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O Príncipe Maldito

Vida e morte de um homem que nunca houve outro igual

Durante mais de meio século, o mito do Príncipe Maldito do Rio esteve adormecido nos livros de história. Foi preciso uma bela biografia de Marcos Eduardo Neves e um filme com brilhante atuação de Rodrigo Santoro para resgatar a sua lenda, para que o grande público soubesse quem foi Heleno de Freitas, o homem que sonhava em ser maior do que Pelé, quando o Rei ainda era só um menino Edson.

O escritor brasileiro Nelson Rodrigues chamou de “Hiroshima brasileiro”, referindo-se à mítica tarde que passou à posteridade como o “Maracanazo”. A surpreendente derrota de um Brasil que já se imaginava campeão do Mundo deixou o país em estado de profundo luto. Mas, na Colômbia, um dos mais célebres brasileiros da sua era celebrou como nunca na sua vida. Porque se ele não podia estar no gramado, então o Brasil não merecia ser campeão. Esse homem era Heleno de Freitas.

Um jogador a meio caminho entre Pelé e Garrincha, consumido pelos seus próprios excessos que o impediram de ser um dos melhores jogadores da história. Era um excêntrico, numa época em que poucos futebolistas o eram. Não vinha de um passado pobre e proletário. Pelo contrário, era um filho bem estabelecido de uma classe aristocrática do interior de Minas Gerias, que encontrou no futebol uma forma de viver a vida como queria: ao limite.

Não foi o primeiro. Desde os anos 20 que começaram a surgir, sobretudo na América Latina, jogadores famosos pelas suas conexões com o mundo da cultura, da música e da noite. Também não foi o último, mas talvez tenha sido o mais complexo desses atletas malditos. O seu ego foi a sua autodestruição. Heleno vivia para ser Heleno, para a sua glória pessoal e a paixão pelo jogo era só uma forma de atingir a posteridade. Com o seu clube de sempre, o Botafogo, mas, sobretudo, com a seleção do Brasil.

O goleador do Botafogo

Começou a sua carreira com 17 anos, descoberto na praia do Rio de Janeiro como tantas lendas. Por essa altura brilhava já a primeira grande geração de jogadores brasileiros. Mas a derrota nas semifinais do Mundial de 1938, a derrota de Leônidas e Domingos da Guia, apenas fez crescer o pessimismo do torcedor brasileiro, um pessimismo que rodeava a ideia de uma seleção maldita. Para Heleno a resposta era muito mais simples. Seria ele quem acabaria com a maldição porque o Brasil não estava destinado a vencer sem ele.

Não se pode dizer que as suas ideias não fossem seguidas por números, dados estatísticos e, sobretudo, gritos da multidão. Apesar do ego, Heleno era, realmente, o melhor jogador da sua geração. Durante os anos 1940 passou de uma promessa habituada à boemia do Rio a uma estrela nacional.

No Botafogo, marcou 208 gols em 238 jogos oficiais e era um líder para o público. Mas no vestiário era incapaz de entrar no “espírito coletivo” do jogo. Até os seus colegas chamavam-lhe Gilda, nome da personagem temperamental que dava nome ao filme de Rita Hayworth, e atrás de si não vinham só os golos mas também as noites perdidas em hotéis que acabavam em festas no seu quarto com cantoras e atrizes. E claro, o seu vício incontrolável ao álcool e ao éter, que aumentou à medida que uma sífilis, que nunca quis tratar — com medo a que prejudicasse a sua performance no campo —, começou a consumi-lo por dentro.

Heleno não acreditava em táticas, era um profeta do espírito do “malandro”, o protótipo do jogador brasileiro que acreditava ser capaz de driblar e fintar o universo. Em 1945 viajou ao Chile com a seleção brasileira para disputar a Copa América. A Argentina, liderada por “La Máquina” do River Plate, ganhou o torneio, mas Heleno ganhou o respeito do mundo. Melhor marcador, com cinco gols, voltou ao Rio de Janeiro mais popular do que nunca. E também mais incontrolável. Nem sequer o seu casamento lhe levou a abrandar o ritmo de vida, a faltar aos treinos e, sobretudo, a culpar os colegas pelos títulos perdidos. Quando se anunciou que o Mundial, inicialmente previsto para 1949, seria adiado para 1950, desesperou-se ainda mais ao ver postergada a hora da sua consagração definitiva. O clube se fartou, definitivamente, da sua atitude e decidiu vendê-lo ao Boca Juniors, mas, em Buenos Aires, a sua experiência saldou-se por um fracasso.

Capa da revista argentina El Gráfico

A pistola que não estava carregada

Quando voltou ao Brasil, nenhum clube se arriscou a contratá-lo. Depois de negociações tensas, assinou pelo Vasco da Gama, com quem ganhou o único título da sua carreira, o Carioca de 1949. Essa equipa mítica, conhecida como o “Expresso da Vitória”, era dirigida por Flávio Costa, que também tinha sido eleito como o treinador brasileiro. Tudo parecia se encaminhar para a concretização do seu sonho. Mas, depois de uma forte discussão com o técnico, Heleno tomou uma decisão que significou o seu fim. Uns dizem que a discussão foi sobre os seus atrasos aos treinos, outros pelos relatórios médicos que indicavam que a sífilis estava a piorar e exigia um tratamento sério. O certo é que Heleno saiu do estádio do Vasco depois da discussão e voltou com uma pistola que apontou à cabeça do técnico. Não estava, naturalmente, carregada, mas Flávio exigiu a dispensa de Heleno e o expulsou da Seleção para sempre.

Sem clube, mais deprimido do que nunca, o canto da sereia da liga rebelde da Colômbia o levou ao Junior Barranquilla. Ironias do destino, ou talvez não, vinte anos depois foi precisamente aí onde se refugiou o seu sucessor no Botafogo, o mítico Mané Garrincha. E foi aí, num hotel da cidade caribenha, que Heleno soube que o Brasil que não o quis tinha perdido para o Uruguai. A sua vingança tinha sido consumada, e algo dentro de si lhe dizia ainda que o sonho ainda era possível.

Mas a vida não lhe deu uma nova oportunidade.

O homem que comia pedaços de jornal

A sífilis tinha começado a deteriorar o seu sistema nervoso. O corpo deixava de responder, os seus ataques eram cada vez mais habituais e, no meio da paranoia a que se submeteu, Heleno voltou ao Brasil para assinar pelo modesto América do Rio de Janeiro. O sonho durou um jogo. Fisicamente destroçado, foi ingressado pelo irmão num sanatório em Barbacena. Aí viveu os últimos oito anos da sua vida, envolto num estado de profunda depressão e loucura. Pouco antes de morrer, começou a ouvir o nome de um tal Edson Arantes do Nascimento, a quem começavam a chamar Pelé. Quando o Brasil finalmente rompeu a sua maldição e venceu o Mundial de 1958, em Estocolmo, Heleno não celebrou. O nome de Pelé não lhe saía da cabeça. Começou a engolir pedaços de jornais onde a jovem estrela aparecia destacada, e o fez até morrer, um ano depois, só com 39 anos.

Reprodução do filme Heleno

Do Príncipe Maldito do Rio, disse um dia o filósofo Eduardo Galeano, era “um cigano, o rosto de Rudolph Valentino e o temperamento de um cão selvagem”. O Mundo esqueceu-se dele, como habitualmente acontece aos que não ganham, até que a literatura, na biografia de Marcos Eduardo Neves e o cinema, no rosto de Rodrigo Santoro, o resgataram. Heleno de Freitas perdeu a vida antes de morrer. Perdeu no terreno de jogo, quando o seu último chute não entrou no gol, quando o público deixou de gritar o seu nome e quando o Brasil deixou de tratá-lo como o seu filho predileto. A morte do corpo veio depois, mas ele já não se importava. O futebol era tudo e o futebol já há muito tinha ido embora dos seus pés para sempre.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.

2 Comments

  1. julianoortiz

    dezembro 14, 2021

    O Miguel é um irmão lusitano, não?
    O sigo no Twitter e leio seus textos, por aqui, sempre com prestígio, pois sei que virá algo de qualidade.
    Incrível como alguém de fora (Portugal), consegues escrever sobre Heleno e descrever os demônios que habitavam sua mente com tamanha maestria. Algo, infelizmente, que não tive o privilégio de ler made in Brazil.

  2. Miguel Lourenço Pereira

    dezembro 17, 2021

    Obrigado amigo, é sem duvida um personagem absolutamente fascinante e também é uma pena que se fale tão pouco dele na Europa, de certa forma sofre do mal dos grandes jogadores da era pre televisão. Um grande abraço

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