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Paladar Negro

Existe uma inverdade muito falada sobre cães de raça. Diz-se que os verdadeiros animais com pedigree possuem o céu da boca de cor preta. Na Argentina, a expressão “céu da boca preto” passou a ser utilizada — sobretudo no futebol — para designar algo de bom gosto, esteticamente vistoso e de grife. “Céu da boca” em espanhol é paladar. E o Paladar Negro foi a maneira encontrada por três designer argentinos para nomear o notável trabalho visual que desenvolvem hoje.

Alberto Vianni, Heber Lajst e Sebastián Ruggiero se conheceram na UBA (Universidad de Buenos Aires) e lá se graduaram. Pelo fato de serem torcedores de times de menor expressão, eles se destacavam de seus demais companheiros quando o futebol era assunto. “Não compartilhamos os mesmos códigos de linguagem dos torcedores de grandes times”, diz Alberto Vianni, um dos integrantes do Paladar Negro e torcedor do Deportivo Laferrere, da terceira divisão. Heber torce pro Deportivo Español e Sebastián é “hincha” do Platense, ambos da segunda divisão.

As reuniões entre os três acontecem invariavelmente numa pizzaria específica no bairro de Chacarita, em Buenos Aires. O ritual é estritamente prático: como cada um vive num canto distinto do conurbado bonaerense, o encontro acontece lá por ser de fácil acesso aos três.

A capacidade de produzir infográficos pouco usuais começou a ser difundida nas redes sociais. Os temas são os mais diversos, mas giram sempre em torno do futebol e da indústria que alimenta o esporte (camisas, bolas, estádios, entre outras vertentes). O trabalho do Paladar Negro ganhou destaque em revistas de futebol, como a espanhola Panenka e, atualmente, eles assinam também o serviço gráfico de um programa de TV a cabo que repercute o mundo do futebol semi-profissional.

Quando começaram a produzir? Como nasceu a idéia?

Sebastián: A idéia surge depois da faculdade. Era criar algo que permitisse combinar as duas coisas: o design gráfico e o futebol. Pensamos em fazer um blog em 2012. Começamos num Tumblr e hoje temos nosso próprio site que já está no ar há um ano.

Heber: Decidimos aplicar ao futebol as coisas que aprendemos juntos nas salas de aula. Buscamos conteúdos diferentes que se proponham a analisar, por exemplo, a arquiteturas dos estádios dos campeonatos de acesso, já que não são pautas no dia a dia futeboleiro.

Hoje vocês têm um objetivo empresarial?

Sebastián: Sim, nossa intenção é ser uma agência de branding, digamos. Identificar coisas que podem ser melhoradas em clubes e aplicá-las.

Alberto: A imagem dos clubes em vias de desenvolvimento na Argentina. Existem muitos clubes que não alinham os elementos gráficos básicos para poder obter recursos financeiros.

Quais as dificuldades que vocês encontram no mercado?

Sebastián: Orçamento é o que mais influi. Clubes grandes, inclusive, não dispõem de verba para branding.

Heber: Os clubes não enxergam o branding como um investimento que pode ajudar a conseguir recursos. Os dirigentes ainda têm uma visão de outra época. É difícil que entendam o que você quer propor.

E como trabalham a escolha de pautas?

Alberto: Fazemos um brainstorm e elenco de idéias. Mas às vezes surgem coisas pontuais devido a um jogo específico ou a algum acontecimento. Como no caso do Chivas Guadalajara, que há pouco tempo lançou suas novas camisas. A reserva tinha um escudo diferente da titular. A partir disso, fizemos um levantamento e montamos um infográfico com clubes que tinham escudos diferentes de acordo com o uniforme.

Vocês têm a capacidade de transformar uma enorme quantidade de informações em algo enxuto. Falem um sobre esse processo.

Heber: Esse tipo de trabalho nós fazíamos na faculdade. Simplesmente aplicamos ao futebol. Usamos muito conteúdo, dados brutos, informação de verdade, mas de outra maneira. Não publicamos um post de quarenta linhas.

Sebastián: A chave é transportar informação de forma visual e que resulte interessante. Não usamos texto.

Apesar de atual e minimalista, o trabalho de vocês tem uma forte carga nostálgica, buscando códigos das raízes do futebol. É intencional ou tem a ver com as origens de cada um?

Heber: Sim, tem uma essência aí do futebol que nós fomos criados. Nós torcemos pra clubes pequenos e lidamos com esses códigos ainda. Nós trabalhamos com uma estética atual mas ancorados a essa essência.

Como vocês vêm a questão estética dos patrocínios nas camisas dos times? Alguns casos como a Quilmes em diversos clubes e a Ades no Independente conseguiam fortalecer a identidade com as camisas…

Heber: Isso! Vinte anos depois, você ainda se lembra de camisas e associa diretamente com aquela marca e, na verdade, você faz referência à camisa pela marca, dada a harmonia que existiu entre o patrocínio e o uniforme.

Alberto: A Internazionale agora tirou a Pirelli e ficou estranho. Nem parece nem mais a Inter, pois era um patrocínio que estava muito vinculado ao clube.

O que vocês acham primordial para que um patrocínio não estrague uma camisa?

Sebastián: Sabemos que os patrocínios são muito importantes financeiramente para os clubes. Mas acreditamos que se pode melhorar muito o visual, tomando decisões que levam em conta as formas, cores e proporções. Há fornecedoras de uniformes e federações que limitam a quantidade de patrocínios. Como na Argentina não tem um limite, se usa da necessidade financeira dos clubes para colocar um monte de patrocínios nas camisas.

Heber: São decisões que potencializam as marcas e os clubes. É um trabalho conjunto. A marca tem que ser vista, mas as cores do clube também precisam ser respeitadas e, assim, todos ganham. Não existe ninguém que se sente à mesa e pense em organizar isso. É algo básico.

Sebastián: Os exemplos que demos antes, como a Ades no Independente, são marcas que ficaram na memória do torcedor. É preciso entender que uma camisa de um time não é a mesma coisa que uma placa publicitária na beira do campo. Enquanto não houver uma determinação oficial, vai haver times com camisas que chegam a ter nove patrocinadores. É impossível trabalhar visualmente tantas marcas com tantas cores envolvidas.

Recentemente, o Everton, a Roma e o PSG tiveram seus escudos remodelados. O que opinam sobre o redesign dos escudos?

Alberto: Isso é bem complicado. Na América do Sul os escudos dos clubes são sagrados.

Heber: Acho que é possível mudar aqui também, mas em detalhes, modernizando pouco a pouco. Mas passa também por trabalhar a identidade visual global do clube. Que seja usada apenas uma tipografia na comunicação, por exemplo.

O que vocês acham dos uniformes dos clubes brasileiros?

Heber: O que me chama a atenção e acho bem interessante é que muitos times não fazem muita distinção entre o primeiro e o segundo uniforme. Na Argentina, são mais tradicionais. Alguns clubes quase não usam a camisa reserva. E quanto ao estilo, no Brasil são muito tradicionais – e eu adoro – as tricolores: Fluminense, Grêmio, São Paulo… No resto do mundo não se vêem.

Sebastián: Eu gosto das variações que elas têm. Uns clubes usam camisas com linhas horizontais, outros verticais e até diagonais. Com relação ao que disse o Heber, eu nunca soube qual era a camisa titular do Vasco da Gama – se era a preta ou a branca.

Quais escudos vocês gostam mais no Brasil?

Alberto: Corinthians e Vasco da Gama.

Heber: Cruzeiro, pelas estrelas. Antes eram apenas as estrelas, como uma espécie de “não-escudo”.

Sebastián: Gosto do Cruzeiro e do Botafogo, pelas formas que usam, e o do Internacional, pelo enlace tipográfico.

Como torcedores de times de menor expressão, o que acham do programa Fútbol para Todos, do governo argentino, já que ele não inclui os clubes para os quais vocês torcem?

Heber: O conceito de transmitir todos os jogos grátis é muito bom. Mas claro, sempre fica a discussão sobre se não valeria à pena investir em outras coisas mais importantes. Há muito investimento, mas a qualidade da própria transmissão é muito baixa.

Alberto: Foi uma medida que não fomentou o futebol. Os clubes aumentaram suas receitas com a televisão, mas continuam devendo milhões de milhões.

Sebastián: Por um lado você pode assistir jogos que antes eram impossíveis de se ver sem pagar. Por outro, existe um excesso de partidas e isso desgasta o prestígio também.

Heber, Sebastián e Alberto, os caras por trá do Paladar Negro (Foto: Fernando Martinho)

E o que acham de um campeonato tão inchado, com trinta times?

Sebastián: Fizemos uma análise e reparamos que não aumentaram significativamente o número de províncias envolvidas. São mais clubes, mas não são muito mais regiões do país. Com relação ao futebol, até achei que não ia haver muita diferença de nível entre os times, mas há.

Heber: Parece interessante que clubes de menor expressão possam viver uma experiência de jogar a primeira divisão, mas fica muito desigual o nível de competição. Se você olha a tabela, são três blocos de times muito bem marcados. Os grandes, os médios e os pequenos. Os orçamentos se mantiveram desnivelados. Não houve uma distribuição que permitisse que os pequenos crescessem. A Copa Argentina sim, tem um papel fundamental. Que haja esse tipo de competição já é um avanço para o futebol argentino. Depois discutimos o formato.

Alberto: Para mim, a Copa Argentina já promove esses encontros entre pequenos e grandes. O único problema é que seja disputado em sedes, e não onde os times jogam sempre. Você não pode mandar um time pequeno na província de Buenos Aires ir disputar um jogo em Formosa. Não tem sentido.

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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