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O goleiro radical

Há poucos clubes tão associados com os ideais revolucionários como o St. Pauli alemão. Na cidade de Hamburgo, é a instituição que recolhe o apoio das minorias étnicas, sexuais e políticas, e o braço esportivo dos partidos militantes de esquerda. Foi também a casa de Volker Ippig, o goleiro revolucionário que passou a sobreviver trabalhando nas docas de Hamburgo descarregando contêineres.

Volker Ippig trabalhava durante a semana nas docas da cidade de Hamburgo, onde, apesar de ser um de muitos, não deixava de ser um ídolo para a maioria. Os imigrantes que se juntam aos habitantes locais podem não o conhecer e nem se lembrar de como era a vida na cidade nos anos 1980. Mas os veteranos que conviveram com Ippig nunca se esquecem de que aquele homem, que manca de uma perna, foi um dos maiores ícones da cidade.

Entre 1979 e 1991, Ippig foi o goleiro do St. Pauli. Era a época de ouro de uma cidade que vivia a euforia do título alemão e europeu do Hamburger SV de Kevin Keegan e Felix Magath, orientado por Ernst Happel. Se o grande clube da cidade conquistava o país e a Europa, os homens de St. Pauli queriam conquistar o mundo. Mas por outros motivos, à margem dos futebolísticos.

O clube sempre foi um nicho influente junto das comunidades minoritárias do norte da Alemanha. Foi a primeira instituição esportiva a criar uma torcida exclusivamente de homossexuais. A primeira que defendeu o papel do futebol alemão na luta contra o racismo crescente no país nos anos 1970 e também a integração das comunidades de imigrantes que tinham chegado de vários pontos do mundo para viver o “milagre alemão”. Esse papel social ficou e se sentia não só nos torcedores do clube. Era também o espírito dos próprios jogadores. Muitos deles eram militantes confessos de partidos de esquerda, mas nenhum teve um impacto político e social tão significante como Ippig.

Durante a sua carreira no clube, Ippig interrompeu por três vezes a sua atividade como goleiro para se envolver em projetos sociais. Em 1982, deixou o clube para se tornar monitor de crianças órfãs com incapacidades motoras. Dois anos depois, voltou a parar para abrir um centro espiritual num terreno que adquiriu nos subúrbios de Hamburgo, onde se dedicava ao cultivo de produtos macrobióticos e a recitar poesia revolucionária para quem o quisesse ouvir. A terceira retirada, e também a mais emblemática de todas, aconteceu em 1987 quando viajou até a Nicarágua para ajudar a reconstruir aldeias destruídas pelo exército governamental. Cada vez que voltava à cidade, o clube o readmitia imediatamente e, no primeiro jogo em casa, era sempre o último jogador a subir ao gramado, com o punho bem alto, recebendo uma ovação dos torcedores que o tinham como ídolo.

Mas Ippig era tudo, menos o ídolo de futebol habitual. No seu dia a dia, jogava com as crianças do bairro nos parques, ajudava os idosos que viviam sozinhos levando-lhes comida e fazendo-lhes companhia pelas tardes e, de noite, no pub do costume, trocava impressões políticas com os mesmos torcedores que pagavam o ingresso para vê-lo jogar no sábado seguinte. Não havia na cidade — e no futebol alemão — um jogador tão acarinhado pelos seus como ele. Em 1991, na ressaca da reunificação alemã — na qual ele foi uma das vozes que avisou contra os problemas de discriminação que os cidadãos do lado oriental iriam encontrar na Alemanha Ocidental — sofreu uma lesão num treino que acabou com a sua carreira. Tinha apenas 29 anos. A partir daí, iniciou um longo percurso como treinador de goleiros, primeiro no clube dos seus amores e, depois, em vários clubes do norte da Alemanha. Mas, à medida que os anos passavam e o cinismo do futebol moderno deixava pouco espaço de manobra para idealistas resistentes como ele, as portas foram se fechando, e Ippig teve de voltar a trabalhar com as mãos, mas longe das traves que o fizeram famoso.

O antigo ícone do St. Pauli confessou ter se desiludido com o rumo que o clube tomou, mercantilizando até à exaustão a sua própria ideologia, tornando-se num símbolo cool da contracultura tal qual as camisas com a imagem do seu ídolo de infância: Che Guevara. Para ele, o espírito original que transformou o clube e a cidade numa caldeira de emoções, que ferveu intensamente durante a década de 1980, é uma longa e tênue lembrança que só a memória ajuda a preservar ainda.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.