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Nada além do que se é

Houve uma vez a história de um país que jogaria um Mundial sob os olhares sempre extasiados dos torcedores locais. Um Mundial trazido àquela pátria quase que pela ponta da faca de um governo que — covardemente — planejou usar a indomável paixão futebolística de seu povo para tomar, como suas próprias, as glórias de um triunfo esportivo em casa. É claro que todos queriam a taça. Mas o troféu dessa conquista só poderia ser erguido por aquele que se resignasse a recebê-lo das mãos sujas de sangue de um assassino torturador que levou o país a viver os momentos mais hediondos de sua história. Após o baile argentino contra os holandeses, Daniel Passarella resignou-se.

Quando finalmente detém em mãos firmes a honraria máxima dos capitães, Passarella provavelmente não se importa com o simbolismo envolvido no ato de recebê-la diretamente das mãos de Rafael Videla. Mas quem poderia culpá-lo? Ele era o capitão da Argentina, jogando uma final de Copa do Mundo em seu país, precisamente no estádio do River Plate, que defendeu durante nove de seus dezesseis anos de carreira. Não havia razões para não deixar-se tragar pela loucura pulsante que só é concedida àqueles que se consagram campeões mundiais em solo pátrio. O capitão evitou movimentos de conotação política e preferiu pensar estritamente na memória que incutia em seus torcedores enquanto praticava o gesto que o credenciou à imortalidade.

O glorioso momento sonhado por onze em cada dez capitães nacionais caiu no colo de Passarella após a renúncia daquele que lealmente vestia a braçadeira de capitão argentino até poucos meses antes do Mundial. Jorge Lobo Carrascosa rejeitou a possibilidade de entrar no panteão dos imortais por não sentir-se capaz de igualar a abstração romântica praticada por seu substituto na entrega do troféu. As razões eram as mais diversas, segundo ele próprio, e começaram a atormentar-lhe o sono durante a disputa da Copa do Mundo na Alemanha, quatro anos antes.

Carrascosa era um lateral-esquerdo de propriedades defensivas e técnica notável. Foi para a Copa de 1974 na condição de reserva, mas chegou a atuar nas duas últimas partidas da Argentina no torneio: entrou nos minutos finais da derrota por 2 a 1 para o Brasil e foi titular no empate em 1 a 1 com a Alemanha Oriental. Naquela ocasião, ele vestia a camisa 7 — número pouco usual para a dorsal de um lateral-esquerdo, especialmente na Argentina, onde é convencionado o número 3 para os jogadores da posição.

Para avançar à segunda fase daquele Mundial, a Argentina precisava vencer o Haiti e torcer por uma vitória da já classificada Polônia sobre a Itália. Foi então que alguns dos jogadores argentinos apresentaram um plano: pagariam aos poloneses incentivos financeiros para que derrotassem os então vice-campeões. Carrascosa não viu com bons olhos a negociata arranjada entre os companheiros. Ele simplesmente não acreditava que alguém pudesse jogar melhor só porque receberia mais dinheiro para isso.

Mesmo desgostoso, continuou jogando o bom futebol que o fez capitão natural da Argentina nos anos vindouros — se distinguia por sua coerência, generosidade e fidelidade a seus princípios. Por essas qualidades, despertava admiração em seus companheiros, que pareciam não poder imaginar a braçadeira sob posse de outro que não fosse Jorge Carrascosa.

Mas o futebol apresentava alguns problemas diametralmente opostos aos impolutos princípios de ética, moral, dignidade e honra aos quais Jorge tão devotamente se apegava para tomar decisões. Ele jamais se conformou com a filosofia de “vencer a todo custo” — parte indissociável da idiossincrasia do futebol argentino, apregoada em suas mais remotas várzeas, e que conheceu seu momento máximo com Carlos Bilardo, lamentavelmente lembrado pelos brasileiros muito mais como o treinador que deu sua anuência para o episódio da “água batizada” no Mundial de 1990, do que como o incontestável conquistador da Copa de 1986.

Entre arranjos e casos de doping, pênaltis comprados e violência por parte de jogadores e torcidas, Carrascosa sentia que não era capaz de continuar a respirar naquele sufocante ambiente do futebol: “Que tal a sensação de saber que você vai ser campeão porque o juiz vai lhe dar um pênalti?” Não foram poucas as vezes em que lhe passaram pela cabeça pensamentos que o levavam a refletir sobre abandonar os gramados. Mas pode-se dizer que a instauração da ditadura militar na Argentina foi um dos fatores que alimentaram a decisão fatal de encerrar a carreira apenas um ano após a disputa do Mundial em casa.

Quando Rafael Videla aplicou o golpe militar que o alçou ao poder em 1976, Jorge Carrascosa já era o capitão da seleção armada por César Luis Menotti. Mais que isso: era homem de confiança do treinador, que costumava dissuadi-lo de pôr em prática quaisquer planos oriundos daquelas idéias de se retirar do futebol. É irônico que o grande símbolo do menottismo acabou não triunfando com ele.

Um ano antes da aguardada Copa do Mundo em solo argento, a ditadura fazia uma de suas primeiras intervenções no meio futebolístico. A polícia secreta a serviço de Videla seqüestrou, torturou e manteve sob sua custódia num centro clandestino de detenção o então goleiro do Almagro, Claudio Tamburrini. As acusações aludiam vagamente a comportamentos subversivos, mas nem mesmo Tamburrini soube muito bem os motivos que o levaram àquela detenção — que teria durado mais de quatro meses se ele não tivesse escapado depois de pular de uma janela durante um temporal. A experiência levou o ex-goleiro a escrever um livro sobre o caso. Sem a mesma sorte, Carlos Alberto Rivada desapareceu na madrugada seguinte à última partida que disputou pelo Huracán de Tres Arroyos contra o Estación Quequén. Seu paradeiro é desconhecido até os dias de hoje.

No ano do Mundial, a tensa atmosfera política se misturava à ebulição futebolística, mas essas duas vertentes coincidiam ao menos em um pensamento: a Argentina tinha de vencer aquela Copa. Vencer a todo custo. E esse peso todo, essa pressão covarde e desproporcional, El Lobo sequer se esforçaria para suportar: “Não estava de acordo que o Mundial fosse jogado como algo de vida ou morte”, contou em entrevista à publicação argentina NOS Digital. “Um jogo de futebol é simplesmente isso e nada mais. Numa partida, não está o amigo, nem o irmão, nem a pátria, nem a vida. Não se deve confundir as coisas.”

Quando anunciou a lista de convocados para o tão sonhado Mundial em casa, César Luis Menotti já sabia que não poderia contar com seu capitão na empreitada para a qual se prepararam durante os últimos quatro anos. No momento em que transmitiu o nome do último dos 22 jogadores mundialistas, Jorge Carrascosa já se havia recolhido em Mar Del Plata para desfrutar do conforto de sua consciência, ao menos até perceber que o problema não era o futebol, mas a própria sociedade: “O esporte deve proteger a personalidade de cada ser humano e também servir para que se aprenda a ganhar e a perder. Por que é preciso ganhar sempre? Competir com dignidade e lealdade muitas vezes se capitaliza mais na derrota do que no triunfo. Hoje é tudo competição e desafio, seja numa escola ou nas categorias de base de um clube.”

Veja lá se um homem com tão claras convicções se resignaria a receber a Copa do Mundo das mãos sujas de sangue do assassino torturador de seu país. Nada contra a poética resignação de Passarella. Mas, como o próprio Carrascosa defende — com simplicidade tamanha que torna antipática qualquer contestação —, “primeiro vem o homem, depois a profissão”. Ele renunciou à imortalidade apenas pelo prazer e pela liberdade de ser unicamente quem é.

Jornalista por formação, músico por insistência. Jamais desperdiçou uma cobrança de pênalti e lamenta que a torcida brasileira não possua gritos de guerra intimidadores para jogos da Seleção. Otimista por excelência, ainda acredita no futebol-arte, se diverte com o Brasileirão e se emociona com jogadores emocionados.

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