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O melhor técnico inglês a jamais treinar a Inglaterra

Seu entendimento do jogo levou pequenos clubes a glórias inimagináveis. Sua inteligência o fez questionador das decisões dos mandatários do futebol britânico. Uma figura midiática. Sua personalidade, no entanto, fez da sua carreira uma verdadeira montanha russa onde quanto mais altos os picos, mais longas e assustadoras eram as quedas.

O texto de abertura da primeira edição da Corner traz um conto hilário de Brian Clough, onde ele prefere escalar um jogador que odeia em vez de um que ele “apresentaria a sua filha”. Esse tipo de história foi comum ao longo de toda sua carreira, tanto como treinador quanto jogador. Clough foi um atacante brilhante, com a marca de 251 gols em 274 jogos. Numa partida em que o seu Middlesbrough empatou com o Charlton em 6 a 6, ele discutia ironicamente com seus próprios zagueiros, questionando-os sobre quantos gols ele deveria marcar para que o time vencesse o duelo. Este era o estilo Brian Clough — que chegou a acusar alguns de seus companheiros por apostarem contra o próprio time.

A carreira de jogador acabou aos 29 anos, no Sunderland, devido a uma lesão no joelho. Nunca conseguiu retornar aos campos e começou a treinar o time juvenil do próprio Sunderland, iniciando, então, outra meteórica trajetória, dessa vez como técnico.

Como treinador, destacou-se no Hartlepool United, onde iniciou sua parceria com Peter Taylor — seu fiel auxiliar técnico por muitos anos. Logo depois, foi contratado pelo Derby County, onde faria história. Depois de uma péssima temporada de estreia, ele cometeu a loucura de limpar o elenco: demitiu onze jogadores, o secretário, o responsável pelo gramado e duas copeiras que foram flagradas rindo após uma derrota da equipe. O resultado foi ótimo: campeões da segunda divisão e, depois de três temporadas na elite, o tão aclamado troféu da liga inglesa. Aliás, ele só ficou sabendo desse último título após sair de férias para as Ilhas Scilly, já que a taça dependia de resultados que ele nunca imaginou que aconteceriam.

Clough era gastador. Muitas vezes, sem a permissão da diretoria. Quebrou recordes de transferência na Inglaterra e foi ele quem comprou o primeiro jogador a valer um milhão de libras. Sua relação com os cartolas também ficou estremecida devido às provocações a outros treinadores e polêmicas aparições na mídia. 

Em outubro de 1973, demitiu-se. Na mesma semana, foi a um programa de TV e atacou seus ex-diretores, acusando-os de não entender de futebol. Três meses depois, a cúpula descobriu que Clough tentara comprar ninguém menos que Bobby Moore, sem que eles soubessem.

A receita não se repetiria facilmente. Depois de deixar o Derby, Clough assumiu o Brighton & Hove Albion, da terceira divisão. Venceu apenas doze dos 32 jogos e terminou a temporada no 19º lugar. O trabalho seguinte foi no Leeds — clube ao qual ele já havia feito duras críticas pela prática de futebol sujo e desonesto. Chegou dizendo aos jogadores que eles “deveriam jogar suas medalhas no lixo, pois não foram ganhas justamente”. Resultado: durou 44 dias no cargo. Sua passagem pelo Leeds foi brilhante e controversamente relatada no longa “The Damned United” (“Maldito Futebol Clube”).

Em 1975, Clough assumiu o clube que consagraria sua carreira, o Nottingham Forest, na segunda divisão. Mais discreto, sem grandes polêmicas ou aparições bombásticas na mídia, ele fez história. Em cinco anos, levantou a taça da Liga Inglesa, duas Copas da Liga e duas Copas Europeias (nada menos que a Champions League daquela época). Durante este período, o Forest bateu o recorde de invencibilidade na Liga Inglesa, com 42 jogos. Clough tinha apenas 45 anos e já era uma lenda absoluta do futebol.

A montanha russa que foi sua carreira se refere à regularidade. Ele nunca foi capaz de manter uma marca de 47% de vitórias em clube algum que tenha treinado. Números que Ferguson, Mourinho, Wenger e Dalglish atingiram com certa facilidade. Mas estabilidade não é uma palavra que combinaria com a personalidade de Brian Clough.

O técnico foi responsável pelo afastamento de Justin Fashanu, em 1981, ao descobrir que o jogador frequentava bares gays — Fashanu foi o primeiro jogador inglês da história a declarar-se homossexual. Ele cometeu suicídio em 1998, após uma acusação de estupro feita por um garoto de 17 anos. Em sua biografia, Clough descreve uma conversa com o atacante:

“Aonde você vai quando quer um pão?, perguntei a ele. ‘A uma padaria, eu acho.’ Aonde você vai se quiser um pernil de cordeiro? ‘A um açougue.’ Então por que você continua frequentando aquele bar de viados?”

A fama de melhor treinador inglês da história fez com que sempre fosse especulado para o cargo na seleção. Mas sua rebeldia contribuía muito para que ele passasse bem longe do emprego. Por duas vezes ele chegou a ser entrevistado para a vaga — sem sucesso. A Football Association sempre preferiu os técnicos que respeitassem a hierarquia e ele simplesmente não cumpria esse requisito.

Desde o estrondoso sucesso em 1980, suas glórias nunca foram do mesmo nível. Passou nove anos sem títulos até ser bicampeão da Copa da Liga entre 1989 e 1990. Afogado no alcoolismo e investigado por suspeitas de corrupção, Clough teve um apagado fim de carreira, daqueles que não aparecem nos filmes. Foi rebaixado com o Forest em 1993 e se aposentou do futebol.

Em 2003, foi submetido a um transplante de fígado. Os médicos disseram que Clough teria morrido em mais duas semanas senão tivesse transplantado o órgão.

Seu recorde de invencibilidade foi quebrado apenas em 25 de outubro de 2004, pelo Arsenal de Arsène Wenger. Vinte e seis dias depois, Brian Clough morreu no Derby City Hospital, vítima de um câncer de estômago.

Jornalista formado pela UMESP. Escreve para VIP, Sport Witness, Corner e Old Trafford Brasil. Não sabe se quer ser Andrea Pirlo ou John Frusciante quando crescer.

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