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De Zwarte Schapen

As Ovelhas Negras e o derby perdido de Amsterdã

Quando o destino é Amsterdã, o roteiro certamente conta com idas ao Rijksmuseum, ao Stedelijk, à estação de trem Amsterdam Centraal, linda por sinal e, claro, aquela clássica foto nas insignas “I AMSTERDAM” são paradas obrigatórias.

Os passeios nunca deixam de fora incursões ao Red Light District, onde a prostituição foi, deixou de ser, voltou a ser e nunca se sabe bem se é ou não legalizada. Os famosos cafés, onde se consomem as melhores cannabis, com suas infinitas variações também atraem turistas do mundo todo que acham que Amsterdã é um lugar anárquico no pior sentido que se pode dar à palavra.

A capital holandesa e seu urbanismo heterodoxo — como poucas cidades no mundo cujo centro é “inundado” e muitas vezes o transporte fluvial é mais eficaz do que o terrestre — tem um charme incomum com os seus diques e canais que conformam a cidade. Todo esse requinte de um lugar cujo principal clube revolucionou o futebol mundial na década de 1970 com um pensamento que inspirou essa revolução que parecia só ser possível existir ali, com aquele Ajax de Amsterdã treinado por Rinus Michels e liderado por Johan Cruijff.

A Holanda tem uma posição geográfica que a coloca no centro de zonas de influências culturais. O holandês é uma língua que demonstra perfeitamente isso. Parece alemão e parece inglês. Um país que precisou lutar contra o mar para conseguir mais espaços, e segundo o escritor inglês, David Winner, isso determinou o estilo holandês de enxergar o futebol. Um estilo obcecado por encontrar espaços físicos que não existem, como relata Jonathan Wilson em um artigo para a Folha de S. Paulo em 2018.

No entanto, não é correto afirmar que este seja o único jeito holandês de enxergar futebol. Existem outras formas de se enxergar o jogo e o país conta com outros dois grandes clubes que rivalizam com o Ajax: Feyenoord de Roterdã e o PSV Eindhoven.

Os três clubes já foram campeões europeus. Mas claro, o Ajax é o único a vencer por quatro vezes [até 2019, quando chegou à semifinal]. Os outros clubes conseguem duelar domesticamente com o gigante da capital e usam diferentes abordagens de futebol. Mais alemã ou mais inglesa, tal como é o país, um lugar de proximidade cultural com duas potências econômicas e também do futebol.

Entretanto, mesmo em Roterdã quanto em Eindhoven, existem clubes rivais locais, de menor projeção, mas que servem de contraponto ao grande clube da cidade. O Sparta Rotterdam e o FC Eindhoven são os primos pobres. Mas lá estão seus torcedores que se sentem num refúgio para os menos favorecidos. Nessas duas cidades, esses refúgios existem, coisa que não acontece em Amsterdã.

A visita a Amsterdã também permite uma experiência futebolística espetacular. O museu do Ajax, chamado Ajax Experience, no centro da cidade tem, além de toda a memorabilia do clube, imersões tecnológicas que marcam bem a forte cultura do clube.

Johan Cruijff, Marco van Basten, Dennis Bergkamp. Todos esses caras começaram no Ajax. Os melhores jogadores de três diferentes gerações holandesas vieram da base do clube da capital.

Mas onde ficam aqueles que querem ser oposição? Sejam eles rebeldes ou não. Por qual clube torcer? O melhor é escolher entre Feyenoord e PSV. Em se tratando de uma capital, o monopólio esportivo-cultural é enorme, ainda mais Amsterdã sendo tão cosmopolita como é. O clube incorporou na sua base de torcedores, inclusive, a comunidade judaica, ou seja, até uma minoria muitas vezes perseguida é contemplada no “único” clube de Amsterdã.

Houve um momento em que foi possível coexistir com o Ajax em Amstedã. Mas a força econômica do clube fez com que os clubes vizinhos sucumbissem a fusões ou fechassem as portas. Amsterdã virou uma cidade sem derby.

Na segunda divisão, o único clube de Amsterdã é o Jong Ajax, o time B dos Ajacieden. E na terceira divisão estão o Amsterdamsche FC e o Ajax Zaterdag [em tradução livre: Ajax Sábado], o time amador ajacied, ou seja o time C do principal clube da cidade.

O Amsterdamsche FC, conhecido como AFC, foi fundado em 1895, cinco anos antes do Ajax, mas nunca deixou o status de amador. As rivalidades em Amsterdã são coisas de um tempo remoto.

Curiosamente, um desses clubes que coexistiram tinha a alcunha de Zwarte Schapen [Ovelhas Negras], e não era só coincidência, afinal o símbolo do BVC Amsterdam era esse. Tanto o escudo bordado na camisa quanto o mascote do time eram exatamente uma ovelha negra.

BVC Amsterdam no estádio olímpico da capital holandesa em setembro de 1956
(Foto: Ben van Meerendonk/IISG)

O Beroepsvoetbalclub Amsterdam [que significa Clube de Futebol Profissional de Amsterdã e carregava a sigla BVC] foi fundado em 1954, com o status de profissional, como diz no nome, e durou quatro anos exatos até a sua fusão com o DWS Amsterdam em 1958.

O clube seguiu adiante com o nome de DWS e foi promovido à primeira divisão na temporada 1962/63. Logo na primeira temporada na Eredivisie, o clube sagrou-se campeão, um feito nunca mais repetido por um time recém promovido. Graças ao título, o clube disputou a Copa dos Campeões em 1964/65, na qual o DWS Amsterdam chegou às quartas-de-final. A capital holandesa parecia ter uma nova força no futebol.

Em 1972, outra fusão com clubes de Amsterdã aconteceu. Talvez a busca por um modelo de sucesso semelhante àquela junção em 1958 fosse a razão que motivou a nova iniciativa: somando forças com outras agremiações locais para se consolidar como, no mínimo, uma segunda potência de Amsterdã.

Foi a vez do DWS se fundir com o Blauw-Wit Amsterdam para formar o FC Amsterdam. Logo na primeira temporada, o modelo atraiu outro clube local, o AVV De Volewijckers e uma nova fusão foi feita. Em 1973/74, após o Ajax conquistar seu terceiro título europeu, a cidade parecia ter finalmente um rival à altura com o fortalecido FC Amsterdam. O novo clube da capital terminou a Eredivisie na quinta posição que lhes rendeu uma vaga da Copa da UEFA da temporada seguinte graças ao título da Copa da Holanda por parte do PSV que terminou em quatro lugar e abriu espaço pro clube da capital que teria companhia do fragmentado Ajax, já sem Cruijff e Neeskens, que terminou em terceiro.


Jansen, Otto en Visser após vitória por 2 a 1 sobre o Feyenoord em Rotterdam em 1975
(Foto: Bert Verhoeff/Anefo)

Em 1974/75, o FC Amsterdam fez bonito na Copa da UEFA, eliminando, na primeira fase, o Hibernians de Malta por um placar acumulado de 12 a 0 [5 a 0, em Amsterdã; e 7 a o, na volta, em Paola] e, na segunda eliminatória, venceram a tradicional Internazionale após vitória em Milão por 2 a 1 e empate em casa, no Olympisch, por 0 a 0.

Veio então o Fortuna Düsseldorf na terceira fase. Triunfo por 3 a 0 na Holanda e, fora de casa, outra vitória: 2 a 1. Já o Ajax foi eliminado nesta fase para a Juventus. Mesmo com saldo empatado, a Juve passou pelo gol feito fora de casa, na derrota por 2 a 1 em Amsterdã depois de perder por 1 a 0 em Turim.

Nas quartas de final, porém, viria o choque de realidade. O FC Amsterdam foi derrotado por 5 a 1 fora de casa contra o Colônia e sofreu outro revés em casa por 3 a 2. No campeonato holandês o FC Amsterdam terminou em nono lugar e daí em diante passou a lutar contra o rebaixamento que aconteceria finalmente no final da temporada 1977/78.

Heini Otto do FC Amsterdam em jogo contra o ADO den Haag em 1977 no Olympisch Stadion
(Foto: Anefo)

No mesmo ano que a Holanda terminava, pela segunda vez, com o vice da Copa do Mundo, na Argentina, o segundo clube da capital era rebaixado e duraria mais quatro anos até que em 1982 o FC Amsterdam fechou as portas após terminar em décimo terceiro na segunda divisão holandesa.
O FC Amsterdam enfrentou o Ajax 12 vezes e venceu apenas em duas ocasiões, perdeu dez jogos e nunca foi capaz de terminar acima dos Ajacieden na tabela.

As Ovelhas Negras cruzam a ponte

Os “órfãos” das Ovelhas Negras, insatisfeitos com a fusão, fundaram o clube amador De Zwarte Schapen, em 1959. O time disputou os campeonato amadores nos mais baixos escalões até chegar no segundo nível mais alto do amadorismo holandês. Em 1978, mesmo ano do rebaixamento do FC Amsterdam, o De Zwarte Schapen se fundiu com o AVV Argonaut e dava origem ao [Argonaut Zwarte Schapen] AZS Amsterdam.

Em 1986, o AZS Amsterdam conquistou a Copa KNVB de futebol amador e começou a trilhar um caminho sinuoso envolvendo mudanças de nome e de endereço mas com a mesma ambição original daquele clube fundado em 1954.

Entre 1988 e 1992, o clube passou a se chamar FC De Sloterplas, em alusão a um grande lago no oeste de Amsterdã. Em 1994, o famoso ex-jogador do Ajax e da seleção holandesa, Johnny Rep, assumiu o comando técnico do time, que mudaria de nome novamente algumas vezes, se chamaria então VV De Zwarten Schapen entre 1994 e 1996; quando a cidade de Almere, do outro lado da ponte Hollandse, resolveu atrair atividades esportivas para si, num plano de desenvolvimento municipal e o clube acabou atravessando a ponte, deixando Amsterdã.

Nascia ali Sporting Flevoland, aludindo a região onde está situada a cidade de Almere. Mas o nome duraria até 2001, quando o projeto ganhou corpo e fundaram oficialmente o FC Omniworld, denominação que durou até 2010, quando foi adotado, finalmente, o nome Almere City FC, que herdou também o apelido de Ovelhas Negras.

Na temporada 2019/20, o Almere City disputa a segunda divisão do campeonato holandês e a cidade de Amsterdã segue sem um derby, afinal, o que significa “ovelhas negras”, senão aqueles que são renegados ou que renegam a própria família?

Além do museu do Ajax, Amsterdã oferece uma fantástica experiências para amantes do futebol. A COPA Football Store é um destino obrigatório para quem é apaixonado pela história do esporte mais popular do Mundo. Mas o lugar não é recomendado para quem tem o orçamento apertado, a tentação vai ser grande.

A marca se especializou em camisas retrô e não hesitou em vasculhar histórias como essa — ainda mais por ser um clube extinto da cidade onde nasceu a loja — e desenvolveu o modelo usado pelo clube na temporada 1976/77.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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