Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Miquel Pellicer

Otimismo para jornalistas na Era Trump

Miquel é um jornalista e antropólogo catalão. Escreveu dois livros sobre comunicação: Optimismo para Periodistas e La Comunicación en la era Trump. A abordagem é mais mercadológica do que acadêmica, afinal, Pellicer trabalhou na redação do El Mundo Deportivo e no departamento de comunicação do FC Barcelona, gerindo as páginas internacionais do clube.

A Conversa foi em 2015, quando ele ainda trabalhava no clube culé, e o papo foi lá mesmo, no Camp Nou. Discutir o jornalismo esportivo, separatismo catalão, o impacto de Neymar e seus livros foram a tônica da conversa.

Comente sobre teu livro Optimismo para Periodistas com Marta Franco, como surgiu a idéia?

Muito fácil. Conhecia a Marta através do Twitter, adorei o trabalho que ela fazia no blog dela. Eu estava começando com o meu blog e decidimos escrever alguns artigos juntos para explicar coisas que nos interessavam no jornalismo. Sobre as novas rotinas jornalísticas, como tinha que ser a redação de um jornal num período de ferramentas digitais ou como deveria ser aquilo que se denominava “jornalismo cidadão”. Escrevemos três artigos e percebemos que foi uma boa experiência. Temos estilos diferentes, mas como encaixamos bem, nos perguntamos: por que não escrever um livro? Buscamos falar sobre a crise do jornalismo, sobre ferramentas que podiam ser usadas, foi bastante fácil escrever, pois tínhamos idéias e estudos já realizados. É verdade que inicialmente pensamos em fazer uma publicação digital, mas surgiu a possibilidade de fazer em papel pela da Editora UOC, da Univesitat Oberta, de Barcelona. Assim nasceu Optimismo para Periodistas.

E esse título, é pra realmente transmitir otimismo? Soa um pouco motivacional.

Exato, mas nós sempre dizemos que não é um livro de auto-ajuda. Mas sim, é motivacional, porque todo mundo fala da crise do jornalismo, que a profissão está muito ruim. Porém, há oportunidades em tempos de crises pra, justamente, refundar o jornalismo e as nossas funções como jornalistas. Se olharmos pro que fazíamos no início dos anos 2000, ninguém faz mais, ou sequer aquilo que aprendeu na faculdade. Portanto, temos que ser flexíveis e ver as oportunidades que as crises oferecem.

E o jornalismo esportivo? Você acha que ele também precisa ser refundado?

O jornalismo esportivo faz parte da minha vida e é importante pra mim. Quando jovem trabalhei em jornalismo político, cidadão, cultural e fiz algumas coisas no Mundo Deportivo e acabei ficando 10 anos. Pra minha formação profissional isso é muito importante. Muitas vezes se relega o jornalismo esportivo a um nível inferior. Eu não vejo assim, acredito que é um âmbito mais da vida. Você pode gostar mais de futebol ou menos. Mas o jornalismo esportivo transcende o futebol. É sobre contar histórias de pessoas que muitas vezes sacrificam a sua vida para bater marcas, pra ser alguém no mundo do esporte, pra ganhar a vida como qualquer um, seja trabalhando numa padaria ou com desenhos animados. Neste ponto, me interessa muito o mundo do futebol, além de discutir se foi pênalti ou impedimento.

Mas existe muito sensacionalismo, escândalos em cima de marcações do juiz, não seria isso que falta? Contar mais histórias e menos fumaça onde não há fogo?

Totalmente! Acredito que o jornalismo esportivo vive uma involução ao hooliganismo. E, nesse processo, temos que nos colocar freios, todos nós. Como torcedor, meio de comunicação… Talvez essa não seja a palavra, mas não sei se é preciso refundá-lo, mas sim repensar. Como melhorar as coisas. Me interessa a parte humana do futebol, e acredito que exista muita gente que se interesse mais nisso também do que o barulho que são gerados por resultados, decisões erradas do juiz. Futebol é muito mais do que isso. Temos a oportunidade de mudar isso.

Falando de veículos impressos. Em Barcelona, por exemplo, tem La Vanguardia, Mundo Deportivo etc. Você vê futuro para o jornalismo em papel?

Essa é uma grande pergunta! Há um contexto, as pessoas lêem cada vez menos jornal, e isso baixa diretamente as receitas de publicidade. Ou seja, as vias de financiamento, nesta crise, estão abaladas. De alguma forma, os meios vão ter que mudar o seu formato, sua linguagem. Mas sou igualmente otimista, pois se olharmos, existe cada vez mais revistas de nicho, de públicos pequenos que buscam mais do que o “resultadismo”. Na Espanha e na Catalunha existe uma moda que se estende por todo o mundo, que é o running, corrida de rua. As pessoas saem pra correr todos os dias por La Diagonal [avenida que corta Barcelona de ponta a ponta], cada vez se gera mais informação sobre este tipo de atividade. Não que eu seja um adepto desta modalidade, dá pra ver que não sou um runner. Não gosto de correr. Como diria Carles Rexach: “correr é coisa de covardes” [risos]. Mas o que quero dizer é que cada vez existe mais informação segmentada e especializada. Portanto, dizer que o jornalismo esportivo está em crise, talvez o mainstream esteja, mas novos públicos estão nascendo e buscando conteúdo de qualidade e, nesse sentido, há otimismo, não digo que seja fácil.

Em Barcelona fica a sede da revista Panenka, existem também a Líbero, que fica em Madri. Como você vê essa tendência e se ainda há espaço pra esse tipo de publicação na Espanha? É um futuro ou são exceções?

Eu acredito que sejam duas gratas exceções, de alguma forma se complementam com outras publicações que já existem. É verdade que pode haver uma super-produção de veículos, por isso é difícil subsistir mais meios desse tipo. Também é verdade que, aqui na Espanha, pensamos somente naquilo que se produz em Madri ou Barcelona. Mas o mercado de língua espanhola compreende aquilo que se faz em Buenos Aires, Cidade do México, ou seja, o mercado de consumo não é só a Espanha. Esse é um grande erro que os meios de comunicação espanhóis cometem. Acredito que, se potencializasse a comunicação para todo o mercado de fala hispânica, haveria mais êxito. Alguns veículos como ElDiario.es, que surgiram digitalmente, teriam que se comunicar com todo esse universo, é um mercado muito amplo. Já os veículos consolidados, como El País, El Mundo e outros, pecam por ser muito locais. Um exemplo que sempre dou, que não entendo, que à 1h da manhã, os meios esportivos mostram a capa do dia seguinte e dão boa noite. Justamente a essa hora, você vai dormir aqui, mas tem todo um mercado que está sendo desaproveitado, gente que está jantando, na América Latina. É uma falta de estratégia.

O Barcelona e o Real Madrid tomaram esse caminho. Perceberam que a Espanha era um mercado muito pequeno. No entanto, conseguiram conquistar vários mercados em períodos de êxito esportivo acompanhado de uma comunicação muito ativa em diferentes partes do mundo. Como funciona quando o time não ganha títulos? É possível continuar crescendo?

Existe uma música de Héroes del Silencio que dizia que ”não há nada para sempre”. No sentido que existem ciclos, seja no futebol, na comunicação. O Barça consolidou um modelo de produzir excelência esportiva e institucional. Vender relatos dos seus valores, mas claro que, quando o Real Madrid ganha uma Champions League, tem um impacto global.

O Barça sempre teve um histórico de jogadores brasileiros, desde Evaristo, passando por Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho. Mas, justamente no período de explosão das redes sociais e de alcance global da marca Barcelona, o time não contava com uma grande estrela brasileira. Até que chegou Neymar, em 2013. É claro que uma contratação dessa também tem um cunho de marketing. Qual foi o impacto no âmbito digital da transferência de Neymar?

Quando contrataram o Neymar, o Barça abriu uma conta no Twitter e uma versão do site em português adaptado para o léxico brasileiro, porque o Brasil é um mercado estratégico e a presença do Neymar possibilitava a inserção do Barcelona nesse mercado de forma mais contundente. Sempre se acreditou que o público brasileiro era importante. Ele se tornou um embaixador do clube em nível global. Acredito que a estratégia foi muito boa. Ele vende muito, e isso passa diretamente pelas redes sociais.

O Barça é talvez a maior instituição catalã. É uma instituição global, e seu fundador não era catalão e sequer espanhol, era suíço. Ele traduz seu nome pra se “tornar” catalão: Joan Gamper.

O fundador do Real Madrid, sim, era catalão! Paradoxos da vida… [risos].

E, por outra parte, o separatismo se conjuga com essa internacionalidade. Uma capacidade impressionante de olhar pra fora e pra dentro. Houve a consulta de 9 de novembro, que pretendia ser um referendum. Qual é a tua posição, como antropólogo e catalão?

Eu acredito que a declaração universal dos direitos humanos, que diz que todo povo tem direito de auto-determinação e direito a decidir seu futuro. Nesse ponto, o mais importante não é o que eu penso. Senão que se possa votar. Aplicar o Dret a decidir. Como democrata, catalão e pessoa do mundo, isso é o mais importante. Depois cada um pode opinar o que quiser. Eu quero decidir sobre meus impostos, sobre a educação e sobre a minha forma de pensar, sem que haja uma imposição a 700 quilômetros daqui. Acho que te respondi…

E como seria um mundo sem um Barça-Madrid? É um jogo que vai muito além do futebol espanhol, ou até da questão política. Se transformou num jogo de apelo global.

Sinceramente, não é algo que me preocupa. Mas com certeza se encontraria um encaixe! Da mesma forma que o Monaco jogue a liga francesa, que o Swansea ou o Cardiff joguem a liga inglesa, mesmo com a independência, acho que poderiam jogar a mesma liga. De qualquer forma, é importante destacar a beleza das manifestações políticas no futebol. Tem gente que acha que não se devem misturar, que a coisa termina mal. Bom, vamos abrir os olhos, pois a política e o esporte são um matrimônio de muito tempo. É praticamente impossível desligar uma coisa da outra. São sentimentos humanos, ideologias… Todos os derbies ou clássicos têm esse aspecto político.

Como você enxerga a concorrência interna de um jornal entre sua edição impressa e online? Por exemplo, o Mundo Deportivo tem uma velocidade de informação enorme no site, isso não atrapalha as vendas do papel?

Isso é geral. Mas não me parece que tenham um estratégia muito clara do que querem ser digitalmente ou no papel. Olham muito pro dia a dia com um modelo que funcionou durante muitos anos pra vender jornal, mas não acho que vai durar muito mais tempo. É como conduzir um carro sem freio. Me dá essa sensação. Eu percebi, em Londres, o que estava fazendo o The Guardian. Parecia que não estavam fazendo um jornal como conhecemos. Estavam fazendo conteúdo. Pra mim isso é uma questão muito importante. Não importa qual seja a plataforma se você tem uma idéia clara do que está fazendo, se são conteúdos para vários segmentos. Se você me perguntar se quero fazer um novo livro, eu vou dizer que sim, e faria um livro sobre os efeitos do celular no jornalismo, e a coisa vai por aí, olhamos pro telefone de setenta a cem vezes por dia, segundo uns estudos que li. Sem uma estratégia mobile, não existe mais jornalismo.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

Deixe seu comentário