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O avô da era dourada turca

O responsável pelo brilho da lua e da estrela em 2002

Em 1996, a Turquia se qualificou para disputar o Europeu de selecções na Inglaterra. Era a primeira participação numa competição internacional desde que um menino italiano de 14 anos, chamado Franco Gemma, retirou, em 1954, a bola com o nome do país em um sorteio, participação esta que marcou o início de uma idade de ouro do futebol turco. Até 2008, os otomanos lograram o quarto lugar em um Mundial, umas meias-finais de um Europeu, viram pela primeira e única vez um clube seu vencer um torneio continental e albergaram igualmente uma das finais européias mais míticas da história. Toda essa revolução começou a forjar-se muito antes, a finais dos anos 80, pelas mãos de um alemão revolucionário, que conseguiu transformar outra nação quase amadora em uma das maiores potências mundiais. A grande diferença entre a narrativa dinamarquesa dos anos 80 e a turca dos anos 90 é que Sepp Piontek decidiu não concluir a sua obra: o pai da Dinamarca acabou sendo o avô da Turquia.

Sob o sol ardente de Querétaro, no Mundial de 1986, a explosiva selecção dinamarquesa, a quem alguns jornalistas tinham baptizado como Danish Dynamite, perdeu a possibilidade de fazer história ao realizar um daqueles jogos tão típicos dos times românticos. Para muitos, a equipe era a grande favorita ao título, ao lado da França de Platini e do Brasil de Zico. Nenhum deles chegou sequer à final, mas o fracasso dos dinamarqueses foi ainda pior, ao cair nas oitavas, goleados por 5 a 1, de virada, pela Espanha. Foi uma derrota muito de acordo com a filosofia de jogo ofensiva do seu treinador, o homem revolucionário do futebol do menor país da Escandinávia. Quando chegou para treinar o combinado nacional, em 1979, Josef “Sepp” Piontek encontrou um futebol quase amador. Diversos clubes tinham jogadores que não eram profissionais, e os poucos que se destacavam, como o mítico Allan Simonsen, desde cedo tinham de ir para clubes alemães, belgas, holandeses ou suecos, se quisessem prosseguir com as suas carreiras. Sete anos depois, o conjunto chegou ao México no lote dos favoritos, uma das transformações mais rápidas e brilhantes da história do futebol moderno. Claro que a Dinamarca — que já tinha perdido contra a Espanha nas meias-finais do Europeu, dois anos antes, e que em 1988 voltaria a sucumbir ante os espanhóis na fase de grupos do Euro — nunca ganhou nada, porém o seu estilo de jogo atacante, onde a utilização dos dois laterais ofensivos em um 3-5-2 era bastante diferente ao visto à época, antecipava o que viria a ser a Turquia de 2002, cativando o coração dos adeptos para sempre.

Depois de falhar o apuramento para o Mundial da Itália, em 1990, Piontek entendeu que o seu ciclo havia terminado, coincidindo com a retirada de vários dos seus principais atletas. Ironias da vida, a pequena Dinamarca, com um jogo feio e defensivo e chegando de convite, sagrou-se campeã da Europa apenas dois anos depois — a vida é assim. A essa altura, no entanto, o alemão estava ocupado com outro projecto que lhe parecia igualmente estimulante: repetir a mesma fórmula, trabalhando desde o zero, desta vez em um país com um potencial muito superior. Piontek queria lançar as bases da ascensão do futebol turco, que considerava um dos grandes gigantes adormecidos da Europa.

Foi precisamente antes do mundial de 90 que os dirigentes da Federação Turca abordaram o treinador. O país tinha perdido a qualificação para o torneio na derradeira jornada e a última experiência em competições internacionais havia sido 36 anos antes. Algo era necessário para activar um país de mais de setenta milhões de habitantes e, se o alemão tinha alcançado um feito enorme em uma nação tão pequena e sem tradição como a dinamarquesa, o que não poderia fazer com um país imenso como a Turquia? Decidido a aceitar o desafio, sobretudo porque o salário era milionário e o alemão passava por problemas com as finanças dinamarquesas, Piontek trocou a fria Copenhague pela ardente Istambul, preparando uma revolução bem mais duradoura do que a sua passagem. Ironicamente, o seu último jogo à frente do comando dinamarquês foi contra os turcos.

O primeiro pedido de Sepp à Federação otomana foi ter ao seu lado um ajudante local, falante de alemão. Ele já sabia quem queria, mas, por respeito, deixou aos dirigentes a possibilidade de se pronunciarem. Na realidade, Piontek falara com o seu amigo, o antigo seleccionador germânico Jupp Derwall, que na sua passagem como técnico do Galatasaray, no final dos anos 80, contou com a ajuda de um jovem técnico promissor chamado Fatih Terim. Antigo internacional, com mais de cinqüenta jogos pela Turquia, Terim era um nome reputado no meio — apesar da sua juventude — e conhecia perfeitamente a metodologia de trabalho alemã. Diante da possibilidade de trabalhar ao lado de um visionário como Piontek, deixou o seu cargo no modesto clube Göztepe para assumir o posto de adjunto da selecção principal, juntamente sendo técnico principal dos sub-21, pois, para Piontek, era fundamental cimentar o futuro do futebol turco desde a geração mais jovem. Contava que as suas idéias, partilhadas com Terim, fossem postas em prática muitos antes que os futuros jogadores alcançassem a seleção principal, tal qual havia feito com a Dinamarca. A realidade que encontrou na Turquia, no entanto, era drasticamente oposta à vivida por ele na Dinamarca, no final dos anos 70.

Enquanto no país escandinavo Piontek se deparou com futebolistas que passavam mais horas no bar do estádio nacional do que a treinar — utilizando este espírito colectivo para forjar uma família, com uma série de regras decididas em grupo —, assim que aterrou na Turquia o técnico foi surpreendido pelo mundo surrealista onde os jogadores, em alguns casos, traziam os seus problemas dos balneários dos clubes para a selecção. O primeiro a sentir na pele as mudanças foi o consagrado goleador Tanju Çolak. Bota de Ouro em 1988, Çolak era um renomado goleador, mas um futebolista conflituoso. No dia do primeiro treino, Sepp reparou que Tanju levava uma arma na cintura. Ao perguntar-lhe para que vinha armado para uma concentração da selecção, o jogador encolheu os ombros e culpou a pressão da máfia local. Ele durou pouco tempo na lista dos convocados — e não foi o único. O objectivo prioritário converteu-se em criar uma nova geração, mais do que aproveitar a existente, com todos os vícios trazidos de um futebol que vivia em um mundo especial, reflexo da crua sociedade turca. Nos três anos seguintes com Piontek, estrearam-se com a selecção absoluta nomes que mais tarde se converteriam em referências continentais, como Bülent Korkmaz, Alpay, Rüştü, Emre e o goleador Hakan Şükür, todos eles jovens promessas sem grande impacto como profissionais, mas que foram crescendo inspirados nas conversas e ensinamentos do alemão, sempre com a ajuda de Terim, que actuava de tradutor e confidente.

A revolução, contudo, apanhou a maioria dos atletas ainda na sua fase de formação, e isso reflectiu-se na performance da equipa principal. Depois de duas fases de qualificação — em 1988 e 1990 — em que os turcos tinham ficado às portas do apuramento, a campanha para o Europeu de 1992 a disputar na Suécia fracassou. Os turcos foram sorteados em um grupo com Polónia, Irlanda e Inglaterra, em que apenas uma equipa seguiria para a fase final. No primeiro jogo, a 17 de Outubro, em Dublin, os otomanos levaram uma importante lição e perderam por 5 a 0, para uma das selecções sensações do anterior Campeonato do Mundo. Duas derrotas para a Polónia nas jornadas seguintes minaram as chances de classificação para o torneio, porém foram nos outros dois duelos com a eventual vencedora do grupo, a poderosa Inglaterra, que o trabalho de Piontek se fez notar realmente pela primeira vez.

Os turcos perderam os jogos pelo placar mínimo, porém mostraram em diversos momentos serem superiores aos ingleses, com lampejos de jogadas que ecoavam a mítica Dinamarca de Sepp. Consciente de que apenas a futura geração colocaria em prática todas as suas lições, Piontek dedicou grande parte de 1992 a discutir com a federação como melhorar as condições de treino em Istambul, ao mesmo tempo em que procurava encontrar uma forma de que o governo ajudasse na criação de pequenos centros de estágio, espalhados pelo país, para localizar e aprimorar as melhores promessas de cada cidade, sobretudo naquelas zonas onde não havia clubes disputando a liga nacional. Igualmente determinante foi a sua própria experiência na Alemanha. O técnico sabia como poucos o impacto dos turcos na sociedade alemã e foi então que, em concordância com a Federação, criou uma equipa de recrutas internacionais filhos de turcos emigrados. Durante meses, vários treinadores sondaram as comunidades turcas nas principais cidades alemãs, à procura de descobrir quais eram as jovens promessas locais com ascendência directa, habilitadas a, portanto, serem chamadas à selecção principal. O primeiro nome de uma larga lista, até os dias de hoje, foi o de Yıldıray Baştürk, então a despontar no Bayer Leverkusen, que optou por representar o país dos seus pais em detrimento daquele em que nascera. Desse modo, Piontek fincou as bases do que viria a ser a grande geração do futebol turco. Mas se no caso da Dinamarca teve tempo para errar, falhando duas qualificações antes de finalmente levar o país a disputar o Europeu, em 1984, o mesmo cenário não se repetiu na Turquia. O fracasso de 1993, em carimbar a passagem para o Mundial disputado nos Estados Unidos, aumentou a contestação de vários dirigentes na sua figura. Homem tranqüilo, conhecedor de que tinha desempenhado um papel para o futuro, Piontek decidiu sair pelo próprio pé, não sem antes recomendar que fosse Terim o seu sucessor, uma vez que conhecia não só o seu método de trabalho, mas também os jovens jogadores com quem já trabalhava há anos na sub-21, podendo promovê-los à equipa principal. Uma vez mais, a sua aposta deu certo.

Terim montou um time radicalmente diferente, repleto de juventude, mas tacticamente herdeiro dos conceitos do germânico, classificando-se ao Europeu de 1996 na Inglaterra, no qual a equipa ficou em último lugar em um grupo que incluía a Dinamarca, Portugal e a Croácia, deixando, ainda assim, uma boa impressão. Quando, dois anos depois, o técnico foi orientar o Galatasaray, levando o clube ao único título continental de um representante turco — a Copa da UEFA, conquistada em 2000 —, as sementes do trabalho desenvolvido pela dupla foram aproveitadas por Şenol Güneş, técnico responsável pela campanha otomana até às meias-finais do Mundial de 2002, caindo apenas aos pés do Brasil de Scolari. Foi o melhor resultado do país até então, superado seis anos depois,com Terim novamente no comando, logrando terminar no terceiro posto do Europeu de 2008, após a derrota nos minutos finais, contra a Alemanha. Esse momento encerrou a era dourada da selecção turca, que começara no dia em que o pacato Sepp Piontek chegou a Istambul para despertar o gigante euro-asiático. Ainda hoje, quando passeia pelas ruas da capital do país, o alemão continua a ser reconhecido e reverenciado. Terim é, por mérito próprio, o grande pai do futebol turco moderno, mas ninguém nunca esquecerá de que antes dele houve um alemão mágico, o avô que guiou a Turquia para provar o sabor da glória.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

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