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Aquele Nacional de 1988

O último título mundial de um clube charrúa

Não era um ano para passar em branco, mas para feitos ou proezas [La Gesta]. O Decano havia se classificado para a maior competição sul-americana de clubes com a última vaga uruguaia. Foi vice para o Montevideo Wanderers na Mini Liga Pré-Libertadores, enquanto o Peñarol entraria avançado na competição por ter sido o campeão do ano anterior. Para amenizar a dor dos bolsos ou tricolores, torcedores do Nacional, seus rivais carboneros — do técnico Óscar Tabárez e do atacante Diego Aguirre no título de 1987 — após derrotarem o América de Cali na decisão, sucumbiram ao Porto na Copa Intercontinental de Clubes e não abriram quatro a dois em títulos mundiais. Dava para buscar o três a três em 1988.

Pausa para o contexto histórico: diferente da década de 90 para cá, em que só houve uma final envolvendo um clube uruguaio, a de 2011, em que o Peñarol perdeu para o Santos, os anos 80 eram de gala para o futebol charrúa na América do Sul. A Seleção Celeste chegou às três finais da Copa América (1983, 1987 e 1989), com dois títulos e um vice em sequência. Na Libertadores, entre 1980 e 1989, Nacional e Peñarol se revezaram em cinco finais, mostrando força em campo e aumentando o que hoje chamamos de tradição, camisa, peso e demais adjetivos para times que não estão no mais alto nível, mas que tem uma história a ser respeitada.

O técnico escolhido foi Roberto Fleitas, que vinha do título da Copa América. No entanto, o ano de 1988 começa sem Juan Ramon Carrasco, talento formado na base tricolor. Com um time sem estrelas, o Nacional foi treinado por Fleitas e contou com a chegada do zagueiro “Zorro” Revelez e do atacante Juan Carlos De Lima, este vindo do Botafogo, artilheiro da Libertadores em 1986 pelo Deportivo Quito. Durante a trajetória, chega o experiente Hugo De León, campeão da Libertadores pelo Nacional em 1980, que voltava ao Uruguai depois de seu giro brasileiro por Grêmio, Corinthians, Santos e rápida passagem pelo Logroñés (ESP).

A trajetória continental de 1988 começa e não dá respiro nem na primeira fase. O Grupo 3 é pesado, formado por uruguaios e colombianos. Montevideo Wanderers, o então tri-vice América de Cali (dos irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez Orejuela) e o Millonarios. Perfeito no Estádio Centenário da primeira fase até o último jogo, o Club Nacional passou em segundo no Grupo 3 com oito pontos conquistados (as vitórias davam dois pontos em vez de três). Ganhou em casa do América por 2 a 0, do Millonarios por 2 a 1 e do Wanderers por 1 a 0. Fora de casa, não fez e nem tomou gols nos empates contra América e Wanderers. Porém, contra o Millonarios, ocorreu “La catástrofe de Bogotá”, assim cunhada no site do Nacional a humilhante derrota por 6 a 1. Em gols tomados, a pior derrota da competição naquele ano, empatando em diferença de gols com o resultado de Sport 5 x 0 Alianza Lima (PER).

As goleadas desta edição pararam por aí. A segunda fase com dez jogos, a terceira fase com seis jogos, semifinais e finais tiveram placares justos, com cada time anotando, no máximo, duas vezes por partida. Exceção feita ao jogo de 26 de outubro, a volta da final contra o Newell´s Old Boys, quando o Nacional foi campeão com o placar clássico — gols de Vargas, Ostolaza e Hugo de León — para o delírio de oitenta mil pessoas. Mesmo sem ter ideia de que o hiato de títulos perduraria por décadas, Los Albos celebraram aquele mês de outubro de 1988 como heróis. Ao norte de Montevidéu, outra celebração acontecia com ares de Copa do Mundo. A promulgação da Constituição da República Federativa Brasileira, chamada de Constituição Cidadã, em clara alusão simbólica ao processo de redemocratização do Brasil. Outubro revelava heróis em Brasília e um herói de capa(cete) em Suzuka, com Ayrton Senna sobrepujando Prost na McLaren e abocanhando seu primeiro título mundial na Fórmula 1.

Vencido o Newell´s de Sensini, Tata Martino e um jovem Batistuta, Hugo de León — que antes pensara em aposentadoria — ergua a Taça da Libertadores e levanta vôo com seus companheiros, tendo o Japão como destino. Representavam a América do Sul e o desejo mais íntimo do seu torcedor de empatar em títulos mundiais com seu rival aurinegro. Pressão externa e pressão exercida pela escola holandesa de Guus Hiddink e seu PSV que tinha o belga Eric Gerets e o holandês Ronald Koeman no setor de defesa, além de um certo baixinho comandando o ataque com arranques, dribles em direção à área adversária, gols de almanaque e, de vez em quando, chutes certeiros com o bico da chuteira.

La Gesta viria com sofrimento, depois de um empate em um a um no tempo normal (Ostolaza, de cabeça, para o Nacional e Romário para o PSV) repetido na prorrogação. Aberto o tempo complementar, Koeman, de pênalti, estava colocando a Copa Continental rumo à Eindhoven, no que foi barrado pelo herói da partida, Santiago Ostolaza (novamente de cabeça), que aos 119 minutos de batalha, devolveu a fé aos uruguaios. Fé testada duas vezes, no chumbo trocado de vinte pênaltis em sequência. Todos os vinte jogadores de linha bateram, treze converteram. O dinamarquês Soren Lerby foi o quinto a bater pelo PSV. Era fazer e ganhar por quatro a dois. Holanda, Dinamarca e a torcida do Peñarol bateram juntos com Lerby, mas acertaram o travessão de Seré. Hugo De León, barba irretocável e camisa branca de mangas compridas para dentro do calção, foi o último a bater e manteve Los Albos vivos para as batidas alternadas. Chega a vez de Eric Gerets, o já veterano lateral direito da seleção Belga, que vê sua penalidade ser espalmada por “Jorgito” Seré. “Chango” Saldanha se candidata a vilão, perdendo a oitava cobrança e mantendo o empate em cinco a cinco. O herói Ostolaza converte, Adick Koot, também. Faltava um jogador de linha para cada time, era a disputa de pênaltis que melhor dividia a responsabilidade em uma final; todos bateriam. Van Aerle vai para o décimo pênalti holandês e vê Seré rebolando para seu canto direito, apontando para o canto direito e avisando que lá pularia. Van Aerle bateu lá, Seré pegou mais um. Coube a Tony Gomez fazer explodir a torcida uruguaia. Van Breukelen avisou que iria para seu canto esquerdo, Tony Gomez bateu onde o arqueiro pediu, mas com força e altura necessárias para entrar para a história.

“Nacional del mundo, carajo!”, se esgoelou o narrador da transmissão uruguaia. La Gesta cumprida. O Nacional buscou seu terceiro título mundial e sua torcida voltou a encarar os carboneros de igual para igual. O último título mundial uruguaio foi um parto e se tornou balzaquiano.

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