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O cheiro do ralo

Para além do tradicional futebol jogado de pé em pé, de gênio para gênio, o FC Barcelona teve por décadas sua imagem associada aos movimentos políticos identificados com a vanguarda da esquerda e com o sonho de uma república independente do poder central espanhol. Cada gol barcelonista era – e de certa forma sempre será – como se a imaginada pátria da Catalunha se tornasse um grãozinho mais possível. Cada vitória é uma oportunidade que os torcedores têm para olhar bem no fundo dos olhos dos rivais madridistas privilegiados pelo regime ditatorial do general Francisco Franco – iniciado após uma sangrenta guerra civil entre 1936 e 1939 –, o que ainda atiça as rivalidades regionais dentro e fora dos gramados. Acontece que, em tempos de investimentos sem fim, a ideologia tem passado ao largo para os poderosos gestores do clube culé. Futebol é negócio – dos mais lucrativos – para todos, é claro. E é precisamente aí que o tiki-taka tem perdido cada vez mais espaço para as páginas policiais espanholas.

Quanto vale o show? — Menos de 24 horas depois da renúncia de Sandro Rosell, o novo presidente, Josep María Bartomeu, se vê obrigado a dar detalhes da nebulosa negociação que tirou o craque brasileiro Neymar do Santos: aos € 57,1 milhões declarados oficialmente, somam-se parcerias sociais e de marketing, um acordo de prioridade firmado com o clube praiano e as luvas recebidas pelo atleta. Nada explicitado anteriormente, como deveria ter sido feito. Com estas “cláusulas”, o negócio sobe para € 86,2 milhões. Fora outros componentes que aumentaram ainda mais o valor. A estranha transação recebe atenção do fisco espanhol, que entra com medidas punitivas contra o clube.

Cadê a minha parte? — O Barça inicia um processo interno de investigação para saber se Albert Valentín tentou inflar a negociação com o lateral-direito Douglas, ex-São Paulo. O então responsável pela secretaria esportiva do clube – e colaborador próximo ao ex-todo-poderoso Andoni Zubizarreta – teria oferecido € 12 milhões ao uruguaio Juan Figer, intermediário na negociação, para contratar o brasileiro. O valor que teria sido oferecido por Valentín é três vezes maior que o valor oficializado na contratação meses depois. Detalhe: a Traffic detinha 40% dos direitos federativos do atleta. Os brasileiros Henrique e Keirisson, ambos com pouquíssimos minutos em campo com a camisa blaugrana e cedidos rapidamente para outros clubes, foram outros atletas ligados à Traffic.

Espionagem — Joan Laporta nunca escondeu suas pretenções políticas. Até aí, nada de errado. Acontece que a gestão do ex-presidente acabou acusada de ter contratado a empresa Método 3, especializada em vigilância e espionagem política e individual, para cercar alguns de seus possíveis rivais. Entre eles, quatro dos vice-presidentes (Joan Boix, Joan Franquesa, Rafael Yuste e Jaume Ferrer) e até jogadores como Deco e Ronaldinho. Tudo teria sido pago com dinheiro do clube. De acordo com o jornal El País, os “investimentos” foram camuflados nos balanços fiscais. Os mais de cem informes policialescos custaram aos cofres da equipe cerca de € 730 mil.

Republicanos — No mesmo período em que o esquadrão liderado por Pep Guardiola jogava por música, exibindo orgulhosamente o logo da UNICEF em seu uniforme, a diretiva do Barcelona – sem muito alarde – selava uma parceria com o Bunyodkor, clube uzbeque dos mais controversos. O negócio foi acertado com Gulnara Karimova, filha de Islam Karímov, presidente do Uzbequistão desde 1990, e dona do conglomerado Zeromax, que alinha empresas de praticamente todas as esferas econômicas no país, da mineração à agricultura. Pelo acordo, foram pagos € 5 milhões de euros ao Barça. Em troca, a equipe deveria fazer duas partidas amistosas contra o desconhecido rival. O primeiro jogo foi disputado em janeiro de 2009 e o segundo ainda segue na promessa. Outros três milhões de euros extras foram pagos ao clube após as visitas de Messi, Puyol e Iniesta às canteras do Bunyodkor. A ONU classifica a ditadura da ex-república soviética como uma das mais sanguinárias do planeta, “onde se vê tortura como prática rotineira e com o objetivo de extrair confissões e criar medo na população”.

Até tu? — Gica Popescu, capitão do Dream Team de Cruijff, é condenado a três anos, um mês e dez dias de cárcere na Romênia, sua terra natal, acusado de extorsão, evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Os crimes teriam sido praticados durante as negociações envolvendo 12 atletas romenos negociados com clubes do exterior. O desvio, segundo as autoridades do país, chega a US$ 1,5 milhão.

Coisa antiga — O ex-presidente culé, Josep Lluis Núñez i Clemente, e seu filho, Josep Lluis Núñez i Navarro, são condenados à prisão por subornar inspetores da Fazenda espanhola, que teria feito vista grossa para o não recolhimento de € 13 milhões em impostos que deveriam ser pagos pela empreiteira da família, a Núñez y Navarro. A pena inicial da dupla é de seis anos.