aceita como país membro da União Europeia. Em outubro daquele ano, Merkel foi além: apoiou um movimento para encerrar o envio de fundos da União Europeia para a Turquia. Em 2018, a crise de imigração com os sírios aumentou ainda mais os problemas entre turcos e alemães. 

Tudo isso fez com que o encontro de Özil e Gündoğan com Erdoğan criasse um clima muito ruim. Pior para Özil, que não aceitou muito o que aconteceu. Depois da Copa do Mundo, o fracasso pesou nos ombros de alguns dos jogadores, mas Özil entende que foi além disso: a reação ao seu encontro com Erdoğan, para ele, foi racista. 

Racismo e aposentadoria da seleção

O que Özil viveu depois da Copa do Mundo o levou a deixar de querer representar a Alemanha. As críticas pelo desempenho ruim foram justas, mas não foi isso que o incomodou. Segundo uma carta divulgada pelo jogador, o que incomodou foi a falta de respeito pelo o que ele e sua geração fizeram pela seleção e pelo futebol alemão. Além disso, algo ainda mais grave: um racismo forte contra ele por sua origem.

“Erdoğan é o atual presidente da Turquia e eu mostraria respeito a essa pessoa, quem quer que ela seja. Embora eu tenha nascido e sido criado na Alemanha, a Turquia faz parte da minha herança.”

“Se o presidente da Alemanha ou (a chanceler) Angela Merkel estiverem em Londres e quiserem me ver, falar comigo, claro que eu faria isso também. É sobre mostrar respeito à posição mais alta de um país”, disse o meia quando anunciou a aposentadoria da seleção.

“Com tempo para refletir, sei que (se aposentar) foi a decisão certa. Foi um período muito difícil para mim porque joguei nove anos pela seleção alemã e fui um dos seus jogadores de maior sucesso. Eu ganhei a Copa do Mundo e mais, joguei várias vezes — muitas delas muito bem — e dei tudo. Não digo que as pessoas precisam me amar, mas apenas mostrar respeito pelo que fiz pela Alemanha. O time sempre foi competitivo, mas queriam que jogasse de um jeito mais atraente, todos grupos de idade usando melhor a bola. Um pouco como a Espanha. Minha geração mudou o futebol alemão. Ficou mais divertido de ver”.

“Mas, depois da foto, eu me senti desrespeitado e desprotegido. Eu recebia ofensas racistas — mesmo de políticos e figuras públicas — e ninguém da seleção interveio na época e disse: ‘ei, parem, ele é nosso jogador, você não pode insultá-lo assim’. Todos ficaram quietos e deixaram acontecer. Senti que esperavam que eu pedisse desculpas pela reunião, admitisse que cometi um erro e tudo ficaria bem; do contrário, não seria bem-vindo ao time e deveria ir embora. Eu nunca faria isso”.

“O racismo sempre esteve lá, mas as pessoas usaram essa situação como uma desculpa para expressá-lo. Eles são livres para terem uma visão pessoal, para não gostarem da foto que tirei. Assim como eu sou livre para tomar a decisão pessoal de tirar a foto. Mas o que aconteceu depois expôs o racismo para que todos vissem. Há grandes problemas na Alemanha. Apenas veja o que aconteceu em Halle semana passada [ele se refere ao atentado em uma sinagoga judia, no dia 9 de outubro de 2019], outro ataque antissemita. Infelizmente, o racismo não é mais um problema da extrema-direita do país. Moveu-se ao meio da sociedade”.

“Quando saímos da Copa do Mundo e eu saí de campo, os alemães estavam me dizendo ‘volte ao seu país’, ‘vá se foder’, ‘porco turco’ e coisas assim.”

Antes do torneio, houve um amistoso em Leverkusen e, quando a bola chegava a İlkay Gündoğan (também fotografado com Erdoğan), a maioria do estádio o vaiava. Eu os ouvi gritando insultos, como ‘maldito garoto turco’ e outros que não posso repetir”.

“Antes da Copa do Mundo, eu faria alguns acordos comerciais, mas, de repente, eles foram cancelados e me removeram das campanhas. Algumas instituições de caridade da Alemanha me retiraram como embaixador e me aconselharam a me distanciar da foto. Mas o que mais me chateou foi a reação da escola que frequentei em Gelsenkirchen. Eu sempre a apoiei e decidimos fazer um programa de um ano juntos. No fim, eu iria a uma cerimônia e conheceria todos os funcionários e as crianças, muitas com herança imigrante”.

“Tudo estava planejado, mas o diretor da escola disse à minha equipe que eu não deveria ir por causa da atenção da mídia e o crescimento do partido de extrema-direita AfD na cidade. Eu não conseguia acreditar. Minha cidade natal, minha escola. Eu lhes dei minha mão e eles não me deram a deles de volta. Nunca me senti tão rejeitado”.

“Eu não precisava fazer nada disso e as coisas seriam mais fáceis para mim, mas eu sou forte o suficiente para manter meus princípios e minhas decisões. Não sou um oportunista. Nenhuma oportunidade de carreira ou fama mudará isso. Ainda tenho fortes laços na Alemanha. Ainda tenho uma empresa de marketing lá que significa que eu emprego pessoas e pago milhões de euros em impostos. Eu poderia ter movido meus interesses a outros lugares, mas eu queria retribuir e continuo fazendo isso”.

“Estou orgulhoso de ainda trabalhar com uma instituição de caridade, que oferece cirurgias a crianças ao redor do mundo, e eles me apoiaram. Mas o capítulo da seleção está encerrado” escreveu Özil no seu comunicado. “Eu sou alemão quando nós ganhamos e sou um imigrante quando perdemos”, disse o jogador, em 2018, insatisfeito pelo tratamento recebido após o fracasso na Copa do Mundo da Rússia. 

“Você pode definitivamente ser parte de duas culturas. Você pode certamente ficar orgulhoso pelas duas culturas. Um coração pode bater tanto pela Turquia quanto pela Alemanha. Você pode pensar alemão e sentir turco. Isso é como a integração funciona. Com respeito mútuo, como em um time de futebol forte”, escreveu Özil na sua biografia, aquela de 2017. 

A explicação sobre como ele se sentia estava à disposição dos alemães um ano antes da Copa. Como acontece com muitos dos seus pares, alemães de origem turca, foi ignorado pela maioria. Em parte, Özil tem razão por não ser respeitado. Outra parte da crítica contra ele, porém, também é justa: ele não admitiu qualquer erro no seu próprio comportamento. A foto com Erdoğan é altamente controversa, para dizer o mínimo, e o jogador é esclarecido o bastante para entender isso. 

Embora ele tenha razão em dizer que há racismo contra os turcos, é verdade também que ele ignorou o contexto. A má condução do caso pela DFB piorou tudo. Ninguém defendeu Özil, nem ele mesmo conseguiu se defender. Parece ter criado uma separação que é irreconciliável. 

Sem espaço no futebol

Arteta deixou os gramados para juntar-se a Pep Guardiola na comissão técnica do Manchester City. Ficou como auxiliar técnico e passou três anos ganhando experiência. Quando surgiu a chance de assumir o Arsenal, em dezembro de 2019, ele abraçou. Arteta jogou com Özil. Poderia ser a recuperação daquele jogador que, sob o comando de Wenger, foi importante para o Arsenal.

Poderia, mas não foi. Arteta esteve trabalhando próximo a Guardiola, um técnico que raramente joga com um meia clássico. Seus meias costumam ser mais completos, mais intensos, ficam mais no centro do campo. Como um jogador mais de lado de campo, mais perto do ataque, Özil nunca rendeu. Onde ele poderia jogar?

Sua posição é de meia ofensivo, que se encaixa bem com um esquema 4-2-3-1. Ele pode atuar pelos lados, como um ponta-armador, como já atuou em vários jogos pela Alemanha. Isso se perdeu e o próprio jogador foi mudando de posição ao longo do tempo, se tornando mais um meia ofensivo pelo meio do que pelas pontas. 

Por mais que Özil continuasse a ser o principal caminho para criação de jogadas na seleção alemã no fracasso em 2018, a sua elegância preguiçosa jogando se tornou cada vez menos defensável. O episódio fora de campo com Erdoğan certamente não ajudou, mas, mesmo em termos futebolísticos, Özil não ajudou. Politicamente, ele ainda criticou a perseguição da China contra os Uighur, uma população muçulmana, mas isso não afetou sua participação no time. Ele seguia sendo escalado seguidamente naquele momento.

Quando Özil se posicionou em relação ao conflito entre Armênia e Azerbaijão ao lado dos azeris, que, curiosamente, são apoiados pela Turquia de Erdoğan, isso também não afetou sua escalação: ele já estava sem jogar pelo time quando pronunciou esse posicionamento. Em meio à crise do coronavírus, em março, Özil foi o jogador mais vocal a ser contrário à redução salarial como medida para amenizar a crise. Isso, porém, não teve um papel para que ele não jogasse mais, segundo Mikel Arteta, que ressaltou, mais de uma vez, que Özil não joga “por razões futebolísticas”. 

Seu último jogo em 2020 foi justamente pouco antes da pandemia da Covid-19, no dia 7 de março, em uma partida da Premier League contra o West Ham. Ele fez inclusive uma assistência naquele jogo, uma vitória por 1 a 0. Não jogou mais deste então. Primeiro, por uma lesão nas costas que o afastou do final da temporada 2019/20, já com portões fechados. Na temporada que começou em setembro, 2020/21, ele sequer foi relacionado. Mais do que isso: Özil sequer foi inscrito pelos Gunners, nem na Liga Europa, nem na Premier League. Os clubes podem inscrever 25 jogadores do time principal. O alemão ficou fora. 

As razões futebolísticas sugeridas por Arteta têm base para serem usadas. Özil é um dos jogadores que mais fez assistências desde 2010 (são 101), contudo, só seis delas aconteceram desde 2018. Justamente quando aconteceu toda a confusão com a foto junto a Erdoğan, o fracasso na Rússia e tudo mais. São seis assistências pelo Arsenal desde que ele ganhou um novo contrato, em 2018, e que o tornou o jogador mais bem pago da história do Arsenal.

O ponto crucial que mudou foi a saída de Wenger, o técnico que o contratou e que pareceu ser quem sabia como usá-lo. Atuar como um meia ofensivo sem muitas funções defensivas é algo cada vez mais raro no futebol, mas Wenger tentava preservar um lugar no time que se adequasse para Özil. Tanto Unai Emery quanto Mikel Arteta tentam reconstruir o time e passaram a exigir mais disciplina e mais intensidade dos seus jogadores, o que inclui tarefas defensivas sem a bola. Isso também é exigido da função de camisa 10.

“O time não pode ter a estrutura certa se eles não fazem algumas das coisas que não são negociáveis”, disse Arteta, ainda em fevereiro, quando perguntado sobre Özil, já questionado. “Se ele faz essas coisas, o time pode se dar ao luxo de ter alguém como ele, que faça a diferença”, continuou o técnico. É claro que Özil não se encaixou nisso. Primeiro, Özil foi para o banco. Depois, para a arquibancada, quando passou a não ser relacionado. Até chegar ao momento que sequer foi relacionado. “Meu trabalho é conseguir o melhor de cada jogador, assim eles podem contribuir para o time. Aqui eu tenho o sentimento que fracassei”, explicou ainda o técnico sobre não ter inscrito Özil. 

O meia parece estar em um caminho sem volta para deixar o Arsenal. Seu enorme salário — de acordo com o Independent, 350 mil libras por semana! — é um peso que o clube não quer mais carregar. Ele é um jogador com a elegância de um típico camisa 10, com seus movimentos que são incríveis de se ver. O time, porém, parece querer mais do que isso. Precisar mais do que isso. 

O “playmaker”, o “trequartista”, o camisa 10 clássico, essa função parece estar em baixa para jogadores com o estilo de Özil. O estilo de muita qualidade, pouca velocidade, baixa intensidade, muito talento parece cada vez menos desejado. Ainda mais no caso de o jogador não entregar nem mesmo quando recebe chances para atuar onde quer, onde gosta. 

Özil parecia cada vez mais condenado a ser um jogador do passado atuando no presente. Isso, claro, se ele não quiser mudar. Para quem está disposto a mudar, há outras funções que ele pode assumir, de maneira diferente. Aos 32 anos, Özil parecia um veterano lutando por um lugar no futebol de 2020, quando, 10 anos antes, parecia um craque imprescindível. 

1 Comment

  1. Antes mesmo de ser anunciado, Özil sentiu como a ida para o Fenerbahçe vai mudar sua vida

    janeiro 21, 2021

    […] é um camisa 10 sem lugar, como contei em uma matéria na Corner. Em busca de um lugar para atuar em campo, em um futebol que exige papéis que o turco-alemão […]

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