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Panorama esportivo

O nervosismo, a bola que passou raspando, a raiva, o gol do outro sendo gritado com mais força do que o gol a favor do teu time, um chute que não foi nada de mais, mas que na tua cabeça foi uma perfeição, afinal, a bola entrou e, como disse o narrador, foi um “golão-golão-golão” — quem narra assim é justamente o “Garotinho” José Carlos Araújo —, os repórteres atrás do gol, que dão detalhes da jogada, a sonoplastia que anuncia o tempo de jogo, ou o oferecimento daquela transmissão, as chamadas, o reverb do AM, tudo isso.

O Rio de Janeiro, enquanto capital do país, teve um papel fundamental na popularidade do futebol e do Flamengo. A torcida rubro-negra é enorme no norte e nordeste do país graças à Rádio Nacional, afirmam sociólogos, historiadores e jornalistas que se interessam pelo tema.

O que será de tudo isso? Hoje em dia, quem escuta rádio fora do carro? Streaming? Até parece. Alguns celulares trouxeram uma sobrevida para o rádio no vaivém do trabalho-casa lá no final da primeira década dos anos 2000. Mas o 4G está aí, e mais se pensa em transmissão ao vivo em vídeo desde qualquer lugar. O Facebook fica notificando a cada instante que tal página está transmitindo isso ou aquilo, direto da redação, de tal evento ou de lugar algum.

Para quem nasceu na década de 80 ou um pouco antes, e torcia por algum time do Rio, era comum o hábito de ouvir diariamente o Panorama Esportivo, da Rádio Globo, que começava pontualmente às 22h, com a trilha “Hyde Park” do Carnaby Street Pop Orchestra and Choir — que, na verdade, ninguém saberia o nome, não fosse o YouTube, pois todos conhecem como “pa-pa-pa pa-pa pa-pa”, a mesma do Esporte Espetacular, lembrou? —, com o comando de Gilson Ricardo. Era ligar o rádio a essa hora, e aguardar pelas notícias que o Jornal dos Sports — aquele de papel cor-de-rosa — ia estampar na sua capa no dia seguinte, agregando um sensacionalismo bem particular na década de 90, sobretudo após o surgimento do Lance.

Elso Venâncio trazia as informações do Flamengo, e às vezes do Fluminense, do Vasco ou, raramente, do Botafogo. Era estranho que um setorista falasse de outro clube, parecia haver uma relação indissociável entre o repórter e o time. Outros nomes como Claudio Perrout, Eraldo Leite e inúmeros outros repórteres, faziam parte desse time toda noite, de segunda à sexta. O medalhão Luis Mendes, o da palavra fácil, era cadeira cativa. Os ouvintes mandavam perguntas, que se repetiam como: “Qual é o clube mais antigo do Brasil?” E ele respondia sempre: “Sport Club Rio Grande.”

Aos domingos, antes dos jogos das 17h, começava o “Enquanto a Bola Não Rola”. Era muita gente de alto nível na mesa. A velha guarda: Loureiro Neto, Fernando Calazans, Celso Garcia e Áureo Ameno, esse último fazia um estilo mais divertido e polêmico. Tinha também o Sérgio Noronha, conhecido como Seu Nono. Antes de a bola rolar, os trepidantes — como eram chamados os repórteres que ficavam atrás do gol — traziam as escalações dos times com o hino do clube ao fundo. Cada setorista sempre elencava o time que cobria durante a semana.

Quem ouvia a Super Rádio Tupi tinha seus nomes e programas preferidos. O Apolinho, Washington Rodrigues, saiu da Globo e foi para a Tupi, deixando a audiência carioca meio perdida no finalzinho da década de 90. Para o ouvinte fiel, sempre foi muito difícil mudar de estação.

Ali pelos anos 2000, Gérson começou a ganhar destaque nas transmissões, comentando os jogos de maneira irreverente e distribuindo notas para os juízes e jogadores, aplicando sonoros ZEEEEROS a quem lhe apetecesse. Mas o rádio vinha tentando se adaptar lentamente a um mundo que mudava suas relações a cada dia.

Os check-ins, as notificações no Facebook, as selfies, os tweets, o WhatsApp, tudo começou a modificar totalmente com os smartphones. Mesmo com o sinal das transmissões reproduzido ao vivo via internet, o mundo se comunicava em outro ritmo. Um pouco antes disso tudo, surgiram rádios All News, que traziam o minuto-a-minuto dos acontecimentos e comentários em tempo real sobre cada assunto em pauta.

O futebol fazia parte, é claro, dessa pauta. Milton Neves, com inserções matinais no programa de Ricardo Boechat na Band News FM, trazia outro tipo de radialismo esportivo com jabás e polêmicas, que lhe é bem peculiar.

Em 2013, nasce então a Bradesco Esportes no Rio de Janeiro. A cidade olímpica ganhava uma rádio FM de conteúdo 100% esportivo. A estratégia que o veículo adotou para inserção no mercado foi trazer quase toda a equipe de José Carlos Araújo, consolidada na Rádio Globo há anos.

A Rádio Globo precisou se mexer ao perder seu âncora e titular das narrações há quase três décadas. Foi à principal concorrente histórica, a Tupi, buscar seu reforço. Trouxe Luís Penido para ocupar o lugar deixado pelo Garotinho. Nessa altura, todas as emissoras, tradicionalmente estabelecidas no mercado na freqüência AM, já contavam com sinais no FM.

Em síntese, se já havia fatores externos que afastavam a sociedade do rádio, foi a vez do próprio rádio se envolver numa crise de identidade. O ouvinte do rádio é mesmo muito fiel. Talvez o mais fiel dos públicos. A audiência da Globo não a trocava pela Tupi, e vice-versa. Não pelo narrador somente, mas por todo o resto, a começar pela narração.

Quem ouvia a Globo ficou insatisfeito com o novo narrador. Em vez de migrar para a nova emissora — a Bradesco Esportes, que só dispunha de sinal FM —, a audiência ficou totalmente perdida, não sabendo qual rádio escutar. Já os ouvintes da Tupi não migraram para a Globo, e a Bradesco Esportes começou a formar uma nova audiência, sem herdar, necessariamente, os ouvintes da Globo.

O mercado publicitário sentiu imediatamente a mudança. Os números, que já vinham decaindo, sofreram um baque considerável naquele ano. Antes mesmo da Copa de 2014, José Carlos Araújo deixou a Bradesco Esportes e rumou para a Transamérica FM, deixando o mercado mais perdido que cego em tiroteio. Seus ouvintes, que já não o acompanharam em massa para a rádio anterior, ficaram sem entender nada.

Após uma passagem que quase ninguém ficou sabendo pela Transamérica, o Garotinho acertou com a Super Rádio Tupi, onde se reencontrou com Washington Rodrigues, o Apolinho, companheiro da década de 90 na Rádio Globo.

Pois bem, nessa incineração toda, o que será do rádio esportivo? Ainda está de pé. Mas até quando? Quem são os novos talentos? Onde estão aqueles monstros sagrados? Para onde vai o rádio em tempos de podcasts, Spotify e mensagens de voz no WhatsApp?

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

1 Comment

  1. Corner – fotografia | Fábio Soares

    abril 21, 2021

    […] Foto publicada na edição número 2 da revista Corner. […]

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