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O curioso caso de Matt Le Tissier

O deus nascido em Guernsey

Sucesso no futebol normalmente é medido em troféus, glórias, gols marcados em jogos importantes e muitas partidas pela seleção do seu país. Mas se um jogador não alcançar tudo isso, ainda se pode falar que sua carreira foi um grande êxito? Pode-se dizer que foi um dos melhores que se viu jogar? Para muita gente na Inglaterra isso aconteceu no caso de Matt Le Tissier.

Le Tissier foi um jogador talentosíssimo, mas só jogou no Southampton, um clube modesto da pequena cidade de mesmo nome no litoral sul da Inglaterra, e nunca nenhuma taça sequer. Só fez oito partidas pela seleção inglesa, sendo titular em duas, nunca foi para um Mundial ou Eurocopa.

Mas pergunte a alguém que viu Le Tissier jogando e todos vão falar a mesma coisa: que ele era incrível, um fenômeno, um jogador que podia fazer tudo que quisesse com a bola nos pés. Ele trazia uma alegria para o campo e deixou muitas pessoas, principalmente os torcedores do Southampton, com muitas memórias maravilhosas de lances sensacionais e momentos inesquecíveis.

Ele mesmo falou, em uma entrevista dada ao The Guardian, que considera sua carreira um sucesso:

“Quando eu era criança eu tinha duas ambições na minha vida: uma era ser jogador profissional, e a outra era jogar pela Inglaterra. E com 25 anos de idade eu fiz as duas.”

Le Tissier nasceu em outubro de 1968, na ilha de Guernsey, uma das Ilhas do Canal da Mancha, que ficam no trecho de mar entre Inglaterra e França. Guernsey, como Jersey, a outra grande ilha do arquipélago, é uma dependência da Coroa Britânica mas oficialmente não faz parte do Reino Unido nem da União Europeia.

A localização da ilha de Guernsey no mapa

Essa condição dá à ilha a segurança de ser protegida internacionalmente pelo Reino Unido enquanto ela tem a liberdade de fazer suas próprias leis e, significativamente, decidir os níveis de impostos. Guernsey é livre de impostos comerciais e tem taxas baixas de outros tributos, o que transforma o lugar em um paraíso fiscal.

O nome da ilha está numa lista da UE dos países infratores, que não estão em conformidade com as normas internacionais de transparência fiscal. Guernsey também se destacou recentemente quando seu nome apareceu com alta frequência nos “Panama Papers”, documentos revelados pelo The Guardian mostrando como milhares de pessoas poderosas de vários países evitam impostos.

Além de albergar dinheiro sujo de parte da elite econômica mundial, Guernsey é um lugar sossegado, calmo, e sereno, e Le Tissier acha que ser criado nesse ambiente lhe deu uma certa tranquilidade que ele carregou por toda sua carreira.

O Farol de Castle Breakwater, em Saint Peter Port, cidade natal de Matthew Le Tissier, em Guernsey. (Foto: Paul Robinson)

Guernsey não é um celeiro de futebolistas. Ele foi a primeira pessoa da ilha a vestir a camisa branca da seleção inglesa do futebol e isso é uma fonte de muito orgulho para o Le Tissier e a sua família.

Começou a jogar com os três irmãos num campinho na frente da casa do seus pais, e junto com seu irmão mais velho, Carl, se destacou jogando pelo time da sua escola. Carl foi convidado a mudar-se para Southampton e jogar com os times de base do clube, mas infelizmente não aguentava ficar longe dos pais e amigos e voltou para a ilha um ano depois.

Carl contou tudo sobre a vida lá para Matt e, seguindo o técnico da época, Chris Nicoll, isso preparou o irmão mais novo para a sua mudança bem sucedida para o clube, pra onde ele foi com 16 anos. A base do Southampton é considerada uma das mais produtivas do país e formou vários jogadores ingleses de alta qualidade como Alan Shearer, Theo Walcott, Adam Lallana e Alex Oxlade-Chamberlain, todos jogadores de seleção inglesa, além do próprio Gareth Bale, grande craque galês, que venceu Ligas dos Campeões da Europa com o Real Madrid.

Durante sua primeira temporada no seu novo ambiente, Le Tissier marcou 59 gols pelo time de base e, logo na sequência, lhe foi dada a primeira oportunidade como titular, jogando bem numa partida contra o Tottenham Hotspur. Depois disso, ele foi se estabelecendo como membro insubstituível do time.

Na temporada 1989/90, os Saints chegaram a fazer sua melhor campanha durante a passagem do jogador pelo clube, ficando em sétimo lugar na classificação final. Com o quarteto de atacantes: Paul Rideout, Le Tissier, Alan Shearer e Rodney Wallace  — não aquele do Sport, o original —, o Southampton marcou 71 gols na temporada, o segundo maior número de qualquer time na primeira divisão, só atrás do campeão Liverpool.

Le Tissier marcou 20 vezes em 35 jogos e foi votado pelos seus colegas o “PFA Young Player of the Year”, o prêmio dado ao melhor jovem jogador do ano.

As campanhas seguinte foram mais difíceis para o clube e jogador. Um novo técnico chegou e Le Tissier teve que jogar no lado direito, uma posição que não gostava. Mas ainda assim foi se destacando, e, nesses anos, marcou uns do seus gols mais espetaculares.

Agora todos os jogadores de todos os cantos do mundo têm um vídeo do seus melhores momentos no YouTube, mas existem poucos clipes mais bonitos do que o de Le Tissier. Os gols mais lembrados são três. Dois marcados na mesma partida contra o Newcastle, e um outro, contra o Blackburn.

O primeiro gol no jogo contra Newcastle foi o momento que se anunciou seu nome internacionalmente. Foi um dos poucos jogos do Southampton transmitidos pelo canal recém formado Sky Sports e seu talento estava lá para todo mudo ver.

Ele recebeu a bola a 35 metros da meta e dominou com o calcanhar, aí tocou a bola para um lado do zagueiro e correu para o outro, chegando no limite da grande área. Com a bola ainda quicando, Le Tissier deu um chapéu no outro zagueiro e, cara a cara com o goleiro, mostrou toda aquele tranquilidade que aprendeu na ilha aonde foi criado, colocando a bola na bochecha da rede.

É considerado o seu melhor gol por muitos comentaristas e fãs, mas Le Tissier não concorda. Ele é um perfeccionista assumido e acha que, na finalização, ele tocou na bola com a sola da chuteira. Não era exatamente como ele queria. Ele prefere o gol contra Blackburn, quando ele colocou a bola no ângulo a 30 metros de distância depois de driblar um jogador duas vezes.

Foram lances assim que o fez ganhar o apelido de ‘Le God’ dos torcedores do Southampton, e era exatamente isso que ele sempre quis fazer. Claro que ele gostava de ganhar, como todos os atletas profissionais, e mais do que isso, ele gostava de se divertir em campo e alegrar a torcida como relatou a documentário de Sky Sports de 2015:

“Eu queria entreter as pessoas e colocar um sorriso nos rostos delas, e colocando a bola no ângulo a 25 metros de distância era um bom jeito de fazer isso.”

O celebrado gol contra Blackburn veio durante seu período mais produtivo, quando marcou 45 gols em 64 partidas, jogando no meio-campo. O técnico Alan Ball levou o time à décima colocação na liga em 1994/95, e Le Tissier considera essa a segunda melhor campanha da sua carreira, um pouquinho atrás daquela de 1989/90.

Apesar dessas duas temporadas fantásticas, em muitos dos 16 anos do Le Tissier como jogador do Southampton o time escapou de rebaixamento por muito pouco, devido somente aos seus gols e suas habilidades. Mas ele nunca quis deixar os Saints, ainda que houvesse interesse dos grandes clubes do país como Manchester United, Chelsea e Tottenham. Ele era feliz com sua vida no litoral e gostava de ser o craque do time e o centro das atenções do técnico e da torcida.

Talvez seja por isso que nunca ganhou o reconhecimento que merecia com a seleção. Ele jogou pela Inglaterra em oito ocasiões sem marcar nenhum gol. É verdade que a seleção inglesa tinha muitos craques naquela época, atacantes incríveis como Alan Shearer, Teddy Sheringham, Les Ferdinand, Andy Cole, Robbie Fowler, Steve McManaman e Paul Gascoigne, mas se Matt Le Tissier tivesse jogado num dos clubes mais tradicionais, com todo o talento que tinha, seria difícil imaginar que ele não teria vestido a camisa dos Three Lions mais vezes.

Numa partida pela Inglaterra B, pouco tempo antes da Copa do Mundo de 1998, ele marcou um hat-trick num jogo amistoso contra Rússia B. Le Tissier acha que essa foi a melhor oportunidade de ir a um torneio internacional, mas o Glenn Hoddle, então técnico da seleção, não o convocou.

Le God vê isso como o começo do fim do seu tempo jogando profissionalmente. Teve um efeito psicológico muito profundo no jogador e ele nunca mais recuperou o nível técnico que tinha chegado antes. Ele foi se machucando muito e cada temporada posterior, jogando menos e menos vezes.

Mas ainda sobrou tempo para mais um momento especial. A última partida do Southampton no seu velho estádio, chamado The Dell, antes da mudança para o moderno St. Mary’s Stadium, foi contra o Arsenal no dia 19 de maio de 2001, no último dia da temporada.

Le Tissier não tinha jogado muito naquele ano por causa de várias lesões, e não tinha marcado nenhum gol na Premier League, mas o Técnico Stuart Gray lhe prometeu que ele entraria em campo nos últimos minutos por tudo que o jogador — eleitor em 2012 o melhor da história do Southampton — tinha feito pelo clube.

Ele entrou com o jogo empatado em 2 a 2. O Southampton foi para cima com uma bola longa do goleiro. Ela sobrou para Le Tissier e ele não errou; com o pé esquerdo, virou e colocou a bola bem no cantinho, fora do alcance do Alex Manninger. Os Saints conseguiram segurar a vantagem e a vitória foi um momento emocionante para o jogador que estava com a carreira chegando bem perto do fim.

Le God pendurou as chuteiras em 2002 com 209 gols marcados em 541 partidas, além de muitas assistências dadas para os seus colegas. Uma de suas estatísticas mais notáveis é que ele marcou 47 dos 48 pênaltis batidos. Ninguém na história tem um aproveitamento melhor e isso mostra aquela calma e frieza que sempre tinha dentro das quatro linhas.

Alguns comentaristas e jornalistas o acusam de não ter tido ambição suficiente durante o seu tempo como jogador por não ter mudado para um clube que podia ter lhe dado títulos e mais oportunidades na seleção. O que ele diria para essas pessoas? Bem, na mesma entrevista com The Guardian ele respondeu: “As pessoas que fazem essas acusações não me conhecem, então consigo entender porque elas pensam assim. Minha resposta é sempre: ‘quando você era criança o que você queria ser? Você já cumpriu esse sonho com 25 anos?’ Me diz se eu não tenho ambição.”

Sem ganhar nada, sem ir para nenhum torneio internacional, Le Tissier tornou-se uma lenda do futebol inglês. Ele é lembrado pelas torcidas dos todos os times da Inglaterra. No Southampton, porém, ele é o maior, o melhor, ele é: Le God.

Pós-graduado em Políticas Públicas pela University College London. Trabalha como jornalista freelancer, escrevendo para Planet Football, i, e Forbes, entre outros. Gosta de escrever sobre o futebol no campo, mas também sobre as relações entre o jogo, sociedade e política.

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