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Mourinho do Pelourinho, não!

A entrevista que Cristóvão [não] deu

Um técnico que começou num grande clube quase sem querer. Não que não quisesse um dia ser treinador, mas a oportunidade se deu quando Ricardo Gomes — então no comando do Vasco — sofreu um acidente vascular cerebral durante um jogo contra o Flamengo, em 2011, e acabou tendo que se afastar do futebol.

Veio então a oportunidade: assumir um time já montado, do qual já conhecia as peças. Logo após a conquista da Copa do Brasil com o seu antecessor, fez uma ótima campanha no Campeonato Brasileiro, que terminou em segundo lugar, além de chegar às semifinais da Copa Sul-Americana. No entanto, 2012 poderia ter sido um ano épico, não fosse a tal defesa de Cássio num remate cara-a-cara de Diego Souza aos 17 minutos do segundo tempo, no jogo de volta entre Vasco e Corinthians pela Libertadores. Após primeira partida empatada em zero em São Januário, o segundo jogo no Pacaembu terminou com vitória corinthiana, gol de Paulinho aos 42 da etapa complementar. O Timão seria campeão daquela edição do torneio continental e o Vasco não superaria a eliminação. Após uma seqüência ruim de resultados, Cristóvão seria demitido em setembro daquele ano.

No entanto, uma nova oportunidade só viria ao técnico em maio de 2013, numa chance dada por um time de primeira divisão, mas de “fora do eixo”. Trabalhou no Bahia até dezembro daquele ano, onde terminou em 12º na tabela de classificação. Assumiria, então, o Fluminense em abril do ano seguinte, onde reencontra Rodrigo Caetano, que anteriormente, assumia a gestão executiva de futebol do Vasco. Sob seu comando, o Tricolor foi eliminado na Copa do Brasil e na Copa Sul-Americana de maneira precoce, para América-RN e Goiás respectivamente. Terminou o Campeonato Brasileiro de 2014 em sexto e poderia iniciar o trabalho no ano seguinte, preparando o time ao seu gosto, porém, sem Rodrigo, que foi para o Flamengo. No entanto, na 11ª rodada do Campeonato Carioca, após um empate contra o Tigres do Brasil em 21 de março, Cristóvão foi demitido. O resultado deixava o clube de fora da zona de classificação do Estadual.

Dias mais tarde, adivinha quem contratou Cristóvão Borges? Sim, o Flamengo, que contava com Caetano como Diretor Executivo. No Rubro-Negro, foram oito vitórias, um empate e nove derrotas até pedir demissão do cargo em agosto de 2015. Em outubro ele assumiu o Atlético Paranaense, onde ficou até março de 2016. Em junho, Cristóvão é contratado pelo Corinthians, para substituir Tite, permanecendo por três meses, com sete vitórias, cinco empates e seis derrotas. No final do ano, ele acertou com o Vasco, onde despontou para o mercado, mas sua passagem pelo clube que o projetou durou pouco. Em março de 2017, foi destituído do cargo ao acumular cinco derrotas, dois empates e sete vitórias.

Muito além dos números, torcedores e comentaristas destacavam a falta de padrão nos jogos dos times geridos por Cristóvão. A análise tática e de performance dos trabalho são imprescindíveis. Considerando que Cristóvão teve as oportunidades necessárias, não há nenhum pecado em afirmar que ele seja um treinador ruim, que seus resultados não sejam bons e que as performances dos times comandados por ele estiveram abaixo da linha satisfatória. Poderíamos valorizar o trabalho de Cristóvão se as vitórias não chegassem, ainda que o padrão de jogo apresentado fosse bom, mas ocorria o inverso: seus times “venciam mas não convenciam” — argumento este que desbanca justamente a tese de que o que importa sejam apenas os resultados.

O cerne da questão, contudo, é: Cristóvão foi um dos raríssimos treinadores negros a terem oportunidades em grandes times do Brasil. Independente das condições oferecidas, se pôde ou não iniciar o trabalho e fazer a tal pré-temporada, ele conseguiu trabalhar em grandes times , sendo três do futebol carioca, um do Sul, um de São Paulo e outro do Nordeste do Brasil. Essa situação é incompatível com a quantidade de jogadores negros, e mais, reflete o mesmo pensamento com relação a treinadores estrangeiros.

O conservadorismo no futebol é explícito quando técnicos estrangeiros são especulados e os argumentos que surgem são relativos ao desconhecimento da cultura das torcidas locais, da idiossincrasia de jogadores e imprensa, da história do futebol brasileiro, entre outros. Ou seja, uma conclusão óbvia de que somente os ex-jogadores brancos brasileiros conseguem entender esses aspectos extra-campo. Negros ficam relegados sem nem perceberem e naturalizam alguns comportamentos, como a agressividade em críticas.

Xingamentos são normais em estádio de futebol, seja chamando de burro, de idiota, ou qualquer outro termo que questione o nível intelectual de quem comanda um time. O torcedor vai responder sempre com a emoção do momento, que opta por memórias seletivas e age de acordo com a conveniência. Esse fenômeno também se manifesta na imprensa, mas sem o calor sentimental e, muitas vezes, com má intenção ou covardia. Marcelo Bielsa, técnico renomado argentino, declarou em um evento no Brasil em 2017 — que contou com Tite e Fabio Capello —, que a mesma decisão de um técnico pode ser encarada de maneira antagônica de acordo com o resultado.

Bielsa deu um exemplo ao se referir a tática de Neymar recompor pelo lado do campo para atrapalhar as subidas do lateral contrário. Em caso de vitória, Tite seria visto como um gênio, pois soube ensinar a coletividade ao craque do time. Mas que em caso de derrota, o treinador passaria por um completo imbecil, por fazer Neymar marcar uma lateral em vez de driblar e fazer gols, a sua especialidade.

O torcedor vai agir assim. Se escalar um jogador jovem, a primeira reação será de crítica, por irresponsabilidade, mas caso ele consiga uma atuação memorável, o mesmo torcedor vai dizer que sempre achou que tinha que apostar em jogadores da base. Esse comportamento é tão ingênuo quanto covarde. A incoerência faz parte da passionalidade. Porém, quando um técnico negro erra, a passionalidade excede os limites razoáveis e, então, a burrice ganha mais um adjetivo: crioulo, preto, macaco etc.

Um técnico branco vai ser chamado, aos gritos, de “burro” por toda a vida. Já um técnico negro vai ouvir adjetivos raciais pejorativos, além de termos que questionem sua capacidade intelectual, o que já o coloca em desvantagem. É nesse aspecto que Cristóvão aponta haver uma intolerância, além do que julgava normal, em entrevista concedida à repórter Débora Gares da ESPN em 2015.

Cristóvão se sentiu encorajado a falar sobre o tema depois de declarações de José Trajano e Mauro Cezar Pereira em um Linha de Passe, programa exibido às segundas-feiras à noite. Os jornalistas insinuaram existir certa perseguição ao então técnico do Flamengo por conta de sua cor de pele. Havia um apelido carinhosamente maldoso difundido por Renato Maurício Prado, que chamava Cristóvão de ”Mourinho do Pelourinho”.

Em texto publicado no site da Trivela, Caio Maia mostrou porque é tão preconceituoso, pejorativo e maldoso o apelido. Além de Pelourinho ser um bairro de Salvador, terra natal de Cristóvão — fato —, é associado ao negro brasileiro, não só pelo Olodum, mas pelo significado implícito do termo.. Caio Maia disse: “O pelourinho, tronco no qual eram amarrados e torturados escravos fugitivos é, para os negros brasileiros, tragédia histórica comparável ao holocausto para os judeus em todos os aspectos. E usá-lo para marcar um técnico negro é clara e inegavelmente racista”.

Por mais que o trabalho de Cristóvão seja realmente ruim e seus números questionáveis, outros tantos treinadores brancos, com números iguais ou até inferiores, conseguem se manter no mercado e não sofrem com a agressividade excessiva que Cristóvão expôs.

Convidado a ser entrevistado pela Corner através de sua assessoria de imprensa, a situação foi colocada como difícil, pois o desgaste tinha sido muito intenso nos últimos dois trabalhos: Corinthians e Vasco, dois clubes em ebulição política, financeira e esportiva. A assessoria argumentou que o tema racismo seria delicado para Cristóvão, pois ele se tornou refém de um vitimismo criado nas redes sociais, segundo o qual, covardemente, lhe atribuíam o discurso de racismo como argumento para ocultar seus trabalhos ruins.

Embora a intenção fosse aprofundar a questão ao ouvi-lo, é preciso entender os motivos que o levam a preferir ficar calado deixar a poeira abaixar, se recuperar psicologicamente. Os amantes do futebol não fazem idéia do desgaste mental que é — pra qualquer um — comandar clubes do porte de Vasco, Corinthians, Flamengo, Fluminense, Bahia e Atlético Paranaense, ainda mais sendo um homem negro.

O que Cristóvão falou outrora deve ser perpetuado, e não editado ou usado de maneira covarde. Ele nunca atribuiu ao racismo o fato de seu desempenho não ter sido como gostaria. Diante disso, aqui vai uma parte do que falou o técnico negro mais relevante da Série A do futebol brasileiro, entre 2011 e 2017, e várias outras perguntas que seriam destinadas a ele, juntamente com respostas e explicações desejadas, da entrevista não que houve.

Débora Gares da ESPN: Que assunto foi esse, exatamente, que mexeu com você?

Cristóvão: Assistindo o programa na segunda-feira vi a abordagem do [José] Trajano e do Mauro [Cezar Pereira]. Justamente me tocou bastante porque era aquilo que estava acontecendo comigo, diante do meu trabalho, a mim como treinador do Flamengo. Venho sofrendo críticas que fogem do padrão. O Mauro e o Trajano falaram sobre isso, sobre conotações racistas. Existem as duas coisas: as críticas exacerbadas que, por serem sistemáticas, viraram perseguição e algumas com conotações racistas sim.

Débora Gares: Então você está dizendo que se sente vítima de racismo?

Cristóvão: Isso também, porque começa com críticas insistentes e contínuas e depois se torna uma perseguição. No conteúdo dessas críticas tem componentes racistas sim, por exemplo, eu fui citado quando o Flamengo deixou de escolher o Oswaldo de Oliveira pra escolher o Mourinho do Pelourinho. O Flamengo é uma grande lente de aumento e como eu sou negro, eu enxergo racismo a qualquer distância, e fica mais fácil de enxergar por ser essa lente de aumento, por conta da grandeza do Flamengo. Fica difícil pra esse tipo de pessoa se esconder. A tolerância comigo é diferente, sempre foi. Agora, isso não me afeta ao ponto de atrapalhar o meu trabalho, porque eu me preparei pra estar nessa situação. Mas quando isso passa do ponto e me atinge como pessoa e como cidadão, aí eu vou procurar direitos pra me fazer respeitar. Nós somos um país de democracia, mas o racismo existe e é camuflado como tem sido comigo, como nessas críticas. Mas quero deixar clara uma coisa que é muito importante: eu sou um treinador e sempre fui bastante criticado na minha carreira, e a minha função, assim como um juiz de futebol, são pessoas que são sempre muito criticadas. Eu nunca fui de reclamar de críticas. Esse tipo de pessoa [racista], além de se esconder, acha que o negro não deve se colocar, deve dizer amém, e eu sou a antítese disso. Eu me coloco, tenho posição e defendo as minhas convicções. Então eu sei disso, que sou visto como um intruso, um abusado porque cheguei na minha posição e vou contestar ao achar que [algo] está errado. E minha posição nunca vai ser de pobre coitado.

[A curta entrevista é encerrada. Gravada numa sexta-feira e exibida no Linha de Passe na segunda-feira seguinte. No estúdio, Mauro Cezar Pereira deu seqüência ao assunto.]

“Ele está falando por ele, antes que digam que o Flamengo deveria dar autorização. Ele está falando de um problema que atinge a ele e o Cristóvão não nasceu ontem. Se ele convive com isso, convive desde que nasceu, porque o negro sofre com racismo no Brasil todos os dias e isso não é novidade pra qualquer pessoa minimamente inteligente. O Trajano veio me perguntar se eu achava que havia racismo. Eu não sei. Ele é que pode dizer porque sente na pele isso. O depoimento foi dado, foi de fato muito corajoso e é legal quando alguém enfrenta isso dessa maneira. Espero que o Flamengo dê suporte a ele, fique do lado dele. Independente da questão política do clube, que o apoie porque ele é um bom treinador. E repito o que disse, é perseguido, sim, nas redes sociais por supostos torcedores do Flamengo, covardes que o perseguem implacavelmente e que atribuem ao Cristóvão tudo de ruim que acontece com o time. E quando acontece alguma coisa boa é sorte, é talento de um jogador ou uma outra explicação”, abriu o raciocínio, Mauro Cezar.

“Estamos vivendo uma era de intolerância. Não só no Brasil, no mundo inteiro. Intolerância religiosa, intolerância política e ela atinge o futebol, e algumas pessoas, não é a maior parte da torcida do Flamengo, escolheram o Cristóvão pra Judas. Não porque ele é negro, talvez por não ser um técnico medalhão, um cara de fala mansa, não é um cara que soca a mesa, é um sujeito muito ponderado e educado. Pode parecer mais fácil bater num cara assim do que naquele que vai pra briga, fosse um Argel, talvez não ficassem assim tão valentes, mesmo atrás de um computador, pois está cheio de valentão na internet. É só fazer uma comparação, vamos pegar o antecessor dele, o Luxemburgo. Qual foi o pior momento do Vanderlei à frente do Flamengo? Foi contra o Atlético Mineiro, quando perdeu de 4 a 1 de virada [pela Copa do Brasil]. O que fez Luxemburgo naquele jogo? Colocou Matheus, filho do Bebeto, que não jogava há muito tempo e Élton, centroavante que nunca entrava. E o Flamengo tomou aquela virada histórica do Galo. O Vanderlei Luxemburgo não recebeu 1% das críticas que o Cristóvão recebe por ter tirado o Alan Patrick. Eu também não teria tirado, acho que ele errou. Acho que ele não mexe bem no time, mas como o Muricy não mexia bem, como o Luxemburgo que lá atrás tinha a fama de mexer no intervalo, e errou, clamorosamente, num dos maiores vexames da história do clube. E ele não foi criticado nem em 1%, e aí não é questão de cor de pele não — na minha visão — é por se tratar de Luxemburgo, de ter um curriculum, ter um peso, falar grosso que precisa, sabe jogar com esse tipo de situação, e o Cristóvão não. Por ter tirado o Alan Patrick, eu cheguei a seguinte conclusão: o Alan Patrick é o Zico!”, finalizou Mauro Cezar Pereira.

O outro participante da mesa, Juca Kfouri, emendou: “É deplorável e muito triste ver um profissional como o Cristóvão ter que tocar nesse assunto. Imagine o quanto dói alguém que tenha a altivez que ele tem ter que falar disso. É uma lição pra todos aqueles que insistem que no Brasil não existe racismo, embora a esmagadora maioria dos jovens presos no Brasil sejam negros, a maioria dos que morrem [vítimas] de bala da polícia sejam negros. Você pega um cidadão vitorioso como é o Cristóvão e força um situação que o exige a esse ponto: de vir a público dizer o que disse. A minha solidariedade é irrestrita. É tão desumano que haja essa mistura na avaliação de um profissional, que é — mais ou menos — humano que você o defenda, até quando ele está errado, o que não é o caso. Quantos são os técnicos negros no Brasil?”.

José Trajano, que até então tinha cadeira cativa no programa nobre das segundas-feiras no canal que fundou, respondeu a Juca: “Você conta nos dedos, e conta nos dedos anos a fora. Não estou falando no momento”.

Leonardo Bertozzi pontuou: “O próprio Flamengo teve na sua história recente o Jayme [de Almeida] e o Andrade”. Ambos foram campeões nacionais. Jayme levantou a Copa do Brasil de 2013, e Andrade foi técnico da campanha surpreendente no Brasileirão de 2009 que culminou com o sexto título do Brasileirão da história, mesmo que a CBF, STF e quem mais queira digam o contrário. A FIFA tampouco reconhece o Flamengo — e todos os outros vencedores da Intercontinental — como campeão do mundo. Mas essa é outra discussão, aqui a questão passava pelos técnicos negros campeões de títulos nacionais do Flamengo. Nenhum deles teve um respaldo na continuidade de seus cargos.

Andrade foi incinerado por um caldeirão político e a campanha irregular no Campeonato Carioca do ano seguinte levou à demissão. Nitidamente, um elo mais fraco, fácil de ser usado como cortina de fumaça. Como se diz no jornalismo e também no futebol, criou-se um fato novo e as atenções se voltaram para a troca de técnico. O curioso sobre Andrade foi a falta de oportunidade que ele teve após a demissão, não só por parte do Flamengo, mas de todo o mercado. Ele treinou o Brasiliense, Paysandu e times pequenos do Rio de Janeiro.

Jayme assumiu o Rubro-Negro como interino em 2013, no lugar de Mano Menezes, que pediu demissão. Terminou com o título e a vaga na Libertadores do ano seguinte. Em 2014, veio o título do estadual sobre o Vasco, logo após a eliminação da competição continental. Após quatro jogos no Campeonato Brasileiro, o Flamengo tinha quatro pontos em uma vitória e um empate. Logo após a derrota por 2 a 0 contra o Fluminense, chegava a demissão de um técnico que conquistou dois títulos em oito meses. Seu sucessor, Ney Franco, dirigiu o time em sete jogos apenas: quatro derrotas e três empates. A única vitória do clube naquele campeonato, até então, tinha sido nas mãos de Jayme.

Após o desligamento de Ney Franco do Flamengo, ele foi anunciado pelo seu ex-clube, o Vitória da Bahia ainda naquele Campeonato Brasileiro. Enquanto Jayme de Almeida não recebeu nenhuma oportunidade em um grande time, mesmo tendo sido duas vezes campeão com um time da magnitude do Flamengo. Em 2015, Jayme retornou ao Rubro-Negro para assumir a função de auxiliar técnico fixo do clube.

“Muçum, tira o Huguis”. Foi assim que um torcedor do Flamengo causou risos na arquibancada do Maracanã em um jogo do Campeonato Brasileiro de 2002. Hugo era o camisa 10 do time comandado por Lula Pereira. Quando um técnico negro assume um clube grande, causa estranhamento. Independente de haver qualquer semelhança física com o folclórico personagem de Os Trapalhões, não é coincidência que façam uma piada assim. É verdade que muitos outros técnicos brancos também receberam apelidos, maldosos ou carinhosos. Muçum era um esteriótipo de brasileiro malandro, que sabia se livrar dos preconceitos atribuídos a cor da sua pele, um personagem engraçado, que falava errado, acrescentava plurais inexistentes. Papel, que enquanto negro trapalhão, era permitido por uma sociedade — ou melhor, audiência— branca. Muçum chamaria Hugo de Huguis, Flamengo de Flamenguis.

Querendo ou não, mesmo que a intenção seja carinhosa e até mesmo tenha algo de engraçado, o apelido é pejorativo. Por que não o chamaram de Muhammad Ali ou Michael Jordan, cacildis?

Lula Pereira durou no cargo até a sexta rodada do Campeonato Brasileiro daquele ano. As três derrotas, dois empates e somente uma vitória resultaram na vigésima posição do Flamengo na tabela. O clube contratou Evaristo de Macedo para o seu lugar e terminou em 18º lugar.

Jayme de Almeira e Lula Pereira são dois exemplos cristalinos de técnicos substituídos por comandantes tarimbados — e brancos —. No entanto, ambos sucessores tiveram mais tempo e mais paciência por parte da direção do clube. Como dito acima, Ney Franco teve um desempenho bem inferior ao de Jayme de Almeida, mas durou sete jogos no comando enquanto Jayme só dirigiu o time em quatro partidas. Já Evaristo de Macedo comandou o Flamengo por mais 19 rodadas, com uma performance ligeiramente — e quase nada — superior, comparada com os seis primeiros jogos do time, quando era tocado por Lula Pereira.

“Sempre foi feito assim”. É dessa forma que começa outro livro, Os Números do Jogo, que buscou analisar as estatísticas no futebol. O subtítulo do livro é: Por que tudo o que você sabe sobre futebol está errado. Os autores David Sally e Chris Anderson mostraram que, estatisticamente, demitir técnicos não muda o curso das águas. Claro que existem exceções, tanto pra cima quanto pra baixo, mas ao demitir um técnico, a performance tende a ser a mesma. Os exemplos de Jayme de Almeida e Lula Pereira não podem mostrar outra coisa que não seja isso.

O livro Soccernomics, de Simon Kuper e Stefan Szimanski, publicado em 2009, aborda a questão. Quase não havia técnicos negros no futebol inglês, e o problema é mais complexo, pois as escolhas dos clubes se fazem sempre a partir de critérios subjetivos, diferentemente da contratação de jogadores, pois se provou muito fácil identificar quem joga bem e quem não. Já com relação aos técnicos, o pensamento conservador dos dirigentes vai levá-los a escolher homens brancos com cortes de cabelo tradicional. Aparência e nome se sobrepõem às qualidades ou ao conhecimento que o trabalho requer. Se um clube contrata um técnico que encaixa no perfil imaginado popularmente, mesmo que os resultados sejam pífios, os dirigentes não são considerados culpados. Em contraposição, se um clube diverge e contrata alguém com aparência fora do padrão convencional, qualquer deslize basta para que seja apontado o erro na contratação. Em outras palavras, um negro não se encaixa nesse imaginário, afinal, nunca houve negros ocupando cargos de liderança no futebol de maneira expressiva.

Cristóvão foi o único técnico negro a receber sucessivas chances em clubes de elite do futebol brasileiro. Embora seus resultados não tenham sido — objetivamente — satisfatórios em nenhum trabalho depois do Vasco em 2011, as expectativas e grau de cobrança das diretorias que o contratam é no sentido de que seus resultados sejam exatamente iguais — ou melhores — dos obtidos com o Cruzmaltino na sua primeira passagem pelo clube, com um aumento imediato do aproveitamento de pontos do time.

Casos de técnicos negros na elite do futebol brasileiros e mundial são raros. Mesmo aqueles que conseguem algum êxito tendem a encontrar dificuldades para uma recolocação no mercado. Valmir Louruz foi terceiro lugar com o Brasil de Pelotas em 1985 e campeão da Copa do Brasil em 1999 com o Juventude. Depois disso, Louruz assumiu o Internacional, sua única passagem por um clube considerado de elite. De acordo com a matéria de Breiller Pires para a revista Placar de março de 2013, Louruz não via racismo em seu caso. Ele atribuiu à instabilidade e à rotatividade comum ao cargo. Serginho Chulapa disse à mesma reportagem que se trata de uma coincidência pois preconceito não existe. Ressaltou ainda que o negro é preguiçoso e que o convite [para ser treinador] não vai chegar até a casa dele.

Coincidência não é. Técnicos negros exitosos não continuam em seus cargos e não têm as mesmas oportunidades. Não gozam da mesma paciência — que quase inexiste no futebol — concedida a treinadores brancos. Traçando um paralelo à aparência esperada de um técnico, um negro parece nunca carregar suas conquistas como mérito, mas sim como sorte. Já os brancos, quando exitosos, se prevalecem de uma suposta competência. Dois pesos, duas medidas. A subjetividade fala muito alto, e a objetividade é negligenciada quando convém.

Um encontro com Cristóvão Borges seria imprescindível para ouvir dele a respeito desses inúmeros casos. Porém, não foi possível. Resta imaginar como teria sido essa entrevista.

Cristóvão, como você considera seus trabalhos no Fluminense, Flamengo, Corinthians e Vasco entre 2014 e 2017?

[Seria fantástico saber a opinião dele. Um cara lúcido, altivo — como disse Juca Kfouri — de fala tranqüila, dificilmente agiria em simples autodefesa. Essa pergunta poderia se desdobrar em cada um dos trabalhos, até pra se entender em que condições iniciou em cada um.]

Como você enxerga a questão de treinadores campeões nacionais com o Flamengo, como Andrade e Jayme de Almeida, que não tiveram oportunidades em grandes clubes depois de suas conquistas?

[Cristóvão poderia corroborar com a tese de desconfiança sobre o trabalho de um técnico negro mesmo quando se vence.]

Você disse ter sentido no Vasco a maior agressividade, vinda da arquibancada social. Não é curioso que isso tenha acontecido justamente no primeiro time entre os grandes do Rio a abrir as portas ao negros? Isso é comum em outras esferas fora do futebol, não é? Um país tão miscigenado ser tão racista.

[Cristóvão possivelmente falaria das incoerências da sociedade brasileira. Dependendo da resposta, abriria algumas reflexões extra-futebol.]

Por exemplo, na política, os candidatos brancos eleitos somam um número desproporcional à sua representatividade real. Como você encara isso? O próprio negro prefere um branco que o represente?

[Tal como acontece com as mulheres, a democracia representativa se mostra homogênea e unicolor. Cristóvão não poderia negar tal fato, mas seria interessante ouvir como encara essa inversão de representatividade racial.]

Ainda na política, uma questão que divide opiniões é a necessidade das cotas raciais. Qual a sua opinião?

[Não é incomum que um negro se posicione contrário por se sentir inferiorizado com a medida inclusiva. No entanto, Cristóvão deve entender a importância de haver mais negros atuando em cargos altos de profissões consideradas nobres como na medicina, no direito, na engenharia, em publicidade, e em qualquer outro segmento. Ele, melhor do que ninguém, deve perceber a real noção de preconceito.]

Dentro do futebol o racismo é naturalizado. Você percebe diferença entre um insulto e uma provocação, que vise somente desestabilizar o oponente? Como isso deve ser encarado? Houve o caso do Grafite e do Aranha que acarretaram em prisão, pra você esse é o caminho? Já o Pelé disse que não é necessário esse tipo de denúncia dentro de um campo de futebol. Como você encara essa questão toda?

[Outro ponto de divergência sobre como proceder. Cristóvão deve estar cansado de ser chamado — além de burro — de:  macaco ou crioulo, ainda mais tendo trabalhado em tantos clubes de primeira divisão onde a presença de negros, historicamente, não é nada incomum.]

Por último, só você conseguiu tantas oportunidades em clubes de Série A. Roger Machado foi outro que já comandou grandes clubes. Qual a importância extra-futebolística que você enxerga nesses dois exemplos?

[Assim como Abel Neto, Cristóvão poderia falar sobre a representatividade. Sobre um papel didático, que mostrasse às pessoas que negros também podem exercer cargos de liderança, se prevalecendo da visibilidade do futebol pra isso. Mas bom mesmo seria escutá-lo falar sobre sua trajetória, sobre exemplos específicos — de menor a maior — onde ele enxerga o racismo dentro do futebol e na sociedade como um todo. Entretanto, o mais importante sobre Cristóvão é separar até onde vai sua capacidade como técnico, se ele é bom ou ruim, se tomou decisões acertadas ou não, e onde começa uma perseguição — cruel muitas vezes — que não permite o erro, que não deixa sequer ele se defender dessa caça, atribuindo a ele um discurso vitimista. Não é vitimismo. Cristóvão é sim vítima de racismo, como quase toda a população negra no Brasil.]

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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