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Mineiros e Carneiros

Santa Catarina é uma grande exceção em vários aspectos dentro dos cenários regional e nacional. No extremo meridional brasileiro, as praias catarinenses concentram toda a beleza que falta às costas do Rio Grande do Sul e do Paraná, motivo pelo qual gaúchos e paranaenses — ano sim, outro também — entopem as estradas e o litoral barriga-verdes, de Sombrio a Camboriú.

Diferente das demais capitais brasileiras, Florianópolis não é o município mais populoso, tampouco o mais desenvolvido de seu estado: em número de habitantes fica atrás da industrializada Joinville, que lidera também a lista das maiores economias, seguida por Itajaí e, só depois, Floripa.

Historicamente, as grandes forças do seu futebol nunca ficaram restritas à capital, ao contrário da realidade na esmagadora maioria das unidades da federação. Figueirense e Avaí se alternam no posto de maior torcida local com Joinville, Criciúma e, mais recentemente, Chapecoense. Os dois últimos — interioranos — aliás, somam títulos como a Copa do Brasil de 1991 e a Sul-Americana de 2016, feitos nunca alcançados pelos manezinhos, cujos troféus se restringem às conquistas locais.

Mais do que isso: até a marcante ascensão da Chape nos anos 2010, Criciúma foi a representante mais bem sucedida do futebol catarinense frente às forças do restante do país. Não “o” representante, mas “a” representante — no feminino — porque a afirmação se refere à cidade, e não apenas ao clube, já que nem sempre o Tigre reinou absoluto como filho único por ali. Sua história começou ainda com outro nome, quando viveu à sombra de um rival citadino que ficou na memória como o primeiro grande esquadrão do estado.

Durante dez anos, o Esporte Clube Metropol foi a primeira das exceções catarinenses no futebol. Aquele time — como quase tudo à época entre Laguna e o Mampituba — era movido às custas do carvão.

Sindicalismo, greves e o “Real Madrid catarinense”

Na primeira metade do Século XX, a cidade ainda era grafada “Cresciúma”, mas já aparecia como uma das mais importantes do estado. Fundada por imigrantes italianos oriundos da região do Vêneto como um distrito em 1880 e emancipada em 1925, Criciúma sempre rivalizou com a vizinha Tubarão pelo posto de principal município do extremo sul catarinense, apesar de ambas serem mais complementares do que concorrentes: era pela Ferrovia Tereza Cristina — cuja sede se estabeleceu na Cidade Azul — que o carvão mineral extraído nas muitas jazidas de Criciúma e arredores era escoado, passando por Tubarão, até o porto de Laguna e à termelétrica Jorge Lacerda.

A extração do minério impulsionou vertiginosamente o crescimento não somente da cidade, mas de toda a Região Carbonífera, que abrangia Içara, Lauro Müller, Araranguá, etc, por meio da exploração promovida por empresas especializadas na extração do produto naquela área, como a Carbonífera Próspera, a Companhia Brasileira Carbonífera de Araranguá [CBCA] e a Carbonífera Metropolitana.

Esta última foi fundada ainda no Século XIX como Companhia Colonizadora Metropolitana, que dividia lotes de terras e vendia aos imigrantes recém chegados à vila Nova Veneza. Em 1941 a empresa começa oficialmente a extrair carvão mineral em Criciúma e passa a se chamar Carbonífera Metropolitana Ltda. No dia 1º de julho de 1959 a sociedade entre os empresários Santos Guglielmi e Diomício Freitas, já com experiência no ramo, adquire a Carbonífera Metropolitana.

Ao mesmo tempo que eram o motor do desenvolvimento econômico e urbano, as mineradoras atuavam como agentes importantes da vida social naqueles tempos, com papel fundamental inclusive na organização do esporte. Cada empresa tinha representação na Liga Amadora da Região Mineira [LARM]: o Próspera era o time da Carbonífera Próspera e o Atlético Operário estava ligado à Companhia Brasileira Carbonífera de Araranguá. Entre outros, havia também o Comerciário, equipe dos comerciantes do centro da cidade, que em 1978 viraria o Criciúma Esporte Clube.

O problema é que o progresso cobrava um preço muito alto dos mineiros, que colocavam em risco a saúde e a vida em condições de trabalho insalubres nas escavações. A insatisfação dos trabalhadores com os baixos salários gerou inúmeras greves que interromperam a produção ao longo da década de 1950. Já no final daquele período, as paralisações na capital brasileira do carvão se tornavam cada vez mais hostis, muito por causa da forte repressão do Exército aos piquetes, liderados por sindicalistas que tinham ligação com a cúpula nacional do Partido Comunista Brasileiro — Antônio José Parente, presidente do Sindicato dos Mineiros, teria contato direto com Luís Carlos Prestes. Em janeiro de 1960, uma greve paralisou a indústria por quase trinta dias e terminou com inúmeros trabalhadores demitidos sem direito a qualquer indenização, alimentando a revolta dos trabalhadores.

Receoso das possíveis conseqüências da situação, Dite Freitas — filho de Diomício Freitas — toma a iniciativa de reativar o futebol do Esporte Clube Metropol, criado em 1945, que então funcionava apenas como uma divisão recreativa dos funcionários da Carbonífera Metropolitana. A idéia era gerar uma distração em torno da qual os operários se ocupariam. No documentário “Metropol — A mina do futebol”, do chargista e roteirista criciumense Zé Dassilva, Dite Freitas conta: “Achamos que aquele era o momento de criar um esporte ou reativar o Metropol para, com isso, unir os trabalhadores e as famílias”.

O departamento de futebol não só foi reativado como recebeu um aporte financeiro pesado da Metropolitana para qualificar o time. Dite Freitas reformou o estádio Euvaldo Lodi, onde o clube mandava seus jogos, e montou uma equipe com craques de fora de Santa Catarina contratados a peso de ouro e revelações que vinham do próprio quadro de funcionários da mineradora. Rubens era torneiro mecânico de manhã e treinava como goleiro à tarde. O lateral-esquerdo Tenente era motorista na Carbonífera. Flásio e Walter dividiam o tempo entre a mina e a zaga do Metropol, e assim, muitos outros conciliavam o emprego na empresa e um lugar no time.

A fórmula apresentou resultado imediatamente. A camisa alviverde do Metropol, muitas vezes encardida pelos resíduos do carvão que pairavam no ar de Criciúma, conquistou o Campeonato Catarinense já em sua estréia na competição, meses depois da reativação do time, em 1960. Nos dois anos seguintes os mineiros emendaram o tri-campeonato: o “Real Madrid catarinense”, como classificou a crônica esportiva florianopolitana, era disparadamente a melhor equipe do estado. Tão boa que as disputas locais não pareciam ter mais graça.

Sendo assim, o clube rumou em excursão à Europa depois do tri, no início de 1962, a medir forças do outro lado do mundo. Ainda assim, poucos foram páreos para aquele time. Em 23 partidas, o Metropol venceu 13 e empatou seis. Somente em quatro jogos os catarinenses conheceram a derrota.

Carneiragem, o Metropol como palanque político

De volta a Santa Catarina, o Metropol era a “coqueluche” do momento. A recepção digna de campeões do mundo era um forte indício de que a equipe podia render mais do que apenas taças no armário. 1962 era ano de eleições gerais no Brasil, e Diomício Freitas — dono do clube e da Metropolitana — lançou-se candidato a deputado federal pela UDN [União Democrática Nacional]. Na onda do sucesso do time, a estratégia de campanha já estava traçada: onde quer que o empresário fosse pedir votos, o Metropol faria uma exibição para a população local. O resultado não poderia ser outro: no dia três de outubro, Diomício Freitas se tornou o primeiro deputado federal da história a ser eleito pelo sul de Santa Catarina, com 27.512 votos — o quarto mais votado no estado.

O episódio, aliado ao fato de que todos os funcionários do Metropol eram vinculados à Carbonífera Metropolitana, fazia com que jogadores e torcida fossem apelidados pelos rivais como “carneirinhos” dos patrões, as famílias Guglielmi e Freitas. Em vez de resistir à provocação, o carneiro prontamente foi adotado como mascote do clube, que voltaria a levantar a taça do catarinense em 1967. A quarta conquista abriu vaga mais uma vez na Taça Brasil, competição que marcaria eternamente a história profissional do time que já estava muito perto do fim.

A Taça Brasil de 1968 e a Maldição do Carneiro

Para manter vivo o sonho de alçar vôos mais altos em um campeonato nacional, o Metropol precisava primeiro ser o campeão da chave Sul. Os adversários eram o Água Verde, do Paraná; e o Grêmio, que chegaria ao heptacampeonato gaúcho naquele mesmo ano, conquistando 12 dos últimos 13 campeonatos no Rio Grande do Sul. Apesar do currículo dos gaúchos, os carvoeiros ficaram com o primeiro lugar no grupo, deixando o Tricolor em segundo por causa do saldo de gols e avançando à fase seguinte do torneio.

Pelas oitavas de final, o adversário seria o Botafogo do técnico Zagallo. Na primeira partida, no dia cinco de dezembro de 1968, os poucos torcedores que foram ao Maracanã se decepcionaram ao ver o time, que chegara com tanto cartaz ao Rio, perder de 6 a 1 para os cariocas. No jogo de volta três dias depois, o saldo de gols não valia como critério de desempate. Bastou ao Metropol fazer 1 a 0 dentro do Heriberto Hülse — cedido pelo Comerciário — para garantir a realização do terceiro jogo.

O regulamento da Taça Brasil previa que o desempate deveria ser disputado no dia dez, no mesmo estádio do jogo anterior, mas o Botafogo alegou que o estádio não oferecia segurança suficiente. A edição do Jornal do Brasil de 12 de dezembro de 1968 trouxe o relato de que a torcida do Metropol recebeu a equipe do Glorioso a pedradas e laranjadas, praticamente invadindo o gramado. A discussão se prolongou sem que houvesse entendimento entre as partes e a CBD, o que adiou todo o calendário da competição para o ano seguinte — com o atraso, Santos e Palmeiras acabaram se retirando do torneio.

Em vez de adotar um campo neutro para desempatar o confronto, a CBD inverteu o mando de campo devido às reclamações alvinegras, e o jogo foi remarcado somente para o dia dois de abril de 1969, em General Severiano.

Desfalcado de Gérson, Jairzinho e Paulo César Caju, a serviço da Seleção Brasileira que estava em Porto Alegre para participar do torneio de inauguração do Beira-Rio, o Botafogo abriu o placar com um gol olímpico do ponta-direita Rogério, apesar da reclamação do goleiro Rubens de que a bola não havia entrado por completo, ignorada pelo árbitro Armando Marques. Ainda na primeira etapa, Leocádio empatou, mas a partida seria suspensa aos 13 minutos do segundo tempo por causa da forte chuva que castigou o gramado, impossibilitando o jogo.

Com a nova paralisação, a decisão foi adiada novamente. Em acordo com a CBD, o Metropol voltou para casa no aguardo de uma nova data para concluir o jogo, mas se surpreendeu ao chegar em Criciúma: um telegrama avisava que a partida estava marcada para o dia seguinte. Foi a gota d’água para que a diretoria catarinense — sentindo-se prejudicada pela maneira que a confederação conduziu o assunto — desistisse de voltar ao Rio. A ausência significou a derrota por W.O. e a eliminação no torneio. O Botafogo seguiria adiante, desbancaria o Cruzeiro e depois derrotaria o Fortaleza na final, ficando com o taça.

A frustração não impediu o Metropol de voltar ao topo do futebol catarinense: ainda em 1969 o Carneiro levaria o quinto título estadual da sua história, e tudo parecia voltar aos trilhos quando a sociedade Guglielmi-Freitas foi encerrada.

A separação fez com que o patrimônio do grupo fosse dividido entre as famílias: Diomício Freitas ficou com a Carbonífera Criciúma; A Metropolitana — e por conseqüência o Metropol —, com Santos Guglielmi, que não tinha tanto envolvimento com o futebol e resolveu interromper o investimento no clube. Os jogadores foram vendidos, o time se desfez e a equipe voltou ao amadorismo, deixando órfã uma legião de torcedores que vibravam pelo time de mineiros.

Mesmo que o fim da equipe fosse motivado pelas mudanças nos negócios do carvão, permaneceu a versão de que a dolorosa eliminação na Taça Brasil tinha gerado tanto desgosto aos Freitas a ponto de encerrar o projeto. Logo, nos ombros do Botafogo caiu a culpa e também uma praga que só seria desfeita duas décadas depois.

A Maldição do Carneiro faria os cariocas passarem vinte anos sem levantar uma mísera taça sequer, até que o gol de Maurício garantisse o alívio pelo título carioca de 1989 sobre o Flamengo.

Segundo os mais supersticiosos torcedores do Metropol, porém, o fim do jejum só se deu devido à presença de um “herdeiro” daquele Metropol no Botafogo de Valdir Espinosa. Paulinho Criciúma, filho da cidade e sobrinho de Zezinho Rocha, lateral-esquerdo dos catarinenses no confronto de 1968, seria o motivo do perdão que libertou uma geração de botafoguenses.

Mesmo assim, o time da estrela solitária nunca mais repetiria a hegemonia de antigamente, e os grandes títulos virariam episódios esporádicos.

Exceções iguais ao Metropol: intensas, mas efêmeras como fogo num pedaço de carvão.

Jornalista graduado pela FACHA. Gaúcho que vive no Rio (mais um). “Goleira” é o conjunto de traves, “gol” é quando a bola entra. Tem uma queda pelo futebol cantado em castelhano e geralmente joga melhor quando ninguém está vendo. Amante de futebol, música, história, cinema, fotografia e apaixonado pelo jornalismo. Do pescoço pra baixo, tudo é canela.

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