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O nascimento da Bundesliga

E a sina do primeiro campeão

Fundada em 1963, a Bundesliga foi a última grande liga europeia a ser oficializada. A sua primeira edição foi conquistada pelo FC Köln. Um título conquistado de forma inapelável por um time que abriu caminho à etapa dourada do futebol alemão.

A derrota e a concepção

Seria difícil imaginar a potência que viria a se tornar o futebol alemão se a Mannschaft não tivesse sofrido uma das suas piores humilhações no Mundial de 1962 no Chile. Durante anos, o selecionador nacional, Sepp Herberger, tinha avisado os dirigentes germânicos que o país estava ficando atrás da elite europeia com a insistência no modelo amador. A vitória surpreendente na Copa do Mundo de 1954 contra a fantástica Hungria de Puskás e companhia e a presença do Eintracht Frankfurt na final da Copa dos Campeões Europeus, em 1960, eram habitualmente os argumentos utilizados pelos dirigentes da DFB (Deutscher Fußball-Bund). Estava tudo bem, não havia qualquer necessidade de ceder à tentação do profissionalismo. Até que o telhado de palha voou e os alemães acordaram para o pesadelo de um mundo que não compreendiam.

Desde meados dos anos 1950 que os melhores jogadores do país eram assediados pelos melhores clubes italianos, espanhóis e até franceses com promessas de salários milionários que superavam — em muito — os trocados que recebiam por jogar nas suas ligas regionais alemãs. No pós-guerra, a recém-formada República Federal da Alemanha tentou, quase sempre, se afastar de ideias que pudessem despertar uma nova sensação de nacionalismo popular. Uma das medidas principais na área esportiva foi manter a sua condição amadora, travando a formação de uma liga nacional como muitos treinadores e dirigentes pediam insistentemente. Durante quinze anos, manteve-se o modelo do pré-guerra, isto é, de várias ligas regionais com um playoff para definir o campeão nacional. Um cenário que não agradava a ninguém. A saída dos primeiros jogadores de elite — imediatamente banidos da seleção nacional — e as derrotas da Mannschaft acabaram tornando o proibido em inevitável. No regresso da expedição ao Chile, a federação alemã aceitou conversar sobre a formação de uma liga nacional: a Bundesliga.

Um parto complexo

As reuniões decorreram durante semanas e, por muito tempo, Herberger pensou que o consenso seria impossível. O primeiro obstáculo a superar era a definição de profissionalismo. Acabou por ser adotado um modelo semiprofissional, com um baixo teto salarial, mas que, mesmo assim, permitia que os clubes mantivessem as suas figuras mais emblemáticas. O problema seguinte era eleger quem tinha direito de participar da primeira liga em escala nacional. O critério principal utilizado pela federação foi o da importância histórica e social de muitos dos clubes do país, independentemente das classificações obtidas nos anos anteriores.

Nessa lista estavam: FC Köln, Borussia Dortmund, Schalke 04, Werder Bremen, Eintracht Frankfurt, FC Nürnberg, Hamburger SV, Saarbrücken e Hertha Berlin. Estes últimos levantaram vários protestos nos restantes clubes. Nem eram clubes com história, nem com um grande grupo de seguidores ou resultados impressionantes nos últimos anos. A sua escolha era meramente política. O Saarbrücken representava a região do Sarre, recém-incorporada à República Federal da Alemanha após domínio político e econômico francês pós-Segunda Guerra Mundial e terra de Hermann Neuberger, um dos principais dirigentes que atuaram no processo de criação da Bundesliga e que viria a ser presidente da DFB nos anos 1970. O Hertha, por sua vez, beneficiava-se da necessidade política de incluir um clube de Berlim para demonstrar ao mundo que o muro levantado anos antes pelos soviéticos não iria impedir o futebol de chegar a todos os alemães ocidentais.

Depois de vários protestos contra a inclusão dos dois clubes, o Hannover 96, o Kickers Offenbach e o Alemania Aachen se retiraram dos candidatos e, para as posições restantes, foram escolhidos o Kaiserslautern, MSV Duisburg, Preußen Münster, Meidericher SV, Karlsruher, 1860 München, Stuttgart e o Eintracht Braunschweig. Dezesseis clubes numa lista que não incluía nem o Bayern München e nem o Borussia Mönchengladbach, os emblemas que iriam dominar os primeiros vinte anos da competição.

O batismo

Depois de muito debate, a bola começou a rolar no dia 24 de agosto de 1963. Um duelo entre o Borussia Dortmund e o Werder Bremen acabou com a vitória dos Verdes por 3 a 2, apesar de o gol inaugural da competição ter sido anotado pelo atacante dos homens do Ruhr, Timo Konietzka.

O FC Köln ganhou a primeira rodada e arrancou na sua tranquila caminhada rumo ao título de campeão. Treinados pelo experiente George Knopfle, os homens do oeste viviam, sobretudo, da inspiração das suas duas estrelas internacionais, os meio-campistas Wolfgang Overath e Wolfgang Weber. Com o seu domínio do meio-campo, foram providenciais para armar os ataques habitualmente concretizados pela dupla atacante Karl-Heinz Thielen e Christian Müller. Entre os dois, foram 31 gols convertidos, apenas um a mais que o artilheiro da competição, Uwe Seeler. Mas foi suficiente. A inconstância dos principais rivais do FC Köln permitiu vencer a competição com apenas duas derrotas e onze empates e, mesmo assim, manter uma diferença de seis pontos contra o segundo classificado, o surpreendente Meidericher SV.

Em 18 de abril, o Köln recebeu o Borussia de Dortmund no Müngersdorfer Stadion. Era o jogo do título. Diante 76 mil pessoas em Colônia, bastava um empate, resultado a que se chegou ao intervalo. Na segunda etapa, uma exibição demolidora de Overath fez a diferença e, perante a apatia dos homens de Dortmund, o time da casa venceu por 5 a 2. Nas arquibancadas, os torcedores eufóricos imaginavam que começava uma nova etapa dourada na história do clube. A realidade seria radicalmente diferente. Apesar de conquistar novamente o título da Bundesliga em 1978, a sua torcida teria de se contentar com títulos da Copa da Alemanha, conquistados em 1968, 1977, 1978, 1983 e só. Até 2020, o clube nunca mais voltou a levantar um troféu.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.