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O mundo é das pessoas

O futebol é de todos. A Copa Rio é do Palmeiras

Palmeiras tem mundial? A pergunta é válida. A Copa Rio de 1951 é considerada por palmeirenses como um título mundial. O torneio reuniu diversos campeões nacionais da Europa e da América do Sul. Os mesmos palestrinos normalmente dizem que o Corinthians não pode ter dois títulos mundiais tendo vencido somente uma Libertadores.

Existe o caso do Atlético de Madrid, que conquistou a Liga Europa em três oportunidades até 2019 e uma extinta Recopa, mas jamais o principal título do continente europeu. No entanto, os Colchoneros venceram a Taça Intercontinental devido à desistência da disputa do Bayern, e podem, tal como os demais vencedores do duelo, dizer-secampeões mundiais.

A discussão se estende ao Vasco da Gama, que foi admitido como campeão sul-americano na competição precursora da Libertadores: o Campeonato Sudamericano de Campeones em Santiago, em 1948. O torneio não foi organizado pela Conmebol e sim pelo Colo Colo, mas com o apoio do presidente da entidade máxima do futebol sul-americano à época, o chileno Luis Valenzuela. No entanto, dizer que o Vasco é bi-campeão da Libertadores é um erro. O Gigante da Colina é, sim, bi-campeão sul-americano, e até tri, já que conta com uma Copa Mercosul na sua sala de troféus também, mas a Mercosul não contava com todos os membros da Conmebol, embora fosse organizada por ela. Porém, é difícil dizer que a Copa Mercosul não seja um título continental.

Voltando à Copa Rio, vencida pelo Palmeiras em 1951, a competição não foi organizada pela FIFA tal como a Taça Intercontinental não era. Porém, a Intercontinental reunia diretamente os campeões da Conmebol e da UEFA, e era organizado pelas duas entidades, num primeiro momento em jogos de ida e volta e, a partir de 1980, em jogo único em Tóquio até 2004. A partir de 2005, a FIFA assumiu as rédeas e passou a organizar uma Copa do Mundo de Clubes contando com times de todas as federações continentais.

Naquele ano de 1951, a UEFA sequer existia. A entidade reguladora do futebol na Europa seria fundada somente em 1954 e o torneio continental de clubes organizado por ela nasceria logo depois, em 1955. Até então, os clubes europeus disputavam diferentes competições pelo Velho Continente além de suas ligas nacionais.

De 1927 a 1939, disputava-se tradicionalmente a Taça Mitropa. Uma competição européia pré-UEFA que contava com os principais times do centro europeu. Foi a primeira grande disputa internacional de clubes e seria a precursora da Copa dos Campeões, como conta Miguel Lourenço Pereira no livro Noites Européias, publicado pela Corner no Brasil.

De 1940 a 1950, não houve disputas devido à Segunda Guerra Mundial. A edição de 1940 chegou a ser jogada, mas a final entre Rapid Bucareste e Ferencváros, agendada para julho daquele ano, não chegou a ser disputada. Somente em 1951 a competição voltaria, mas sem muito prestígio. Já que naquele ano disputava-se a terceira edição da Taça Latina, entre clubes da França, Itália, Espanha e Portugal.

Tanto a Taça Latina quanto a Mitropa foram priorizadas pelos clubes europeus. Foram os casos do Rapid Viena, campeão austríaco, e do vice-campeão Admira Wacker, que jogariam a Taça Mitropa, e do Milan, que disputaria a Taça Latina.

A Taça Latina de 1951 também teve a participação do Sporting, campeão português, que nos dias 21 e 22 de junho jogou contra o Lille as semifinais do torneio. Por sua vez, o Lille entrou no lugar do Nice, que se recusou a disputar o certame e disputaria a Copa Rio. O Sporting jogaria a definição de terceiro lugar no dia 24 de junho contra o Atlético de Madrid e, no dia 1° de julho, os portugueses enfrentariam o Vasco, representante do Rio de Janeiro na competição, já que, à época, tampouco existia um campeonato brasileiro. A Copa Rio contou também com o representante de São Paulo, o Palmeiras, a outra cidade-sede do torneio.

Disputaram também a Copa Rio o campeão uruguaio de 1950 [Nacional] e o campeão da Copa da Iugoslávia de 1950, o Estrela Vermelha.

Nenhum argentino disputou, sequer houve convite a qualquer clube hermano em retaliação ao boicote da Argentina à Copa do Mundo de 1950.

Já os representantes da Itália [Juventus] e o austríaco [Austria Vienna], vieram como campeões das temporadas anteriores em substituição aos vencedores daquelas temporadas recém terminadas [Milan e Rapid Viena], que disputariam a Taça Latina e a Taça Mitropa, respectivamente. O representante francês [Nice] veio no lugar do representante espanhol, que seria o Barcelona, embora o Atlético de Madrid tivesse conquistado o campeonato espanhol de 1950/51.

Tratava-se de um torneio com cinco clubes europeus, campeões em seus países, fosse naquela temporada ou na anterior, e mais um representante sul-americano além de Palmeiras e Vasco, que tinha jogadores do Uruguai campeão Mundial. Enfim, um torneio inegavelmente de elite e de representatividade. Vale reforçar que o Vasco havia conquistado o Campeonato Sudamericano de Campeones três anos antes.

Não há dúvida da magnitude do campeonato. A iniciativa estava à altura do estádio que recebeu a final do torneio e da Copa do Mundo um ano antes. O Maracanã foi construído sob uma perspectiva proporcional à realização de uma Copa do Mundo e, logo, realizar uma competição mundial entre clubes estava dentro da mesma ótica da época com os mesmos traços megalomaníacos.

Apesar de algumas baixas, como o campeão italiano Milan, que não participou, nem a vice Inter, substituída pela Juventus, terceira colocada naquele ano, e embora a Juve tenha conquistado o campenato italiano de 1950, isso só foi possível devido à Tragédia de Superga em 1949, que matou todo o time do Grande Torino, multi-campeão italiano dos anos 1940 e, fatalmente, favoritaço à conquista da Copa Rio, caso aceitasse o convite. Mas essa é a história do “se”.

Mauro Beting escreveu em seu blog no UOL sobre o Mundial do Palmeiras assim: “O futebol é de 1863. A FIFA é de 1904. Sim, o futebol é anterior à entidade.” Verdade. Mas vale dizer que o futebol foi convencionado em 1863, até ali disputavam-se diferentes modalidades, até surgir a Football Association na Inglaterra que, por sua vez, demorou bastante até reconhecer e se associar à FIFA, por entender que eles, os ingleses, eram os donos do jogo. E isso tem a ver com o cartório que a FIFA se tornou e como nem sempre aquilo que ela promove ou deixa de promover é o que vale. Mauro Beting usa uma analogia perfeita: “É como o nosso congresso. Não tem credibilidade, mas as leis são deles. Cumpramos”.

Se a FIFA reconhece, de fato ou não, a Copa Rio de 1951 — e a de 1952 —, talvez seja o menos importante. Em 1952 também houve um torneio disputado na Venezuela chamado Pequeña Copa del Mundo de Clubes, que reunia times europeus e sul-americanos e durou até 1957. Na primeira edição, o Botafogo ficou em segundo lugar, enquanto Real Madrid foi o campeão.

O Corinthians campeão sobre a Roma em 1954 e o São Paulo, em 1955, empatou com o Valencia no último jogo e ficou com a taça. Vasco foi vice em 1956 para o Real Madrid e, em 1957, o Botafogo foi novamente segundo colocado, quando o Barcelona levantou o caneco. Mas ninguém reclama a oficialidade do torneio. Assim como os diferentes torneios de verão europeus, como a Taça Teresa Herrera, que já promoveu duelos memoráveis, mas este, diferentemente da Copa Rio ou até mesmo da Pequeña Copa del Mundo de Clubes, sempre foi disputado com teor amistoso. Pelo menos pelos europeus.

E aqui entra uma nítida diferenciação de prioridades. No geral, os clubes da Europa historicamente sempre deram mais de ombros para a Taça Intercontinental. Jogavam e venciam muitas vezes, mas além de desistirem de algumas edições, notava-se um certo desprezo. Os sudacas, porém, entravam sempre com a faca nos dentes. Mas se ingleses levavam menos a sério a Intercontinental, espanhóis, portugueses e italianos pareciam se preocupar mais com o troféu nas suas galerias, enquanto os alemães ficavam no meio do caminho.

Voltado à oficialidade, o bi-campeonato olímpico do Uruguai pode ser considerado um título mundial, pois não havia Copa do Mundo. Os campeões intercontinentais podem se considerar campeões mundiais, pois não existia um Mundial de Clubes da FIFA. O mesmo serve pro Sul-Americano do Vasco e outros diversos títulos por aí, até os controversos campeonatos brasileiros homologados pela CBF: Taça Brasil e Gomes Pedrosa.

A discussão pode se estender, inclusive, à Copa União. Talvez o mais complexo dos casos, pois tudo se mistura, se confunde, e todo mundo erra. Mas o livro de André Gallindo, 1987 – De fato, de direito e de cabeça, explica melhor o caso. Mas esse exemplo talvez ilustre melhor como o oficial, muitas vezes, é o que menos importa. Negar a dimensão do título não-oficial rubro-negro é tão errado quanto negar a oficialidade do título do Sport, conquistado legitimamente.

Portanto, mesmo antes de a FIFA reconhecer a Taça Intercontinental como título mundial, todos os vencedores, especialmente os sul-americanos, se intitulavam campeões do mundo, o menos importante era o teor oficial e sim o desafio, o duelo intercontinental entre os dois continentes que mais desenvolveram, difundiram e evoluíram o jogo.

Tanto a oficialidade é o que menos vale, que o Corinthians conquistou o Mundial de Clubes de 2000, um torneio organizado pela FIFA e foi diminuído, e será eternamente, pelos torcedores rivais e até por jornalistas que optam pelo sensacionalismo. Se o título oficial do Corinthians é colocado em xeque, como pode o do Palmeiras ser cogitado como título oficial?

A Copa Rio foi repetida em 1952 sem o mesmo sucesso, com o título do Fluminense. Porém, as mesmas pessoas que defendem o caráter mundialista da Copa Rio de 1951, não outorgam a mesma relevância para o triunfo tricolor no ano seguinte, com argumentos mais ou menos válidos. Outros acreditam que, se alguns clubes não quiseram disputar a segunda edição, azar o deles, e o Fluminense não tem nada com isso, foi lá e ganhou.

O grande problema é a mudança de significado e, sobretudo, da ordem de grandeza das coisas. Durante muito tempo, alguns clubes brasileiros preteriram a Copa Libertadores para prestigiar os campeonatos estaduais ou mesmo turnês européias, a motivação era exclusivamente financeira. Os cachês nas excursões ou as bilheterias de jogos do campeonato carioca ou paulista rendiam muito mais do que os jogos da Libertadores durante uma boa época.

Portanto, se um campeonato foi levado mais à sério por um clube do que por outro, para sorte de um e azar do outro, o torneio foi jogado e vencido por alguém e isso é indelével. O revisionismo pode ser cruel, mas pode ser positivo. O problema passa preponderantemente pelas discussões clubistas e passionais. Os asteriscos sempre existiram, em diversas competições. O vice-campeão europeu, Atlético de Madrid, foi lá e venceu o Independiente, campeão sul-americano e se tornou um campeão mundial.

Se colocam asterisco no título mundial organizado pela FIFA do Corinthians, o do Palmeiras de 1951, tal como o do Atlético de Madrid de 1974, além de todos os outros vencedores da Intercontinental também terão seus asteriscos.

O Mundial do Palmeiras, o do Fluminense, o do Corinthians de 2000 e até o Campeonato Brasileiro de 1987 merecem capítulos à parte. Merecem também livros e documentários, além dos que já existem. Mas quem festejou, quem gritou “É campeão do Mundo!”, quem bebeu na comemoração, sabe da grandeza, do significado, do sentimento, da emoção de sentirem-se os melhores do mundo, pelo menos por um instante.

Se algum europeu deu de ombros, tal como se algum time brasileiro resolveu não disputar a Libertadores para excursionar na Europa ou jogar o estadual, azar desses times. Os campeonatos existiram, e cada campeão tem mais é que estufar o peito e se sentir orgulhoso.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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