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La Copa del “no”

Mundialito: Um tiro que saiu pela culatra

“Uruguay, te queremos
Te queremos ver campeón
Porque en esta tierra vive
Un pueblo con corazón”

Os militares que detinham o poder na República Oriental desde 1973 torceram o nariz ao hit “Uruguay, te queremos”, de Alberto Triunfo e Roberto da Silva, que fez a cabeça dos uruguaios. Apesar disso, compartilhavam — e muito — o desejo de ver a Celeste campeã. Em especial, conquistar a Copa de Ouro de Campeões Mundiais.

Idealizado por João Havellange, então presidente da FIFA, o Mundialito — como ficou conhecido —, a ser realizado inteiramente no estádio Centenário, foi concebido a fim de reunir todos os seis campeões mundiais existentes até então para comemorar os cinqüenta anos da primeira Copa do Mundo, realizada também em Montevidéu, em 1930.

A partir do dia 30 de dezembro de 1980, brigariam pelo título Uruguai, Argentina, Brasil, Itália, Alemanha e Holanda. Vice-campeã nas Copas de 1974 e 1978, a Laranja Mecânica — sem Cruijff — substituiria a Inglaterra, que recusou o convite — dizem — em protesto à ditadura que governava o país sul-americano.

De fato, nos últimos dias de 1980 não estava em jogo apenas a copa dos campeões mundiais, mas o futuro político de toda uma nação. O Mundialito começaria a ser disputado no dia 30 de dezembro, exatamente um mês depois da realização de um plebiscito nacional marcado para o dia 30 de novembro, que iria decidir ou não pela criação de uma nova Constituição para substituir a de 1967 e legitimar a ditadura civil-militar, governante de facto, perpetuando-a no poder.

“O Plebiscito Constitucional vai facilitar ao governo da nação os meios para iniciar a caminhada em direção à normalidade, sem comprometer a obra realizada”, disse o então presidente Aparício Mendez, durante o comunicado do dia 1º de novembro que convocava os uruguaios à eleição ainda naquele mês.

A normalidade escapava à realidade uruguaia durante aqueles anos com a tortura institucionalizada, os desaparecimentos e os assassinatos promovidos pelo estado e a proibição legal de qualquer tipo de oposição ao governo. A ditadura no Uruguai, dentre todas as suas contemporâneas que assolaram a América Latina, foi a que teve a maior proporção de presos políticos em relação à população. Legalizar constitucionalmente a ditadura era legalizar, para sempre, o terror.

Os prognósticos bradavam a vitória do “sim” no plebiscito. Logo, a existência de um campeonato que mobilizasse o país e chamasse a atenção do mundo apenas trinta dias depois da votação era vista como a festa que consagraria a manutenção do regime militar e recolocaria o Uruguai no jogo político internacional. O plano parecia perfeito.

De Voulgaris a Berlusconi: as garantias financeiras

Mas para o plano se tornar realidade, havia que se buscar quem pagasse as contas do torneio. Além dos custos com a transmissão das partidas, do deslocamento e da hospedagem das delegações participantes, era preciso assegurar 250 mil dólares a cada uma das cinco seleções convidadas.

A primeira “solução” aparece em um empresário uruguaio de ascendência grega chamado Angelo Voulgaris, que fizera fortuna exportando carne para países africanos e anos mais tarde seria preso por tráfico de drogas. Num encontro em Madrid com Washington Cataldi — ex-deputado pelo Partido Colorado, então presidente do Peñarol e responsável pela organização do Mundialito —, o empresário ficou sabendo do evento.

Voulgaris viajou até Nova York e negociou fundos com outros empresários — cem milhões de dólares, segundo o próprio em entrevista ao documentário “Mundialito”, de 2010 — para arcar com o investimento. Depois de assinar a compra dos direitos sobre o torneio com a AUF, os investidores não honraram o combinado com Voulgaris, que precisou correr atrás de um novo fiador.

“Um dia chega a mim o Cataldi e diz ‘Julio, vamos à Itália. Me disseram que um tal Berlusconi que comprou um canal de televisão em Montecarlo quer entrar na rede italiana, o que ainda não conseguiu. Acredito que podemos vender um grande produto aqui’”, conta o ex-presidente Julio María Sanguinetti — àquela altura ainda opositor ao governo repressor. “A partir daí, com os direitos para a Itália, ele se faz forte frente à Rai e consegue a primeira introdução no grande circuito, ao qual não podia acessar antes”, completa. Aos 44 anos, o ainda jovem e já bem-sucedido Silvio Berlusconi ainda não havia assumido o futebol do Milan, mas acabara de adquirir o Canale 5, que daria início ao grupo Mediaset, parte do império midiático que impulsionaria seus negócios dentro e fora do futebol, colocando-o como um dos personagens centrais da vida italiana, chegando ao cargo mais alto da política do país.

“Sí por mi país
Sí por Uruguay
Sí por el progreso
Y sí por la paz
Sí por el futuro
Vamos a votar
Sí por la grandeza
Sí de mi Uruguay”

Apesar de toda campanha nos jornais e no horário nobre da televisão ser favorável ao “sim” que aprovaria a nova Constituição e do temor de que as urnas fossem fraudadas pelos militares, o resultado surpreendeu a todos: 56,83 por cento dos votos optaram pelo “não”. A derrota no voto foi um golpe duro para a ditadura e um dos fatores determinantes para a redemocratização do país, em 1985.

Mal passara a frustração com a derrota, e os militares começaram a se preocupar com as conseqüências do resultado durante a realização do Mundialito. Em exatos trinta dias, milhares de jornalistas estariam no Uruguai para registrar a competição em um país cuja maioria da população, constatadamente, desaprovava o regime. Mesmo a contragosto, era impossível cancelar a competição às vésperas do seu início.

À medida que os uruguaios avançavam na Copa de Ouro, crescia o sentimento de oposição ao governo nas arquibancadas do Centenário. Na final contra o Brasil, reeditando o Maracanazo de 1950, um novo 2 a 1 deu a vitória à Celeste e enlouqueceu os orientales. Naquele dia 10 de janeiro de 1981, soldados e presos políticos celebraram juntos, pela primeira vez, a mesma conquista. O povo comemorava sem distinção a taça dentro de campo e a esperança do retorno da democracia como um só título, sentimento que nem a banda militar que tocava no estádio ou a vontade dos tiranos poderia calar:

“Se va acabar
Se va acabar
La dictadura militar!”.

Jornalista graduado pela FACHA. Gaúcho que vive no Rio (mais um). “Goleira” é o conjunto de traves, “gol” é quando a bola entra. Tem uma queda pelo futebol cantado em castelhano e geralmente joga melhor quando ninguém está vendo. Amante de futebol, música, história, cinema, fotografia e apaixonado pelo jornalismo. Do pescoço pra baixo, tudo é canela.

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