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O peregrino, o arquiteto do indizível e o pequeno grande homem

Grandes mitos de uma pequena terra no meio do imenso sertão

O peregrino

Nova Vila de Campo Maior, 13 de março de 1830. Nasce Antônio Vicente Mendes Maciel. Nessa época, um pequeno povoado perdido na caatinga do sertão do Grande Ceará. A única maneira de buscar um sopro de esperança era ingressar na carreira sacerdotal. Mas não foi assim. Antônio perdeu a mãe muito jovem, aos 4 anos de idade. Há relatos que sua madrasta o maltratava. Reza a lenda que, após a morte de seu pai, quando já tinha 25 anos, ele teve que tocar os negócios da família sozinho, na mesma casa onde cresceu, impedindo-o de vez de seguir o sacerdócio. E foi em 1856 que a localidade foi elevada à condição de cidade com o nome de Quixeramobim pela lei estadual Nº 770.

Em 1857, Antônio casou-se com uma filha de um tio seu, Brasilina Laurentina de Lima, e se mudam pra Sobral. Lá, começou a se sustentar como professor de primário, dando aulas para filhos de comerciantes e fazendeiros. Mais tarde, começou a atuar como advogado, sempre defendendo os mais pobres em troca de pequenas quantias, um gesto nobre.

Começou a migrar de povo em povo, buscando novos mercados para seus ofícios. Chegando a Ipu, em 1861, flagra sua esposa o traindo com um sargento da polícia. Desolado, migrou para Cariri, mais ao sul da região, um local onde flagelados e penitentes abundavam. Iniciou ali suas peregrinações pelos sertões.

Em 1874, começam a surgir os primeiros relatos deste aventureiro que peregrinava por províncias como Sergipe, Bahia e região. Um misterioso personagem que fazia milagres e que, por isso, era chamado pelo povo local de Santo Antônio dos Mares. Os relatos falavam de sua vestimenta suja, seus pés descalços, seus cabelos espessos e piolhos visíveis.

Dois anos mais tarde, sua fama era maior, e surge um boato que Antônio havia matado a sua mãe e sua esposa, motivo pelo qual é preso e levado de volta ao Ceará. Visto que não havia cometido nenhum dos crimes, ele é solto e retorna à Bahia. Já em 1877, uma terrível seca assola a região. Uma multidão faminta caminha pelas estradas. Sem socorro, alguns bandos armados promovem justiça com as próprias mãos. Antônio os ajuda, e sua imagem é ainda mais associada a uma divindade.

Quando, em 1888, acaba — por fim — a escravidão, ex-escravos, agora libertos, vão em busca de Antônio. Só ele poderia ajudar milagrosamente essas pessoas. Mas sua santidade não era bem vista, era tido como um fora da lei, fosse pelos monarcas que deixariam o poder no ano seguinte, fosse pelos republicanos que assumiriam o governo. Sua peregrinação se encerra em 1893, quatro anos após a proclamação da república, à margem norte do Rio Vaza-Barris, num arraial onde se fixa e começa a receber desabrigados, vítimas das secas, onde podiam ter acesso a trabalho e terra. Milhares de agricultores pobres, ex-escravos e até indígenas começaram a ser atraídos para esse lugar tão próspero, onde começou a se formar uma comunidade igualitária, com os princípios cristão sendo levados a sério. A religião era uma ferramenta de libertação social, o que — é claro — incomodou profundamente os grandes terratenentes e o clero.

No final de 1896, é enviada a primeira expedição militar ao assentamento sob o comando do Tenente Pires Ferreira. Uma comunidade autônoma não poderia ser permitida. Mas àquela altura, os seguidores de Antônio se tornaram fiéis defensores dele e de seu povoado. Prepararam-se para uma invasão inimiga e armaram uma emboscada. Dispostos a darem a vida, foram contados 150 cadáveres do povoado contra dez do lado dos militares, o que foi suficiente para as tropas se retirarem e o conflito ter início. Antes do final de 1896, mais um embate sangrento e vitorioso por parte dos locais aconteceu.

Não demorou muito para uma terceira investida militar encabeçada pelo capitão Antônio Moreira César, conhecido como ‘Corta-Cabeças’, por suas façanhas na Revolução Federalista no Sul do país. Mas o capitão não estava treinado para combates não convencionais e foi abatido pelos fiéis escudeiros de Antônio. As tropas fogem e deixam munição pra trás.

A santidade de Antônio começa a ganhar fama nacional. Eliminar todos os fiéis e Antônio era assegurar a supremacia nacional. Em abril de 1897, chega, então, a que viria a ser a última expedição militar. Implacável. Até mesmo os fiéis rendidos eram mortos. E em setembro daquele ano, após graves ferimentos, Antônio morre. Em outubro, os últimos guerrilheiros são mortos. O cadáver de Antônio é encontrado enterrado na região, sua cabeça é cortada e levada à Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, em Salvador, e examinada pelo Dr. Raimundo Nina Rodrigues, que defendia que a cara da pessoa apresentava os traços de loucura e demência.

A tese de loucura é o maior entrave para o reconhecimento de Antônio como um líder comunitário ou religioso. Mesmo tendo liderado mais de 24 mil pessoas em uma época onde tudo dificultava semelhante feito, e ter empregado ideais realmente cristãos.

O arquiteto do indizível

Quixeramobim, 5 de abril de 1944. O Brasil era mais Brasil do que nunca. Getúlio Vargas havia conseguido unir as forças políticas dissidentes, e chegava ao que seria seu penúltimo ano no poder. Nascia Fausto, naquela mesma casa onde Antônio havia nascido, crescido e tocado os negócios da família até iniciar suas peregrinações. Fausto começou a desenhar aos 8 anos e deixou o sertão aos 11 anos. Foi para Fortaleza, onde seguiria seus estudos e ingressaria na faculdade de arquitetura da Universidade Federal do Ceará. Nos anos 60, durante sua formação como arquiteto, se desenvolveu como poeta, fazendo parte de um grupo intitulado “Pessoal do Ceará”.

Raimundo Fágner integrava esse grupo e pediu a Fausto que compusesse uma letra pra uma música. Mudou-se para Brasília em 1971, e em 1972, em plena ditadura — também conhecida como governo militar por aqueles que acreditam em papai Noel —, foi quando Fausto compôs seu primeiro sucesso, “Fim do Mundo”, aquela encomendada por Fágner. Foi o primeiro grande hit de aproximadamente 400 composições em coautoria, e interpretado por incontáveis grandes nomes da música brasileira desde então: Nara Leão, Morais Moreira, Simone, Ney Matogrosso, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Gal Costa, Maria Bethânia, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Dominguinhos, Caetano Veloso e Chico Buarque, são os principais deles.

Fausto percebeu muito tempo depois que usava bastante a palavra azul. Quando perguntado por Camila Holanda, em entrevista para o blog Discografia, no site do Diário do Nordeste, o por quê da repetição dessa cor em suas letras, Fausto respondeu que algumas palavras ganham significados indizíveis. E o azul era isso.

O pequeno grande homem

Em 1974, também em Quixeramobim, porém, não naquela mesma casa, nasce Pedro. Nos intervalos das aulas no colégio, Pedro ia pra quadra. Se destacava entre os colegas. Desde muito novo começou a ouvir que ‘levava jeito pra ser jogador de futebol’. A coisa foi ficando séria. O futebol parecia escolhê-lo pra se tornar profissional. Aos 17 anos, foi para Fortaleza fazer um período de testes no Ceará Sporting Club enquanto se hospedava na casa do tio, durante as férias escolares. O técnico da base era Lula Pereira. O treinador disse pro garoto correr, levar a ficha de autorização pros pais assinarem, que já tinha jogo na semana seguinte. Mas a mãe de Pedro não deixou que ele jogasse antes de terminar o colegial.

Precisou esperar aquele ano letivo pra então correr pra capital cearense e tentar recuperar a oportunidade no Ceará. Quando informou ao seu pai, mostrando a ficha de inscrição, o pai — autoritário — não permitiu. Mas ligou para Chicão, que era supervisor do Ferroviário, e pediu pra trazer uma ficha. A família do pai de Pedro trabalhava na Reffsa [Rede Ferroviária Federal]. Seu pai disse que ele ia jogar no time da família: o Ferroviário. Pedro torcia para o Ceará, mas como só queria saber de jogar sua bola, acatou a pressão paterna sem maiores inconvenientes.

No início da década de 90, o coração da cidade de Fortaleza, a Praça do Ferreira, ganhava uma reforma. Um dos arquitetos responsáveis era Fausto, aquele arquiteto e poeta que colecionava músicas nas vozes de diversos cantores do País.

Pedro se alojou, então, em um porão no estádio Elzir Cabral. Treinava obcecadamente. Jogava pelada nas folgas, conseguia um cachê com esses jogos. Até que foi emprestado ao Quixadá, onde se destacou no campeonato Cearense de 1995. Brilhou tanto que foi comprado por empresários espanhóis aos 21 anos. Um dos empresários era acionista do Villarreal, e lá ele começou. No primeiro amistoso, sai de campo carregado, sendo chamado de maestro. Naquele mesmo dia, olheiros do Real Madrid já mostraram interesse, oferecendo um contrato de dois anos. Seis meses mais tarde, ele chega ao Real Madrid B.

Seu técnico: Vicente Del Bosque. Seus companheiros: Casillas, Cambiasso, Guti, Raúl e Eto’o, com quem fez dupla de ataque. Fabio Capello chegou a convocá-lo para treinos e até pra jogos amistosos ou oficiais, porém menos importantes. Pedro se destacava no time B, era mais velho que o resto da turma. No time principal jogavam Hierro, Roberto Carlos, Redondo, Seedorf, Mijatović, Suker etc. A grande concorrência sempre impede que alguns jogadores subam. Eto’o teve que ir para o Mallorca, e Pedro recebeu até uma proposta do Real Madrid pra contar com ele em definitivo, mas seus empresários não aceitaram as cifras.

A facilidade em se conseguir passaporte falso em uma era pré-tecnologia digital, trouxe uma oportunidade: jogar como jogador comunitário. Mais portas se abririam. Mas era preciso “esquentar” o passaporte falsificado. Pedro foi jogar no Ceuta, em uma terra espanhola do outro lado do Estreito de Gibraltar, depois Melilla, times da Segunda División B. Até que alguns casos de jogadores como Verón e Dida foram flagrados, e estourou um escândalo na Itália sobre vários jogadores que utilizavam documentos irregulares. As notícias chegaram na Espanha, e todos os jogadores comunitários ficaram sob a lupa. Era a hora de voltar à sua terra. Recomeçar do zero.

A cidade de Fortaleza tinha acabado de ganhar um patrimônio cultural de suma relevância: o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Adivinhe quem era o arquiteto? Ele mesmo. Fausto.

Pedro disputou o campeonato cearense pelo Uniclinic e foi — finalmente — contratado pelo seu time de coração, uma emoção especial para retomar a carreira. Pedro nem recebia salários direito. Deu a vida por esse recomeço, pegava dinheiro com empresários que financiavam jogadores que não tinham condições ou que não queriam jogar sem receber. Fazia dupla de ataque com Sérgio Alves, que era uma máquina de fazer gols. Mas o time não conseguiu subir para a Série A naquele campeonato de 2002, e com mais de cinco meses de salários atrasados, permaneceu na segunda divisão.

Chega uma proposta do Paysandu em 2003, campeão da Copa do Campeões do ano anterior, que dava acesso à Libertadores. Pedro já tinha 26 anos, era — talvez — a última oportunidade de alçar vôo. Pedro assina com o time de Belém do Pará. O Papão terminou a fase de grupos em primeiro lugar. Por azar, acabou enfrentando o Boca Juniors nas oitavas de final, já que os Xeneizes haviam terminado a primeira fase em segundo lugar em seu grupo.

Pedro estava naquele elenco. O primeiro jogo era na casa do time com pior campanha na primeira fase, no caso na casa do Boca. No mítico e místico Estádio Alberto Jacinto Armando, ou La Bombonera. Pedro era mais um qualquer que enfrentaria um multi-campeão continental, dirigido por Carlos Bianchi. À época, Bianchi já havia conquistado três Libertadores — duas com o Boca Juniors e uma com o Vélez Sarsfield — e queria conquistar sua quarta taça. Wanderson, camisa 10 do Paysandu, é expulso naquele jogo. O Papão teria que agüentar o resto do jogo com um a menos, e contar muito com a sorte. Um tiro de meta despretensioso, o goleiro do clube paraense escorrega, a bola sai errada, cai nos pés de Sandro no meio que conduz e toca pra Pedro. Clemente Rodríguez deu condição de impedimento. A zaga havia saído, mas o lateral esquerdo do Boca recuou e deixou Pedro ‘em condição’. Burdisso recupera a passada, Pedro dribla pra trás, o zagueiro argentino passa batido e chuta. Abbondanzieri só olha. Gol do Paysandu em La Bombonera. Gol de Pedro Iarley Lima Dantas.

A vitória entrou pra história. O último time a conseguir o mesmo feito, de vencer o Boca em seu estádio, tinha sido o Cruzeiro nove anos antes. Já não importava mais nada. O Paysandu tocava o céu com as mãos, ou melhor, com os pés de Iarley. No jogo de volta, em Belém, os Xeneizes se impuseram, venceram por 4 a 2 e se classificaram. Chegaram até a final contra o Santos de Robinho e Diego, e se consagraram campeões continentais pela quinta vez.

Aquele gol rendeu a Iarley a oportunidade de ir jogar na Argentina. Seu empresário e outro agente iam oferecê-lo ao River Plate. Como o eterno rival de um clube não ia querer contratar um carrasco? Mas o agente era torcedor do Boca — segundo contou Iarley ao Globoesporte.com, em entrevista a João Marcelo Sena, em 2014 —, e preferiu mudar o rumo das coisas, levando Iarley para o clube contra o qual ele havia marcado o histórico gol.

Carlos Bianchi havia reassumido o controle do time no início de 2003, após um ano sabático. Quando chegou, uma de suas primeiras medidas foi tirar a camisa 10 de uma jovem promessa, herdada de ninguém menos que Juan Román Riquelme. O jovem promissor era Carlos Tévez. No primeiro semestre, Bianchi entregou a camisa a Ezequiel “Equi” González, um meia oriundo do Rosário Central, que chegou ao clube depois de uma passagem frustrada pelo futebol italiano. No segundo semestre, Equi González regressou ao Rosário Central, e a 10 voltava a ficar sem dono.

Foi exatamente quando Iarley foi contratado pelo Boca. Bianchi disse que a camisa 10 seria sua, porém, o brasileiro entendeu apenas como um estímulo. Não fazia idéia do que representava. Na mesma entrevista de 2014, ele confessa que nem sabia que Maradona havia vestido aquelas cores, e que só depois que foi apresentado, e viu a mobilização em torno daquele número de camisa, ele começou a entender da magnitude da 10 do Boca e seu significado.

Veio então o primeiro Superclásico contra o River Plate, no Monumental de Núñez. Iarley ganha uma bola de Rojas praticamente perdida na linha lateral, leva pra dentro, dribla Ameli e anota segundo gol do jogo, definindo a vitória por 2 a 0 no estádio do arquirrival. O final de ano se aproximava, e vinha a disputa da Copa Intercontinental contra o Milan em Tóquio. Iarley jogou o jogo inteiro, no empate por 1 a 1, contra o conjunto Rossonero que contava com Dida, Cafú, Maldini, Pirlo, Seedorf, Kaká, Shechenko etc. A bravura de Iarley combinava com o Boca, que ganharia nos pênaltis aquela taça. Um gol no Boca, um gol no River e o título mundial. Que ano!

Sua passagem pelo Boca foi abreviada por lesões e acabou se transferindo para o futebol mexicano, antes de voltar ao Brasil, para defender o Internacional em 2005. Participou do campeonato brasileiro de 2005, marcado pelos escândalos de arbitragem que culminou com o polêmico título do Corinthians. Mas veio a vaga na Libertadores. Iarley oscilava entre a titularidade e a reserva. Mas participou da campanha que levou o Inter ao título daquela Libertadores.

Yokohama, 17 de Dezembro de 2006. Ronaldinho Gaúcho era a estrela máxima do Barcelona, campeão da Champions League. Lionel Messi era um menino, mas ficava de fora daquela que era a segunda edição do Mundial de Clubes, oficialmente organizado pela FIFA, substituindo a Copa Intercontinental. Barça e Inter chegariam à final daquele torneio, com as chances de título do colorado tendendo a zero.

O domínio do clube catalão foi amplo, do início ao fim. Deco era o regente daquele time comandado por Rijkaard. Puyol era o pilar da defesa Blaugrana. O jogo se arrasta. Iarley começou como titular. Após um chutão, Luiz Adriano resvala de cabeça. A bola vai pra Iarley. Contra-ataque configurado. Era a única chance. Não, Puyol pela frente. Quem jogava videogame nessa época sabe o quão difícil — pra não dizer impossível — era passar pelo defensor catalão.

Iarley correu como se estivesse na quadra de seu colégio, em Quixeramobim. Compôs uma jogada como Fausto Nilo compusera brilhantemente centenas de letras, e desafiou o impossível ao encarar Puyol, invocando a santidade de Antônio — sim, o Conselheiro —, dando um passe perfeito para Adriano Gabiru que, como um discípulo de Antônio que matou o capitão Antônio Moreira César, afundou a bola no fundo das redes. Era o gol da vitória, do título, de uma das maiores obras arquitetônicas do futebol brasileiro de sempre. Internacional campeão do mundo.

Quixeramobim, uma cidadezinha no meio do imenso sertão cearense: terra de três personagens míticos que abrilhantam a história do Brasil. Um lugar de significado indizível.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

1 Comment

  1. julianoortiz

    agosto 13, 2021

    PELO AMOR DE DEUS!
    Como Colorado que sou, tendo perdido a voz de tanto grital naquele 17 de dezembro de 2006, eu não sei nem o que dizer a respeito deste texto. Seria algo indizível?
    Cara, que texto maravilhoso, Fernando. Que texto espetacular!

    Parabéns!

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