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A glória não chega por um caminho de rosas

Conta a lenda que, depois de serem derrotados no Mundial Interclubes em 1968, Bobby Charlton, George Best e Denis Law encontraram a frase acima estampada na lousa do vestiário rival. Era o combustível que alimentou o time que fizera com que os ingleses sofressem tanto contra os argentinos do Estudiantes, de quem conseguiram apenas um empate em pleno Old Trafford.

Hoje, a citação estampa o museu do Manchester United e é creditada a Osvaldo Zubeldía, técnico vencedor em 1968 e tricampeão da Libertadores. Com ele, os Pincharratas foram o primeiro “pequeno” a vencer um campeonato nacional na era profissional.

Como jogador, Osvaldo sabia muito bem o que era um caminho pouco florido. Teve uma carreira curta e nada memorável como volante, encerrada em 1960, no Banfield, onde Carlos Grigol definira a qualidade do companheiro em uma frase: “lento para jogar, rápido para entregar a bola.”

Transpirar e trabalhar duro não eram apenas crenças. Eram leis de sobrevivência. Prosperar em meio a jogadores mais talentosos requer trabalho, suor, superação. Natural que Osvaldo levasse isso para sua carreira de técnico.

O início como treinador foi no Atlanta, em 1960. Até 1964, Osvaldo introduziu novas metodologias como a concentração antes dos jogos, o implemento de treinos em dois turnos e o estudo prévio do adversário. Hoje é corriqueiro. Mas na época, foi um estouro num país acostumado a valorizar a técnica de seus enganches.

O Estudiantes fisgou o técnico em janeiro de 1965 com uma clara missão: se afastar do rebaixamento. Osvaldo pouco falou na apresentação e preferiu focar no trabalho. No campo de treinamento, não gostou do que viu e logo promoveu ao profissional o time de juniores. Uma questão de convicção.

Trabalhar para surpreender

Era agosto de 1965 quando as livrarias de Buenos Aires receberam um estranho livro. As 327 páginas continham desenhos de exercícios defensivos e ofensivos, explicações sobre a linha de impedimento e elucubrações sobre o 4-2-4 praticado no Brasil e criado pela Hungria. Tactica y Estrategia del Futebol, escrito por Zubeldía e seu auxiliar, Argentino Geronazzo, foi o primeiro livro sobre tática escrito na Argentina. Talvez por isso tenha fracassado.

Mas lá estavam as bases do jogo praticado por Zubeldía e que chamava atenção na Argentina. O time era bem diferente do de janeiro: Alberto Poletti, Carlos Pachamé, Eduardo Flores, Juan Echecopar e Juan Ramón Verón se destacavam no profissional enquanto o clube trazia os desconhecidos Marcos Conigliaro, do Chacarita e Carlos Bilardo, do Deportivo Español.

O Estudiantes passou longe do descenso em 1965 e 66 e incorporou de vez os métodos de trabalho de Osvaldo. Entre eles, maluquices para a época, como levar um saco enorme de bolas para o treino, repetir à exaustão jogadas de bola parada e destrinchar livros de árbitros para aproveitar ao máximo as regras do jogo.

Poletti conta que uma das artimanhas orientadas por Zubeldía era sentar na bola por cinco segundos antes de cobrar um arremesso lateral. Nenhum árbitro sabia o que fazer e ficava parecendo ridículo.

Aliás, jogar com a mente era a arma favorita do grupo. Os volantes Bilardo e Pachamé não economizavam nos carrinhos ou na força do contato corporal para anular os adversários. Para ganhar tempo, contemporizavam tanto as jogadas que irritavam juiz e torcida.

Cansados de tantos truques, os rivais logo começaram a provocar. A imprensa — paladina do jogo técnico — chamava de antifútbol o expediente praticado pelos Pincharratas (conotação pejorativa para quem dependia da força e da mente ao invés dos pés). Não era suficiente. Em 6 de agosto de 1967, o Estudiantes chocava a Argentina sagrando-se campeão metropolitano após aplicar um 3 a 0 no Racing Club.

A consagração internacional viera contra o Palmeiras, na Libertadores de 1968. Enfrentando a ira dos jornais argentinos e brasileiros — que acusavam os jogadores platinos de esconderem lâminas de barbear para ferir os oponentes —, o Estudiantes virou o placar em Montevideo, após sofrer um 3 a 1 no Pacaembu. À época, a final da Libertadores tinha um terceiro jogo em campo neutro.

A revista Goles — publicação rival de El Grafico — resumiu o espírito daquele Estudiantes. Nos anos seguintes, ninguém os pararia na América: “Sem frescuras, sem alarde: onze obreiros em notável trabalho.”

Inovações que ecoam

Naqueles tempos, o único contato com o futebol de outros países acontecia apenas durante os mundiais. Por isso, pode ser um trabalho hercúleo precisar exatamente as revoluções e os pupilos de Zubeldía, já que muitas ideias podem ter surgido antes ou não foram  devidamente creditadas.

É sabido que  a linha de impedimento foi primeiramente observada por ele em 1964, ao assistir um confronto entre o Boca Juniors e a seleção da Hungria. Ele viu que os quatro da defesa húngara formavam uma linha, obrigando os atacantes a recuar para não entrarem em impedimento. Era também uma forma de evitar o contato direto com algum jogador rápido e, portanto, com mais chances de se livrar dos últimos marcadores.

O “offside trap” infernizou atacantes e inspirou um holandês que assistia a derrota do Estudiantes para Feyenoord, em 1970. Das conversas com Zubeldía surgiu a ideia de adiantar linhas para brincar com a regra de impedimento e obrigar o adversário a perder a bola no campo de defesa. Aquele holandês chama-se Rinus Michels.

A própria ideia de estratégia no futebol era embrionária antes de Zubeldía. Ele foi o primeiro a observar que os movimentos do jogo podiam ser planejados e repetidos no treino. Se fossem bem executados, surpreendiam o adversário. Isso explica sua obsessão por ver jogos dos rivais e rabiscar papéis: planejar antes, executar depois.

A lista não para por aí: Zubeldía estimulava Poletti a dar chutões direcionados a Verón, a fim de agilizar a saída do jogo e delimitar a faixa de campo onde Bilardo deveria fazer uma falta ou recompor a defesa. Também foi o primeiro a treinar escanteios e projetá-los no vestiário.

Uma revolução humana

Não foi apenas na Argentina que Osvaldo marcou um antes e depois. Na Colômbia, ele foi bicampeão com o Nacional de Medellín e levou um pouco mais de rigor ao caótico futebol cafetero, acostumado às sestas após o almoço. O treino em dois turnos e a disciplina incomodaram, mas deram resultado.

Francisco Maturana, treinador daquela mítica seleção colombiana do início dos anos 1990, diz que a revolução de Zubeldía foi humana. Na Argentina, o treinador forjou uma geração de técnicos e jogadores, um deles, não menos brilhante: Carlos Bilardo.

Bilardo fincou seu nome como técnico no Estudiantes, com a conquista do Metropolitano de 1982. Dedicou o título a Osvaldo, assumindo o posto de fiel discípulo: era adepto da disciplina, da estratégia e do ganhar a todo custo. Em 1983, ele foi a escolha da AFA para comandar a seleção argentina que conquistaria o Mundial de 1986, no México.

Tata Martino, atual treinador da Argentina, afirmou este ano que “não há uma identidade argentina” — discípulos de Menotti e Bilardo continuam o embate. Uma coisa é certa: todos reconhecem a importância de Zubeldía para o futebol mundial e sabem que a glória, independente da forma, nunca veio por um caminho de rosas.

Jornalista e publicitário. Estudou comunicação na Universidade Federal do ABC, escreve para o Globoesporte no Painel Tático e para a Corner. Tem uns filmes empoeirados e acha que cinema com futebol é melhor que bacon.

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