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O renascer do gigante bávaro

A construção do Todo-Poderoso FC Bayern

No futebol, só há uma certeza, diria Gary Lineker: “são onze contra onze e, no final, ganham os alemães.” Na Alemanha, essa frase só teria sentido se acabasse em “no final, ganha o Bayern”. O gigante bávaro é a maior potência de uma das ligas mais competitivas do futebol mundial. Competitiva em tudo, menos em títulos, claro. A Bundesliga é conhecida pelo seu carinho ao torcedor, pelos clubes que são (ainda em sua maioria) controlados pelos sócios, pelas suas arquibancadas sempre cheias e pela riqueza de plantéis em clubes de distintas zonas do país. Mas, provavelmente, tudo isso fica em segundo plano quando se fala do Bayern, um monstro que renasceu neste século XXI para se transformar num dos maiores tubarões do futebol mundial.

Quando o Bayern inaugurou a Allianz Arena em 2005, time bávaro estava a caminho de conquistar a sua segunda dobradinha consecutiva. Felix Magath, ídolo do Hamburgo como jogador, tinha ajudado o clube a recuperar da traumática saída de Ottmar Hitzfeld, o homem que resgatou o Bayern da sombra do Dortmund nos anos 1990. O seu Dortmund. Com Hitzfeld, a equipe perdeu uma final da Champions League nos acréscimos contra o Manchester United e ganhou uma nos pênaltis contra o Valencia. Ficaram célebres os duelos europeus contra os Red Devils ou Real Madrid. Depois de uma década de 1990 em que o Bayern passou mais tempo pelas competições secundárias da UEFA, a Recopa e a Copa da UEFA, essa transformação foi um balão de oxigênio para os seus seguidores. Mas Hitzfeld decidiu pôr um ponto final na relação em 2004 e muitos pensavam no que seria do futuro do clube no imediato. É verdade que o Bayern perdeu influência na Europa e deixou de ser um grande protagonista das noites europeias. Muitos dos seus ídolos dos anos 1990 foram se aposentando, um a um, dando espaço a jovens promessas. Mas, na Bundesliga, continuava a ser dono e senhor do torneio. Curiosamente, a inauguração da Allianz Arena marcou um ponto de virada na estrutura econômica do clube do mesmo modo que, em 1972, o Bayern entrou no Olympiastadion de Munique graças a uma ajuda do governo da cidade e, com isso, conseguiu ter mais receitas do que qualquer outro clube da Bundesliga para poder investir num plantel já repleto de estrelas prontas para confirmar as boas sensações de anos anteriores. Além disso, não se pode esquecer que o Bayern nem sequer participou na edição inaugural da Bundesliga.

Em 1963, quando a federação alemã finalmente decidiu abrir as portas para uma liga nacional em vez dos campeonatos regionais decididos numa final em playoff, ao estilo do que acontecia no Brasil anos 1960, o Bayern ficou de fora. Não só não era o melhor time da Oberliga Sud, a zona geográfica onde participava, como estava atrás do seu vizinho da cidade, o Munique 1860 e a organização da Bundesliga deixou claro que, para uma primeira edição, só se admitiria um clube por cidade. A equipe teve de esperar o ano seguinte para conquistar a promoção, juntamente com outro “outsider”, o Borussia Mönchengladbach, com quem iria dividir o protagonismo do futebol alemão nos quinze anos seguintes. No seu primeiro ano na elite, o Bayern ficou no pódio da classificação e ganhou a Copa da Alemanha, no que se revelou ser o passaporte para jogar, pela primeira vez, uma competição europeia. O Bayern sendo o Bayern ganhou o troféu, claro, num gol in extremis contra o Rangers de Glasgow. Em 1969, o clube conquistou a sua primeira Bundesliga, que era também o primeiro título nacional desde os anos 1930, quando a instituição era presidida por Kurt Landauer, um homem de negócios judeu que foi vítima da perseguição do regime de Adolf Hitler. Esse triunfo no final dos anos 1960 parecia o prenúncio de algo importante, e a chegada dos Jogos Olímpicos de Munique e o Olympiastadion colocaram a locomotiva em marcha para que o Bayern se tornasse o grande clube alemão dos anos 1970 em diante. Até 2020, é a única instituição que ganhou um título de liga em todas as décadas da competição. Na metade dos anos 1970, além da Bundesliga conquistada, chegou também à glória europeia com três títulos consecutivos na Copa dos Campeões Europeus. Todas elas em jogos polêmicos em que a sorte esteve do lado dos bávaros. Tinha nascido a Bayern-Dusel, a “Sorte do Bayern”, como os torcedores rivais batizaram essas conquistas. Frente ao Atlético de Madrid, o Bayern empatou no último remate da prorrogação de um jogo em que os espanhóis tinham merecido vencer. Não havia desempate por pênaltis nas finais, então, três dias depois, jogou-se um novo encontro. Com os rivais cheios de jogadores suspensos e lesionados, o Bayern ganhou fácil. No ano seguinte, precisou de um pouco de ajuda da arbitragem para superar o Leeds United, que tinha começado a temporada demitindo Brian Clough depois de 44 dias no comando do time. O terceiro título chegou com um gol solitário contra os românticos franceses do Saint-Etienne, que se queixaram de que as traves quadradas dos gols de Hampden Park impediram que a bola entrasse nas redes de Sepp Meier em três ocasiões. Sepp Maier era uma das grandes estrelas dessa equipe juntamente com Paul Breitner, Georg Schwarzenbeck, Franz Roth, Uli Hoeneß e o goleador Gerd Müller, todos eles figuras fundamentais também da Alemanha Ocidental, campeã da Europa e do Mundo em 1972 e 1974. Mas esse Bayern era, sobretudo, um time feito ao redor do seu líder espiritual, isto é, Franz Beckenbauer. O Kaiser não era só o patrão do jogo dos bávaros, era também a sua alma. Quando abandonou a entidade para provar sorte e fortuna nos Estados Unidos, o Bayern entrou numa profunda depressão da qual lhe custou muito sacrifício para sair. Ganhou títulos nos anos 1980 e perdeu duas finais européias quando era claramente o favorito contra o Aston Villa, em 1982, e o FC Porto em 1987. Nos anos 1990, a coisa não pareceu melhorar, mesmo com a passagem pelo banco de reservas de figuras como o próprio Beckenbauer, treinador campeão mundial com a Mannschaft em 1990, e do italiano Giovanni Trapattoni. Para muitos, o clube tinha se convertido num reality show, chamavam-lhe de Hollywood FC. As notícias sobre as suas estrelas enchiam os tabloides e o clube parecia ser incapaz de atrair os melhores jogadores alemães ou estrangeiros. Pouco a pouco, o cenário foi mudando. As estrelas dos anos 1970 deram o salto para cargos administrativos e personalidades como Karl-Heinz Rummenigge e Uli Hoeness se converteram nos líderes a partir de seus escritórios no clube. As parcerias com gigantes do marketing esportivo mundial, como a Adidas ou a indústria automotiva alemã Opel, facilitaram fundos ao clube para recuperar a sua pujança. Hitzfeld fez o restante e devolveu o Bayern à sua grandeza, mas muitos pensavam o que seria do clube de Munique sem ele no comando.

A chegada de Magath marcou um ponto de inflexão na liderança estoica do veterano Hitzfeld. Vários veteranos foram colocados num segundo plano e o técnico alemão buscou dar ao time mais fluidez ofensiva num jogo que ainda remontava muito à ideia do uso do líbero como elemento nuclear na construção de jogo. No início dos anos 2000, só o futebol alemão jogava com uma linha de três zagueiros, com esse líbero ocupando uma função muito particular, e dois laterais quase sempre de postura mais defensiva, quase todos veteranos, mas onde começava a conquistar o seu espaço uma jovem promessa chamada Philipp Lahm. À frente desse quinteto, onde ainda atuavam os franceses Lizarazu e Sagnol, o argentino Demichelis e o brasileiro Lúcio, estava um meio campo que continha mais força física do que talento. Jens Jeremies, Zé Roberto, Mehmet Scholl, Hasan Salihamidžić eram as peças nucleares em um tempo no qual se abria espaço para novas promessas como um adolescente Bastian Schweinsteiger e um sempre errático Sebastian Deisler. Na frente, a presença de um tanque, fixo, era a norma. Jogadores como Giovane Elber, Paulo Sérgio ou Carsten Jancker tinham cumprido esse papel para Hitzfeld à perfeição, como vieram a cumprir Roque Santa Cruz e Claudio Pizarro para Magath. O técnico, no entanto, viria a utilizar o holandês Roy Makaay como uma figura mais capaz de aproveitar os espaços e a crescente e inequívoca influência de Michael Ballack, o melhor jogador alemão da sua geração, era o que dava qualidade ao jogo ofensivo dos bávaros. O Bayern terminou campeão alemão, mas o estilo de jogo não era atraente, bem longe disso, e, na Europa, foi goleado de forma inequívoca pelo Milan de Ancelotti nas oitavas de final da Champions League 2005/06. O projeto não tinha ainda nível para se sentir de novo parte da elite continental como o ano seguinte demonstrou e mais ainda depois da venda de Ballack para o Chelsea. Apesar da dobradinha conquistada, Magath foi demitido no final da pausa de Inverno por divergências com a diretoria e pelos pobres resultados no campo de jogo. Hitzfeld foi chamado ao resgate, mais uma vez, mas teve de se contentar com um quarto lugar na Bundesliga e uma eliminação europeia nas quartas de final, de novo uma derrota contra os Rossoneri, que seriam campeões. Pela primeira vez no século, o Bayern não iria disputar a Champions League no ano seguinte. A diretoria do Bayern sabia que só uma profunda revolução no vestiário poderia mudar o destino imediato do clube. Beckenbauer, agora o presidente do clube, Uli Hoeness e Rummenigge decidiram dar um salto de fé no escuro e montar uma equipe à altura do desafio. O Bayern fez aquilo que raramente tinha sido capaz de fazer na sua história: investir forte no mercado de transferências. Incorporou Luca Toni, um dos heróis do título mundial da Itália na Alemanha, o tanque alemão Miroslav Klose, a jovem promessa Lukas Podolski e Frank Ribéry, o grande herdeiro de Zidane para o torcedor francês. Com estrelas deste nível, Hitzfeld conquistou um novo título da Bundesliga, somando uma nova dobradinha com a vitória na Copa da Alemanha, mas, depois de uma eliminação agonizante diante dos surpreendentes espanhóis do Getafe, o time caiu aos pés do Zenit de São Petersburgo e não chegou à final da Copa da UEFA. Foi o fim da linha, definitivo, para o veterano treinador. Makaay, Pizarro e Scholl já tinham saído no início da temporada e, quando esta chegou ao seu ponto final, Oliver Kahn, o histórico goleiro da última década, também abandonaria finalmente a instituição. Com ambas saídas, encerrou-se um ciclo histórico para a entidade. Era necessário definir um rumo. O time tinha fracassado de novo nos palcos europeus numa década nefasta para o futebol alemão na elite continental. Inspirados pela sua popularidade, a direção do Bayern arriscou e nomeou como sucessor do veterano Hitzfeld o emergente Jürgen Klinsmann como treinador principal. 

“Klinsi” tinha jogado nos anos 1990 pelo Bayern, sendo o artilheiro da Copa da UEFA que o clube conquistou contra o Bordeaux de Zidane e Dugarry em 1996. Sobretudo, era um homem extremamente popular na Alemanha depois de levar a sua seleção ao terceiro lugar no Mundial de 2006 praticando um futebol ofensivo e atraente. Era também um homem polêmico. Tinha vivido vários anos na Califórnia e adotou um estilo de vida profundamente americano. Praticava yoga, fazia meditação, não gostava de gritar com jogadores e, taticamente, deixava as funções mais exigentes para o seu corpo técnico, e se concentrava exclusivamente no lado mais ofensivo do jogo. Muitos sentiam que o seu papel como técnico tinha funcionado porque não estava diariamente em contato com os jogadores e porque a parte tática quase sempre ficava nas mãos do seu número 2, Joachim Löw, que lhe sucedeu no comando da Alemanha a partir de 2006. O seu anúncio, em dezembro, tinha dado ao clube meio ano para se preparar para a sua chegada, seis meses depois. Depois de um verão agitado em 2007, a diretoria ofereceu apenas um reforço a Klinsmann: o meia Tim Borowski. O técnico tinha de se virar com o plantel herdado de Hitzfeld, no qual Schweinsteiger e Lahm já tinham evoluído a ponto de se tornarem jogadores determinantes nas manobras táticas da equipe.

Já sem Michael Ballack, havia um buraco não só no aspecto criativo do jogo, mas, sobretudo, no carisma e na liderança de um vestiário rejuvenescido, mas cada vez com menos referências para recorrer. Klinsmann foi incapaz de transmitir esse espírito de liderança que o clube necessitava. O seu Bayern era anárquico em campo. Apesar de abraçar a linha de quatro defensores como já tinha feito na sua Alemanha, era um time sem profundidade e que sofria nos aspectos mais criativos do jogo. Toni e Klose não combinavam bem juntos, Podolski e Ribéry nas alas eram demasiado verticais e van Bommel, no coração do meio-campo, não oferecia mais do que suor e sacrifício. O time caiu na Supercopa contra o Dortmund e, quando chegou abril, uma goleada sofrida contra o Barcelona de Pep Guardiola nas quartas de final da Champions 2008/09 e um tropeço contra o Schalke 04 na Bundesliga custou o posto à estrela alemã dos anos 1990. Jupp Heynckes, treinador do clube no final dos anos 1980, foi chamado, pela primeira vez, para completar o final daquela temporada. In extremis, conseguiu garantir a presença do Bayern na seguinte edição da Champions League, mas o título perdido contra o Wolfsburg acabou por levar o clube a procurar por uma nova visão para o futuro fora das fronteiras de uma Alemanha que continuava a demonstrar ser incapaz de competir com a elite continental. Havia poucos nomes por quem o clube podia optar nesse momento. Apesar da sua história, prestígio e poder económico, o Bayern não era um clube que despertava desejo por parte dos grandes treinadores europeus, e a Bundesliga estava longe de ser a liga da moda — na verdade, naqueles anos ainda estava bem atrás da Serie A italiana em termos de reputação internacional.

O clube teve de recorrer a uma figura que, apesar de polêmica, estava precisando se reabilitar aos olhos do futebol mundial após ter levado à glória um modesto clube holandês: o AZ Alkmaar. Louis van Gaal e o seu espírito de Amsterdã não tinham nada a ver com a mentalidade bávara, mas ambas as partes estavam desejosas de mostrar que tinham ainda muito a demonstrar e, embora curiosa, a relação demonstrou imediatamente os seus frutos.

Van Gaal trazia a Munique a cultura do jogo de posição na sua versão muito particular. Nos anos 1990, tinha sido criado um cisma na escola do Ajax entre os seguidores das ideias de Michels e de Cruijff, que então treinava o Barcelona, e um modelo que partia do mesmo desenho tático do 3-4-3, mas com um formato diferente e um comportamento distinto por parte dos jogadores, que preconizava van Gaal. Antes da aparição da lei Bosman, o técnico teve tempo de montar uma grande equipe baseada quase exclusivamente em jogadores da base local, e não só acabou com quatro anos de hegemonia do PSV na Eredivisie como também foi capaz de conquistar dois títulos europeus, a Copa da UEFA, em 1992, e a Champions League três anos depois. Finalista vencido nos pênaltis no ano seguinte, van Gaal viu o seu projeto desmoronar com o fim das restrições aos jogadores no mercado comunitário e procurou repetir a proeza no Barcelona sem o mesmo êxito. Venceu duas ligas consecutivas — o primeiro em conseguir depois de Cruijff —, mas falhou sempre ao buscar presença na final da Liga dos Campeões. Acabou demitido, foi humilhado na sua passagem como treinador da Holanda não conseguindo a classificação para a Copa do Mundo de 2002, e, quando voltou a Barcelona, deixou o time em pior estado do que tinha encontrado. Muitos davam a sua carreira por terminada, mas o técnico soube se reciclar, aprender novos conceitos e, depois da sua passagem exitosa pelo AZ Alkmaar, foi repescado por um clube que, na sua gênese, também tinha criado um DNA próprio da sua versão de Futebol Total. Van Gaal aproveitou bem a formação bávara, mas teve direito a um investimento importante no mercado por parte da diretoria do clube. Chegaram Ivica Olić, Mario Gomez, Danijel Pranjić, Anatoliy Tymoshchuk e, a poucas horas do fim do mercado, Arjen Robben. O meia holandês foi a inclusão fundamental na ideia de jogo do técnico. Com Robben pela direita e Ribéry pela esquerda, muitas vezes jogando com diagonais ao interior, buscando apoios no pivô ofensivo, o Bayern transformava-se numa equipe diferente e mais criativa na hora de atacar. Van Gaal permitia aos laterais oferecer a largura de campo, colocava os extremos como falsos avançados e assentava as bases num trio de meio campo sólido onde van Bommel, Schweinsteiger e Tymoshchuk ofereciam cobertura defensiva. O seu grande problema era a lentidão dos seus defensores centrais, Demichelis e van Buyten, bastante veteranos já, algo que o treinador procurou compensar introduzindo pouco a pouco caras novas como o jovem adolescente austríaco David Alaba e o atacante polivalente alemão Thomas Muller. Esse Bayern funcionava com um ritmo de jogo totalmente distinto dos seus antecessores, ganhando a Bundesliga e a Copa apesar de um começo lento, enquanto os jogadores aprendiam os conceitos que o técnico holandês queria implementar. Quando as peças encaixaram, finalmente o Bayern começou a voar na classificação numa série de 19 jogos seguidos sem derrotas. Na Champions League, o verdadeiro objetivo, tudo começou cinzento também. As duas derrotas para o promissor Bordeaux deixaram os bávaros à beira da eliminação ainda na fase de grupos. Tinham de vencer o último jogo contra uma Juventus a quem o empate parecia ser suficiente e, depois de Trezeguet adiantar a Vecchia Signora no placar, muitos deram o técnico como despedido no ato. Van Gaal mexeu as peças no seu tabuleiro e a equipa respondeu com uma histórica vitória por 4 a 1 contra os italianos. Nas oitavas de final, já depois da pausa de inverno, os alemães eliminaram a Fiorentina para depois superar, nas quartas, o Manchester United numa eliminatória não apropriada para cardíacos, que impediu a terceira presença consecutiva na final dos Red Devils, agora órfãos de Cristiano Ronaldo. Com o campeonato no bolso, o Bayern superou então os franceses do Lyon sem grandes dificuldades para marcar presença na sua primeira final europeia desde 2001, quase uma década antes, o maior hiato na sua história moderna. O clube tinha a possibilidade histórica de conquistar em três semanas o seu primeiro Triplete, vencendo liga, copa e Champions, mas o seu rival na final de Madri, a Inter de Mourinho, estava também na mesma situação. A tensão do momento começou a fazer com que o time fosse perdendo pontos e chegou a cair para o segundo lugar da Bundesliga antes de recuperar finalmente a posição e sagrar-se, assim, campeão nacional a duas jornadas do fim do torneio. Na semana seguinte, o time superou o Werder Bremen na final da Copa, somando o segundo troféu do ano. O mais importante estava a quatro dias de distância.

Van Gaal ia defrontar um dos seus primeiros alunos no Santiago Bernabéu. Mourinho foi auxiliar do holandês quando van Gaal substituiu Bobby Robson no comando do Barcelona e tornou-se num dos seus maiores homens de confiança. No final, o luso seguiu o seu caminho como técnico e chegava a essa final depois de eliminar de forma tão surpreendente como dramática o Barcelona de Pep Guardiola no Camp Nou. O seu time da Inter não era favorito para ninguém no início da temporada, mas estava às portas de fazer história. Ambos os treinadores lutavam para conquistar o seu segundo título europeu, mas, no campo de jogo, nunca pareceu haver realmente dúvidas sobre quem ia vencer o mano a mano. A Inter controlou perfeitamente a ideia de jogo de van Gaal e explorou a lentidão dos seus meias com dois lançamentos longos por meio dos quais Milito expôs os problemas defensivos dos bávaros com facilidade. O título perdido deixou um clima ruim entre os dirigentes e o técnico, e o arranque da seguinte temporada começou num ambiente tenso e, salvo a reincorporação de um jovem Toni Kroos, que Klinsmann tinha enviado por empréstimo ao Leverkusen um ano e meio antes e que brilhara no Mundial de 2010 com a Mannschaft, não houve mais inclusões para o plantel principal apesar da lesão que Robben trazia da Copa do Mundo e que o manteria afastado do time por vários meses.

A temporada foi dura, o Bayern foi incapaz de demonstrar a mesma fluidez de jogo coletivo do ano anterior e, em abril, de forma quase inevitável, van Gaal acabou por ser demitido depois de várias trocas azedas de palavras com os dirigentes do clube na sequência da publicação de uma biografia sua. Nessa altura, o Bayern já se encontrava eliminado da Champions League nas oitavas de final pela Inter. A Bundesliga parecia praticamente inalcançável, graças à enorme campanha do Wolfsburg, mas a equipe garantiu a sua participação na Champions League seguinte, finalizando no terceiro lugar já com o interino Andries Jonker no comando. Munique começava a se converter num cemitério de projetos e treinadores. Desde a saída de Hitzfeld, sete anos antes, nenhum tinha conseguido aguentar sequer duas temporadas seguidas. Era necessário fazer algo, e os líderes do clube decidiram olhar para o passado e recuperar um homem de confiança da casa para liderar a seguinte etapa. Jupp Heynckes voltava aos comandos do Bayern, pela terceira vez na sua carreira. 

Jupp tinha sido uma estrela do Mönchengladbach nos anos 1970 como jogador e, na década de 1980, quando ainda era uma promessa nos bancos, levou o Bayern ao título da Bundesliga e a uma final da Copa dos Campeões Europeus, perdida contra o Porto. Posteriormente, a carreira o levou ao futebol espanhol, onde conquistou uma Champions League com o Real Madrid. Depois dessa etapa, voltou à Alemanha e se tornou um treinador altamente respeitado.

As ideias de jogo de van Gaal seguiam muito presentes e o plantel ia se rejuvenescendo pouco a pouco com Alaba, Badstuber, Rafinha, Boateng e, sobretudo, Manuel Neuer para superar um problema crônico do clube desde o fim da carreira do gigante Oliver Kahn. Com essas caras novas, Heynckes pôde finalmente fazer um reset de ideias e aplicar os conceitos de jogo “vangalianos” num ambiente mais relaxado que tirou o que de melhor pareciam ter os seus jogadores para oferecer. Robben e Ribéry seguiam sendo os elementos diferenciais nas alas, Müller ganhava cada vez mais importância na frente de uma dupla que misturava classe, atitude e talento, composta por Toni Kroos e Bastian Schweinsteiger.

O ano foi tenso e nem tudo correu de acordo com o plano. Na Bundesliga, o Bayern encontrou pela primeira vez um rival que parecia estar construído para os derrubar do seu posto de principal potência da competição. Anos antes, o Dortmund, que tinha sido a grande estrela da Bundesliga nos anos 1990, esteve a ponto de falir, chegando a hipotecar o seu mítico estádio. O clube não esteve muito longe de desaparecer, mas o Bayern, entre outras instituições, correu ao resgate e emprestou dinheiro aos homens do Ruhr para começarem a sua lenta reconstrução.

Sem grande capacidade para investir, o Dortmund resgatou do Mainz um jovem treinador conhecido por potencializar jogadores jovens e, pouco a pouco, essa figura foi despertando o monstro adormecido na “Muralha Amarela”. Aquele Borussia Dortmund de Klopp irrompeu como um trovão naquela Bundesliga de 2011/12, conquistando o primeiro título para o clube em quase quinze anos com mais de oito pontos de vantagem sobre o Bayern.

Em contrapartida, os bávaros se encontraram mais cômodos em terrenos europeus, onde a experiência de Heynckes começava a deixar os seus frutos. O clube venceu um grupo da morte na primeira fase com o Napoli de Mazzari, o Manchester City já dos petrodólares e o pujante Villarreal. Depois, superou com uma goleada histórica os suíços do Basel nas oitavas de final e os franceses do Marseille nas quartas antes de se medirem frente ao Real Madrid de José Mourinho nas semi. Os espanhóis estavam a caminho de vencer o título nacional interrompendo a hegemonia do Barcelona de Guardiola e muitos já sonhavam com um El Clásico na final.

Na primeira partida, em 17 de abril, o Bayern venceu por 2 a 1 com um gol de Mario Gomez quase nos instantes finais para desbloquear um resultado que parecia ser favorável aos homens de Mourinho. Dois gols de Ronaldo, uma semana depois, pareciam dar a classificação pros Merengues, mas Robben marcou, e o placar não foi alterado, forçando o desempate por pênaltis. O Barcelona tinha sido eliminado na véspera pelo Chelsea e os madridistas já faziam a festa, mas uma exibição monstruosa de Neuer na série de cobranças de 11 metros, travando os tiros de Ronaldo e Kaká, que acabou com Sérgio Ramos errando o seu disparo de forma ridícula, fazia com que o Bayern chegasse à sua segunda final em dois anos. Além disso, o título seria disputado em sua própria casa, na Allianz Arena. Sendo o Chelsea um clube com um treinador interino — o italiano Roberto Di Matteo — que tinha sobrevivido no limite a um ano agitado, ninguém punha outro cenário que não fosse o da vitória do time da casa. Heynckes não gostava desse ambiente, tinha vivido em 1987 algo parecido quando a final contra os desconhecidos do Porto, na vizinha Áustria, tinha terminado em tragédia.

O gol Müller, a sete minutos do final, após um jogo em que o time de casa foi muito superior o tempo todo, parecia afastar definitivamente todos esses fantasmas, mas, nem cinco minutos depois, Drogba ganhou pelo alto e rematou de cabeça um escanteio perfeito no coração da área para empatar a final. Robben ainda perdeu um pênalti e ninguém mais conseguiu superar Cech e Neuer, levando a decisão, à exemplo da semifinal, novamente para os pênaltis. Além de vir de uma eliminatória desse estilo, o seu último título fora também conquistado dessa forma: na agonia. Pareciam mentalmente os mais preparados, porém, na realidade, a pressão de jogar em casa contra um time que sentia que não tinha nada a perder teve o seu preço. Olić e Schweinsteiger falharam, não aproveitando o erro de Mata no primeiro disparo, e deixaram nos pés de Drogba a possibilidade de fazer história, algo que o costa-marfinense não desperdiçaria, e fechou assim uma ferida de longos anos do Chelsea com a tão sonhada Champions League, depois de uma década de investimentos de Roman Abramovich.

Outro clube teria entrado em depressão, querendo mudar tudo. Hoeness e Rummenigge sabiam que não era necessário. Tinham visto Heynckes trabalhar, conheciam o seu caráter e decidiram dar uma nova oportunidade. Tinham também uma carta na manga. A derrota do Barcelona contra o Chelsea e, sobretudo, o desgaste da tensão provocada por José Mourinho desde a sua chegada a Madri levaram Pep Guardiola a anunciar o abandono do banco dos Culés e tirar um ano sabático em Nova Iorque à espera de decidir o seu novo projeto. Todos os grandes tubarões do futebol europeu se apresentaram à sua porta, inevitavelmente. De todos eles, o projeto que mais parecia seduzi-lo era o do Bayern de Munique, mas as negociações foram longas e o clube, para comprar tempo, achou melhor manter Heynckes no cargo.

Heynckes, sem saber, começou a sua segunda temporada com uma vontade renovada de superar Klopp na Bundesliga e de ganhar finalmente, na terceira tentativa, um título europeu com o Bayern. Conseguiu ambas as coisas. Shaqiri, Pizarro (de novo), Mandžukić, Dante e Javi Martinez foram incorporações de luxo para o plantel bávaro e deram profundidade ao elenco para o técnico montar um time ainda mais vertical, dinâmica e fisicamente superior aos rivais.

O Bayern venceu a Supercopa contra os homens de Klopp e, logo em seguida, triunfou nas primeiras nove rodadas consecutivas da liga, um novo recorde. Em abril já eram campeões nacionais, os mais precoces na história do torneio, com seis rodadas ainda a serem disputadas. A esse título se juntaria, em 1º de junho, a Copa da Alemanha, numa final muito disputada diante do Stuttgart. No meio, a cereja no topo do bolo. Classificados sem problemas para as oitavas de final da Champions League, o Bayern foi demolidor contra o Arsenal, superando, em seguida, a Juventus de forma épica. A semifinal colocava o clube bávaro frente a frente contra o Barcelona, treinado agora pelo ex-auxiliar de Guardiola, Tito Vilanova, e que continuava sendo considerado como o grande favorito.

Londres, 25. 05. 2013 | Dortmund 1 – 2 Bayern

Sem Kroos, lesionado semanas antes, os alemães se prepararam como nunca para esse duelo que acabou por se revelar histórico. No jogo de ida, em Munique, em 23 de abril de 2013, o time da casa demonstrou estar em um universo à frente do seu rival: venceu por quatro gols sem resposta — Müller, duas vezes, Gomez e Robben fizeram os gols —, mas podia ter vencido por bem mais. Nunca ninguém tinha vulgarizado assim o conjunto catalão desde que Guardiola tinha tomado conta do clube. A geração de ouro de Messi, Xavi, Iniesta, Piqué, Puyol, Busquets e companhia sofriam um duro castigo, que seria ampliado uma semana depois, no Camp Nou, com outra vitória contundente por 3 a 0. A humilhação da equipe que o mundo tinha aprendido a admirar seria o maior momento na carreira de Heynckes. Ironicamente, o técnico já sabia que o mentor por trás desse Barcelona seria o seu sucessor no comando do Bayern. Guardiola fora anunciado com toda a pompa em 16 de janeiro daquele ano como treinador do clube para a temporada seguinte. A diretoria agradecia o compromisso de Heynckes, apontava a conquista da Bundesliga como o grande objetivo do ano — que praticamente já estava alcançado nesse momento — e anunciava o catalão como a porta de entrada para uma era na qual a instituição tentaria se afirmar na elite continental através da conquista da Champions League. Era curioso que o mesmo Heynckes, que seria substituído por Guardiola, estivesse a um jogo de alcançar o tal Triplete histórico para a instituição. 

Em Wembley, o Bayern encontrou um rival bem conhecido: o Dortmund de Klopp. Os homens de Vestefália tinham goleado de forma inequívoca o autodestrutivo projeto de José Mourinho, impedindo o Real Madrid de participar na final do torneio. Era a terceira vez que Mourinho não conseguia alcançar a finalíssima. Apesar da campanha errática no campeonato alemão e já sabendo que iam perder para o futuro projeto de Guardiola o jovem Mario Götze — nuclear figura naquele Dortmund —, os homens de Klopp sonhavam em juntar este troféu ao conquistado em 1997 contra a Juventus. Nenhum dos times parecia ter nada a perder e ambos jogaram com essa sensação no corpo. Com uma baixa de cada lado, a de Kroos para os bávaros e a de Götze para os borussers, a final foi entretida e decidida com um gol no minuto final. Depois de Gündoğan e Mandžukić terem anotado no primeiro tempo, tudo indicava que o jogo iria para a prorrogação quando Robben, que arrastava a fama de jogador maldito depois de perder um mano a mano com Casillas na final do Mundial de 2010 e o pênalti na final anterior da Champions, conseguiu superar, no suspiro final do encontro, o guardião do Dortmund, Weidenfeller, para finalmente ajustar contas com a História. Doze anos depois, o Bayern era, finalmente, campeão da Europa.

O título não tinha sido obra do acaso. As ideias de jogo de van Gaal continuavam a orientar a forma de jogar do time, e a liderança tranquila de Heynckes ofereceu oxigênio suficiente aos jogadores para serem capazes de dar o melhor de si mesmos. A confiança numa geração que vinha abrindo caminho desde finais dos anos 2000, liderada por Lahm e Schweinsteiger, finalmente colheu o seu fruto para delírio dos torcedores bávaros, que se sentiam a caminho de uma etapa gloriosa. Ter Guardiola do seu lado parecia ser o indicativo de que este Bayern só podia melhorar.

Heynckes tinha feito história. Não só conquistara esse mítico Triplete como bateu o recorde de pontos da Bundesliga, dez a mais em relação ao anterior, elevando para 91 pontos a marca, com vinte e cinco pontos de vantagem sobre o vice-campeão, outro recorde absoluto, além de ter levantado o caneco na rodada 28, algo nunca visto antes.

Guardiola, que, meses antes, parecia chegar a um projeto que faltava algo para dar o salto definitivo, acabava de herdar um time que vinha de bater todos os recordes possíveis no futebol alemão e que era também o rei da Europa. De certa maneira, a sua passagem pela Baviera ficaria sempre marcada por esse peso. Tudo o que Guardiola fizesse seria medido com a temporada anterior da sua chegada. O catalão tentou fazer melhor, mas nunca o Bayern jogou um futebol tão estético e atraente na sua história. Na prática, Guardiola saiu perdendo na comparação porque parou nas semifinais da Champions League nos seus três anos no comando da equipe. Venceu três Bundesliga, todas elas com um verdadeiro exercício de superioridade, batendo até todos os recordes de Heynckes e os que este tinha deixado por bater. O seu Bayern foi campeão em março, venceu todos os rivais possíveis, dominou a posse de bola como nunca nenhum outro time do tão vertical futebol alemão foi capaz de fazer, além de ter marcado mais e sofrido menos gols do que qualquer outro time da história da Bundesliga. A final da Champions League de 2013, o êxito alemão no Brasil, no ano seguinte, e a presença de Guardiola ajudaram a Bundesliga a se transformar na liga da moda, superando até mesmo a espanhola em protagonismo. Os seus duelos com Klopp entraram para a posteridade. E ainda assim, apesar de todos os diferentes desenhos táticos revolucionários, da passagem do 4-2-3-1 utilizado pelo seu antecessor para o 4-3-3, que muitas vezes se convertia em 3-4-3, 2-3-2-3 ou até mesmo na pirâmide original de 2-3-5, acabou sendo o habitual fracasso na Champions League o fantasma que marcou o projeto de Guardiola. 

No seu primeiro ano no comando o Bayern, tudo aconteceu como se esperava até chegar à semifinal, na qual ia defrontar o Real Madrid. Os duelos entre os dois gigantes tinham feito história no final dos anos 1980 e na virada do século. Muitos tinham ainda na memória a eliminação dos Merengues naquele que foi o melhor ano de Mourinho. No Bernabéu, o time de Guardiola foi asfixiantemente dominador, mas não conseguiu fazer um gol sequer, enquanto que um remate preciso de Benzema deu uma vantagem preciosa para o jogo de volta. Convencido pelos seus jogadores de que seriam empurrados pelos torcedores e não desperdiçariam todos os gols que erraram em Madri, Guardiola cometeu, como ele próprio reconheceu, o maior erro tático da sua carreira e alinhou um 4-2-4 que deixou a defesa alemã exposta ao letal contra-ataque do Real Madrid. As bolas paradas fizeram o serviço e, entre Sergio Ramos e Cristiano Ronaldo, os espanhóis conquistaram um triunfo histórico por 4 a 0 a caminho da conquista da ansiada La Décima.

Um ano depois, com um Bayern numa versão melhorada com as chegadas de Medhi Benatia, Xabi Alonso e Robert Lewandowski, outro vindo do Dortmund, os bávaros foram ainda mais dominantes no campeonato e, uma vez mais, chegaram sem dificuldades à semifinal da Champions League, na qual lhes esperava o Barcelona, que, com Neymar, Suárez e Messi, tinha formado um trio de ataque dos sonhos sob as ordens de Luis Enrique. O jogo de ida no Camp Nou foi um embate equilibrado que Lionel Messi decidiu a favor do time da casa, com dois gols decisivos a partir do minuto 77, um dos quais deixando a nu as fragilidades de Boateng como zagueiro. Neymar marcou um terceiro já nos descontos, o Bayern não disparou uma só vez à baliza do Barça e, apesar de vencer por 3 a 2 o jogo de volta em Munique, foi eliminado sem margem para discussão, enquanto que o renascido Barcelona partiu para conquistar o seu terceiro título europeu em seis anos.

Na seguinte e última temporada de Guardiola no comando, foi o terceiro clube espanhol, o Atlético de Madrid, que provocou a eliminação antes da grande final. Um golaço decisivo de Saúl no Vicente Calderón levou novamente a eliminatória para Munique favorável ao time visitante. Ao contrário de 2014, Pep foi fiel às suas ideias e o Bayern jogou como ele sempre queria jogar, com um controle asfixiante da bola, mas se chocou infindáveis vezes contra a melhor muralha da história moderna do futebol: a defesa de Simeone e do Atlético de Madrid. Um pênalti desperdiçado por Müller e um gol de Torres sentenciou o seu projeto de forma definitiva. O Bayern tinha conquistado a sua terceira Bundesliga — quarta consecutiva, um novo recorde do clube —, mas o desgaste da sua relação com a imprensa, com o departamento médico e com alguns dos pesos pesados do vestiário, levou Guardiola a aceitar a oferta do Manchester City e abandonar a Baviera sem o ansiado título continental. O técnico de Santpedor ajudou a revolucionar o jogo como nenhum outro num país que, até o início dos anos 2000, ainda vivia com um relativo atraso tático em relação ao restante da Europa. A influência de Guardiola se fez sentir nos jogos da Bundesliga a partir de então, em que a força física e a velocidade, conceitos sempre apreciados, passaram a andar de mãos dadas com um maior controle da bola e uma dimensão ofensiva mais completa do jogo. 

Seguramente que a diretoria do Bayern, que incluía a figura de Matthias Sammer — bastião de Ottmar Hitzfeld naquele Dortmund — como diretor técnico, queria alguém com um perfume local, porém, o clube voltou a olhar para o exterior e trouxe Carlo Ancelotti, um homem respeitado por todos e que era o segundo técnico italiano do clube depois da passagem conturbada de Trapattoni nos anos 1990. Ancelotti tinha três Champions League no currículo, era conhecido por ser respeitado no vestiário por onde quer que passava e, ao contrário de Pep, era um treinador taticamente conservador e que exigia fisicamente muito menos dos seus atletas.

Anunciado em dezembro do ano anterior, quando Guardiola tornou público o seu desejo de não renovar o contrato, Ancelotti teve longos meses para preparar a sua chegada. As contratações de Renato Sanches, a jovem estrela portuguesa que vinha da conquista da Euro de 2016 com o seu país, e de Mats Hummels, que tinha feito a formação no Bayern antes de se converter numa estrela em Dortmund, melhoravam o que já era, na prática, um dos melhores plantéis de toda a Europa. A expectativa era máxima em torno de Carletto e, apesar de este conquistar a Bundesliga — a quinta consecutiva para o clube, algo que nenhum outro clube tinha feito em toda a história do futebol alemão —, a derrota na DFB Pokal — a Copa da Alemanha — e a eliminação, mais uma vez, nas semifinais da Champions League contra o Real Madrid, deu a sensação de se repetir o mesmo filme noutra temporada.

Ancelotti era muito mais prático taticamente falando. Restaurou o 4-2-3-1 que tinha funcionado tão bem com Heynckes, deu liberdade criativa de novo a Ribéry e Robben nas pontas e colocou Xabi Alonso e Thiago como donos do centro do campo, procurando, com Coman e Müller, velocidade e poder de associação em apoio à figura já onipresente na área contrária do polonês Lewandowski. O esquema era simples, fácil de compreender e também de executar e, no âmbito doméstico, funcionou perfeitamente, mas, na Europa, tropeçou com a fome do Real Madrid de Cristiano Ronaldo e do seu aluno mais proeminente: Zinedine Zidane. A sensação de fracasso rondou todo o projeto durante o verão e não foi coincidência que, tal como com van Gaal anos antes, Ancelotti, ao não começar bem a temporada seguinte, acabou por sair em setembro. Willy Sagnol, primeiro, como interino, e Jupp Heynckes, inevitavelmente depois, terminaram a temporada e, sem rivais à altura, mesmo com essas alterações, o Bayern conquistou a sua sexta liga seguida, contudo, na Europa, transformou-se numa caricatura de si mesmo.

Com Niko Kovač, uma arriscada aposta para 2018, a situação não mudaria radicalmente. Novo título nacional, nova dobradinha, mas uma eliminação nas oitavas da Champions que restaurava o Bayern às catacumbas do futebol europeu, de onde tinha saído anos antes. Kovač era um treinador ainda mais conservador que o seu antecessor e, sob a sua — falta de — liderança, as figuras históricas do vestiário foram se apagando, uma a uma. A aposentadoria de Lahm e a saída de Schweinsteiger, anos antes, tinham deixado um buraco na liderança, ocupado por Neuer e Müller, mas nenhum destes pareceu se dar bem com o treinador, e as lesões de Thiago, Kimmich, Alaba e Coman pareciam colocar em evidência todas as fragilidades do projeto. Kovač começou a temporada de 2019/20, mas ele também não aguentaria a pressão e o peso da crítica e do vestiário e, em novembro, foi demitido após sofrer uma goleada de 5 a 1 para o Eintracht Frankfurt. O clube, como sempre, recorreu a um treinador interino para levar o time até o final da época. Nesse momento, parecia que o recorde de títulos consecutivos da Bundesliga estava em risco. A conquista da Champions nem sequer era mais um objetivo. Ninguém estava preparado para o furacão Hans-Dieter Flick.

Flick havia sido jogador do Bayern nos anos 1980 e auxiliar de Klinsmann e Löw na seleção alemã. Quando o primeiro abandonou o comando e Löw foi promovido a treinador, Flick foi colocado como seu auxiliar principal e chegou inclusive a comandar a Mannschaft no jogo contra a Áustria do Euro 2008 já que Löw estava suspenso pela UEFA. Por muitos anos, trabalharam lado a lado, e muitos diziam que se Löw tinha superado Klinsmann em nível tático, Flick tinha feito o mesmo depois dele.

Depois de abandonar os quadros da federação regressou ao Bayern para ocupar uma posição no organograma do clube e, quando Hoeness e Rummenigge decidiram finalmente prescindir de Kovač, a sua escolha parecia inevitável. Todos sabiam que era algo em curto prazo, entretanto, o técnico começou a realizar profundas alterações no ambiente. Recuperou velhas figuras históricas dos anos de glória de Heynckes e Guardiola, como Neuer, Hummels e Müller, ao mesmo tempo em que deu oportunidades a jogadores mais novos e com fome como o lateral esquerdo Alphonso Davies, o ponta direito Serge Gnabry e o renascido criativo Leon Goretzka. Em âmbito doméstico, parecia que a operação de rejuvenescimento ia funcionar, mas muitos duvidavam que teria o mesmo impacto nas provas europeias apesar da convincente vitória por três gols a zero em Stamford Bridge, quando o mundo foi invadido por uma das mais terríveis pandemias que há registros e tudo se paralisou.

Por dois meses, não houve competição. O mundo segurou a respiração sem saber sequer o que esperar no dia de amanhã, mas Flick trabalhou a fundo com os seus jogadores. Recuperou o desenho tático de Heynckes, oferecendo mais velocidade e mais presença física. Não era um modelo sem falhas. A defesa sofria com a pressão alta na perda de bola, mas o time parecia de tal forma motivado e preparado para assumir riscos que raramente concedia oportunidades. E Neuer, um goleiro que levava dois anos entre lesões e discussões sobre o seu real rendimento, tinha regressado em grande nível. 

Lisboa, 23.08.2020 | Bayern 1 – 0 PSG

Quando a Bundesliga recomeçou — o primeiro torneio nacional a fazê-lo —, o Bayern colocou o modo turbo e arrancou para uma etapa final de campeonato demolidora, vencendo de forma arrasadora a competição e levando também a Copa no caminho. Com a UEFA ainda sem saber muito bem o que fazer, os bávaros pareciam invencíveis e, quando foi decidido que o resto da Champions seria disputada em Lisboa, num formato de Final Eight, aos alemães só lhes faltava confirmar a eliminação do Chelsea para marcar presença.

O time chegou aos jogos decisivos mais fresco, mais preparado e com mais fome e convicção do que eram capazes de fazer comparados a todos os seus rivais. Nas quartas de final, em jogo único, assinaram uma das noites mais gloriosas da sua história. 14 de agosto, sob o asfixiante calor de Lisboa, o Bayern parecia voar enquanto os jogadores do Barcelona caminhavam lentamente rumo ao seu suicídio. O Bayern já vencia por 5 a 1 no intervalo. No final dos noventa minutos, o triunfo era ainda mais histórico e acachapante, um 8 a 2 que nenhum torcedor jamais esquecerá e que dizia tão bem do modelo do Bayern como deixava claro que o Barcelona há muito tempo já tinha deixado de ser referência e que nem Messi era capaz de salvá-los de si próprios.

Nas semifinais, o Bayern bateu o Lyon sem grandes problemas, numa exibição de eficácia ofensiva, e, quatro dias depois, conquistou o título europeu graça a um gol solitário de Kingsley Coman, que enterrou assim as expectativas do projeto milionário qatari do PSG. O triunfo do Bayern era inquestionável. Tinha vindo de um time superior em todos os aspectos. Também coroava um projeto que tinha entrado no novo milênio com uma forma diferente de entender o futebol. Tiveram os seus percalços, cometeram os seus erros de casting, mas nunca provocaram decisões contraditórias ou mudaram o rumo no meio do caminho. Desde o abandono de Hitzfeld, que marcou o final de um velho Bayern, o caminho tomou a direção da modernidade, um pilar assentado numa estrutura dirigente apoiada em antigos jogadores e com um forte espírito competitivo. O DNA de vitórias épicas do clube, a sua aposta recorrente na sua formação de jogadores e a capacidade para dominar a seu gosto o futebol alemão fizeram o resto. O monstro acordou. Definitivamente.

Jornalista e escritor. Autor dos livros “Noites Europeias”, “Sonhos Dourados” e “Toni Kroos: El Maestro Invisible”, “Sueños de la Euro” e “Johan: a anatomia de um gênio” Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos. O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona. Estudou comunicação na Universidade do Porto.