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Não se mexe na coroa

Por que tantos clubes espanhóis recebem o título Real e qual é o clube do regime franquista?

Um processo jurídico movido pelo Real Madrid CF contra uma pequena loja de roupas pedia uma indenização de €1.500. O motivo é uma camisa de um clube fictício: El Madrid Republicano. O escudo desse time é similar — pra não dizer idêntico — ao utilizado pelos Merengues entre 1931 e 1940. O mesmo círculo com uma faixa diagonal lilás e as três letras, ”MCF”, sobrepostas em alusão ao Madrid Club de Fútbol, porém sem a coroa, símbolo monárquico concedido pela Casa Real espanhola ao clube em 1920.

O clube da capital espanhola já utilizou a mesma denominação da equipe “fictícia” entre 1902 e 1920 e durante o período que compreende a Segunda República e guerra civil [1931–1939]. O clube — que só deixou de se chamar Real durante a proibição de terminologias que aludissem à monarquia — reclamou os direitos sobre esse nome e escudo.

Como contou Pedro Águeda em ElDiario.es, a justiça negou o pertencimento do nome “Madrid” e do escudo sem a coroa ao Real Madrid CF. O juiz declarou que o clube não pode querer apropriar-se do nome Madrid, e que os valores monárquicos e republicanos são antagônicos, portanto o processo foi indeferido, e não cabe recurso, conforme a sentença em maio de 2017.

Outro caso envolvendo o Real Madrid e a capacidade de se adaptar comercialmente, de acordo com a conveniência, foi uma publicidade do clube e de um de seus patrocinadores, em um mercado distante da Espanha. O Real Madrid seguiu os passos do Manchester United no início dos anos 2000 e foi atrás de novas receitas que pudessem financiar os galacticos Zidane, Figo, Ronaldo, Beckham, Roberto Carlos, Raúl e cia.

Em 2014, o clube mantinha a política comercial no mercado asiático, oriente médio, além de outros acordos globais ou regionais, e anunciou um patrocínio do banco de Abu-Dhabi, o Nbad. Para que a marca pudesse ativar o patrocínio em seu território, nos Emirados Árabes Unidos, um pequena grande mudança no escudo foi necessária.

A pequena cruz presente na parte superior da coroa do escudo, que simboliza a relação entre a monarquia espanhola e a igreja católica, foi removida, afinal, trata-se de um país fundamentalista muçulmano. O mesmo foi visto no Catar, em uma publicidade da Adidas, noticiado no Globoesporte.com, por Thiago Dias.

Já a marca de roupas 198, empresa acusada de delito contra a propriedade industrial, também lançou uma camisa da Espanha Republicana, com as cores da bandeira do período e o brasão nacional da época. A idéia da marca em ambos os modelos era — justamente — manifestar valores opostos aos monárquicos.

A camisa republicana, com a cor roxa em uma das faixas, porém, voltou a ser polêmica quando a Adidas lançou a camisa da Espanha para a Copa do Mundo de 2018. Curiosamente, isso aconteceu em uma época em que o separatismo catalão ganhou força midiática internacional, com o referendum de 1º de outubro de 2017. Os valores da monarquia parecem determinar, em muito, a forma de pensar da sociedade espanhola, ou pelo menos de grande parte dela.

Por que tantos clubes levam o nome Real na Espanha?

O Real Madrid é, sem dúvidas, o mais conhecido deles, mas são muitos. Real Sociedad, Real Zaragoza, Real Betis, Real Valladolid, Real Oviedo. Alguns são chamados sem o “título de nobreza”, outros levam a realeza no nome, mas quase nunca são chamados assim, tal como o [Real Club Deportivo] Espanyol e o [Real Club] Deportivo de La Coruña. E foi justamente pelo clube da Galícia que tudo começou.

Em outubro de 1908, La Junta Directiva decidiu esforçar-se para conseguir o título de nobreza. Foi feito um pedido formal à Casa Real, através do deputado Gabino Bugallal y Araujo. O pedido outorgava ao rei Alfonso XIII a presidência honorária do clube.

O pedido foi aceito e, quatro meses depois, em fevereiro de 1909, o clube pôde se proclamar oficialmente Real, além de usar a coroa em seu escudo. O mesmo ato foi repetido sucessivamente pelos clubes que também pretendiam ter a denominação. Em 1910, foi a Real Sociedad que conseguiu o título.

Aitor Lagunas, editor da revista Panenka, falou com a Corner sobre alguns clubes que adotaram o nome. “Aqui na Espanha, naquele momento de Afonso XIII, que era o avô de Juan Carlos I, era um rei que não tinha muitas coisas pra fazer e gostava muito de futebol. Apoiou o esporte de alguma maneira e devolveram esse interesse e preocupação com essa homenagem ao rei. O caso da Real Sociedad é de uma cidade com a qual a Família Real tinha muitos vínculos, San Sebastián era uma cidade a que iam veranear”, emendou Lagunas.

Copa de Su Majestad el Rey

O embrião da competição foi em 1902, quando organizaram a Copa de la Coronación, oficialmente chamada de Concurso Madrid de Foot-ball. Um torneio amistoso que fazia parte das celebrações do início do reinado de Afonso XIII, quando ele atingiu a maioridade [16 anos!]. O Bizcaya, um combinado formado pelo Athletic Club e o Bilbao Foot-Ball Club, foi o vencedor dessa primeira copa de nível nacional da Espanha.

No ano seguinte, a competição ganhou teor oficial e passou a ser chamada Copa de Su Majestad el Rey, ou simplesmente Copa do Rei, como ficou conhecida através dos anos. O campeão era chamado de Campeón de España, por ser o único torneio nacional até a tentativa de criação da Liga Española de Foot-Ball, que não deu certo, mas abriu caminho para a formação da Primera División na temporada 1928/29.

No entanto, a simbologia do título de realeza não reflete — necessariamente — o matiz ideológico ou o perfil socioeconômico dos torcedores ou sócios dos clubes. “No caso do Espanyol, é onde pode haver uma origem ideológica. É um dos casos em que melhor se manteve essa linha, sempre, durante toda a história. Antes da Guerra Civil já tinham uma rivalidade com os seguidores mais catalanistas do Barça e os mais espanholistas do clube, que transcende totalmente o futebolístico. Após a Guerra Civil, essa rivalidade se manteve. Depois da era Franco, com a transição democrática, a partir de 1975, isso diminuiu bem, mas com o ressurgimento do debate identitário e da independência da Catalunha, voltou de alguma maneira. Não pode ser feita uma separação limpa entre seguidores de um ou outro clube segundo a ideologia. Creio que há seguidores do Barça, catalães, que querem que a Catalunha continue sendo parte da Espanha, e também há seguidores do Espanyol que são independentistas. De fato, houve uma assembléia do Espanyol por volta de 2012, em que um dos sócios mostrou uma bandeira separatista com as cores do clube e se formou um escândalo brutal, pois a maioria dos outros sócios eram totalmente contrários a esse processo”.

O Espanyol tem seu nome oficial em catalão, há uma certa dicotomia e talvez essa seja a idéia, de transmitir ao mesmo tempo catalanismo e espanholismo. Mas certamente o nome do clube gerou alguma discussão: “Em princípios dos anos 90, se especulou a possibilidade de que o Espanyol mudasse de nome, e me lembro que um dos nomes que foram levantados foi Olympic de Catalunya. Tratando de alguma maneira de se desligarem absolutamente de qualquer idéia política ou associação com essas idéias que o Espanyol teve no seu passado”, concluiu Aitor sobre a relação entre os nomes dos clubes e as ideologias políticas na Catalunha.

Já no País Basco, região onde o separatismo já chegou a extremismos, Aitor Lagunas falou que não há uma relação direta e clara nas denominações dos principais clubes bascos: “Uma grande parte dos torcedores da Real Sociedad são nacionalistas bascos e falam em Euskara o nome do clube, Erreala.”

Aitor expandiu a questão para as demais regiões da Espanha: “Nem em Astúrias, que é uma comunidade muito vinculada com a Monarquia, pois afinal o herdeiro da Coroa é o príncipe de Astúrias, tal como no Reino Unido é o príncipe de Gales. Os principais clubes asturianos — Real Oviedo e Real Sporting de Gijón — não têm uma relação ideológica. Oviedo é uma cidade mais burguesa, e talvez mais conservadora. Já Gijón é uma cidade industrial com uma população muito mais operária. Há um outro clube, o Real Avilés. Mas não vejo essa relação com a Monarquia.”

Na terra do ditador espanhol Francisco Franco, Lagunas não enxerga nenhuma associação dos principais clubes galegos: “Na Galícia, tanto o Celta quanto o Deportivo de La Coruña são ‘Reais’ e os dois têm uma massa de seguidores muito galleguistas, portanto não são lugares de ideais mais monárquicos.”

Na Andaluzia, Lagunas plasmou o principal caso entre os clubes considerados de elite, em que há uma incoerência da simbologia: “Em Sevilha, vamos encontrar dois clubes, um com uma denominação real e o outro sem. No entanto, o Sevilla Fútbol Club é um clube tradicionalmente dos senhorios, da burguesia local, mais aristocrático, enquanto o Real Betis Balompié é o clube dos trabalhadores. Isso mostra que são heranças do passado de clubes com mais de um século de vida.”

Nas Ilhas Baleares, onde o idioma falado é uma variação do catalão, o principal clube foi fundado com o nome do monarca entusiasta do futebol no país: “No caso do Mallorca, é curioso, pois o clube se chamou Afonso XIII”, frisou Lagunas em tom bem humorado.

A relação é histórica e precisa ser contextualizada, como observou Aitor: “Obviamente, no início do século XX estar bem com a Família Real era algo que certa parte da burguesia podia interpretar como algo positivo. Em termos gerais, no século XXI, na sociedade espanhola, o peso, a importância e a simpatia que a Casa Real gera é pra baixo. Mas também é verdade que nenhum clube pleiteou renunciar à Coroa. Mas nenhum outro pediu para usar a Coroa no escudo, entre os que não tinham.”

Era a vez de Lagunas falar de seu time de coração, da sua cidade natal: “Eu, como torcedor de um clube que leva o nome Real — Zaragoza —, não me aporta nada. Sou republicano, creio que a melhor maneira de governar um país é essa. E não me causa nada que meu time leve uma coroa no seu emblema ou tenha uma denominação monárquica. Também entendo que seja histórico. É muito polêmico cogitar a troca do nome. E de alguma maneira forma parte da idiossincrasia do próprio clube.”

No entanto, o Zaragoza foi o último, entre os clubes considerados de elite da Espanha, a requisitar o título de nobreza. Além disso, o clube foi fundado justamente no período republicano. “No caso do Zaragoza, é uma coisa estranha. Pois nasceu na República, quando nasceu já não havia um rei. Durante os anos da República, de 1931 a 1936, nesses cinco anos, todos os times que anteriormente já tinham a denominação Real, como os que falei, tiveram que trocar de nome. O novo regime republicano entendia que não podia haver nenhum tipo de apologia à Monarquia. O Real Madrid passou a se chamar “Madrid”. A Real Sociedad passa a ser Donostia, que é a denominação em basco da cidade de San Sebastián. Já o Zaragoza é fundado em 1932, em plena República, e outorgam o título Real em 1951, quando não existia um rei na Espanha. Estava Franco no poder, um ditador, até 1975, quando morre e proclamam Juan Carlos I como Rei. É muito estranho, pois entre os grandes clubes, nenhum nasceu no período republicano, só o Zaragoza, e recebe a denominação Real quando não havia um rei. Apesar de tudo isso, uma grande parte dos torcedores, quando os meios televisivos falam do Zaragoza, sempre deixa um sabor ruim, pois parece que omitem uma parte importante do nome, e que o correto seria Real Zaragoza, como se houvesse um certo orgulho em se chamar assim. Mas repito, isso não tem nada a ver com a ideologia do torcedor, talvez o cara seja republicano ideologicamente, mas gosta que o clube se chame Real Zaragoza”, sintetizou Lagunas.

Com o passar do tempo, algumas características atribuídas a uma torcida ou um clube se perdem: “É um elemento histórico com seu reflexo nos escudos e nas denominações dos clubes. Mas no caso de Madri, é impossível traçar uma diferença sociológica entre os torcedores do Real Madrid e do Atlético de Madrid. Já é possível ver claramente isso com relação ao outro time da capital, que é o Rayo Vallecano. Tanto o Real quanto o Atleti são muito transversais. Historicamente, tudo bem, a torcida colchonera tinha uma base mais trabalhadora e mais humilde, mas isso não existe mais. E, segundo se sabe, Felipe VI tem fama de ser torcedor do Atlético de Madrid, um time que não leva a coroa no escudo. O primeiro jogo que ele escolheu levar a sua filha, que pode vir a ser rainha, a Leonor, se ainda existir a Monarquia em 2035, foi uma semifinal de Champions League entre Atlético de Madrid e Bayern, em 2016”, finaliza Lagunas.

Como se não bastasse, a Federação Espanhola de Futebol, se chama oficialmente: Real Federación Español de Fútbol, e claro, a figura de Afonso XIII foi fundamental para a fusão entre a Federación Española de Clubs de Football e a Real Unión Española de Clubs de Foot-ball, já que a FIFA não permitia que países filiados tivessem duas federações. Coube ao rei interceder, para que a filiação fosse aceita, finalmente, em 1913.

O Clube do Regime

O clube monarca, e ao mesmo tempo relacionado ao ditador Franco, é o Real Madrid. No entanto, com o final da Guerra Civil, o clube que sofreu interferência direta do novo regime foi o Atlético de Madrid. Durante o conflito entre republicanos e falangistas, um clube com uma massa de seguidores mais inclinados à direita, eram presididos por defensores da república, como o caso do próprio Real Madrid, naquela época chamado de Madrid Club de Fútbol.

Era uma época em que os clubes uniam inimigos, ou em outra perspectiva, as torcidas se dividiam entre republicanos e falangistas. Assim como famílias e amigos se viram em lados opostos.

Durante a Guerra Civil, um time de aviadores falangistas que acompanhavam Franco onde ele se instalava, primeiro em Salamanca e depois em Zaragoza, começou a se destacar no futebol amador. Com o final do período de caos político e social, o Club Aviación foi alocado para a capital Madri, juntamente com o General Franco após seu triunfo, em 1939.

Ficou o desejo de seguir com a equipe, mesmo em tempos de estabilidade. Franco nunca tinha se mostrado amante do futebol, como relata Phil Ball no livro Morbo. Mas para competir profissionalmente sem escalar todas as divisões até a Primera División, era preciso escolher um clube que se fundisse com o Club Aviación. Houve uma negociação com o Real Madrid, mas que durou pouco, dada a resistência dos dirigentes merengues.

Fundado como Athletic Club de Madrid, por bascos que rumaram à capital espanhola, o clube recebeu a proposta de outra maneira. Oficialmente, o Athletic disputaria segunda divisão e sem estádio, pois o Metropolitano foi destruído durante as batalhas do cerco à Madri. Por isso, os dirigentes viram com bons olhos a associação com o regime vencedor. Em 4 de outubro de 1939, a união foi oficializada. O Athletic Club de Madrid passaria a se chamar Club Atlético Aviación.

O Atlético passou a ser controlado por militares, que trouxeram uma organização que o clube não dispunha. Além disso, créditos financeiros com condições especiais, que permitiram a reconstrução do Metropolitano. A fusão permitiu que reunissem os melhores jogadores dos dois plantéis, e todos os jovens com idade para prestar o serviço militar que tivessem algum potencial acabavam indo para a anova agremiação.

Phil é nascido no Canadá em 1957 e radicado na Espanha desde o final da Guerra do Golfo. Ele conta no livro que o General Moscardó, homem de confiança de Franco, instaurou um play-off de permanência na Primera División entre o Atlético Aviación e o Osasuna. Em jogo disputado em Valência, os Colchoneros venceram por 3 a 1 e garantiram vaga na divisão de elite do futebol espanhol.

Como se não bastasse a permanência na Primera División, o Atlético Aviación conquistou o título! O time gozava de um orçamento anormal, às custas do governo e contava benefícios como viagens de avião para partidas fora da capital, enquanto o país juntava seus cacos em busca de uma reconstrução da unidade nacional em uma Europa que antecedia a Segunda Guerra Mundial.

Essas vantagens em relação aos rivais, aliada às baixas que muitos jogadores dos outros times sofreram — seja por mortes, prisões ou fugas —, permitiram que o clube conquistasse o bicampeonato em 1941 e um terceiro lugar em 1942.

A partir de 1943, o cenário mudou. A figura absoluta de Franco reinava sem maiores forças de resistência e, mesmo com a neutralidade da Espanha na Segunda Guerra Mundial, o ministro da defesa de Francisco Franco, o General Yagüe, começou a reduzir bruscamente os subsídios estatais ao clube. Nas três temporadas seguintes, o título ficou tão distante que beirou o rebaixamento. Barcelona e Athletic Bilbao recuperaram a defasagem esportiva e a unidade entre — o que viria a se chamar — o Atlético de Madrid e o Club de Aviación deixou de fazer sentido, quando em 1947, houve a ruptura oficial. Em 1950, o clube voltou a conquistar o título de liga, graças sobretudo a Helenio Herrera, que já mostrava do que seria capaz de fazer no futuro, e repetiu o feito em 1951.

Em 1952, o técnico franco-argentino deixou o clube e abriu-se um hiato esportivo até os anos 1960, quando voltaria a conquistar um campeonato espanhol em 1966. A essa altura, o Real Madrid já havia levantado seis Copas dos Campeões e se tornado um perfeito embaixador do franquismo. Mas foi uma relação quase inversa, na qual o regime se associou ao clube e não o contrário, como no caso do Atlético Aviación, um clube, de fato, do regime.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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