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Xico Sá

Copacabana. Um lugar que carrega sua nostálgica vanguarda e decadência urbana de mãos dadas. Nada mais carioca que Copacabana. Nada menos carioca que Copacabana. Mais hotéis do que residências. Mais gringos e turistas do que moradores. Mentira. Nem tanto. Mas é quase isso. O exagero faz parte da literatura, e Xico Sá que o diga. Uma vez disse que Cesar Maluco era melhor que Altafini ou Evair, mas “muito melhor”, disse no Redação Sportv, sem hesitar. Certamente Xico acha isso muito mais pelo apelido Maluco que acompanhava o nome, do que pela bola que jogava.

Suas camisas dificilmente não são floridas e estampadas. Seus óculos compactuam com o exotismo deste cearense que estudou jornalismo no Recife, e fez carreira em São Paulo e no Rio de Janeiro. Escolheu Copacabana, por razões quase óbvias, mas não pára por nenhum canto. A entrevista demorou algumas semanas para ser agendada. É gravação de programa em São Paulo, é Redação Sportv no outro dia de manhã, é lançamento de livro, é hérnia de disco, é tudo. É Xico.

Foi numa dessas que chega a mensagem de Whatsapp: “Querido, estou no Rio. Estou livre até às 18h. Amanhã [terça] volto pra São Paulo, mas depois, no Domingo, volto com mais tempo.” Era já a quarta semana que Xico dizia ter mais tempo depois do domingo. Era naquele momento, ou sabe-se lá quando. O lugar precisava ser assertivo. Galeto Sat’s. Nenhum lugar poderia ser mais acertado. Era como falar pra Xico esperar na padaria da esquina. Um lugar que ele sabe ir — ou voltar — de olhos fechados a qualquer hora.

Segunda-feira, 16h, Um clima primaveril tipicamente carioca, muita umidade e uma chuva pesada era prevista para o fim da tarde. Xico já estava lá, como disse que estaria. Seu copinho de chope o acompanhava, compondo com sua camisa florida estampada um cenário fluido entre personagem e lugar. Tudo à vontade. Foi só ir pra uma mesa maior, pedir mais chope e começar um papo que se transformou em entrevista quase sem se perceber.

Qual a influência de Nelson Rodrigues na sua vida e no seu trabalho? Existe uma influência?

Talvez seja a matriz da minha vida. Tanto da crônica esportiva, quanto da minha crônica mais lírica e sentimental, é Nelson Rodrigues e mais uns quatro. Antônio Maria, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende… Aquela turma que vivia em Copacabana nos anos 50 e 60. Eu cheguei um pouco atrasado. Uns 50 anos. Mas eu vim em busca desses caras, espiritualmente, talvez. Mas tem [influência]. A minha crônica, a minha fala, o que eu faço é, digamos, uma diluição de homenagem a eles. Não tenho nada de original no que eu escrevo, mas eu faço uma boa diluição, porque sou leitor diário dos caras, a minha oração diária é ler esses caras. Principalmente Nelson Rodrigues e o botafoguense Paulo Mendes Campos. Minha vida literária é Fluminense e Botafogo. [Risos]

Não tem nada de original, então?

Não, não. É uma diluição desses caras. Talvez um certo acento, uma certa prosódia nordestina que alguém reconhece como coisa minha. Fico muito feliz quando alguém tem um texto anônimo de internet e sem saber que é meu diz: isso é Xico. Talvez diga por esse acento de prosódia nordestina, mas eu sou esses caras diluídos em barris de bálsamo, carvalho etc. Eu não trouxe nada, eu bebi deles.

Você se diz um heterossexual metropolitano. Mas há quem te rotule como um ‘Esquerdo macho’. Como você se sente, ou o que é pra você ser um ‘Esquerdo macho’?

Já fui acusado de machista. Beira a isso em alguns momentos. Até um pouco, a minha devoção às mulheres beira a isso. Às vezes, a devoção demais vira, tem um acento marcado, machista, já ia dizer marxista, ia misturar as coisas [gargalhadas]. Então, tem esse acento. E a crítica mais inteligente que já recebi de uma feminista foi de uma menina, creio que do Ceará, não me lembro do nome dela agora, mas ela disse assim, com uma atenção fodida ao meu texto, ela leu várias crônicas com atenção, e ela fez essa leitura bonita que é: como a devoção pode virar machismo. E eu amo críticas delicadas de alguém que prestou atenção no meu texto e diz isso. E ela tem total razão. Mas eu acho que você não pode criminalizar a delicadeza, o afeto às mulheres, mas tem essa sinuca na minha vida pra resolver ou pra não resolver, mas tem um acento machista sim no que eu escrevo, até porque, pô, sou um homem do sertão, sou um macho jurubeba de séculos, não vai ser do dia pra noite que eu vou limpar, vou fazer uma assepsia de todo um machismo histórico. E até queria virar o mais sensível dos homens amanhã de manhã. Porque também se come gente sendo delicado [Risos]. Mas não se consegue da noite pro dia. Por conta dessas críticas inteligentes, eu tenho um pouco de consciência do que eu faço. E eu pego o meu primeiro livro de crônicas, “Modos de macho e modinha de fêmea”, e pego meu último “Os machões dançaram” — eu nunca tinha relido nada do que escrevi, mas reli —, pra ter essa idéia, até do que é machismo ali mesmo, e a acusação é legítima. Tem muito machismo na minha escrita, na minha crônica, sabe? Muito. E nunca foi com intenção de magoá-las ou machucá-las.

No futebol e na imprensa há muito machismo. Você acha que está melhorando esse cenário?

Não, o universo que menos melhora é o universo do futebol, no sentido de delicadeza, de ser menos machista, de ter menos conservadorismo. Então, vamos pegar a política; você tem na política o Brasil avançando de alguma forma, ou no mínimo vivendo um ‘rebuceteio’, uma confusão política, e questionando corrupção, e nego caindo ou pra cair, e no futebol você não tem isso. Você tem a CBF quase impune. O futebol, ele é mais atrasado do que a política, do que todos os costumes. O futebol é o bicho mais conservador do universo. Nós voltamos pra caverna na hora de discutir Santos e Botafogo. Na política, nós já condenamos mais a corrupção do que condenamos no futebol. Ainda tem um altar da impunidade no futebol, de certa forma. Talvez pela nossa passionalidade em relação a ele.

Você tem um Tio que morava em Crato, mas que teve que ir pra roça por não tolerar os avanços femininos. Conte essa história e, de alguma maneira, como você correlacionaria com o futebol brasileiro. Ele fugiu pra roça por um tempo?

Esse personagem, voltando àquela história anterior de machismo, quando eu falo desse meu tio, parece que sou eu falando — e de certa forma é —, e aí faz com que, em algumas horas, a minha crônica pareça mais machista ainda. Quando eu estou me referindo, citando personagens, minha infância, meu pai, meu avô, os costumes dessa época, aí talvez isso dê uma carga [pede mais um chope] mais forte na idéia do machismo. E esse meu tio é o personagem que tá nos meus livros, que é o macho jurubeba. Ele é o susto diante de qualquer avanço. Ele é esse cara. Eu retrato muito ele. Na verdade ele não agüentou a ideia de cidade. A ideia de dividir qualquer avanço com alguém. Então, ele volta lá pra estância dele, pra Serra no Araripe, lá pro cantinho dele, e lá ele que manda na cabeça dele. Ele não tem que comungar avanço nenhum com ninguém, então é nesse sentido que ele é citado.

Você acha que o futebol brasileiro fugiu pra roça?

Em alguns momentos sim. Quando o Renato Gaúcho, que é um cara que eu gosto muito, diz que não precisa aprender nada, é o Brasil voltando pra roça. A roça do meu tio. A roça do conservadorismo maluco. Todo mundo precisa aprender alguma coisa, né? Até Renato Gaúcho. Aliás, ele é muito mais especialista em outra coisa do que em futebol. Ele é muito bom com as mulheres. Ele é muito bom na noite. Um grande cara. E acho um puta treinador. É brilhante quando ele diz uma frase dessas e vira notícia no dia seguinte. Eu acho que ele é consciente desse personagem. Mas isso é um pouco roça. Ele não precisa aprender? É claro que precisa. O Tite ainda não aprendeu nada, quanto mais ele.

Quando o brasileiro pensa “vou colocar o Bernard no lugar do Neymar, e os alemães que se preocupem em marcá-lo”, é roça?

É! Felipão no 7 a 1 é roça pura nesse sentido.

Você fala do teor pedagógico de um “chifre”. Teria sido esse 7 a 1 um “chifre”?

Tem vários tipos de chifre. A queda do Inter é esse chifre. O torcedor colorado traído por uma diretoria que apostou em Celso Roth, uma diretoria que estava certa com o Argel. O futebol é um terreno incrível desses chifres, dessas traições. E a gente aprende com eles, com essas idas de Celso Roth pro teu time, aprende com esse tipo de história. Quando eu falei a história do chifre, de sua pedagogia pro homem, é porque a gente é muito arrogante, né? A gente é comedor, machão ‘barará’, ‘barará’, “tô podendo!”. E nessa hora de fragilidade que você vai ali pro Galeto Sat’s de madrugada, tomar uma e fala pro garçom como doeu, é a hora que você se humaniza de certa forma. Então, de alguma maneira, a segundona, a terceirona, ou a quarta divisão fazem muito bem pra arrogância futebolística. Pro torcedor e pro time. Tem clube que precisa cair obrigatoriamente. Odeio aquela coisa de ‘time grande não cai’. Acho isso tão pequeno. Pô, time grande cai mesmo! Isso é o faroeste da existência. É lindo! E aprende e volta mais forte.

Como você lida com a Seleção? Ainda torce? Ainda sofre? Sofreu com o 7 a 1?

Sofri um pouco com o 7 a 1. Eu não me via sofrendo na Copa e quando virou meio tragicomédia, eu me peguei sofrendo. Eu não queria que falassem aquilo do Brasil. Eu redescobri o Brasil naquele 7 a 1. Redescobri que eu gostava dessa porra. Que eu não era tão cosmopolita assim, sabe? Redescobri que eu morava na esquina da Miguel Lemos, que eu desço ali, que eu como um torresmo e que eu sou brasileiro, naquele 7 a 1. Foi necessário. Foi pedagógico também. Um belo chifre. Mais um.

Brasileiro de 1987. Quem foi o campeão?

Sport Club do Recife! E eu não me miro em questão de CBF, que é oficial, que tá lá. É porque eu quero! [Risos] Foda-se a CBF, foda-se que foi oficializado. Não é porque virou oficial, é porque eu quero, porque é o meu sentimento. Eu bebi com meus amigos nesse título. Um título bebido é um título ganho! [Gargalhadas].

Em 1988, teve o Bahia campeão, e em 1993, o Vitória foi vice-campeão brasileiro. O futebol nordestino teve esse momento. Você acreditou nesse momento que poderia ali, o futebol nordestino deslanchar?

Cara, não. Conhecendo a cartolagem, que em todo começo de campeonato só pega refugo do sudeste, e desprezando a meninada, e a meninada sendo vendida pros times do sudeste pra fora, conhecendo isso, eu não acreditei muito, nunca. Eu tenho vários times. Quase um por estado. Por razões geográficas, por exemplo: o Icasa de Juazeiro, cidade que morei muito tempo, Juazeiro do Norte; eu peguei o Icasa virando time. É um time do ano que eu nasci, de 1962, é um time de operários, é uma Manchester de Cariri, é o time da Indústria e Comércio de Algodão S/A. É o time dos operários da indústria de algodão que fundaram o Icasa. E foram, e jogaram a Série B do campeonato brasileiro. Então, quando o Icasa estava subindo eu acreditei no futebol nordestino. Meu time de Juazeiro, time de operários, está virando um time grande. Mas aí o cara bota um grupo de empresários de São Paulo pra gerir o time, aí o time vai lá pra Série D. E só pra pegar a molecada e vender rápido. Não dá pra ter esperança nas diretorias dos times. E quando é de cidades que você conhece mais, você sabe como o cara está ganhando dinheiro, como ele comprou uma casa nova às custas das meninadas. Fico muito puto que o Ceará não esteja na Série A. Meus amigos ficam putos comigo porque eu fico falando bem do Santa Cruz. Porque à distância – eu estou há um quarto de século no sudeste, entre Rio e São Paulo, há 25 anos. — eu torço pelo Santa Cruz como eu torço pelo Sport. Eu não quero que caia. Porque eu não tenho o porteiro me enchendo o saco de manhã. Se eu estivesse lá, não tinha alteração. Eu tô há muito tempo fora, então eu torço pelo futebol do Nordeste de verdade. Estava torcendo pro Vitória, pro Sport, pro Bahia subir, pra ter cinco, seis, do Nordeste na Série A. Isso graças à distância. Perdôo completamente meu amigo que mora lá na Rua da Aurora, onde eu tenho um apartamento no Recife, e que não admite que eu seja Náutico, Sport e Santa Cruz. E Icasa de Juazeiro, e Ceará, e Fortaleza, e Ferroviário, e Campinense, e Botafogo da Paraíba, Coruripe em Alagoas ou ASA. Na distância você não vai ser importunado por ninguém, então é fácil você ser generoso no mundo ‘ludopédico’.

Qual a maior rivalidade do Nordeste pra você?

Cara, eu acho que Sport e Santa é o maior clássico do mundo! Que me perdoem os gaúchos, mas um ‘GreNal’ tem que tomar muito chimarrão pra parecer com Sport e Santa. Porque o jogo é mais quente. E argumento mesmo, de verdade: quais times do Brasil fizeram um clássico onde um estava na Série A, o outro na D, e continuou sendo o mesmo clássico? Não foi Corinthians e Palmeiras, Não foi Campinense e Treze. Não foi Ceará e Fortaleza. Não foi ‘BaVi’. Não foi ‘FlaFlu’ que foi o mais próximo disso [o Fluminense esteve na Série C enquanto o Flamengo estava na primeira divisão]. Não foi ninguém. Esses times provaram, com o destino das quedas, que eles são o grande clássico do Brasil. Em algum momento, há até uma aliança do Náutico com o Santa Cruz, mas nunca tem aliança entre Sport e Santa. Ali o pau quebra, da maneira boa e da ruim também.

A Arena Pernambuco acabou com a força do Náutico, não acha?

É acabou com o Náutico. Essa porra de Arena é a desgraça do futebol brasileiro. A crença na Arena, na coisa limpinha, no chope de ‘20’ conto. Isso é a morte do futebol brasileiro. Isso vale pra todos. Só tem uma vantagem que eu vejo, e aí é em respeito às mulheres — mas acho que também não é preciso fazer uma Arena superfaturada pra respeitar as mulheres, que é ter um banheiro feminino melhor. Entendeu? O único desgosto meu com esses velhos estádios, de verdade, era não ter cuidado com as mulheres e fazer um banheiro bom pra eu levar a minha namorada, a minha filha, sabe? Se esses pequenos estádios resolvessem um drama da humanidade e botassem um bom banheiro pras mulheres com respeito. O único gol que esses caras fazem é a hora que eu penso que minha mulher está num bom banheiro e não está naquelas pocilgas. É a única vantagem. Por que não incentivar e fazer belos banheiros pra mulheres? A gente mija em qualquer canto, em árvore, em qualquer canto, em monumento do patrimônio histórico nacional, em qualquer canto. Eu quero ver é pras mulheres.

“É sintoma da época que a gente vive. De uma assepsia no mundo. Nego chama de modernidade. É São Paulo criar um boteco fetiche do que teria sido o boteco carioca, e o carioca copiar esse boteco pra cá. Quer dizer, era um boteco inventado pela mentalidade paulistana como se fosse um boteco carioca dos anos 50 e 60, e o Rio copia essa falsa ilusão. O mal está aí! Esse é o grande mal. Aí vale pro futebol pra cacete, vale pra tudo. Vale no jogador nunca mais falar no alambrado com o repórter”

Você fala que sexo bom mesmo é sujo. Há uma correlação entre a Arena e a assepsia no sexo?

É sintoma da época que a gente vive. De uma assepsia no mundo. Nego chama de modernidade. É São Paulo criar um boteco fetiche do que teria sido o boteco carioca, e o carioca copiar esse boteco pra cá. Quer dizer, era um boteco inventado pela mentalidade paulistana como se fosse um boteco carioca dos anos 50 e 60, e o Rio copia essa falsa ilusão. O mal está aí! Esse é o grande mal. Aí vale pro futebol pra cacete, vale pra tudo. Vale no jogador nunca mais falar no alambrado com o repórter, porque tem que ter aquelas duzentas placas de patrocinador atrás.

Pô, lembro bem duma entrevista linda do… [Aqui a tal entrevista é esquecida e começa uma Ode ao Flamengo dos anos 80] — eu fui muito flamenguista nos anos 80, de vir do Ceará pra ver jogo do Flamengo aqui. Nunca vou poder me declarar flamenguista, mas eu era um ‘Ziquista’, um ‘Junista’, um ‘Adilista’. Eu vinha ver jogo do Flamengo porque eu queria testemunhar aquilo. Eu achei que estava vivendo uma grande história, e eu vinha ver o Flamengo porque eu acho que os homens têm que ver as grandes coisas, os grandes filmes, os grandes times. Não sei por que eu derivei pro Flamengo [viu como ele se perdeu? Talvez os outros chopes que chegaram sem sequer serem pedidos já faziam algum efeito], mas acho que porque eu falei de sintoma de época, coisa e tal. Então, nos anos 80, eu vinha ver o Flamengo como um espectador do sintoma da época incrível. Eu torcia pro Flamengo? Não! Mas eu amava quando o Flamengo tomava um gol do Cobreloa, botava a bola no centro e ia… Aliás, esse jogo do Cobreloa eu vi num puteiro em Petrolina. Eu estava lá com uma puta e ela vendo comigo. Ela dizia: “bem, vamos”, aí eu disse: “Peraí, porra, o jogo. Oh, o Zico!” [muitos Risos].

Algum outro time te faria viajar assim, pra assistir?

Eu vi esses todos, eu fui ver o Messi…

Você acha que o Messi pode ser o maior de todos?

Não. O maior de todos é o negão, é o Pelé. A gente despreza muito o Pelé. Inclusive, eu já cometi muito erro como cronista, um certo desdém com Pelé, que é um desdém brasileiríssimo e, uma das minhas melhores correções como jornalista é essa, sobre Pelé. ‘Ah, o brasileiro não sabe votar’, não sei o quê, não importam essas frases de poesia dele, como disse o Romário. O que importa é que ele foi um poeta, ele inventou uma linguagem em campo, né? Ele inventou uma forma de antever jogadas. Ele inventou uma idéia de jogar bola. Ele é de uma grandeza que a gente se pega tentando menosprezá-lo. Avaliá-lo como analista político? Não, avaliar ele como inventor. Ele inventou uma linguagem, uma forma de jogar futebol no mundo.

Mas e o time, qual você viajaria pra ir assistir?

Olha, deixa eu lembrar. Eu fui ver o Messi, há uns dois anos. Mas foi numa viagem que eu já faria, nem fui com essa missão, mas fui com isso na cabeça. Deixa eu pensar. Olha, eu fui ver o Campinense numa boa fase, então… Já fui ver em Juazeiro, meu cunhado alertou “tem um cara aqui que tá jogando pra caralho!”. Era o Júnior Xuxa, o 10 do Icasa. Não errava uma falta. Era o Galinho de Quintino do Icasa. Há uns seis anos, fui ver o Icasa na Série B. E eu peguei, saí daqui do Rio de Janeiro pra ver Júnior Xuxa batendo falta no Romeirão. Então, minhas loucuras são maiores. Essas horas têm uma grandeza que é a grandeza que a cidade compartilha. Eu me lembro de chegar ao Rio e as calçadas compartilhando o sentimento de ir ver o Zico no Maracanã, com o Capacete [Júnior], com todo mundo. Outro cara que eu paguei passagem pra ver: Leandro. Queria ver Leandro jogar. Aí vim pra ver, eu não vi Zico. Só olhei Leandro. Uri Geller, não vou olhar o jogo, vou olhar o cara. Se eu fosse olhar o jogo inteiro, eu não via Uri Geller por inteiro. Eu fiz muita excursão pra ver, morando em Juazeiro, o ataque do Santa com Fumanchu, Nunes e Joãozinho, no final dos anos 70. Aquele [ataque] que chegava aqui e dava trabalho pra caralho no ‘Maraca’ contra qualquer um. Eu gosto dessas excursões. Paulo Cézar Caju. Porra! Eu tive a grande sorte de ser amigo de um grande cara chamado Sócrates Brasileiro. Mas o Doutor, quando você se acostuma com o amigo, a gente bebia toda noite juntos, fazia o programa lá do Cartão Verde na TV Cultura, aí o Doutor me apresenta Paulo Cézar Caju. Aí eu disse: “Porra! Agora tu fez alguma coisa nessa amizade de merda, que é me apresentar esse cara.”

Você teve uma relação bem próxima com um expoente da música brasileira dos anos 90, talvez sem igual. Um cara que saiu do nordeste através de um movimento revolucionário, o Manguebeat, enfim, o Chico Science. Você conseguia enxergar, na época, a magnitude de Chico de tão perto?

Tem uma coisa que a gente não percebe quando está convivendo no dia a dia. Tive muita sorte de ter amizade com esses tipos de gênios. Com o Sócrates, que é um mantra ao infinito na minha vida, com ele foi ao contrário, porque ele era um ídolo da minha vida, ao ponto de ficar puto porque ele fez aquele gol contra a União Soviética, e eu era comunista pra caralho! [Risos]. E ele falou que vários amigos dele reclamaram pra caralho. E ele disse que também sentiu um pouco. Ele era brasileiro até no nome, mas como uma auto-ironia, ele dizia que quando ele viu a camisa do da União Soviética, ele pensou: “Ih, não vou voltar pra Ribeirão Preto, meus amigos comunistas não vão permitir minha volta”. Quando eu conheci o Sócrates, eu tinha noção pura com quem eu estava convivendo. Até ficava espantado com a banalização da amizade, o filho da puta dormindo lá em casa na Pompéia, a gente enchendo a cara. Então, era uma idéia de ídolo que chega, e você vai desmistificando por dentro, pela convivência. Vai humanizá-lo. E que é do caralho, você torna humano o cara que você mais admirou no futebol em todos os tempos. Com o Chico [Science], eu não tinha noção. Eu sabia que ele estava fazendo uma coisa grande, mas você não tem noção com quem está convivendo. Ele virou meu amigo por conta de Fred Zero Quatro, que era meu amigo de jornalismo lá da Universidade Federal de Pernambuco, aí é que eu conheço Jorge Dü Peixe, Chico e toda a turma, via Mundo Livre S/A, que era a banda que foi o meu The Clash de escola. É fácil falar depois de morto. Na verdade, na hora eu via como um fodão. Um talento do caralho, mas depois que a gente perde, aí fica lembrando, ‘pô, aquele momento que o cara falou isso, a intuição dele pra isso, e não sei o quê’. Aí a gente faz uma anatomia do gênio que a gente conviveu. Mas a gente não tinha noção durante a convivência. Você cai junto no mesmo porre, aí vira tudo igual.

Houve uma influência muito positiva da MTV nisso, não acha?

Sim! Mas o Chico era um grande artista com ou sem MTV, com ou sem mídia, mas ele também tinha uma grande coisa. Ele tinha compreensão da linguagem dos meios de comunicação. Ele tinha compreensão de pra quem ele estava falando. Da construção de um mito, digamos assim. De linguagem de um mito, que passa pela roupa, pela frase. É fácil dizer agora, um milhão de anos depois. Tanto é que na primeira entrevista na MTV que reúne todo mundo, Chico já chega pronto, com aquela roupa que reúne maracatu, que reúne não sei o quê. Idéia de empresário? Porra nenhuma. Não tinha empresário. Não tinha nada. Assessor porra nenhuma. Idéia de MTV, porra nenhuma. Idéia de Chico, chegar do jeito que ele seria conhecido no mundo. Então, é uma puta consciência de construção de uma imagem tendo um lastro. Que uma coisa é construir uma imagem vazia, e outra coisa é construir uma imagem tendo o que dizer, né? Tendo gogó, tendo miolo. Posso ir no banheiro, querido?

Claro!

[Na volta, falou-se de uma placa “Fora Temer” em um show do Nação Zumbi. Gabriel Macieira disse que precisava perder o hábito de ler comentários em redes sociais, alegando que ia morrer do coração. Pois um dos comentários dizia que Chico Science estaria envergonhado pelo posicionamento político da banda. Xico Sá intervêm e diz que ler comentários mata mesmo. E replica. O que teria acontecido se Chico estivesse vivo, é que ele teria dito “Fora Temer” antes dos outros, e continua…]

Tem coisa que não pode. O cara gosta de Iggy Pop e é direita? Não pode! Está proibido. Cada costela do Iggy Pop vai reclamar. No sentido de ser de direita, de ser contra os direitos humanos, no velho sentido de direita.

“Eu acho impossível chegar [ao poder]. Eu torço pra que um dia quebre esse acordão. Mas acho impossível chegar ao poder sem comungar com essa bandalheira. Isso é triste pra caralho. E o PT fez o jogo de todo mundo. Um jogo normal, que eu condeno pra caralho, que foi uma merda. É melhor não governar.”

O PT deu as mãos ao PMDB para se eleger lá em 2002. Fez parte desse “Plano de Poder”. Essa aliança foi necessária para governar e antes, para chegar ao poder. O mais importante era chegar ao poder, ou você defende que a esquerda deveria ter apostado num crescimento sem se aliar com um partido fisiológico como o PMDB?

Eu não sei se a esquerda teria chegado à presidência sem esses acordos. Acho que, na verdade, o grande pacto do PT com toda essa bandalheira começa naquela carta aos brasileiros do Palocci, quando ele diz assim: “Não, Senhores banqueiros, não se assustem…” Ali o PT já foi pro jogo. Ainda era de forma platônica. Ainda não tinha a bandalheira concreta de fato. Mas eu acho impossível chegar [ao poder]. Eu torço pra que um dia quebre esse acordão. Mas acho impossível chegar ao poder sem comungar com essa bandalheira. Isso é triste pra caralho. E o PT fez o jogo de todo mundo. Um jogo normal, que eu condeno pra caralho, que foi uma merda. É melhor não governar. Eu como nordestino, tenho uma imagem que me lembro muito, dos saques nas feiras-livres do Nordeste. Meu pai era comerciante e assim, a gente viveu muito essa histórias dos saques. Todo sábado, todo domingo, em toda feira-livre no Nordeste, em período de seca extrema, tinham saques. De gente faminta de verdade. Não era como os jornais, na época, acusavam: “Aparelhados pelos sindicatos rurais” não sei o quê. “Aparelhado pelas ligas camponesas” sei lá. Mentira! Era gente faminta atacando as feiras-livres. E tenho na minha linha histórica mental, o Lula como o fim disso. Não como Deus, não como tendo feito algo como um Santo. Nada disso. Não importa. Mas no meu imaginário vai ficar pra sempre o corte da idéia de seca como saque, como a bodega do meu pai correr risco, de ter aquele medo nas feiras públicas. Isso é a idéia que eu tenho de Luiz Inácio Lula da Silva. O resto o julguem pra cá ou pra lá. Pra mim, a importância do primeiro governo do PT foi essa. Quebrou a idéia de o Nordeste ser o lugar que se saqueava a feira-livre todo sábado e domingo. Isso, pra mim, é uma puta história.

Lula ou Dilma?

Lula! Mas ele caiu no mesmo acordão nacional. Ele repete Getúlio Vargas, sendo pai dos pobres, mas mãe dos banqueiros. Ele repete de alguma forma isso. Nunca os bancos ganharam tanto dinheiro como na gestão Lula, né? Lula nunca foi de esquerda. O maior erro da direita brasileira é usar o adjetivo comunista pro PT. Um partido de, talvez, uma social-democracia, leve pra idéia européia. Mas é a única vez que a gente chegou mais perto de uma social-democracia, o que o PSDB nunca vai conseguir, e nunca conseguiu, porque pra você ser uma social-democracia, você tem que ter sindicatos, tem que ter um lastro operário. O que é um pouco do que padece o PSOL. É uma puta idéia de partido, personalidades interessantes. Chico Alencar, eu amo. O Freixo etc. Mas cadê os operários? Cadê aquela base, o chão da fábrica, né? E o PT conseguiu ser o chão da fábrica, fazer uma puta política social e depois caiu no acordão, petrolão, mensalão, todos os “ãos” que acabam com o Brasil. Esse “ão” vai acabar com o Brasil.

O mesmo PMDB que o PT se aliou lá atrás, também o tirou do poder, o que é considerado um golpe, como você mesmo diz. Um golpe…

Eu respeito os dicionários…

Não teria sido muita ingenuidade do PT se aliar justamente ao PMDB? Foi um preço que se pagou por essa aliança?

Sabia-se, né? A essa altura sim. Nesse último governo, tanto que a agenda era uma, e depois chamam o Joaquim Levy. Porra, eu não votei em Joaquim Levy, votei no MST! Eu sou radical, não voto em quem vai agradar a banca. Eu voto em quem vai agradar o mundo das ligas camponesas.

As arenas superfaturadas, em locais onde não há futebol de alto nível, compôs essa politicagem do PT de entregar essas obras a empreiteiras. Que crítica você faz a essa política?

Tem uma coisa que eu sempre lembro, uma coisa totalmente simbólica, mas eu sempre lembro do Brasil sendo moda do mundo. Das Havaianas sendo moda do mundo. Lula sendo moda do mundo. E eu acho que foi o final dessa ilusão. Da ilusão de um Brasil grande e moda no mundo todo. Foi a nossa era Havaianas. Teve uma hora que o mundo todo comprava Gisele [Bündchen], Havaianas, e comprava esse entendimento de uma grande história do Brasil. Era do caralho na época, de crescimento, de governo Lula, não sei o quê, mas não precisava esticar isso até a Copa do Mundo, quando a gente já vivia no papel outras realidades. A gente esticou a síndrome Havaianas demais e nos fodemos! [Risos].

Como você vê o jornalismo esportivo, as mesas redondas?

Como eu falei, dentro do mundo conservador, o futebol é um mundo mais conservador ainda. Nós estamos há cem anos luz da mesa redonda ‘Facit’ de Nelson Rodrigues. Eu amo o Redação Sportv porque acho que é um espaço de liberdade total. Acho Rizek, sem querer bajulá-lo que eu não preciso disso, nem ele precisa do meu elogio. Mas ali tem um espaço de jornalismo sem limite. De nunca ter cenão, nunca ter olhar feio pro que se diz. Ele sabe quem está convidando, e sabe que a pessoa pode falar lá. Acho um grande exemplo de mesa redonda avançada. Difícil de coordenar porque uma coisa é você ter uma bancada fixa que você sabe o que cada um vai falar. E lá você tem uma bancada que se reveza. Com malucos que eu amo, como o Tim Vickery. Ele é um cearense, ele acha que é inglês, mas ele nasceu no Ceará pela forma delirante que ele pensa. Vou provar ainda pra família dele que ele nasceu no Ceará.

Em uma mesa redonda hipotética, quem você escolheria pra sentar ao seu lado, dentre os seus contemporâneos? Não vale quem já faleceu.

Trajano, Tim Vickery, Tostão… porra, que time do caralho, hein!? Eu botaria o Rizek. Ele consegue deixar as pessoas falar. Ele consegue fazer uma coisa, que era uma velha utopia do impresso, de que a notícia são os outros, ele consegue isso de uma maneira magistral na televisão. Botaria Juca Kfouri porque tem um papel histórico, um cara que acreditou na idéia de futebol como política. Esse cara não pode ficar de fora. Paulo Cézar Caju! Evidentemente. E botaria um certo mau humor de Lédio Carmona. Acho que seria importantíssimo.

Falando em Rizek, você participa do Redação Sportv, mas muito mais pela sua obra na literatura, como cronista, do que pelo seu papel como jornalista…

Eu comecei como repórter esportivo. Meu primeiro emprego foi com futebol, no Tabloide Esportivo no Recife, depois na editoria de esporte no Jornal do Commercio. Depois muitos freelas pra Playb… Que pra Playboy, o quê! pra Placar! Já ia misturando meus interesses. Fazia aqueles campeonatos de duzentos times no Nordeste, fiz muito. E pra Agência Estado eu cobria aqueles campeonatos de um milhão de times, de quando a “Arena vai mal, um time no Nacional…”, Campina Grande, Arapiraca, Juazeiro…

Como é pra um Nordestino, existem exigências que um nordestino tem que se adaptar e que, mesmo se adaptando, ainda assim há uma resistência?

Tem muitas vezes que você se acha meio cota. O negro, o nordestino… Você se vê um pouco na cota. Mas eu sou muito abusado. Ah, me chamaram, eu vou falar as minhas merdas com muita elegância. Não vou me pôr o papel de coitadinho, que é um papel muito reservado ao nordestino secularmente, no futebol e em tudo. E primeiro você tem que vencer isso na sua cabeça, de não cair no coitadismo. E você não vence da noite pro dia. Eu sou um cronista do papel que foi pra televisão. Primeiramente lá no Cartão Verde com o Sócrates, o Vladir [Lemos] e o Vitor Birner. Fui chamado pra lá e comecei na televisão. Mas nunca me vi como um cara de TV, que vai pra lá e vai cagar regra, sempre me vi repetindo minhas crônicas, meus bordões, meus mantras, minhas maluquices. Eu vou com esse espírito.

Mas é mais difícil pro Nordestino?

É! Como ainda é mais pro negro. Aí o negro nordestino gay… São camadas de filha da putagem no Brasil contra nós todos. Camadas! É um dégradé de racismo ao infinito. Talvez no mundo inteiro, mas pra voltar ao Brasil, assim, pega a Erundina. Mulher, paraibana, de esquerda, não sei o quê, é um grande dégradé racista do universo que a gente tenta vencer com o solzão na cara do Nordeste. Deus e o diabo na terra do sol. Pra vencer essa porra toda desse preconceito filho da puta.

E, dentro dessas dificuldades, às vezes acaba sendo inserido de forma mais caricata…

Uma exotique francesa… Eu, às vezes, me vejo e digo, ‘caralho, caí no velho truque da exotique’. Muitas vezes eu me vejo nessa situação, aí, ‘opa! Volta a fita, rebobina’. E como repórter, eu acho que me escorei muitas horas também nesse exotique, pra fazer matérias de mais destaque, o que é um erro monumental de nordestinos de sucursais, de Veja, do Estadão… Todos nós fizemos isso. E essa consciência foi batendo ao longo do tempo.

Em 2014, você é demitido ou você pede pra sair da Folha?

Eu tinha uma crônica semanal, eu ganhava uma merreca, mas foi a coisa que mais gostei de fazer na vida. Mais do que escrever sobre amor, mais do que tudo. Aquele drama dos 90 minutos de campo, eu sou viciado na idéia de narrar essa dor futebolística. Então, doeu muito a ideia de não escrever uma dor semanal de futebol. Nego acha que você está escrevendo sobre futebol, mas você é Shakespeare naquela hora. Você está escrevendo sobre as dores do mundo. Mas do ponto de vista trabalhista, era um contrato que eu recebia por coluna e não foi renovado.

Givanildo.

Esse é um homem! Aquela foto dele é o que me interessa. Ele coçando uma das bolas. Porque ele é um homem que tem muitas bolas! [Risos.] E vi ele jogar muito também.

A que você atribui a dificuldade dele se inserir no futebol do Sul e Sudeste?

Porque ele é nordestino, porque ele é pequeno. Ele é errado do ponto de vista publicitário, errado sob o olhar Champions League da existência, ele é esse erro por esse olhar filho da puta. Porque de futebol, pelo amor de Deus, o cara saca, entende, sabe fazer jogar, mas sempre chega pra salvar times em degola. Nesse sentido, ele é mais injustiçado que ‘Papai Joel’. Com todo o folclore que o castiga, Joel brilhou. Mas Givanildo salvou o Náutico em 2016, e não subiu por acaso. E o cara é demitido. Então, há um preconceito dos nordestinos contra ele também.

É fácil culpar o Sudeste que já tem essa carga. Por que, quando o Sport sobe e quer vingar, não chama? E o Santa também? Ninguém deu mais sangue pro Santa do que Givanildo, sabe? Então ele é vítima dessa história toda. E ele nunca fez o discurso de coitadinho.

Há uma auto-sabotagem ali?

Inconsciente, sim! Por que também ele não emplaca lá? É fácil culpar o Sudeste que já tem essa carga. Por que, quando o Sport sobe e quer vingar, não chama? E o Santa também? Ninguém deu mais sangue pro Santa do que Givanildo, sabe? Então ele é vítima dessa história toda. E ele nunca fez o discurso de coitadinho. Nunca. A justiça existe, não sei se de Deus, e um dia ele vai ser fodão. Hei de vê-lo no Barcelona!

Por falar em Barcelona, tem o “Guardiola do Nordeste”, que é o Oliveira Canindé, que faz trabalhos ótimos seguidos, um melhor que o outro. E ele também não tem as oportunidades.

Dois caras injustiçados. Oliveira Canindé e Flávio Araújo. É outro grande treinador. Foi responsável pelo grande Icasa — ‘Icasa Grande e Senzala’. Também atribuíram ao Dado Cavalcanti esse ‘guardiolismo’ nordestino. É um cara bacana também, inteligente pra caralho. Mas Givanildo é o grande mestre da história.

Pegando todos esses exemplos, você acha que o sotaque influi negativamente pra que haja essa falta de oportunidades no eixo Rio-São Paulo?

Claro! Em tempos que nego quer planejamento, não sei o quê, futebol limpinho, se eu apareço com aquele sotaque de Alagoas, Pernambuco e Ceará, nego te mata pelo preconceito na largada. E aí, você pode ser um Guardiola que vai sofrer isso. Que é uma imbecilidade sem tamanho. Mas vai.

Talvez, tal como o PT teve que se aliar ao PMDB para chegar ao poder, o nordestino teria que mudar o próprio sotaque pra ser reconhecido?

Não, não tem. Se mudar o sotaque é falta de caráter! Eu até entendo, alguns primos meus. Eu tenho um milhão de primos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Eu entendo que você finja na entrevista de trabalho. Porque o mundo é cruel pra caralho. Mas se puder, bota pra foder com seu jeito de falar, porra.

Não te impressiona a quantidade de oportunidade que Celso Roth tenha e Givanildo não? Não que o Roth seja horrível e o Givanildo um gênio, mas é discrepante. Não teria a ver com o sotaque?

Sim. Assim como pela cor, são pouquíssimo negros. Mas é como se o sotaque implicasse em conhecimento. É uma doideira isso, velho!

“É como se o sotaque implicasse em conhecimento. É uma doideira isso, velho!”

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

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