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O espírito Panenka

Com a progressiva conversão da informação esportiva em um produto de entretenimento, diversas vozes se manifestam e atuam em alternativas editoriais que transcendam os limites ideológicos impostos pelas grandes mídias. Para muitos, essas vozes pertencem a verdadeiros «loucos» que insistem em apostar em histórias culturais de futebol em plena era da digitalização dos suportes e meios.

Estes loucos estão por todas as partes: Inglaterra, Alemanha, Argentina, Espanha. E foi justamente no país ibérico que a Corner encontrou uma de suas inspirações para tentar romper o muro de mediocridade da crônica esportiva. A revista Panenka não entrou no negócio como quem já conhecia o caminho. Ela passou por um processo de evolução que hoje a credencia a um lugar entre as principais publicações do segmento.

Rivalidades à parte, é tranqüilizador saber que os brasileiros não são os únicos a detectar a galopante regressão do futebol cinco estrelas. Ainda melhor é constatar que a Seleção tem críticos tão ferrenhos quantos os daqui, só que do outro lado do Atlântico.

Falem sobre o espírito Panenka.

Aitor Lagunas — É o espírito que Antonín Panenka teve ao bater aquele pênalti na final da Eurocopa em 1976. Para o público brasileiro, talvez não seja um personagem tão conhecido. Foi a busca de uma solução que ninguém jamais havia buscado. Algo que surpreendeu, que foi diferente. Ninguém esperava aquela cavadinha. Nós estávamos num momento complicado no âmbito jornalístico na Espanha – no jornalismo esportivo, mais concretamente, sobretudo nos meios impressos. Optamos por fazer algo. Não era uma grande novidade, pois existiam outras publicações em outros países. Mas na Espanha não havia nada similar. Nosso objetivo é nos aproximar do mundo do futebol por meio de uma perspectiva cultural. Contar histórias de política, sociedade, arte, por meio do futebol. No fundo, o futebol também é arte.

A revista nasce num momento de crise econômica na Espanha e na Europa. Não lhes parecia arriscado levar adiante um projeto como a Panenka?

Aitor Lagunas — A parte comercial é um suplemento financeiro imprescindível para o projeto, mas o comercial não ultrapassa o editorial. Muitas vezes não dispomos do orçamento desejável para algumas idéias. Por outro lado, não pertencemos a um grupo de mídia que nos impõe que Messi ou Cristiano Ronaldo têm que estar na capa de uma maneira ou de outra. Isso é algo muito positivo e tratamos de preservar essa liberdade de escolha de pautas. É algo que os leitores valorizam. Foi o que sentimos quando pusemos o Messi na capa. Recebemos feedbacks de muitos leitores preocupados com um suposto desvio editorial.

Carlos Martín Rio — Não se trata de um capricho nosso ser assim. Também existe um público que valoriza muito o nosso trabalho. Nosso público não é apenas leitor. Ele também gosta de formar parte da revista.

Vocês acham que podem ser inspiração para uma revista em outro país? No Brasil, por exemplo?

Aitor Lagunas — Ah, sim? E isso vai nos rentabilizar? [risos]

Álex López Vendrell — Sabemos que abrimos um caminho, mas não inventamos nada. Fizemos um teste num mercado onde não havia nada similar. Logo, é normal que outros projetos se animem a fazer o mesmo. E acho que faz muito bem para o mercado, porque gera um crescimento de consumo, no caso específico da Espanha. O surgimento de um projeto inspirado na Panenka em outro continente é um motivo de orgulho. É bom saber que daqui de Barcelona fazemos algo que chega tão longe. Parece incrível.

Aitor Lagunas — Sabemos que podemos servir de inspiração para uns loucos no Brasil [risos], mas nós também fomos inspirados por iniciativas que já estavam funcionando em outros países. A publicação alemã 11Freunde sempre foi um espelho para nós em todos os sentidos. So Foot, na França; The Blizzard e When Saturday Comes da Inglaterra, entre outras.

Como vocês reagiram aos movimentos populares no Brasil durante a Copa das Confederações de 2013?

Aitor Lagunas — Minha visão sobre o Brasil mudou bastante com os movimentos sociais que aconteceram durante aquele torneio. Senti uma sociedade com uma exigência e um compromisso social muito alto. Em um país que primeiro esteve governado por Lula e em seguida por Dilma Rousseff, tenho a sensação de que o país melhorou em muitos aspectos. Apesar disso, há muita gente pedindo mais progresso, melhor divisão das riquezas, mais justiça social, enfim. Me parece que é digno de elogio. Sobretudo por não deixarem suas necessidades se ofuscarem por um acontecimento esportivo como a Copa do Mundo – e isso tudo num país maluco por futebol. É até difícil imaginar que algo assim pudesse acontecer na Espanha.

Depois do 4 a 0 do Barcelona sobre o Santos no Mundial de Clubes de 2011, passando pela histórica humilhação contra a Alemanha na última Copa, que mudanças vocês percebem no futebol brasileiro?

Álex López Vendrell — Eu nasci em 1983. Até muito recentemente, a referência dentro da cúpula futebolística sempre foi o Brasil. Inclusive o Brasil de 1994, com Romário e Bebeto, me fazia babar. Eu torci pelo Brasil na final daquela Copa.

Aitor Lagunas — Com relação à Seleção, creio que é o maior depósito de talentos do planeta. Desde 1958 na Suécia; 1962 no Chile; mesmo em 1966, na Inglaterra, e sobretudo em 1970, no México, foi algo muito impactante. Não houve nada similar, até o Barça do Guardiola. A sensação clara é de que o Brasil vem dando passos para trás. Ele está deixando de lado seu futebol mais estético e buscando um futebol mais prático desde 1982, na Espanha, traindo todo um legado histórico. Acabaram incluindo jogadores com perfis muito menos criativos, porém mais agressivos e mais atléticos. É até difícil de reconhecer o Brasil comparando-o com ele mesmo de décadas atrás. Difícil imaginar que seja um problema de escassez de talento, dado o tamanho do país ou, ainda pior, por pura covardia tática de quem comanda o futebol brasileiro.

Roger Xuriach — Talvez o fato de tantos jogadores atuarem no futebol europeu forçou os jogadores brasileiros a serem menos criativos, já que a exigência de competição na Champions League é muito intensa. Isso pode ter confundido a tradição futebolística brasileira. Preocupam-se mais com a disciplina tática e menos com o próprio talento. É a ordem inversa à que o Brasil sempre praticou.

Depois de uma campanha tão ruim numa Copa do Mundo em casa, o que vocês acharam do retorno de Dunga ao comando da Seleção?

Álex Lópex Vendrell — É a reafirmação disso tudo. Optar pelo prático, por um futebol talvez mais europeu, mais de resultados. Talvez um futebol mais anárquico não teria tanto espaço para êxito hoje em dia, dada a evolução física dos jogadores modernos. Atualmente o esporte se converteu numa ciência, com muito estudo e conhecimento por trás. Talvez um Brasil com o estilo de jogo de 1970, por exemplo, contra os jogadores atuais, não teria nenhuma chance de triunfar.

Aitor Lagunas — Mas duvido muito que Dunga escalasse o time de 1970 como escalou Zagallo. Hoje há jogadores brasileiros de bom nível como Lucas Moura, que ficou de fora da Copa. Discordo que a modernidade no futebol não permita escalá-los juntos. A modernidade é pendular. Em um dado momento, o mais moderno era escalar cinco atacantes; em outro, foi o Catenaccio. Você nos perguntou sobre o Barça-Santos. Quantos meio-campistas havia no Barça? Sete. Isso era o mais moderno naquele momento e o Brasil está indo contra essa tendência. Acho que o mais importante é encontrar o registro futebolístico histórico de um país. Foi algo que à Espanha custou, não sei, noventa anos? Enquanto não encontrasse esse estilo, a Espanha não poderia competir contra estilos mais físicos, de mais estatura, como o da Alemanha, por exemplo. Quando encontraram o nosso registro, com jogadores mais baixos, de toque, de qualidade, a Espanha conseguiu coletar êxitos. Parece que o Brasil está tentando reinventar um registro que não é o seu.

Álex López Vendrell — Antigamente, um time poderia ter cinco jogadores de altíssima qualidade que serviam somente para fazer jogadas de ataque. Hoje em dia, até mesmo zagueiros e goleiros jogam ofensivamente. Assim como os atacantes defendem. Aqueles nomes do Brasil de 1970 não precisavam marcar. Nem fazia falta que eles marcassem. Hoje teria que pedir ao Pelé que marcasse um lateral ou que o Rivelino voltasse para compor a zaga num escanteio.

Carlos Martín Rio — Mas tudo isso pode existir. O Barça de Guardiola era milimétrico, jogava muito bem, havia diversão. Mas estava tudo calculado. Não é fácil colocar jogadores só porque são muito bons. Também é preciso preparar tudo de maneira metódica. Sem um trabalho tático, não funciona. Todos têm que defender, mas todos também podem atacar. Parece que o Brasil está traindo a si mesmo. Se os últimos resultados não foram bons, por que não mudar a filosofia e buscar as origens? Acredito que o Brasil de 1982 é mais lembrado que o de 1994.

Com relação à Espanha, o que aconteceu? O estilo envelheceu? Os jogadores? O Vicente del Bosque?

Aitor Lagunas — O futebol é muito pendular. Muitas coisas aconteceram no ciclo entre 2010 e 2014. O Chelsea ganhou uma Champions jogando um futebol muito diferente daquele que vinha imperando. A Espanha perdeu, mas foi fiel ao seu estilo. É difícil manter a fome depois de conquistar duas Eurocopas e uma Copa do Mundo num período de seis anos.

Falando especificamente do Barcelona, vocês acreditam que a saída de Guardiola, o declínio técnico do time e a contratação de Neymar contradizem o slogan institucional e o posicionam como apenas mais um clube?

Alex López Vendrell — Creio que foi uma contratação desnecessária. Desembolsaram um dinheiro enorme que até hoje não se sabe quanto foi exatamente. E também significou uma aposta por um tipo de jogador mais de marketing do que de futebol. É o tipo de contratação que o Real Madrid costuma fazer. No futebol globalizado prioriza-se esse tipo de jogador, que traz retorno financeiro antes do futebolístico. O primeiro ano do Neymar foi muito criticável. Não rendeu nada daquilo que se esperava. Não conquistou nenhum título. Na segunda temporada, minha visão mudou substancialmente no que diz respeito ao comprometimento futebolístico. Vejo um jogador menos preocupado em provocar faltas, cavar pênaltis e reclamações. Ele está mais adaptado. Mas não o vejo como o melhor do mundo dentro de alguns anos. Na Seleção ele demonstra ser um líder, carrega o time nas costas.

Aitor Lagunas — O declínio técnico é normal. Muitos times vencem sem propor nada novo. E muitos vencem propondo algo revolucionário. A Hungria não ganhou a Copa do Mundo em 1954; a Holanda não ganhou em 1974; o Brasil não ganhou na Espanha em 1982; no entanto, nos lembramos desses times muito mais do que, digamos, da Inglaterra de 1966. Por mais que a principal atividade do Barça seja o futebol, limitar uma instituição ao desempenho futebolístico é reducionista demais. Mas há necessidade de nivelar o clube a outros que são controlados por sheiks, oligarcas russos, e isso fere os princípios blaugranas. Ultimamente, vemos um clube praticamente entregue a prioridades empresariais. Você vai ao Camp Nou e vê muitíssimos turistas. Isso provoca uma falta de calor, de aproximação entre time e torcida. A contratação de Neymar foi um elemento a mais. Assim como o patrocínio de camisa por parte da Qatar Airways. A sociedade catalã tem um nível de exigência muito alto. Em alguns momentos isso é muito bom e em outros, nem tanto.

Roger Xuriach — É preciso contextualizar a chegada do Neymar. Foi logo após uma derrota humilhante para o Bayern de Munique na Champions. Foi quando praticamente se entendeu que um ciclo havia terminado. Imaginou-se que Neymar descarregaria a responsabilidade sobre Messi. Mas sua primeira temporada foi muito discreta. Na sua segunda temporada se vê um Neymar mais maduro e mais efetivo. Ele tem um estilo de drible que parece estar sempre tentando humilhar o rival e isso provoca encontrões e entradas violentas. É um jogador que pode aportar muito ao Barça, mas não vejo nele potencial para ser o melhor do mundo e ganhar uma Bola de Ouro, por mais que a Nike faça tanto alarde.

O Barça sabe fazer muito bem o papel de um clube global e catalão ao mesmo tempo. Está havendo um deslize?

Álex López Vendrell — Essa atual gestão está deslizando. Ela buscou rentabilizar o clube com receitas da Ásia. Foi buscar o dinheiro fácil no Qatar. Colocou o marketing por cima do futebol. Não tem jeito, não se pode evitar que venham turistas ao Camp Nou. Assim é o futebol hoje em dia. Os grandes clubes seguiram essa tendência. O problema é quando isso se sobrepõe ao sócio que valoriza o clube desde sempre.

Suponhamos que a Catalunha se torne independente. Como seria um mundo sem El Clásico?

Roger Xuriach — Seguramente outros estímulos seriam encontrados. É difícil imaginar que não aconteça um Barça-Madrid se a Catalunha se emancipar.

Aitor Lagunas — Para começar, não haveria por que não existir esse encontro entre os rivais. O Swansea do País de Gales joga o campeonato inglês. O Mônaco joga o campeonato francês. Acho difícil imaginar que a liga espanhola renuncie a um capital tão importante como um Barça-Madrid. Claro que , para isso, muitas coisas precisariam acontecer em nível político e é uma hipótese que ainda está um pouco longe, mesmo com as manifestações catalãs atuais. Mas perder um patrimônio como o Barça-Madrid me parece impensável.

Como vocês se posicionam na questão da independência catalã?

Aitor Lagunas — Se a população vota, é preciso escutá-la. Se aqui na Catalunha votam em favor da independência, precisam ser escutados. Eu vim para a Catalunha por trabalho, minha filha é catalã. Não vejo agressividade com relação à Espanha aqui. Percebo muito mais agressividade das pessoas fora da Catalunha.

Álex López Vendrell — Eu apoio qualquer decisão democrática. Seja a independência ou qualquer outra coisa.

Roger Xuriach — Independente do meu posicionamento, é algo que requer muita atenção e muita política. São muitos partidos envolvidos num assunto muito suculento. Mas acredito que a Catalunha tenha direito à autodeterminação e a exercer sua soberania, desde que esteja respaldado pela maioria.

Carlos Martín Rio — A Catalunha é muito heterogênea. Ser catalão não é ter nascido aqui e ser de uma família secular daqui. Meus pais vêm de outras regiões da Espanha, mas nasci aqui e me sinto totalmente catalão. Nada melhor que as pessoas que vivam num país decidam o que querem para esse país.

Aitor Lagunas — Estamos falando de futebol e política, e muitas vezes se dá a entender que são assuntos que não se misturam. Ainda mais recordando Vásquez Montalbán, que falava do Barça como o exército desarmado da Catalunha. E, quando surge o lema Més que un club, o Barça não atravessava um momento esportivo muito bom. Mas ganha um papel de bandeira de uma sociedade que não tinha outro cenário para levantar essa bandeira que não fosse o Camp Nou. E falo em bandeira em termos literais: foi no Camp Nou que se levantaram as Senyeras [bandeira catalã] depois da morte de Franco. E o Barça também desempenha um papel de integração muito importante das massas de aragoneses, andaluzes, valencianos e galegos que chegavam à Catalunha e tinham em comum serem seguidores do clube blaugrana. Essa é a capacidade que o futebol tem de veicular movimentos sociais. E não podemos nos esquecer do Espanyol, que é o outro time da cidade e representa muito bem o outro ponto de vista dos catalães. Claro que isso não quer dizer que todos os torcedores do Espanyol são contrários à independência, nem que todos os barcelonistas sejam a favor.

Com relação aos meios de comunicação generalistas, não só e mas também e , por
exemplo, existe um Barça-Madrid dos veículos? As notícias distorcem números e induzem leituras totalmente diferentes sobre o mesmo fato?

Aitor Lagunas — Existe um matiz. Na Catalunha chegam os dois tipos de notícia. No resto do país, não. Os meios de comunicação catalães não chegam ao resto da Espanha. Por isso as pessoas de fora da Catalunha consomem apenas um dos olhares sobre o processo político. Isso dificulta muito a compreensão do que está acontecendo aqui. É algo que vem de baixo. Não são os partidos que estão pautando as pessoas. São as pessoas que pautam os partidos.

Roger Xuriach — Nos últimos seis anos, é mais fácil conseguir análises do que está acontecendo na Catalunha por meio do New York Times ou do Independent do que dos jornais de Madrid. Há uma nítida má vontade em explicar. Se os leitores não têm acesso às informações, nunca vão entender.

Aitor Lagunas — Mas é claro que muitos meios catalães são parciais. A diferença é que na Catalunha nós temos as duas parcialidades. Dessa forma você pode consumir ambas as visões e contrastá-las. Mas, no resto da Espanha, não.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

1 Comment

  1. julianoortiz

    julho 29, 2021

    É incrível como os espanhóis conseguem ter uma visão desnuda e mais clara da realidade do futebol tupiniquim do que nós próprios, brasileiros. Um destaque especial ao Aitor Lagunas, que mente esclarecida e plural. Sábias palavras.

    Sucesso à Panenka e à Corner. Contudo, a pergunta que não quer calar é? Teria sido possível o jogador Antonín Panenka dado origem ao gol olímpico (Corner) da mesma forma que na penalidade máxima?

    Quem sabe um dia possamos ver uma parceria impensável décadas atrás para o ex-jogador checo: um gol olímpico de cavadinha. Um Panenka desde Corner!

    A ver…

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