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Meu nome é Ezelî Rekabet

“Sem piedade, a fatiaram ao meio, um pedaço para cada lado. Dessa vez, a autora do crime não despertou mistério algum. Foi uma guerreira chamada Natureza, usando o mar como arma. Assim, a vítima Istambul se dividia em dois continentes, tendo um time de futebol representando cada lado: Galatasaray e Fenerbahçe.”

O caráter policial do primeiro parágrafo é inspirado no livro mais aclamado da Turquia, “Meu Nome é Vermelho”, de Orhan Pamuk — vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1998 e torcedor do Fener. A história sobre o assassinato de um pintor apresenta as diversas faces da capital do país, com cerne na divisão de Oriente e Ocidente da antiga capital do Império Turco-Otomano.

A narrativa de Pamuk usa 19 personagens, que se revezam capítulo a capítulo, para mostrar os diferentes pontos de vista presentes na cidade. Já o futebol decidiu usar apenas dois. Aqui, vamos mostrar um pouco os lados dos protagonistas do futebol turco, que juntos formam um clássico chamado de Ezelî Rekabet [Eterna Rivalidade, em tradução livre].

Me chamam de Fenerbahçe

“Abriria suas milhares de asas, abarcando o Céu e a Terra, dos confins do Oriente aos misteriosos extremos do mundo ocidental”.

Descrição do Anjo da Morte

A história do Fenerbahçe começa com um amor proibido. Assim como no livro, em que os primos Negro e Shekure viviam uma paixão vetada pelo pai da moça, os fundadores do clube também eram proibidos de encontrar sua adoração, o futebol. Isso porque o sultão Abdulhamid, autoridade na época, proibia a juventude turca de entrar no Fener e praticar o esporte das famílias inglesas, restando ao time, fundado em 1907, ficar um ano na clandestinidade até acontecer uma mudança na legislação. Assim, o clube secreto foi registrado para ganhar torcedores por toda a Turquia, principalmente na parte asiática e entre as classes menos favorecidas de Istambul.

A proximidade e crescente popularidade entre os adeptos e o Fener fizeram com que sua torcida fosse denominada de 12 Numara [Número 12], já que os torcedores quase entravam em campo em todas partidas e eram responsáveis por amedrontar adversários. Tamanha devoção resultou até mesmo na aposentadoria do número pelo clube. No escudo do Fenerbahçe , a cor vermelha, que circunda os característicos amarelo e azul escuro, foi adotada para representar a Turquia, quando, na verdade, é a variedade de tons tão diferentes encontrada entre seus adeptos que realmente retrata com fidelidade a realidade do país. E, nesse céu colorido de Istambul, os canários amarelos levam a Ásia em cada batida de suas asas, fazendo seus cantos ecoarem pelo mundo todo, sem nunca esquecer de seu ninho oriental.

Me chamam de Galatasaray

“Sou o fogo, sou a força! Todos me notam e me admiram, e ninguém resiste a mim”.

A cor vermelha se apresentando

No terceiro capítulo de Meu Nome é Vermelho, surge um cachorro com dentes afiados como um javali, que vira também um dos narradores da história, mostrando seu lado racional até mesmo em uma mordida. Por sua vez, em 1905, a Turquia já tinha visto aparecer uma mandíbula tão imponente quanto a do personagem do livro. Mas os dentes, tão prontos para o combate, surpreendem por terem surgido em um local tão cortês e dentro dos padrões da sociedade: um liceu.

O fato agora é a fundação do Galatasaray, representado por seu mascote, o leão. O clube retrata total oposição ao Fenerbahçe, sendo assim o espelho do lado europeu de Istambul e atraindo, em consequência, outro tipo de público, sempre sendo vistos como pertencentes à elite.

De início em um ambiente escolar, fundado por estudantes e desafiando outros colégios turcos, o clube foi crescendo cada vez mais. Enquanto o nome ainda não tinha sido escolhido, cogitaram “força” e “glória”, mas chegaram, enfim, à Galatasaray, representando o bairro na zona histórica de Pera, onde o liceu está localizado — região que foi moradia de comunidades européias ocidentais desde a época que Istambul ainda era denominada como Constantinopla e, por isso, conta com forte legado histórico e cultural.

As cores do time também têm esse traço poético, inspiradas em rosas que Gül Baba ofereceu ao sultão Bayezid II, uma vermelha e outra amarela. Ao ver a combinação de tons, um dirigente do clube lembrou das chamas do fogo brilhando e sonhou que essa mistura poderia levá-los às vitórias.

Serei chamado de Ezelî Rekabet

“Sim, os cegos me renegarão, mas a verdade é que estou em toda parte.”

A cor vermelha se auto-afirmando

Ezelî Rekabet e muitos outros nomes foram dados. Não adianta. É impossível definir o clássico turco apenas com palavras. Ele é como a cor vermelha de Pamuk: inexplicável aos cegos, mas sempre forte e valente.

Os que não enxergam a magia do futebol também não enxergarão as complexidades e nuances da rivalidade. De fato, é difícil. Ao ser perguntado pelo The Guardian, um torcedor do Fener sintetiza: “Em Glasgow talvez seja a religião, em Roma pode ser a política. Aqui é puro futebol. Nos odiamos, isso é tudo”.

Porém, é mais complexo do que isso. Quando Negro finalmente ficou com Shekure, nenhum dos dois encontrou a real felicidade no relacionamento tão desejado; quando os pintores miniaturistas ilustravam os livros de sultões, não era apenas com desenhos que eles enchiam suas páginas, e sim com toda uma cultura; quando um cachorro se auto-intitula mais racional que o ser humano, a verdade deve ser questionada, e quando um jogo envolve a divisão de dois continentes, culturas e origens, deixa de ser apenas um jogo.Não é só futebol. O nome disso é Galatasaray-Fenerbahçe ou simplesmente Ezelî Rekabet.

Cresceu acompanhando de perto o glorioso Bragantino e viu que em meio às vitórias e derrotas, existem muitas boas histórias pra contar. Autor do livro: Cordel Tricolor: a história do São Paulo FC em versos.

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