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O pai dos turcos

O impacto dos feitos de Atatürk através do futebol

Mais de uma dezena de estádios na Turquia traz uma homenagem ao “Pai dos Turcos” no nome e eles se espalham por cidades importantes: Diyarbakir, Esmirna e Istambul. Casa da seleção, o Estádio Olímpico Atatürk é o principal deles.

A proclamação da República da Turquia e a história moderna da região, da Trácia à Anatólia, estão diretamente ligadas à figura de Mustafa Kemal — o Atatürk. A imagem do antigo marechal do Império Otomano, um dos líderes da famosa Campanha de Galípoli, batalha célebre da Primeira Guerra Mundial, permanece venerada em sua nação. Afinal, a formação de um novo estado aos turcos em meio à derrocada otomana dependeu diretamente do futuro presidente. Mas a que preço?

As possessões da Turquia abrigaram algumas das civilizações mais antigas do planeta, inúmeras, ao longo dos séculos. E a vitória de Atatürk não veio sem batalhas com diferentes etnias, em um projeto de “turquificação” até mesmo anterior a sua chegada no poder. Istambul, Esmirna, Diyarbakir: cidades fundamentais também para entender o processo e descobrir as comunidades perseguidas ao custo da soberania turca. Não quer dizer que todos os turcos carregam culpa pelas mortes ocorridas, ou que todos os seus antepassados fossem coniventes com os horrores cometidos naquele momento. Porém, a história se escreveu com sangue. E se o futebol exalta a versão gloriosa dos turcos, através dele é possível descobrir o outro lado. O lado expurgado das páginas oficiais.

Pioneirismo dizimado

Tão logo o futebol se estabeleceu no Império Otomano, a partir de 1898, a febre de bola acometeu os armênios. O esporte se colocou como uma ferramenta a mais para aproximar a comunidade — naquele momento, sem um país que a representasse. Viviam-se anos de tensões crescentes. O nacionalismo armênio ganhou forças a partir da década de 1880, almejando a constituição de um estado independente, livre do subjugo otomano, aspirações que levaram a revoltas e culminaram na reação violenta do império, com diversos episódios sangrentos. Ainda assim, a resistência persistia.

O primeiro clube armênio foi fundado em 1900, na cidade de Esmirna, importante centro urbano na costa do Mediterrâneo. De qualquer maneira, a efervescência de times aconteceu mesmo em Constantinopla, outrora denominação de Istambul, local em que a influência inglesa na educação foi determinante para que a modalidade se espalhasse entre estudantes. Além disso, em tempos nos quais o futebol era sistematicamente proibido aos turcos pelo sultanato otomano, o jogo também simbolizava a própria autonomia de outras colônias — além da armênia, a inglesa e a grega.

Ainda que se concentrassem em seu próprio círculo, os clubes armênios realizavam partidas contra equipes de outros grupos. E, de certa forma, ajudaram os turcos a romper com as imposições do sultanato. O Galatasaray surgiu como o primeiro clube turco, fundado por estudantes de um liceu com idéias modernas, de amplo contato com a cultura européia. Em 1906, disputou sua primeira partida. Enfrentou justamente uma equipe armênia de Constantinopla, o Balta-Liman, que goleou impiedosamente, por 5 a 0.

O florescimento do futebol entre os armênios se intensificou principalmente a partir da década de 1910. Neste momento, a comunidade em Constantinopla chegou a contar com cerca de 40 equipes. Criou-se até mesmo uma liga, idealizada pelo Marmnamarz, o primeiro periódico esportivo do Império Otomano. Em 1911, prova de força, o Armenia de Esmirna conquistou um torneio disputado na Grécia, organizado pela federação local. A consolidação era evidente.

E então veio a Primeira Guerra Mundial. Veio 1915, o ano que marcou profundamente o povo armênio. Em meio aos horrores do conflito armado, o Império Otomano promoveu uma limpeza étnica e religiosa em seu território, em prol dos processos de “turquificação” e islamização. A comunidade armênia, majoritariamente cristã, foi o principal alvo, em genocídio que exterminou de 800 mil a 1,5 milhão de pessoas — os números incertos causam diversos debates entre estudiosos do tema. O chamado Holocausto Armênio incluiu ainda outras tantas atrocidades, como a criação de 25 campos de concentração.

Um ato de coragem em Istambul

Por mais que a Armênia tenha se transformado em um estado independente em 1918, a paz estava longe de ser desfrutada por seu povo. Milhares e milhares sequer permaneceram na região. A diáspora armênia é uma das mais significativas do Século XX, em fluxo de refugiados que se espalhou por diversos continentes. Rússia, Estados Unidos, França e Irã serviram como principais destinos, enquanto parte dos expatriados rumaram à América do Sul, sobretudo à Argentina e ao Brasil.

O horror, porém, não impediu que uma parcela da comunidade seguisse sua vida na recém-instituída Turquia. O decadente Império Otomano terminou de ruir quando Atatürk liderou a Guerra de Independência, entre 1919 e 1923. Mesmo com a abolição do Império Otomano, a nova república secularista continuava sendo território hostil aos armênios. O leste do território local, conhecido como Armênia Ocidental, além de sofrer com a limpeza étnica, também foi um dos fronts no conflito que resultou na criação da República da Turquia. A presença dos armênios ganhava a conotação de ameaça e descambava em ódio.

Istambul se tornou, diante deste cenário, o porto seguro dos armênios no país, pois em uma cidade cosmopolita o senso de proteção era maior. Não apenas os sobreviventes dos extermínios permaneciam na cidade, como também alguns dos refugiados retornaram. Mais uma vez, o esporte em geral — particularmente o futebol — se colocou como instrumento de integração. Alguns esportistas armênios representaram a Turquia em competições internacionais, no atletismo e na natação, durante a década de 1930.

Em 1940, surgiu o Taksim Spor Kulübü. A fundação aconteceu a partir da fusão de outras agremiações, enquanto seu nome carrega a referência à praça simbólica de Istambul. E o mais notável: aquela equipe ajudaria novamente a aglutinar os armênios vivendo na cidade, como um símbolo de união. Um símbolo de resistência e de convivência, através do futebol. Embora abrisse suas portas a jogadores turcos e de outros grupos, o traço étnico na composição de seus membros era a mais forte característica.

A ascensão do Taksim se concretizou nos anos 1950, quando a organização do Campeonato Turco, nacionalizado, começou a se desenvolver. Os aurirrubros conquistaram a liga amadora do país em 1956/57. Nos anos 1960, encadeou três títulos da İstanbul Mahallî Ligi, competição local disputada na cidade. E o ápice veio em 1967/68, quando o time armênio integrou a segunda divisão do Campeonato Turco. Não fez uma boa campanha, rebaixado imediatamente, mas continuou na terceira divisão por mais seis anos, até voltar aos níveis amadores.

Durante as primeiras décadas, o Taksim se tornou uma grande fonte de talentos. Algumas de suas revelações alcançaram a seleção turca, como o atacante de origem grega Lefter Küçükandonyadis, ídolo do Fenerbahçe e com passagens por Fiorentina e Nice, ou o meia Mehmet Özgül, que vestiu por seis anos a camisa do Galatasaray. Todavia, o nome mais importante que passou pelo clube é o de Hrant Dink. O jogador não vingou, atuando na equipe principal por apenas uma temporada, na década de 1980. Em compensação, se transformou em um dos nomes mais proeminentes da comunidade armênia na Turquia.

Dink trabalhava como editor-chefe do Agos, único periódico voltado aos armênios publicado em território turco. Através da publicação, o jornalista defendia a integração de seu povo ao restante do país e lutava pelos direitos das minorias. Apesar disso, não deixava de resgatar a história do genocídio e criticar a negação feita pelo governo. Premiado internacionalmente por sua atuação, sua voz incomodava os nacionalistas. Em 2007, um estudante de 17 anos assassinou Hrant Dink com três tiros. O funeral levou milhares de cidadãos armênios às ruas, em protesto contra o crime e urgindo pelo respeito à sua identidade étnica.

O Taksim segue na ativa, mas longe da relevância de outros tempos. Disputa apenas os campeonatos amadores, embora siga agregando os armênios na região de Istambul — estimados em 50 mil habitantes. De lá, saiu Aras Özbiliz. Filho de armênios, ele emigrou com a família para a Holanda na década de 1990 e profissionalizou-se pelo Ajax, em 2010. Optou pela nacionalidade armênia e, em 2016, tornou-se o primeiro jogador da seleção de seu país a defender um clube turco, compondo o elenco do Beşiktaş. Apesar dos temores de protestos, os torcedores alvinegros ofereceram uma recepção calorosa ao ponta. Uma pequena mostra de convivência, mas já importante diante do peso da história.

Filhos da diáspora

Se as representações armênias no futebol turco minguaram após o genocídio, elas se espalharam ao redor do mundo a partir de então. A diáspora fez com que a comunidade em novos países criasse as suas agremiações esportivas para preservar as raízes. E os exemplos vêm em diversos continentes.

O Deportivo Armenio é o mais conhecido, fundado em 1962. Embora permaneça costumeiramente nas divisões inferiores, disputou duas temporadas na elite do Campeonato Argentino durante o final da década de 1980. O Ararat Tehran surgiu em 1944 e se firmou como um dos principais clubes da capital do Irã. Integrou apenas três temporadas na primeira divisão a partir da criação do Campeonato Iraniano, mas revelou talentos que defenderam a seleção persa em Copas do Mundo, como o zagueiro Andranik Eskandarian, companheiro de Pelé no New York Cosmos, e o volante Andranik Teymourian, presente no Brasil em 2014, primeiro capitão católico da equipe nacional do país islâmico.

Na França, onde os descendentes armênios Youri Djorkaeff e Alain Boghossian participaram da conquista do Mundial de 1998, o Ararat Issy milita nas divisões inferiores. Da mesma forma, há clubes amadores da comunidade armênia em países como Líbano, Estônia, Rússia, Estados Unidos, Áustria, Bélgica e Chipre. No Brasil, o principal representante é o Juventude Armênia Fedainer, que disputa os campeonatos paulistas de futsal, enquanto o ex-zagueiro Marcelo Kiremitdjian, conhecido como Marcelo Djian se tornou o descendente de carreira mais sólida no futebol nacional.

No entanto, ainda que o genocídio armênio tenha sido o mais significativo, é necessário ressaltar que a limpeza étnica promovida pelo Império Otomano atacou outros grupos vivendo em seu território. O genocídio assírio deixou um rastro de vítimas estimado entre 150 mil e 300 mil mortes, além de provocar deportações em massa. O povo de origem araméia, majoritariamente cristão e espalhado principalmente nas proximidades da fronteira com a Síria, teve sua população na Turquia reduzida a cerca de 50 mil habitantes. A colônia mais numerosa de expatriados se enraizou na Suécia, originária também de outras diásporas assírias, vindas de países como Líbano e Iraque. E, para estes, novamente o futebol possibilitou a integração.

O Assyriska é considerado como uma seleção nacional dos assírios, diante da inexistência de um estado independente. Refugiados vindos da Turquia fundaram o clube em 1971, na cidade de Södertälje, importante centro industrial próximo a Estocolmo. Uma iniciativa parecida com a que aconteceu durante a mesma época na cidade turca de Mardin, sudeste da Anatólia, onde originou-se o Midsan. O clube assírio, contudo, durou apenas seis anos. A turbulência política na Turquia, ao longo da década de 1980, causou uma nova diáspora e alguns dos jogadores mudaram-se para a Suécia, reforçando a outra equipe de sua identidade étnica.

Neste processo, o Assyriska ganhou força e conquistou o acesso à segunda divisão do Campeonato Sueco, em 1992. Firmado neste nível, o clube — que disputaria sua primeira temporada na elite em 2005, logo rebaixado — fincou a bandeira da causa assíria no futebol. O elenco é composto por diversos jogadores étnicos, enquanto as categorias de base ajudam a agregar os descendentes. Mesmo com a estrutura profissional, muitos dos funcionários são voluntários, pelo apoio ao ideal. Já a torcida não se limita às fronteiras suecas, atraindo o interesse das colônias assírias espalhadas pelo mundo. O documentário Assyriska: A National Team Without A Nation, de 2006, contribuiu nesta repercussão.

O impacto do clube tem amplo reconhecimento entre notáveis representantes da comunidade assíria, mesmo em outros países. “Na minha opinião, nenhum movimento organizado com ambições políticas alcançou este nível de relevância para o povo assírio como este clube. É um ótimo lugar para iniciarmos nossos próprios festivais. O caso do Assyriska e de muitos clubes de futebol comunitários crescendo ao redor do globo é um símbolo do forte senso de identidade entre os assírios”, declarou o reverendo Ashur D. Elkhoury, da Igreja Assíria de St. Paul Parish, na Califórnia, em entrevista ao These Football Times. Um exemplo da mencionada relevância são o meio-campista Kennedy Bakircioglü e o atacante Mikael Ishak, formados pelo Assyriska, que chegaram à seleção sueca.

O Assyriska, entretanto, não é o único clube de origem araméia na Suécia. Longe disso. Seu principal rival é o Syrianska, fundado em 1977 e identificado à população siríaca, ligada à Igreja Ortodoxa. O clube, também sediado em Södertälje, disputou três temporadas na primeira divisão do Campeonato Sueco no início da década de 2010 e costuma fazer o clássico étnico na segundona. A rivalidade já viveu momentos tensos, ainda que a relação tenha melhorado nos últimos anos, diante da percepção sobre os interesses em comum. Na esteira dos dois maiores clubes, mais times arameus surgiram em outras cidades suecas nas últimas décadas — incluindo Estocolmo, Gotemburgo, Örebro e Norrköping — e integram níveis amadores da liga local.

Potências refugiadas

Assim como exterminou armênios e assírios, o Império Otomano também dizimou a população grega que habitava seu território. A presença de gregos na Anatólia atravessou séculos, povoando principalmente as áreas nas costas do Mar Negro e do Mediterrâneo. A partir de 1913, o governo otomano iniciou um plano de expulsões e migrações forçadas — em partes, até acertada com o governo da Grécia. A arbitrariedade culminou em mais derramamento de sangue, após o estouro da Primeira Guerra Mundial, quando os métodos mais diplomáticos foram ignorados. Estudos da Universidade do Havaí estimam que quase 400 mil gregos foram assassinados até o fim do conflito. Além disso, as deportações figuraram na casa de 500 mil pessoas.

Até aquele momento, a comunidade grega fomentava a expansão das práticas esportivas no Império Otomano. Antes mesmo da introdução do futebol na região, os gregos já haviam constituído os primeiros clubes do país, sobretudo nas cidades de Constantinopla e Esmirna. Assim, o advento da nova modalidade encontrou bases sólidas para se desenvolver. Diante da proibição do futebol entre os turcos pelo sultanato, gregos e ingleses formaram a Constantinople Football Association League. As equipes gregas participaram da primeira liga profissional otomana até o início da Primeira Guerra Mundial. Elpis, Strugglers e Rumblers eram os principais representantes da colônia.

A quantidade de clubes gregos no Império Otomano, de qualquer forma, não se limitava ao profissionalismo. Outros tantos times se estabeleciam. Panionios e Apollon, por exemplo, polarizavam Esmirna. Em Constantinopla, despontava Hermes, rebatizado posteriormente como Pera Club. E nem mesmo as batalhas na região cessavam as atividades. O rompimento aconteceria apenas a partir de 1922, com o fim da Guerra Greco-Turca, iniciada três anos antes.

Consequência da Primeira Guerra Mundial, o novo conflito teve início quando a Grécia tentou tomar os espólios do derrotado Império Otomano, prometidos pelos Aliados. O exército grego invadiu cidades da Anatólia, incluindo Esmirna, e buscou aumentar as posses de seu país. Porém, o contra-ataque dos turcos expulsou os gregos de seu território. A vitória de Atatürk foi fundamental para o reconhecimento internacional da recém-criada República da Turquia. Os tratados posteriores, além de determinarem as fronteiras, também provocaram um acordo de “troca populacional”: gregos em regiões turcas seriam enviados à Grécia, assim como os turcos em áreas gregas se mudariam à Turquia. Cerca de 1,2 milhão de gregos passaram pelo programa.

O novo cenário resultou na refundação dos clubes gregos do Império Otomano em cidades da Grécia. O Panionios ressurgiu em Nea Smyrni, subúrbio de Atenas que recebeu parte dos refugiados. O Apollon manteve a referência a Esmirna no nome, também se situando na capital, enquanto o Pera Club deu origem a dois dos maiores times da Grécia: AEK e PAOK.

A letra “K” presente em ambas as siglas marca a origem em comum, abreviando Constantinopla. Aliás, os escudos dos clubes trazem a Dikefalos Aetos, a águia de duas cabeças que simbolizava a última dinastia do Império Bizantino. Principal herdeiro do Pera Club, o PAOK surgiu em Tessalônica, um dos principais destinos dos gregos realocados durante a troca populacional. Já o AEK reuniu membros e seguidores do antigo clube constantinopolitano em Atenas e, a partir da década de 1930, atenienses e tessalonicenses figuravam entre as principais forças do Campeonato Grego.

Ainda assim, parte da comunidade grega permaneceu na Turquia, principalmente em Istambul — como os armênios, encontravam uma tolerância maior na cidade. E alguns clubes continuaram existindo, mesmo rebatizados. Antigo Iraklis, o atual Kurtuluş é o clube mais antigo em atividade no território turco, disputando competições amadoras. O Pera Club, por sua vez, se transformou no Beyoğluspor. Sediado na região próxima à Praça Taksim, o time desfrutou seu auge no início da década de 1960, participando de duas edições do Campeonato Turco. Logo entraria em declínio, compondo as ligas amadoras a partir de 1973.

Segregação que resiste

As tensões territoriais entre Grécia e Turquia arrefeceram depois de 1922. No entanto, outros entraves surgiram. A disputa pelo Chipre se estendeu por séculos, entre diferentes povos. E voltou à tona na década de 1960, quando a ilha do Mediterrâneo declarou sua independência do Império Britânico. A partir de então, gregos e turcos iniciaram um conflito pelo poder. O estopim aconteceu em 1974, depois de diversos episódios de violência. Os gregos deram um golpe de Estado, enquanto o governo turco invadiu com suas tropas o norte do país.

A comunidade internacional reconhece apenas o Chipre ligado à comunidade grega. O autoproclamado Chipre do Norte, sob domínio turco, permanece negado pela ONU e por outras entidades. Um imbróglio que se reflete também no futebol. Os cipriotas do norte possuem sua seleção nacional e sua própria liga, mas não foram admitidos pela FIFA ou pela UEFA até 2017.

As primeiras cisões étnicas no futebol cipriota ocorreram depois da Segunda Guerra Mundial. Até então, o esporte se mantinha unificado. E a situação se rompeu definitivamente em 1955, quando Çetinkaya Türk, único clube turco do Campeonato Cipriota, se juntou à recém-criada federação do Chipre do Norte. A partir disso, as duas ligas correram paralelamente.

A crise política dos anos 1960 resultou na criação da Linha Verde, uma zona desmilitarizada que divide o sul e o norte da ilha. O conflito de 1974 ampliou a área, atingindo a atual extensão de 180 quilômetros controlados pelas Forças de Paz da ONU. Além disso, separou definitivamente turcos e gregos. Os times gregos do norte se exilaram no sul. O exemplo mais emblemático é o do Anorthosis, que não negou a referência à cidade de Famagusta em seu nome, embora tenha se restabelecido em Larnaca. Potência nacional, o time precisou esperar mais de duas décadas para reconquistar o título da liga após a mudança. Por outro lado, o próprio Çetinkaya deixou Nicósia.

Sofrendo seguidas sanções, os clubes do Chipre do Norte permaneceram irrelevantes. O orgulho local se reacendeu somente em 2004, quando a seleção local, clandestina, começou a disputar as competições destinadas a nações não-filiadas à FIFA. Os cipriotas do norte transformaram-se em uma potência entre os nanicos. Conquistaram, em 2006, a Copa do Mundo FIFI e a Copa ELF, dois torneios alternativos para seleções não-oficiais. Em 2016, terminaram com o bronze na Copa do Mundo ConIFA e ficaram com a prata no Europeu de 2017 — esta, realizada em seu território.

Independentemente do sucesso, a divisão do futebol cipriota prejudica as duas partes. Por isso mesmo, desde 2007 ambas federações começaram a ensaiar uma unificação, seguindo à reaproximação econômica das metades da ilha. As entidades futebolísticas assinaram um protocolo pela fusão, em 2013, enfatizando que “não abriam qualquer precedente para a questão política” e que “o acordo provisório aguardava uma solução para o Chipre”, conforme matéria da Trivela, em 2013. Todavia, a aproximação durou meses até que as disputas nacionalistas esfriassem o projeto. A intransigência causada pelo orgulho prevalece, independentemente dos ganhos financeiros, políticos e históricos que o desenlace traria.

Uma cidade, a luta que se perpetua

Os primeiros registros de Amid datam de 1300 a.C., capital do reino de Bit Zamani. Diferentes povos controlaram o local nos séculos posteriores: arameus, romanos, persas, árabes. E o domínio dos otomanos, depois de 1515, transformou a cidade na capital de uma província importante, estratégica para seu contingente militar. Entretanto, a diversidade da população era bem mais ampla. Armênios e assírios compunham a maioria dos habitantes durante os primeiros anos do Século XX, em uma das maiores comunidades de ambas as etnias no Império Otomano. Além disso, a cidade estava situada em uma área de influência dos curdos.

Diyarbakir tornou-se palco dos genocídios orquestrados pelos otomanos. Os primeiros massacres datam do final do Século XIX, e se intensificaram durante a limpeza étnica ocorrida durante a Primeira Guerra Mundial. Cerca de 150 mil armênios e assírios foram deportados da cidade. Mas os ataques não se limitavam à responsabilidade dos turcos. Muitos curdos também participaram, em décadas de tensões crescentes com os armênios, apesar das relações historicamente boas entre os dois grupos. Sob a bandeira da islamização, os militares curdos se impulsionaram para exterminar os “inimigos em comum” cristãos — embora existam relatos que dão conta da proteção oferecida por outros tantos curdos às comunidades massacradas. Atos que geraram pedidos públicos de desculpas por parte de autoridades curdas décadas depois.

O apoio aos turcos logo se voltaria contra os próprios curdos. Os anseios de um estado independente conflitavam com os interesses da República da Turquia. A partir dos anos 1920, as insurreições curdas em busca de sua pátria se sucederam, sempre reprimidas pelo poder central. A revolta derradeira deste período histórico aconteceu em 1937, na região de Dersim. São estimadas mais de 100 mil mortes curdas ao longo do período, além de milhares de refugiados e deportados. O governo turco promoveu a ocupação da área por outros grupos étnicos e o cerco militar permaneceu até os 1950. Não só a língua curda foi proibida, como também a cultura e os costumes. A Turquia baniu até mesmo o termo “Curdistão”. Os curdos viraram “os turcos das montanhas”.

O nacionalismo curdo renasceu após a criação do PKK, em 1978. O grupo revolucionário — ou terrorista, conforme o outro lado da história — se engajou na luta armada a partir de 1984, em tempos nos quais os militares governavam a Turquia, com o golpe de 1980. Se por um lado os atentados e ações da guerrilha contra as instituições oficiais se tornaram frequentes, a resposta do estado vinha com ações militares nos vilarejos curdos. Os civis conviviam com execuções, destruição de casas e prisões arbitrárias.

Neste momento, Diyarbakir experimentou um crescimento demográfico massivo. A população curda migrou em massa à cidade, onde poderia se proteger mais facilmente dos ataques do governo. De 140 mil habitantes, em 1970, o município saltou a 400 mil duas décadas depois. Em 1997, já eram 1,5 milhão de habitantes na região metropolitana, com a maioria curda representando 70% deste montante. Amed, assim chamada pelos novos habitantes em referência ao nome assírio, se transformava na capital virtual de um sonhado Curdistão.

O Diyarbakır Büyükşehir Belediyespor surgiu neste contexto, em 1990. O clube aparecia como força secundária da cidade. Principal representante local, o Diyarbakırspor figurava costumeiramente entre a primeira e a segunda divisão do Campeonato Turco, mas não contava com a simpatia dos curdos mais comprometidos com a causa nacional. A agremiação era apoiada pelo governo turco, em uma tentativa de alienar a população da região através do futebol. Além de receber financiamento público, sofria acusações constantes de ser beneficiada pela arbitragem. Assim, por mais que tivesse origem turca, o Diyarbakır BB logo criou laços com a comunidade curda e assumiu esta identidade.

A bandeira do Curdistão

Em outubro de 2014, o Diyarbakır BB solicitou à Federação Turca a mudança de seu nome e de suas cores. Passaria a se chamar Amedspor, em referência à denominação curda da cidade, e adotaria as cores da bandeira do Curdistão. Os dirigentes, todavia, barraram a alteração e ainda multaram o clube, alegando a existência de outra equipe já chamada Amedspor. A nova identidade seria ratificada apenas em agosto de 2015. Oficialmente, rebatizaram o time como Amed SK.

A novidade pode parecer pequena, levando em conta a representatividade de um clube da terceira divisão, mas aconteceu em semanas tensas na Turquia. O HDP, partido que defende a minoria curda, registrou o maior crescimento no parlamento após as eleições gerais de junho de 2015, enquanto o AKP, do presidente Erdogan, sofreu a maior redução de bancada. Os eventos que se seguiram culminaram no fim do cessar-fogo de dois anos entre o PKK e o estado. Os militares e a guerrilha retomaram suas ações no sudeste turco, assim como os atentados e as arbitrariedades do governo voltaram a se repetir. Some a isso os demais entraves na região, especialmente a ascensão do Daesh e a crise de refugiados sírios, e você tem a receita da pólvora.

Justamente no recrudescimento das relações é que o Amed SK conquistou projeção nacional, com uma campanha histórica na Copa da Turquia de 2015/16. O clube surpreendia e avançava, fase a fase. Ao mesmo tempo, Diyarbakıir vivia dias de terror, causado pelo confronto entre militares e guerrilha. Em janeiro, o toque de recolher aconteceu de maneira sistemática no distrito sul da cidade. Até mesmo escolas e hospitais fecharam as suas portas. A população fugia de suas próprias casas, diante da falta de recursos básicos, como comida e água.

Naquele mês, o Amed SK disputou a rodada decisiva da fase de grupos da copa. Visitou o İstanbul Başakşehir, precisando apenas do empate para a classificação histórica às oitavas-de final, feito alcançado graças ao 2 a 2 no placar. Se o momento não se sugeria tão propício às comemorações, a torcida curda presente no Estádio Fatih Terim ergueu sua voz contra a realidade massacrante. Com palavras de ordem, clamaram a resistência e denunciaram as mortes de crianças em seu território. A polícia turca reprimiu os visitantes e 30 pessoas foram detidas, inclusive seis menores.

Três dias depois, o Amed SK realizou seu encontro pelas oitavas-de-final. Encarou o tradicional Bursaspor, em jogo único fora de casa. Os curdos não puderam contar com a sua torcida, barrada pelo Departamento de Segurança da Província de Bursa. Mesmo assim, protagonizaram a façanha. Venceram por 2 a 1, em resultado que provocou reações distintas. Os ultras do Bursaspor, ligados a movimentos nacionalistas, se revoltaram e causaram tumulto nas arquibancadas. Os jogadores do Amed SK saíram do estádio em carros blindados. Já em Diyarbakir, uma multidão se reuniu para assistir ao jogo em praça pública e comemorou euforicamente a classificação. Alegria que não durou muito, quando a polícia dispersou os torcedores com canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo.

A voz não se silencia

O Fenerbahçe surgiu como desafio seguinte do Amed SK. As dificuldades, porém, iam além de enfrentar um dos maiores clubes do país. Por conta dos gritos da torcida contra o Başakşehir, considerados “propaganda separatista”, a federação multou o time curdo e ordenou que o primeiro jogo das quartas-de-final, em Diyarbakır, fosse disputado com portões fechados. Forças de segurança ainda invadiram a sede e apreenderam computadores.

Além da ausência da torcida, o Amed SK também não poderia contar com Deniz Naki, uma de suas principais referências ofensivas. Filho de curdos, o atacante iniciou a carreira no Bayer Leverkusen e viveu seu melhor momento no St. Pauli. Defendeu ainda as seleções alemãs de base, embora não tenha representado a equipe principal. A transferência a Diyarbakır veio em 2015, após uma rápida passagem pelo Gençlerbirliği. Ele deixou o clube de Ancara alegando ser vítima de racismo: um grupo de três homens o insultou na rua, por conta de seu posicionamento público a favor das milícias na cidade de Kobane, na parte curda da Síria, lutando contra o Daesh.

Após a vitória sobre o Bursaspor, Naki postou uma mensagem em suas redes sociais sobre o resultado. Pegou um gancho de 12 jogos por “propaganda ideológica”, além de ser multado em €20 mil. “Essa foi uma vitória muito importante para nós. Superamos os truques sujos ao redor da partida com nossas cabeças erguidas e nossa consciência limpa. Estamos orgulhosos de ser um pequeno raio de esperança ao nosso povo neste momento difícil. Nós não fomos submissos e nem seremos. Entramos em campo com nossas crenças e nossa liberdade, porque plantamos nossas sementes de esperança. Agradecemos a todos os políticos, artistas, pensadores e nosso povo, que nos apoiou. Oferecemos esta vitória como um presente a todos que vêm sofrendo e morrendo sob a opressão dos últimos 50 dias em nosso solo. Vida longa e livre”, escreveu o atacante.

Em protesto, o Amed SK produziu enormes bandeirões para o jogo contra o Fenerbahçe, nos quais a torcida era representada através de desenhos, e cobriu as arquibancadas. Na entrada em campo, as duas equipes exibiram uma faixa que dizia: “Não deixe as crianças morrerem, deixe elas virem ao jogo”. E, quando o árbitro apitou o início da partida, o Fener passou um minuto tocando a bola sem objetividade, enquanto os curdos ficaram parados. Os anfitriões conquistaram um resultado digno, empatando por 3 a 3, mas sua torcida não comemorou. A multidão que se reuniu do lado de fora do estádio sofreu com a repressão da polícia, usando mais canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo.

O segundo jogo entre Fenerbahçe e Amed SK, em Istambul, confirmou a lógica. Os Canários venceram por 3 a 1 e garantiram a classificação às semifinais da Copa da Turquia. O orgulho dos curdos, ainda assim, era enorme. A campanha não apenas valorizou o trabalho do time, como também expôs sua identidade a várias partes do mundo. Era hora de seguir em frente, encarando a realidade modesta na terceira divisão e o cotidiano doloroso no Curdistão.

Apesar da dor, o horizonte

O conflito entre curdos e turcos derramou bastante sangue em 2016. Em março de 2017, a ONU publicou relatório afirmando que duas mil pessoas morreram no sudeste da Turquia em decorrência da guerra, enquanto 355 mil ficaram desabrigadas. A organização internacional também denunciou a “destruição massiva” e as “sérias violações dos direitos humanos” nas operações militares do governo. Já o restante do país conviveu com o medo dos atentados cometidos por extremistas curdos. Os ataques terroristas afetaram inclusive o futebol: em dezembro de 2016, duas explosões nos arredores da Vodafone Arena, horas depois do jogo entre Beşiktaş e Bursaspor, mataram 36 policiais e oito civis.
A hostilidade contra o Amed SK, visto cada vez mais como um emblema curdo, aumentou. A presença da torcida nos jogos fora de casa se tornou inviável, com torcedores agredidos. Em janeiro de 2017, nacionalistas em Konya atacaram o ônibus do clube, estilhaçando janelas. Em abril, o absurdo aconteceu em Ancara, quando seis seguidores do Ankaragücü foram detidos por tentarem bater nos dirigentes curdos presentes nas arquibancadas. Deniz Naki, por sua vez, enfrentou um processo por “apologia ao terrorismo” diante de seu ativismo e apoio ao PKK.

E, como se a dor não bastasse, o Amed SK sofreu uma perda imensa em dezembro de 2016: capitão e ídolo da torcida, Şehmus Özer faleceu em um acidente de carro. Nascido em Diyarbakir, o atacante de 36 anos tinha retornado à cidade para encerrar a carreira. Quatro dias antes, marcou o gol de empate contra o Fenerbahçe pela fase de grupos da Copa da Turquia 2016/17. Tornou-se o principal dos muitos mortos homenageados pelo clube na temporada, a maioria vítimas da guerra.

Esportivamente, ao menos, o Amed SK viveu uma boa temporada em 2016/17. A equipe terminou na segunda colocação de seu grupo na terceira divisão do Campeonato Turco e ficou a dois pontos da promoção, sucumbindo depois nas semifinais dos playoffs pela última vaga do acesso. Foi a melhor campanha de sua história na liga. A equipe feminina, por sua vez, conquistou a segunda divisão e disputará a elite pela primeira vez em 2017/18. O feito possui um simbolismo imenso, considerando a importância das mulheres na defesa do nacionalismo curdo. A organização mais notável é a YPJ, uma unidade de defesa militar inteiramente feminina, composta por 24 mil combatentes. A milícia atua na proteção de áreas curdas na Guerra Civil Síria, contendo a expansão do Daesh.

A ambição do Amed SK é inegável. Assumir a linha de frente nos interesses curdos impulsiona o clube dentro da comunidade e aumenta a sua visibilidade internacional. A política, contudo, tem as suas consequências. O ranço de outras torcidas aumenta, enquanto o clube sofre com as atitudes arbitrárias do governo. A resistência, de qualquer maneira, não é nova aos curdos. E o futebol oferece uma oportunidade concreta de ganharem voz sem pegar em armas. A luta não cessará.

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